Karakuri Burst
37 Vai ficar tudo bem.
Notas iniciais

LEN POV’S ON
–Rin... – Murmurei baixo.
–Oh, sim! Pede pra sua preciosa Rin arcar com a multa que isso vai ter! Você tem idéia do quanto isso... – Ela parou de falar, percebendo meu olhar frio sob ela.
–Nunca mais... – Rosnei as palavras para fora. – Pronuncie o nome da Rin desse jeito.
O clima tenso permaneceu entre nós.
–Desculpe. – Aoki disse olhando para baixo. – Eu não devia...
–Não, eu é que peço desculpa. – Passei a mão pelo cabelo, arrumando minha franja bagunçada. – Só estou sobrecarregado com o trabalho, e é frustrante não poder voltar pra minha família. Eu sinto falta dela. – Suspirei cansado. – Eu sinto falta da Rin. E eu acho que isso está me afetando.
–Como assim? Como assim te afetando? – Aoki pôs a mão no meu ombro.
–É... Complicado.
–Mais complicado que estar preso em uma outra cidade com uma menina esquisita?
–Mais ou menos. Mas admito que isso é bem complicado mesmo.
–Wow, wow, wow. Calma aê rapaz. VOCÊ ME CHAMOU DE ESQUISITA?!
–Mas foi você que... – Não adianta insistir com a Aoki. Anotado. – Enfim, você acha estranho eu sonhar com ela todas as noites?
–Bem, não. Isso parece bem normal, afinal você sente falta dela e... – Ela fez uma cara safada. Ah não. De novo não. –A não ser que esses sonhos sejam de sacanagem. AÍ, MEU RAPAZ. GARANTO QUE TEM ALGO ERRADO COM VOCÊ.
A cada dia, só penso em uma coisa: Se a Aoki fosse um menino... HÁ-HÁ-HÁ. JÁ TAVA MORTO.
–Sua pervertida. Tô até com medo do tipo de revistas que tem no seu quarto.
–Ah nada demais... – Ela pareceu levar um choque de Zip Taser. –MAS NÃO MEXA NOS MEUS MANGÁS, TÁ OUVINDO?!
–Tsc, Nesse ritmo, nunca vai conseguir um namorado. (N.A: Tá, admito que tirei essa da Aquarius. )
–Minha vida amorosa tá muito bem, obrigado. – Ela tremeu. – Cara, que frio. Será que, só hipoteticamente... A GENTE, SEI LÁ, PODE ENTRAR E CONVERSAR DENTRO DE CASA, EM VEZ DE FICAR NUMA RUA ESCURA AS 3 DA MANHÃ?!
–Isso... – Fiz uma careta de desgosto. – Soou estranho.
– Hum? Que parte? A parte em que estamos numa rua escura de madru... Oh, saquei. – Ela deu um sorriso torto. – Vamos entrar, então.
Ela entrou na minha frente, logo depois que entrei, ela fechou a porta.
–Você... Seu coiso. Agora tenho que ver se tenho vela em casa.
–Para de reclamar. Você parece uma velha.
–EU SÓ TENHO 16 ANOS, SEU QUARENTÃO. – Ela gritou de algum canto da casa escura.
–Eu não tenho quarenta anos, sua retardada. – Revirei os olhos. – Nem vinte eu tenho.
–Ah, é? – Aoki apareceu com quatro pares de velas e um isqueiro. — Quantos anos você tem então?
– Dezessete. – Tirei duas velas da sua mão. – Quase dezoito.
– MASOQUE?! – Ela disse tão rápido que eu mal entendi. – VOCÊ NEM É MAIOR DE IDADE! Como dirige, trabalha e... Como?!
–Eu sou um prodígio, menina. – Esnobação frenética acontecendo aqui. – O reformatório te ensina algumas coisinhas. Oito anos lá foram o suficiente para a minha especialização.
EM.OUTRAS. PALAVRAS. EU. SOU. DEMAIS.
–Mas eu realmente não estou afim de te contar sobre a minha vida. Eu só quero te contar sobre os meus sonhos, Aoki. Antes que eu endoideça. Isso é, se já não enlouqueci.
–Tudo bem. – Ela acendeu uma vela com o isqueiro, deixou a parafina cair num pratinho e fixou a vela onde a parafina caiu. – Só vou avisando, cobro 200 yenes à hora. Sou uma psicóloga requisitada, então... Anda! Tempo é dinheiro!
Bufei enquanto me sentava no sofá da sala de Aoki.
–NÃO! O que você acha que está fazendo, garoto?! Não é assim! Na minha terapia, você precisa deitar no sofá.
–... Pra quê?
–Você nunca viu nos filmes?! O paciente tá sempre deitado num tipo de caminha, e...
–Um divã?
–Não me interrompa, seu monstro. Então o psicólogo fica sentado numa poltroninha super chique, com um terno maravilhoso, um óculos lindo, e ganhando pilhas de dinheiro.
–Você que é a maluca por aqui. – Cruzei os braços.
– Eu te perguntei alguma coisa?
– Resposta pra burro eu dou de graça.
Ela cruzou os braços e virou a cara.
–ANDA! DEITA LOGO!
Deitei no sofá, e escutei Aoki arrastar uma cadeira da cozinha até a sala e parou quando estava próxima ao braço direito do sofá. Onde neste momento, estavam meus pés.
–Ótimo, vamos começar. – Aoki colocou um óculos sem lentes e fingia folear um livro.
–Mas... Que isso Aoki?
–Eu estou no personagem. – Ela disse enquanto empinava o nariz. – Este belo livro aqui representa os mais puros conhecimentos da bela arte de psicologar.
‘’Psicologar’’?!
–Ah, então é por isso que ele está de cabeça pra baixo, né?
–DETALHES PEQUENOS. Agora vamos. – Ela pôs a mão no queixo, tentando filosofar. – O que te aflige, meu querido?
– Como eu te disse, eu sonho com ela. E... Eu não sei, é estranho...
–Estranho como? – Ela perguntou.
–Ela estava tentando se matar.
–Se matar?! – Aoki baixou a cabeça, fazendo o óculos deslizar pelo seu rosto e quase cair no chão. Antes que isso acontecesse, ela o empurrou com o dedo, e ajeitou no seu rosto. – Tipo, bater as botas?! Um passeio no necrotério?! Oi, oi, dona morte?! Dormir na cama de pedra?!
–É. – A interrompi antes que ela continuasse com essa bela merda mortuária.
–Erm... – Ela coçou a cabeça sem jeito. Ela não serve pra ser psicóloga não. – Ela fica chorando?
–Quase sempre. Talvez ela... A ‘’Rin’’ esteja desistindo. – Fiz aspas com as mãos.
–Porque essas aspas?
–Não é a Rin de verdade, oras. – Expliquei.
–Oh, espera. Então é tipo uma Rin de mentira... É UM PLÁGIO? Uma Rin pirata?!
–Ah... – Olhei para ela. Essa garota tem problemas. -...Provavelmente.
–E o que te faz pensar que é uma Rin pirata? Pode muito bem ser a Rin original!
–Primeiro. – Levantei o indicador. – Não fique a chamando de ‘’Rin pirata’’.
–Verdade! Quem usa tapa olho por aqui é você! E eu ainda não entendo muito bem porque você usa ele, sei lá, tem alguma coisa a ver com essa cicatriz, não tem?
–Aham, aham, tanto faz, e sim. – Não prestei atenção no que ela disse. – E segundo: É obvio que não é ela!
–E porque não seria ela?
–Por que... Isso seria impossível.
–E quem determina o que é, e o que não é impossível?
Fiquei em silencio.
–Não é ela. – Disse desviando o olhar. – É só um sonho patético e bobo. Só está atormentando a minha cabeça. Eu não quero mais sonhar com isso.
–Será mesmo? – Aoki disse olhando distante. – Vai rejeitar a Rin? Desse jeito?
–É só uma ilusão ridícula. – Passei a fitar meus pés.
–Mas algo te faz acreditar que é real. Afinal, ninguém destruiria uma caixa de força por uma ilusão ridícula. – Ela passou a me encarar. – Ou um sonho bobo.
–Mas ela me ignora! – Gritei, enfim admitindo essa besteira. – Ela não liga pra mim!
–Nunca passou pela sua cabeça que ela não consegue te ouvir?
–Ah, tá bom. – Cruzei os braços. – E porque eu consigo escutar ela?
–Simples. Você está na realidade dela.
–Nossa Aoki, muito obrigado mesmo. Se já não tava complicado, você deu um jeito de piorar tudo!
–Só escuta. Você sempre se vê na sua casa, e é exatamente onde ela está.
–Tá, e... – Balancei minhas mãos, gesticulando pra ela continuar.
–Bem, em teoria... É onde ela está. Nada mais justo do que você escutar as coisas que ela diz. Bem, vamos ver de outra forma. Estamos aqui na sala, e é onde estou. É O MEU LUGAR, SACÔ? Então você está me escutando.
–Tá, tá. Mas então... – Parei pra pensar. – Porque eu a vejo, e ela não me vê?! Por que... Eu atravesso ela?
–UMA COISA DE CADA VEZ, HOMEM. – Ela suspirou. – Bem, vamos lá. Porque você vê ela e ela não te vê? PORQUE ISSO É UM SONHO, JUMENTO. Alguma vez, por acaso, ela estava dormindo?
–Não. – Disse relutante. Odeio quando uma pessoa tá certa. E a pessoa não sou eu.
–ENTÃO, CRIATURA DIVINA! – Disse com ironia. – Segue a linha do pensamento. É o seu sonho. Não o dela. Ela está acordada, e você, dormindo.
–Ainda não vi o sentido nessa coisa toda...
–Moço, cala a boca. Brigada, sim? Você só vê ela porque é um sonho seu. Quem sabe, se ela sonhasse durante o dia, sabe, quando você ta acordado ela dormindo, talvez ela te visse e te escutasse, porque sonharia com você justamente onde está, e como você vai vivendo o decorrer do dia, conversando, falando, ela escutaria. Mas porque ela escutaria? PORQUE É O SONHO DELA, CARACOLHES. E O QUE ESTÁ NO SONHO DELA, ELA ESCUTA. E porque você não escutaria? Ué, o sonho não é teu. Você tá acordado, mano. Não acharia estranho ouvir a voz da Rin, do nada? Como é que o sonho vai superar a realidade?! – Ela suspirou, cansada de falar. – Entendeu agora? Vendo de outra perspectiva, entendeu?
Isso é tão... Complicado de absorver.
Mas...
E se ela estivesse certa?
–Por que... Então porque eu atravesso ela?
– O que?! PARECE QUE NÃO OUVIU NADA DO QUE EU DISSE! Você não está nem lá de verdade! Você pode até ver, escutar... Mas teu corpitcho tá deitado numa cama. Não é você de verdade. É só seu sonho! Nunca vai conseguir tocar ela, justamente porque você ta bem aqui, em Nagasaki! Ufa! – Aoki exclamou, recostando na poltrona. – Cara, eu quero meu doutorado. To muito boa nesse paranaue.
Fiquei sem palavras. Apenas no puro silêncio.
–Len? – Ela me cutucou. – Leeeeeen!
–Então, o que acontecesse se ela morrer nos meus sonhos? – Disse enquanto saía da minha hipnose.
–Len. — Aoki disse séria. Deve ser a primeira vez em toda a sua vida. – Você não pode deixar acontecer.
–Eu tive um tipo de premonição, assim digamos. Eu vi a hora que ela se matou, mas eu acabei com a eletricidade antes disso. Então... Ela está viva.
–Sim. – Ela assentiu, mesmo eu não perguntando nada. – Bem, eu vou lá na cozinha preparar um café. – Ela olhou para a janela e viu os primeiros raios de sol clareando o céu. Depois se dirigiu a cozinha. – Ei, Len!
–Que foi? – Olhei para a porta da cozinha, onde Aoki surgiu para me chamar.
–Não deixe o seu sonho se transformar em um pesadelo.
Depois disso ela entrou na cozinha e começou a tratar de assuntos culinários.
Rin...
Eu não vou deixar você morrer.
Vai ficar tudo bem.
Eu prometo.
//////
Quinze mil, seicentos e setenta e cinco e sete yenes, exatamente. (N.A: Calma ae. Isso dá 350 reais. Sério ‘-‘)
É o necessário pra voltar pra casa.
E depois de longos seis meses, eu consegui.
Eu estou voltando, Rin.
Acabei de me despedir do meu emprego.
Eu era guarda costas do prefeito.
Até que pagava bem. Mas ainda prefiro a Karakuri.
Também acho que por conta do meu treinamento, acabei recebendo mais. Mas aquele velho é muito chato, não sei como o povo daqui votou nele.
Não importa. Hoje ninguém vai estragar meu dia. Nem mesmo a Aoki.
É sério.
Eu estou sorrindo que nem uma criança retardada. E agora estou indo até a cada da Aoki, contar que eu vou embora daqui a poucas horas.
Acho que nós dois vamos gritar e pular como se fossemos duas adolescentes que ganharam um cartão de crédito pra gastar no shopping.
Ela vai ficar feliz porque eu vou dar no pé. Eu, porque vou voltar pra Rin.
–Aoki! – Gritei enquanto abria a porta.
Escutei um ‘’Oi’’ dentro de algum cômodo.
–EU VOU EMBORA!
–QUÊ?! – A garota surgiu do buraco das trevas. – É SÉRIO MESMO?!
–SIM! – Respondi sorridente.
–UHU! – Ela levantou os braços e começou a correr em círculos. – Quando?
–Daqui umas quatro horas. Acabei de comprar a passagem para Yokohama¹. E de lá, vou pegar um trem para Tokyo!
–Espera... Isso quer dizer que... – Ela ficou com o semblante triste. – Isso é um tipo de despedida, coiso?
–Sim. – Assenti. Animado demais para ficar ressentido do mesmo jeito que a Aoki. – Mas temos umas 3 horas antes da minha partida, garota irritante.
–É mesmo, garoto esquisito. – Ela começou a andar até a cozinha. Eu a segui. – Já sei o que faremos então.
–O quê? – Perguntei enquanto a observava abrir a geladeira.
–ISSO! – Ela pegou um ovo e tacou na minha testa. Nem tive tempo de reagir. A clara e a gema pegajosas escorriam pelo meu rosto. – TOMA ESSA, SEU TESTUDO!
Levei minha mão a meu rosto, e tirei o máximo de clara e gema dele.
Olhei para o meu lado, onde estava a pia. Aoki tinha esquecido um saco de farinha aberto por lá.
–GUERRA DE COMIDA! – Gritei enquanto pegava o saco e o virava inteiro na cabeça de Aoki. Depois peguei um ovo e quebrei na cabeça dela. – SUA CABEÇUDA. Quero ver tirar esse treco do cabelo.
–AHHH! O MEU CABELO, SEU RETARDADO!
–Calma. Conhece um negócio chamado shampoo?
–E você? Conhece um negócio chamado ‘’AMOR A VIDA’’ ACHO QUE NÃO, HEIN! – Ela pegou uma garrafa de refrigerante. Tentei desviar, mas ainda me acertou.
Então, depois que acabamos nossa Terceira Guerra mundial, eu fui tomar banho, trocar a roupa e me arrumar para ir embora.
Eu não tinha comprado muitas roupas, já que eu poupava o máximo de dinheiro possível. E, além disso, Aoki havia me deixado usar algumas roupas de Hayao.
Então, eu apenas carregava uma mochila preta comigo, e uma carteira com o dinheiro que iria precisar.
–Bora, coiso amarelo. Não quer perder o ônibus, né?
–De jeito nenhum. – Disse enquanto me dirigia à porta da frente, onde Aoki estava me esperando.
Caminhamos em silencio até a rodoviária.
Fui até o local indicado onde deveria esperar o ônibus.
–Putz, precisava ser tarde desse jeito? – Aoki reclamou.
–Não é nem meia noite. – Anunciei enquanto olhava o relógio. – Ei, olha. Ele acabou de chegar.
Eu e a Aoki esperamos todos os passageiros subirem no ônibus.
Entreguei minha passagem ao homem que as recolhia e autorizava a entrada no automóvel.
Subi um degrau do ônibus e me virei para Aoki, que estava atrás de mim.
–Não queria te dizer isso... – Fingi estar fazendo uma grande confissão. – Vou sentir a sua falta.
–Eu... – Ela estava de cabeça baixa. – Eu também.
Olhos marejados.
ÓTIMO LEN, FEZ A GAROTA CHORAR DE NOVO. INCRIVEL.
Mas dessa vez... Eu sei o que fazer.
Desci o degrau que havia subido e abracei Aoki.
–Tchau, chatinha. – Disse num sussurro. – Obrigada por tudo.
–NÃO ME FAÇA CHORAR, FILHO DE QUENGA! – Ela disse com voz mole. – Volte aqui um dia. Com ela. Quero conhecer essa menina.
–Claro. –Me desvencilhei do abraço. Subi os degraus do ônibus. – Até algum dia então.
–Até.
–Caham, caham. – O motorista forçou uma tosse.
Estava na hora de ir.
–Tchau esquisita! – Gritei enquanto o ônibus fechava a porta e se afastava, deixando uma Aoki irritada com meu belo comentário, para trás.
E consequentemente, Nagasaki.
Andei até o meu lugar. 17-B. O lugar que fica na janela.
Por sorte, não havia ninguém ao meu lado. Coloquei a mochila no 17-A. Meu lado.
Olhei os pontinhos de luz se distanciarem à medida que o ônibus se movimentava.
Senti meus olhos pesarem. Antes de dormir, apenas sussurrei:
Apenas sonhos, não pesadelos.
E lá estava eu de novo. Revendo Rin. Olhei para o relógio da sala. 4 horas da manhã.
Ela estava em frente à vidraça. Ela colocou a mão na vidraça, como se fosse tocar os prédios vizinhos.
–Bom dia. – Ela disse.
Toda vez que sonhava com ela, ela dizia ‘’Bom dia’’ e eu respondia:
–Bom dia.
Queria que ela escutasse minha resposta. Talvez essa repetição toda seja um tipo de teste dela, para ver se escuta a minha voz. Eu tento. Mas eu não sei como ela me ouviu naquele dia, no banheiro.
–Eu queria ir num festival de inverno com você. – Ela disse enquanto olhava os seus pés.
–Qual você quer ir? – Perguntei enquanto acompanhava seu olhar.
– Talvez o Sapporo Yuki Matsuri, já que é o mais famoso, mas eu sempre quis ir ao Yokota Kamura.
–Não acha que está longe? – Falei enquanto passava a observar os prédios lá fora.
–Eu sei, ainda tá longe para um festival que só ocorre em Fevereiro. Mas eu queria estar com você... – Ela completou.
–Vamos estar juntos. Não se preocupe.
Voltei a olhar ela, mas ela saiu de perto de mim e começou a andar em direção ao banheiro. Eu a segui.
Ela deu um passo errado e acabou pisando num caco de vidro que ainda havia por ali. Ela cerrou os punhos. Irritada.
–Vamos... Onde está essa porcaria... – Murmurou.
–Eu não quero que você se corte. – Suspirei. – Não de novo. O que você acha que vai ganhar fazendo iss...
–É inevitável pensar em você. – Ela disse, me surpreendendo com isso. Ela começou a andar para o quarto. Ela pulou na cama, fazendo algumas cobertas caírem no chão.
– Oh, olha, estou na sua cama, no seu quarto, no seu apartamento, sentindo o seu cheiro e jogando os seus cobertores no chão com o pé.
–Eu sei disso. Só não precisava jogar os cobertores no ch...
– Se você me esqueceu, porque tudo me lembra de você? – Ela suspirou com o pesar.
–Eu nunca te esqueci. Nem por um único dia. Não teve um dia que eu não pensei em você.
Observei as lágrimas se formarem no canto dos seus olhos.
–Loirinha... – Murmurei triste.
–Oxigenado... – Ela disse enquanto segurava uma ponta de seu cabelo.
Ela levantou rapidamente da cama e correu até o banheiro.
Corri atrás dela e a vi agarrar uma tesoura. Ela se sentou no chão e pegou um caco do espelho para se ver.
–I-isso é o melhor a fazer... – Ela encaixou os dedos na tesoura e a aproximou de uma mecha de seu cabelo.
–Não é. – Parei a seu lado direito.
–É o melhor a fazer... – Ela abriu as lâminas.
–Nunca foi. – Insisti a seu lado.
–Eu não quero lembrar de você... – Ela disse fraca.
–E nem será.
–Eu não quero lembrar de você! – Agora, ela gritou.
Suspirei triste.
–É isso mesmo que você quer?
Ela soltou a tesoura no chão, criando um grande barulho.
–Não... Não é isso que eu quero, Len.
Ela se virou e começou a me encarar com aqueles olhos vermelhos.
–Fico feliz de ter conseguido me ouvir.
–Porque só agora? – Ela continuava me olhando fixamente meus olhos.
–Rin... – Observei as lágrimas rolando pelo seu rosto com pura liberdade, sem eu poder as impedi-las.
–Porque você só fala comigo agora?! Eu cansei! Eu cansei de tudo isso! Acha que é bom?! Acha que é bom depositar falsas esperanças nos outros?! Eu estou sofrendo!
‘’Eu estou sofrendo’’
Foi como quebrar meu coração em pedaços.
Mas nada me abalou mais do que a frase que ela disse a seguir:
–Você gosta de me ver sofrer?!
Não.
Eu só quero...
Eu só quero te ver feliz.
–Chega. – Ela disse. – Eu cansei.
–Cansou? – Perguntei confuso. – De quê?
Ela levantou do chão frio se corroendo de raiva. Foi até a banheira e abriu a torneira com raiva, fazendo uma pressão anormal de água sair dela. Ela foi até a porta do banheiro e a bateu com força, mas eu não tirei meus olhos da banheira, que se enchia mais e mais até a água transbordar.
Ela entrou na banheira e fechou as torneiras.
–Você gosta de me ignorar, não gosta?! Então ignora isso.
Olhei para ela confuso. Então, ela afundou seu corpo na água.
Não... Não agora que eu estou tão perto de voltar.
–Rin! – Gritei com ela. -RIN!
Ela só parecia me ignorar.
–RIN! Levanta agora! – Continuei insistindo.
’Não!’’ Parecia que eu escutava a voz da Rin ‘’Você nem está aqui!’’
–Levanta agora! –Eu continuava
Eu só queria poder toca-la. Assim eu poderia tirá-la de lá.
‘’Você não manda em mim!’’
–LEVANTA! –Eu ficava mais alterado a partir dos segundos que se passavam. – Não estou te pedindo! ESTOU TE OBRIGANDO!
‘’Não. Eu vou fazer o que faz comigo. Eu vou te ignorar. Essa história precisa de um fim’’
–RIN! – Gritei o mais alto que pude.
‘’Não, Len. Vai ficar tudo bem. ’’
–Eu estou aqui, Rin. Você precisa acreditar. – Insisti. – Então, por favor. Não termine a nossa história desse jeito.
///////
–Ei, ei... Cara, não sou pago pra isso... – Escutava uma voz me chamar. – Ei... Finalmente. Senhor, o ônibus já chegou no destino.
Abri os olhos e olhei em volta.
Não tinha mais ninguém no ônibus, além do funcionário ali comigo. O ônibus, já se encontrava parado.
–Obrigado.
Peguei minha mochila e desci do ônibus, admirando os raios solares fortes do meio dia. Fui até a área de taxistas e peguei um táxi, o indicando que deveria ir até a estação de trem.
Paguei o taxista assim que cheguei ao destino.
Entrei na moderna estação de trem e segui até a bilheteria. Lá, comprei a passagem de trem, que seria daqui trinta minutos. Sentei em umas das cadeiras de espera do portão quatro, não me importando com fome ou qualquer outra trivialidade dessas. Eu estava tão ansioso que qualquer outra sensação a não ser ansiedade era descartada pelo meu cérebro.
Assim que a voz de um dos condutores anunciou que já poderíamos embarcar, meu coração palpitou de felicidade.
Fui até o vagão número nove, procurando pelo meu assento.
Assim que o achei, suspirei de felicidade. Agora, só era necessário esperar.
Mais do que eu venho esperado por todos esses seis meses.
Olhei para a paisagem se movimentando ao decorrer que o trem partia.
Sorri com isso.
Senti minha cabeça pesar, massageei as têmporas tentando conter essa sensação esquisita. Dei um longo bocejo.
Então você precisa de mim, Rin?
Rin estava sentada na sala. Com uma xicara de... Cappuccino? Bem, com uma xicara de cappuccino na mão.
–Rin... – A chamei, porém a mesma continuava com um olhar distante. –Rin?
Tinha algo de errado com ela.
Do nada, ela soltou a xicara da mão e espalhou café por todo o tapete. Ela correu da sala.
Corri atrás dela, cômodo por cômodo. Como um tipo de perseguição. Exatamente como antigamente.
Ela parou quando chegou na sacada, ela se apoiou na borda dela, contendo o impulso da corrida que teve.
Eu tentei ir até a porta da sacada, para ficar a seu lado, mas estranhamente não conseguia.
Agora, ela olhava para baixo, parecia calcular a distancia, ou observar o movimento das pessoas lá embaixo.
Desviei por um segundo o meu olhar para o relógio.
Duas e quarenta e sete da tarde.
Voltei a olhar para Rin, que agora se apoiava no parapeito da sacada.
Não.
Ela pegou impulso e subiu em cima do parapeito.
Ela... Vai se jogar?
Tentei ir até ela desesperadamente, mas eu não conseguia.
‘’Eu cansei de esperar. ’’
–Não faça isso!
Ela abriu os braços para pegar equilíbrio. Então olhou para baixo, analisando a sua queda.
–RIN! POR FAVOR, ME ESCUTA! NÃO FAÇA ISSO! – Gritava desesperado.
Então eu só escutei uma frase na minha cabeça.
‘’ Eu tenho um final feliz?’’
E foi a última coisa que ouvi antes dela se jogar.
Acordei suando frio. Morrendo de medo.
Olhei para a placa de leds que mudava a cada vez que o trem parava, indicando o destino que ele estava no momento.
Encarei a placa.
‘’Tokyo’’
As portas do trem estavam prestes a se fechar.
Levantei do meu assento e peguei minha mochila rapidamente, e corri para fora do trem, ouvindo o barulho das portas se selando logo atrás de mim.
Olhei com desespero para o relógio da estação de Tokyo.
Duas e trinta e oito da tarde.
Eu tenho um pouco menos de dez minutos para voltar pra casa.
Saí correndo da estação, atraindo alguns olhares curiosos.
Fui até a área de táxis e entrei no primeiro que vi, e praticamente gritei para ele ir até o centro de Tokyo.
Respirava pesado e ofegante pela minha corrida inesperada.
Relaxei por poucos segundos, e depois comecei a me desesperar pelo nervosismo.
Der repente, o táxi parou.
Me virei para frente e encarei todo aquele trânsito que o centro de Tokyo possuía.
Merda!
Ouvi a moça da estação de rádio anunciar: ‘’ Agora é exatamente Duas e quarenta e dois da tarde. Tenha um ótimo dia! A seguir... ’’
Não prestei atenção no que seria o próximo bloco cativante da programação do rádio.
Abri a porta do táxi e joguei provavelmente o triplo de dinheiro que deveria dar a ele por pura falta de tempo.
Olhei em volta. Eu estava a duas quadras de distancia de casa.
Comecei a correr que nem um desesperado. E realmente, estava.
Se eu estava cansado? Com certeza.
Se eu iria desistir? Nunca.
Não vou quebrar a minha promessa.
Abri as portas da recepção com tanta força que o porteiro se assustou.
–L-len?
Claro, o cara não me via há tempos.
Olhei para ele por um mero momento, depois dei atenção ao canal de Tv que estava passando na pequena tv que ele tinha para se entreter. Era um daqueles noticiários que mostravam o horário logo abaixo.
Duas e quarenta e cinco da tarde.
Ignorei o meio cumprimento dele e corri até o elevador. Apertei o botão de subir incontáveis vezes. Olhei para a tela que mostrava em que andar o elevador estava. 23.
Corri até a porta de metal que havia no canto da recepção.
A empurrei com força e me preparei mentalmente em menos de um segundo os trinta e cinco andares de escada que deveria subir.
Quando cheguei no meu andar. Meu coração parou por um instante.
Como eu iria entrar?
Foda-se, eu arrombo aquela porta e depois compro outra.
Corri um pedaço de corredor e chutei minha porta, mesmo não precisando, pois a mesma se encontrava destrancada.
Comecei a correr até a sacada sem antes percorrer meus olhos pelo relógio que havia no hall.
Duas e quarenta e sete.
Estava acontecendo.
Corri como nunca corri até a sacada.
Quando a vi ali, perto de mim, comigo podendo toca-la, eu quase não acreditei.
Mas não era hora pra isso.
Corri até ela quando ela ousou mover um dos pés.
A agarrei pela cintura e a puxei para trás. Fazendo eu e ela atingirmos o chão duro da sacada. Mas eu a protegi mais uma vez. Estou fadado a fazer isso.
E sempre farei.
Ela caiu em cima do meu corpo, mas logo saiu de cima de mim.
Ela se virou pra mim pronta pra matar, mas então seu olhar encontrou com o meu.
Ela tentou formar qualquer tipo de frase, mas sua voz não saía. Ela esticou sua frágil mão trêmula até minha bochecha e a tocou.
Eu sou real.
Ela só conseguiu produzir um som depois de tudo isso.
–Len.
–Rin.
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