Karakuri Burst
72 Um brinde aos derrotados.
Notas iniciais

RIN POV’S ON
Flashback on
Afundava minha cabeça no travesseiro enquanto resmungava uns xingamentos sem sentido. Sabia que não estava pronta pra fazer o que tinha de fazer. Então eu prendia minha respiração pra me afogar no maldito travesseiro de penas. Não que isso resolvesse alguma coisa, mas não tinha encontrado solução melhor até então.
Não estava muito contente de estar do lado da Miku. Tinha noção que tinha feito minhas escolhas por espontânea vontade. E uma grave falta de senso. A explicação que me vem à cabeça é que eu sou uma egoísta de fachada. Embora aparentasse ser a criança chata que era, não estava fazendo aquilo tudo por mim. Eu já estava sendo tratada como bicho, coisa, detento – chame como quiser – aqui há quase quatro anos. Esperar na filinha da morte pra mim já estava a níveis de um trânsito congestionado: Já estava de saco cheio e queria que essa porra andasse logo, mas como não tinha outro jeito, esperava o carro da frente andar até chegar minha vez. Em outras palavras, ficar aqui não fazia diferença pra mim. Um dia já fez, mas hoje não. E agora, estou tentando mudar as coisas para quem ainda acha que fará diferença.
E ainda tenho o prazer de me autonomear de egoísta.
Meu problema mesmo era que estava jogando o jogo da Hatsune. Nada disso me agradava, pra falar a verdade. A questão não era matar, ou não, o pedaço de fóssil que Miku chamava de pai. De fato, Primeiro seria a primeira pessoa que mataria. E isso era cômico, na verdade. Mas isso não me incomodava. Na frase ‘’sujar as mãos’’ eu sou o sujeito que as lavou com sabonete líquido na pia do banheiro. Visando que ele era o tal pai da filha da puta, só podia imaginar que ele era outro filha da puta. E como disso o mundo está cheio, um a menos não faria diferença.
Virei meu corpo na cama.
Eu só não estava pronta pra fazer tudo isso.
Olhei para o teto escuro daquele quarto, pensando seriamente se Miku está treinando pra ser a futura rainha das trevas ou uma gótica extremamente incompreendida. Como se já não estivesse mentalmente perturbada o suficiente, ainda bastava estar aqui, no quarto da minha amiguinha cretina, tentando me afogar nos travesseiros de pena dela, que provavelmente valem mais do que eu sendo vendida no mercado negro.
Incrível.
Miku podia ser falsa o quanto quiser, mas eu não estava muito longe de ser a mesma coisa. Uma vez que me disseram que até a cor dos meus olhos é falsa, não podia ter muita expectativa em mim mesma. Lily estava terrivelmente enganada sobre mim, mas eu não estava com paciência de a fazer enxergar a verdade, e aí, quem sabe, a corrigir. Coloquei as mãos nos bolsos da minha jaqueta, claro, dada pela minha amiguinha amável, para procurar o potinho. Minha mão direita já estava ferrada, e fazer o que estava naquele potinho tinha terminado de ferrar a esquerda. Ou seja, eu estava na merda. Uma mão estava engessada, enquanto a outra estava com tantos esparadrapos enrolados nos dedos, que quem me visse poderia achar que eu sou uma delinquente, ou algum tipo de marginal.
Mais uma vez, esse palpite não seria tão errado.
Segurei o potinho contra luz, apertando os olhos pelo reflexo que teve. Acho que eu deveria ficar orgulhosa do trabalho que tive, mas eu estava mais exausta do que qualquer coisa. E claro, ainda tinha que me preparar psicologicamente para um jantar com um Hatsune. Pelo ritmo que as coisas vão, irei desabar, ou de sono, ou de tédio, no meio do ato.
Guardei o pote de volta ao meu bolso assim que a porta do quarto foi aberta.
–Olaaaaá Rin. – Miku entrou no quarto segurando uma garrafa de Fanta. Normalmente, refrigerante passaria despercebido por mim, no entanto, confinada aqui dentro por anos, aquela água laranja tinha se tornado interessante.
Quase fiz o erro fatal de esquecer que a Hatsune estava cento e dez por cento mais animada do que estaria. Não dá pra incluir ‘’do que normalmente estaria’’, uma vez que ela nunca foi normal. De qualquer forma, desde que anunciei que seria sua cúmplice no crime, o humor dela foi dramaticamente afetado. E isso não era bom, e muito menos, ruim.
Era estranho.
–Oi.
–Você está pronta pra mudança, minha cara Rin?
A observei andar até mim, depois de a porta se fechar atrás dela. Sabia que minha única função ali era bagunçar a cama dela, já que ela me largou aqui, na deriva do tédio. Acreditava piamente que ela não se incomodaria com isso, e de fato, não se incomodou. Seu bom humor ‘’pré-assassinato do papai’’ tinha criado uma barreira contra os empecilhos do dia a dia. Eu simplesmente aproveitava, até porque, como ela mesma disse, ela precisava de mim.
Na verdade, precisávamos uma da outra. Só não deixava ela perceber isso.
–Pare de falar como se o mundo fosse seu. – Comento, como uma boa reclamona. – E como eu estou, ou deixo de estar, nunca foi da sua conta. – Ou te interessou. – Mas e você, não quer nem se despedir do seu ‘’amado’’ pai?
–É claro que não. – Responde rápido. – Tenho mais coisas a fazer do que falar com aquele velho. – Ela se senta na beirada da cama. – Eu sou a única herdeira legítima. Meu trabalho vai aumentar, e não tenho tempo a se perder.
Bufei, me sentando de vez em sua cama, como ela. Já imaginava uma resposta desse tipo. Mordi a boca, pensando se eu era idiota. Nunca tinha me preocupado com os detalhes, mas agora isso parecia importante.
–Quem mais sabe que isso vai acontecer?
E quando me referia a ‘’isso’’, me referia ao fato de eu andar até a sala do Primeiro para simplesmente matá-lo. Quando as coisas estão fáceis demais, a única certeza que se tem é que você as está fazendo errado.
–Você, eu. – Ela riu. – E mais duas pessoas.
–Seu ‘’mirabolante’’ plano se baseia em quatro pessoas?
Ela ajeitou a gravata azul-turquesa, e tirou o óculos para o limpar na blusa social branca. De longe se notava o desinteresse dela. Julguei que, sendo ela a criadora do plano que afeta o modo de vida de praticamente todos naquele lugar, ela não decidiu mudar as coisas da noite pro dia. Planejar aquilo deve ter tomado um considerável tempo, requerendo meticulosidade nos detalhes, de um jeito que ela não foda com tudo. Imagino que falar sobre algo que já repetiu mil vezes por aí deve ser um tanto chato.
Odiava admitir, mas a Hatsune era irritantemente inteligente.
–E?
Respirei fundo. Realmente não conseguia sustentar conversa com ela.
–Você está dependendo da sorte?
–Longe disso. – Ela termina a limpeza das lentes e põe os óculos de volta. – Eu trabalho com fatos. – Conferiu o Rolex. – Ele está te esperando. Bom jantar, e principalmente, se divirta.
Levantei de sua cama e me espreguicei. Quase escutava os ‘’tic toc’’ dos ponteiros do relógio na minha cabeça. A disposição era nenhuma, pra toda a pressão que estava em mim. Me preocupava com Lily, com Miki e com IA. Queria saber como me encarariam depois de me ver marchar do lado do inimigo. Definitivamente não era uma causa nobre, mas eu não estava sendo comparsa da Miku á toa.
Assim que matasse o Primeiro, daria o fora daqui com as três sem nem pensar duas vezes.
Tive a intenção de ir para fora do quarto, mas seu desejo me fez parar.
–Boa sorte, ‘’Rin-chan’’.
Parei na porta. Miku tinha um dom nada natural de ser cínica. E antes de a cruzar e ir, não perdi a oportunidade de retrucar.
–Eu também não dependo da sorte, ‘’Mikuzinha’’.
Enquanto andava pelos corredores, parecia que minha invisibilidade casual tinha acabado. Estava mais para a rainha do baile de formatura, pela maneira que os idiotas de jalecos me olhavam. Sabia que pelas roupas que a Hatsune tinha me emprestado – outro sintoma do bom humor ‘’pré-assassinato do papai’’ – eu estava parecendo uma vadia má de onze anos. Visto que Miku aparentemente só tem no armário um vestuário de puta, não poderia esperar menos. Julgando pelo visual rotineiro dela, o ‘’aparentemente’’ logo se tornaria um definitivamente.
Não que eu tenha pedido. Não que eu queira. Não que eu tenha aceitado.
Mas quando Miku me empurrou para o banheiro dela com o argumento de ‘’pírralha mal lavada’’, eu praticamente me vi na obrigação de ir para de baixo d’água. E sinceramente, água quente já tinha se tornado um raro privilégio desde a minha entrada aqui. Só não contava com roupas novas. Feitas especialmente para alongar minha lista de ‘’coisas que mentalmente me perturbam’’.
Um longo suspiro fora arrancado de meus pulmões. O relógio na minha cabeça batia cada vez mais depressa. E com certeza, por cada câmera que passava, sentia a expectativa crescendo sobre mim. Andava aparentando toda a calma do mundo, tendo noção que isso era o que menos tinha. Tateei os bolsos várias vezes durante minha caminhada até o elevador, preocupada se perderia o potinho que custou alguns esparadrapos nos meus pobres dedos. Como se uma mão quebrada já não fosse o suficiente.
Com o universo casualmente indo contra a meu favor, o elevador já estava á minha espera. Honestamente, estava sem pressa nenhuma pra assassinar o pai da Miku. Deitei minha cabeça no espelho do elevador pouco depois de apertar o botão mais alto daquele troço. A subida fora completamente sem interrupções.
Obrigada, universo.
Comecei a pensar o porquê da Miku não fazer essa linda merda sem mim.
Saí do elevador assim que as portas foram abertas. Á primeira vista, tive a certeza que aquilo era só mais um andar, por ser tão semelhante aos demais. Talvez a única coisa que o diferisse dos outros era as pequenas placas encima das portas, que por si, tinham nomes de cômodos de casa.
Não precisava ser muito gênia para saber que aquele que tinha me convidado para um jantar estaria na porta com a placa ‘’Sala de Jantar’’ encima.
Assim como todas as portas daquele lugar, ela se abriu por conta própria. Entrei sem cerimônias, constando que, de fato, estava sozinha, como havia previsto. A mesa farta de comidas que nem um quarto eu sabia o que era não me chamou muita atenção. Só me fazia pensar que eu comia mingau de arroz todo dia, enquanto outros esbanjavam de coisas que nem o nome eu sabia. Os pratos já montados, fato que estranhei um pouco, mas não pensei em questionar, principalmente porque não havia ninguém ali para isso. Com o tempo correndo, tratei de logo ir a um desses pratos e despejar todo o conteúdo do meu potinho encima de uma coisa meio pastosa, com cara de purê de abóbora.
Feito o meu trabalho, só me bastava assistir e esperar.
Sentei-me na cadeira oposta de onde estraguei o sabor do purê, e esperei pacientemente até o Primeiro chegar.
Escutei a porta abrir logo atrás de mim, assim como o som de ‘’tic tac’’ do relógio mental cessou. É um clichê amaldiçoado dizer isso, mas era a ‘’Hora do Show’’.
E foi com três simples palavras que um calafrio correu por mim.
–Boa tarde, Rin.
Não sabia por que estava tão apavorada. Mas sabia que aquilo não era vergonha. Senti meus lábios travarem, e não formarem uma resposta decente. Não deveria me sentir intimidada por um Hatsune, mas era o que estava acontecendo.
Sua mão passou pelas costas da cadeira e tocou meu ombro, antes de ir calmamente até seu assento. Processei as informações devagar, por culpa do meu transtorno. Olhei suas costas enquanto andava, observando seu terno branco, assim como seu cabelo jogado para trás. Estava o acompanhando com os olhos, e sei que ele tinha noção desse fato.
Primeiro se sentou no seu lugar, dando as caras pela primeira vez pra mim.
E foi assim que disse minha primeira palavra naquela conversa.
–Olá.
Avaliei mentalmente sua aparência. ‘’Velho’’ era como Miku o chamava, e sim, velho era o que ele era. No entanto, tinha um ar de nobreza, algo associado ao dinheiro, bem envolto em seu visual. Sinceramente, diria que Miku deve ter puxado totalmente a mãe.
O observei pegar os talheres de prata, e começar o corte de um grande pedaço de carne.
–Você não sabe o quanto estava ansioso pra essa conversa, — Espetou o pedaço cortado no garfo, e antes de o levar a boca, completou – menininha.
Senti o apetite indo embora assustadoramente rápido. Havia decidido em poucos segundos que não ousaria tocar em nada daquela mesa.
Respirei fundo, fechando os olhos por um momento.
–Sua espera acabou.
Abri os olhos, tendo tempo de observá-lo dar um sorriso pra mim.
–Obviamente é do seu conhecimento que você... – Deu uma pausa proposital, baixando os talheres na mesa. – ...É a minha criança favorita.
Perguntei-me mentalmente que afeto é esse que os Hatsune nutriam por mim.
–Obrigada. - Disse sem realmente me sentir lisonjeada.
–É uma pena que tenha me desapontado, Rin. Realmente, de verdade, achei que seria mais... Hm, digamos, inteligente. – Arqueei minhas sobrancelhas, não conseguindo conter minha expressão de surpresa, mas conseguindo conter a de medo. – Ora, não faça essa cara, menininha. Esse não é um jogo que uma criança consiga jogar.
Percebi-me genuinamente confusa.
–Do que você está falan...
–Acha que eu não sei o que realmente está fazendo aqui?
Senti meu coração morrer. Talvez soubesse desde o início porque estava apavorada. Minha boca secou, e sem conseguir dizer uma única palavra, ele se sentiu livre pra prosseguir.
–Foi um belo jogo, não acha? – Sorriu. – Mas não se preocupe, eu marquei esse dia especialmente para morrer. – Seus olhos correram para um canto das paredes, todas decoradas com quadros caros de pessoas em sofrimento. Instintivamente olhei para o tal canto também. Câmera. – Parabéns, Miku. Finalmente venceu o nosso jogo.
O olhei assustada. Quis levantar e sair correndo, mas eu me via paralisada no mesmo lugar.
–Você...
–Não, eu não temo a morte, pequena. – Me senti abobada com o acerto de algo que nem cheguei a perguntar, e cada vez mais perturbada com os nomes dos quais ele me chamava. – Você fez muito bem em quebrar aquele vidro que Lily, digo, sua mãe, te deu para cortar esse lindo cabelo. Cada pedacinho, não é mesmo? Cortou tanto seus preciosos dedinhos até fazer esse farelo de vidro que jogou no meu creme de abóbora. E quando os engolir, vão cortar minha garganta e todos os órgãos por quais passarem, até a morte. Você realmente escolheu uma morte lenta e dolorosa pra mim, menininha.
Respirei fundo, permanecendo calada, deixando-o conversar sozinho.
–Por isto, é minha favorita.
Sua mão pousou cuidadosamente encima de umas das cinco colheres postas em seu lado da mesa. Guiou a colher até seu creme alaranjado, e a encheu. Olhou para mim, sustentando uma pose de alguém verdadeiramente mais sábio, e engoliu sem cerimônia o que estava na colher.
‘’ – Mas não se preocupe, eu marquei esse dia especialmente para morrer.’’
Nada disse. Não porque achava melhor, e sim porque não encontrava o que dizer.
Me olhava enquanto tossia. Pegou um guardanapo e o pressionou contra boca, e só os tirou alguns segundos depois. Sem muita dificuldade, pude ver o sangue deixado naquele pano.
Sua mão foi até uma taça de vinho posta na direita superior de seu prato.
–E quanto a nós, minha cara Rin, um brinde. – Ergueu a taça no ar, em nossa homenagem. – Um brinde aos derrotados.
Não tive coragem de tocar na minha taça. Sua tosse piorou, e logo, sem controle algum, ele vomitou sobre a mesa.
Aquilo não era comida. Era sangue.
Era como se seu corpo rejeitasse o próprio sangue, e o não quisesse mais. Seu terno, antes branco, se sujava de rubro á medida que a sua baba, vômito, sangue – seja lá o que for – escorria de sua boca.
E eu, parada, não conseguia deixar de assistir aquilo.
Ele deu mais um sorriso pra mim, agora com dentes vermelhos.
A taça caiu de sua mão, espatifando-se na mesa e espalhando o vinho branco pela toalha.
Mesmo com a tosse o atrapalhando, ele começou a rir de mim.
–Você perdeu o jogo. Assim como eu. O que nos difere, é que eu já achei a solução. – Brevemente olhou para o purê. Tossiu forte, me assustando, e indiretamente me dando a confirmação que tudo acabaria nos próximos segundos. – Já para você, minha querida,
É tarde.
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