Karakuri Burst
38 As lágrimas que não pude impedir.
Notas iniciais

RIN POV’S ON
–Len...?
–Sim, sou eu... – Ele aproximou a mão de mim.
–Não me toque! – Comecei a recuar para trás até bater as costas na grade da sacada. – Não chega perto de mim!
–O quê?! Espera, eu... – Ele começou a se arrastar até mim, visto que havíamos caído no chão, e não tínhamos levantado da queda.
–Não. – Estendi a palma da mão, num sinal de ‘’pare’’. – Não se aproxime.
–Rin, o que deu em você?! – Disse ele dando a idéia de queria se aproximar.
–Nem mais um centímetro. – Disse nervosa.
–Mas sou eu! Len! – Ele começou a chegar mais perto.
–SAÍ! – Gritei.
Eu sabia que não estava bem, mas não esperava que a minha sanidade arrumasse as malas e fosse embora da minha cabeça. Agora, aquilo só podia ser um erro mental. Todos me convenceram que o Len morreu. Como é que... Ah, e se for um gêmeo do mal querendo me enganar?!
Tá. Descarta essa última hipótese por atingir o ridículo extremo.
–O que é você? — Perguntei.
–Como assim ‘’O que é você?’’- Ele disse, se aproximando mais um pouco de mim. – Rin, sou eu. Bem aqui. Aquele que vai te levar no festival de Yokota Kamura em fevereiro.
–Não, não, não, não! – A minha cabeça está mexendo comigo. Só pode. – Mas você não é o Len!
–Sou eu sim! O que houve com você? Não acredita mais em seus próprios olhos?!
–Eu não consigo mais acreditar em nada... – Abaixei a cabeça me lamentando, e logo depois a levantei.
Len me deu um abraço não correspondido. Com o tempo, foi me abraçando com mais força, me fazendo sentir o seu cheiro e toque.
–Não! Não, não, não, não! Me solta! Não me toca! – Comecei a tentar empurrar Len para longe de mim.
Como ele era mais forte do que eu. Apenas me abraçou com mais firmeza e recostou sua cabeça no meu ombro.
–Eu mandei me soltar! – Comecei a empurrar com mais força enquanto tentava dar pequenos socos nele. – Não me toca!
Ainda encostado no meu ombro, ele suspirou.
–Por quê? Porque, Rin? Eu fiquei seis meses longe de você e parece que você não se importa.
–Mentira! – Comecei a tentar bater nele, mesmo ainda envolvida por seus fortes braços. — Você é mentiroso como todos! É por isso que eu não posso confiar em ninguém! Só no Len!
–Mas eu sou o Len! – Ele gritou.
–Você não é o Len! É só a minha cabeça no ápice da loucura!
–Eu sou o Len! Porque você não acredita?!
–Prove.
–O quê?
–Me prove que você é o Len.
Eu parei de tentar empurra-lo para longe e tentar bater nele, enquanto ele levantava a cabeça do meu ombro.
–Quer a prova? – Ele me encarava. Ele me soltou do abraço e eu não demonstrei nenhum tipo de reação. Ele colocou as mãos quentes nos meus ombros frios enquanto não perdia seu olhar do meu. – Se mesmo depois disso, achar que eu não sou ‘’o Len’’, é melhor eu voltar da onde eu vim.
Ele me puxou pelos ombros ao mesmo tempo que se aproximava do meu rosto.
Ele selou nossos lábios, com sua boca morna e convidativa. Levei minhas mãos até sua nuca e o trouxe para mais perto de mim, queria que ele ficasse ali, comigo. Ele por sua vez, tirou as mãos do meu ombro e as desceu até a minha cintura, conseguindo me aproximar ainda mais. Subi uma das minhas mãos pelo seu cabelo macio e dourado.
–Por que... – Eu cortei o beijo. – Porque demorou tanto pra voltar, Len?
Ele sorriu pra mim.
–Você só conhece o inicio e o fim, mas não o intermediário. Fico feliz que tenha me reconhecido, Rin.
Ele disse isso de um jeito tão tranquilo, que me fez lembrar de uma coisa.
–Todo esse tempo... — O encarei. – Você me deixou sozinha por todo esse tempo! — Empurrei ele com força, e mesmo ambos estando sentados no chão, ele se desequilibrou e bateu com as costas no chão. Me levantei do chão e o olhei de cima. – O que você estava fazendo, Len?!
–Rin, eu... – Ele começou a formular uma frase enquanto tentava levantar do chão. – Eu só estava tentando voltar pra casa!
–Não invente desculpas! – Disse enquanto dava as costas a ele e saía da sacada, seguindo em direção ao corredor.
–Eu não estou inventando nada! – Ele me segurou pelo pulso, fazendo-me para de andar.
Me virei para ele e segui o caminho de nossas mãos até encontrar seus olhos.
–Então qual é a razão... – Disse com a voz fraca. – A verdadeira razão de me deixar sozinha por todo esse tempo? Eu senti sua falta. Muito mesmo. E-eu... – Tropeçava nas palavras. – Eu achei que você tinha...
–Morrido? – Ele completou.
–Eu... – Não sabia o que dizer.
–Acha que eu também não senti a sua falta? — Len disse enquanto me prensava na parede do corredor. – Acha que por todo esse tempo... – Ele se aproximou de mim, fazendo nossos corpos se encostarem. – Todo esse tempo... – Ele segurava meus pulsos ao lado da minha cabeça, enquanto sussurrava no meu ouvido. – Eu não senti vontade de te tocar?
–Me solta. – Pedi com a voz triste. – Me solta, Len.
–Porque eu deveria fazer isso?
–Porque eu quero fazer uma coisa.
Ele se distanciou uns poucos centímetros de mim, e voltou a me encarar.
–O que você quer fazer?
–Isso.
Abracei Len com toda a minha força, de modo que ficasse claro como eu não queria que ele me deixasse. Ele me envolveu com seus braços e me apertou mais contra si, fazendo entender que nunca iria me deixar.
–Por favor... – Ele disse.
–Não me deixe sozinha... – Uni a frase.
–Não me abandone... – Ele continuou.
–Eu só quero...
–Só tem uma coisa que eu quero...
–Eu só quero ficar com você. – Completamos a frase um do outro.
Escondi meu rosto na curva do pescoço de Len.
–Mas... O fogo...
–Você não se lembra? – Ele disse enquanto acariciava a minha cabeça. – Vai ficar tudo bem.
–Como você...
–Vem. – Ele disse enquanto nos soltávamos do abraço. Ele me pegou no colo e me carregou até a sala, lugar onde eu havia deixado a xícara quebrar.
–Tudo bem. – Disse enquanto me sentava no sofá. Logo ele sentou ao meu lado. – Me explique.
Len estava com o olhar preso em minha mão. Ele colocou sua mão em volta do meu pulso, num gesto, ele moveu meu braço e começou a encarar meu antebraço.
Os cortes.
Eu fiquei incomodada com esse constante olhar sobre minhas feridas, mas nada disse. Era melhor ficar calada.
Ele moveu meu braço de volta ao normal e segurou a minha mão.
–Antes de tudo, eu preciso de uma coisa.
–O quê? – Perguntei.
–Preciso que confie em mim.
Fiquei alguns segundos sem reação, e depois balancei a cabeça positivamente.
///////
–Acredite. Foi isso que aconteceu.
Len me contou a história desde o principio, desde seu desparecimento até os sonhos dele. Contou-me de Nagasaki, Aoki...Problemas que ele teve.
–Eu nunca disse que não acreditava em você. – Disse enquanto encarava o chão.
–Então porque não quer olhar pra mim?
–Achei que tivesse morrido... Fui injusta com você, me desculpe. – Dei uma pausa. – Eu... Eu fiz coisas horríveis... Mas no fim... – Olhei para ele pelo canto do olho. – Você me protegeu.
–Eu sei, Laranjinha.
Ele levantou do sofá e deu um beijo no topo da minha cabeça, visto que estava cabisbaixa.
–Ela está dormindo, não está? Não escutei nenhum barulho dela, eu vou lá ver.
Escutei os passos se distanciarem de mim.
Levantei a cabeça rapidamente.
–Não, Len. – Ele pareceu não me ouvir e saiu do cômodo – Espera, Len!
Levantei do sofá e comecei a correr atrás dele.
–Espera! – Gritei enquanto corria atrás dele, — Len!
Quando vi que ele se aproximava do quarto dela, aumentei a velocidade dos meus passos e o abracei por trás.
Ele parou de andar, mas continuou de costas para mim.
–O que foi, Rin?
–E-ela... – Senti meus olhos marejarem, e logo tratei de fechá-los.
Eu precisava dizer isso a ele.
–O que foi que aconteceu com a Aya, Rin? – Len disse num tom um pouco mais sério e preocupado.
Como um bom pai faria, não é mesmo?
–Eu... – Minha voz trêmula e manhosa me denunciava. – E-eu...
Ele se libertou do abraço que eu criei e entrou no quarto dela.
Me encostei na parede e conti meus soluços.
Agora, ele encontrava um quarto vazio, com um berço vazio, com um armário cheio de roupinhas cor de rosa e lilás, todas guardadas, sem ninguém para as usar. Os brinquedos que eu escolhi, e as pelúcias que ele escolheu.
–Rin... – Len me chamou lá de dentro do quarto. – Cadê ela?
Levei uma das minhas mãos até meu rosto e tentei secar minhas lágrimas.
Eu tinha que parecer forte.
Por ela. Por nós.
–Len... – Entrei no quarto, logo sentindo o cheiro doce que roupinhas e produtos para bebê tinham. –Eu...
Len estava na beirada do berço, até ele se virar pra mim.
–Sim?
–Você... Eu achei que você tinha... – Tentei engolir o choro. – Você morrer foi...
–Rin... – Ele veio até mim.
–Eu não consegui... Aguentar.
Ele me abraçou, me ouvindo chorar próximo a ele.
–Tudo bem... – Ele disse com a voz triste. Parecia decepcionado.
Mas eu não podia culpa-lo.
–Quando você diz ‘’Tudo bem’’ – Disse enquanto tentava me recuperar do choro. – Você acredita nas suas próprias palavras?
Ele ficou em silêncio por um tempo.
–Esse é o preço das lágrimas que não pude impedir.
Eu não sei quanto tempo permanecemos ali. Nos consolando em pleno silêncio.
–Você quer guardar essas coisas? – Ele perguntou.
–Não. – Disse enquanto secava as últimas lágrimas que pretendia deixar escapar dos meus olhos naquela noite. – Eu quero esquecer tudo isso. Fingir que nunca aconteceu. As lembranças só irão nos machucar. Eu quero... Eu quero queimar.
//////
Estávamos os dois num terreno baldio.
Era quase cinco da tarde.
Eu me vesti de preto. Ele também.
E na nossa frente, estavam todas as coisas dela, num pequeno montinho.
–Pronto. – Ele disse, enquanto jogava a pequena garrafinha de álcool vazia no montinho. – Agora é só...
Dei um passo a frente, tomando a caixa de fósforos de sua mão. A abri, e peguei um fósforo.
Risquei ele na lateral da caixa, fazendo o atrito criar o fogo.
Len me ofereceu uma de suas mãos, eu a peguei e entrelacei nossos dedos com segurança.
Joguei o fósforo no montinho, que não tardou a queimar em chamas.
Eu precisava esquecer isso.
Ele precisava esquecer isso.
Nós precisávamos esquecer isso.
–Adeus... – Len disse cabisbaixo.
–Aya. – Completei enquanto fitava o que criamos ser reduzido a pó.
///////
Era sete da noite, e Len já estava deitado na cama.
Já de pijama, fui até a porta do quarto e desliguei o interruptor, escurecendo o quarto. Senti uma brisa invadir o quarto.
Persianas abertas, né Len?
Me deitei ao seu lado da cama.
Ele estava deitado, virado para o lado oposto do meu.
Me encaixei na cobertas e me aproximei dele.
Ele se virou para mim, fazendo nossos rostos ficarem muito próximos.
–Está com medo do escuro? – Ele disse.
–Não. – Disse incerta. – Mas você ia embora nos meus sonhos, e me deixava sozinha no escuro.
–Não precisa se preocupar. – Ele pôs a mão na minha cintura, e me acomodou próxima a ele. –Eu estou com você. Pretendo nunca te deixar sozinha de novo...
Comigo aqui,
Vai ficar tudo bem.
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