Karakuri Burst
36 Tão perto, mas tão distantes.
Notas iniciais

LEN POV’S ON
Aproximadamente seis meses atrás...
Rin estava no topo da escada, me olhando apreensiva.
Abri meus braços, mostrando que a agarraria, caso algo acontecesse. Ela pulou diretamente em mim, o que me fez recuar alguns passos pra trás.
Ela se desgrudou rapidamente de mime entrelaçou nossos dedos.
Forcei minha visão através da fumaça.
Era a nossa saída.
Ela começou a me puxar, me guiando para fora daquele merda de casa.
Ela estava tão focada a sair dali, eu estava quase acreditando que tudo havia acabado.
Mas não acabou.
Escutei um barulho estranho logo acima de nós.
Ergui minha cabeça e olhei para cima.
A viga.
Iria cair.
Em cima dela.
Soltei nossas mãos e a empurrei pelas costas para sair do caminho.
Pude ver que ela quase caiu quando foi empurrada, então me joguei pra trás antes que a viga me acertasse.
A viga caiu no chão com tanta força que levantou uma quantidade de poeira absurda. Caralho, parece que atiraram num pacote de talco.
Tossi mais uma vez.
Não é hora de brincadeiras, Len.
Você está numa casa. Pegando fogo.
–LEN! – Ela gritou. – LEN!
Me levantei do chão e fui até onde a viga nos separavam.
–Eu estou bem...
–Len! Você se...
Não dei atenção a ela. O mesmo barulho de que uma viga estava caindo se repetiu. Olhei pra cima.
Soei frio.
Não daria tempo de salvá-la.
Coloquei minha mão nela e a empurrei com o máximo de força que conseguia, mesmo estando incapacitado de estar em completo contato com ela por causa da viga.
–PRA TRÁS! – Gritei.
Eu só a vi cair sentada, antes de mais uma viga atingir o chão e levantar mais poeira.
Quando a poeira baixou, eu vi que as duas vigas haviam caído bem próximas uma da outra, me impedindo de passar por ali.
Suspirei em frustração.
Rin é tão teimosa que não vai aceitar sair daqui sem mim.
–LEN! – Ela gritava. – LEN!
–Rin. – Disse olhando pro chão. – Eu preciso que vá embora.
–O quê?! – Vi ela se levantar e se aproximar das vigas. Tentando ficar comigo.
–Eu... – Olhei em seus olhos. – Não vou conseguir passar por essas vigas.
–Não! Não, você consegue sim!
–Não, Rin. – Falei num tom frio e um pouco grosso. – Não tem como eu passar por aqui.
–Mas...
–Você tem que sair daqui. – Disse e tossi. — Você já ficou tempo demais exposta a essa fumaça. Você precisa sair daqui.
–Eu não quero! – Dei um sorriso fraco. Vou ter que usar o meu pior argumento pra tirar ela daqui. Vi sua mão em um pequeno buraco entre as vigas. – Eu não vou sair daqui sem você!
Me desculpe por isso, minha princesa.
–Por favor... – Estiquei meu braço até sua mão e entrelacei nossos dedos. — Por favor, Rin, ela precisa de você. –Virei minha cabeça para o lado. – A Aya precisa de você.
Ela apertou nossas mãos por um instante.
–Mas...
–Vai ficar tudo bem.
–Não, NÃO VAI! – Me surpreendi com esse grito. – Você me disse isso a noite inteira, e nada, nem por um instante, ficou bem! Isso é mentira! Isso é...
–Não é mentira. – Eu disse determinado. A encarando. – Eu juro que vai ficar tudo bem.
–Você... Promete?
Sorri de canto.
–Prometo.
–Eu te amo.
Ela soltou minha mão e saiu dali.
Sorri com isso.
–Eu também. – Disse de modo que ela pudesse ouvir. Então sussurrei a última parte. – Muito.
Virei de costas.
Dali, eu com certeza não passaria. Aquela saída era impossível.
Comecei a procurar por uma porta dos fundos, janelas, qualquer coisa.
Eu precisava sair dali.
Eu fiz uma promessa. Um juramento.
E eu não sou homem de voltar atrás.
Vai ficar tudo bem.
Eu sei disso.
O andar de cima agora era paralelo. Nunca iria conseguir subir lá de novo. E pra completar. O fogo se alastrava.
Uma estrutura dessas não iria aguentar muito tempo.
É exatamente desse jeito que vou sair daqui.
Andei até uma parede completamente chamuscada e comecei a chuta-la. Eu vou criar um buraco.
No meio de um dos chutes, senti uma pontada na cabeça. Minha visão ficou turva e tive que me apoiar para não cair.
Eu não posso parar!
NÃO AGORA!
Continuei chutando, mesmo sentindo que a qualquer momento iria cair no chão.
Essa fumaça vai me matar se eu continuar exposto a ela.
Mas eu fiz uma promessa.
E eu não vou desistir até sair dessa casa.
Quando criei um buraco grande o bastante para eu passar por ele, eu me joguei nele e passei para a casa seguinte.
As antigas casas dessa vizinhança eram coladas umas na outras, como se fossem apartamentos. Quando quebrei a parede, consequentemente passei para a casa vizinha. Abandonada também.
Assim que passei pelo buraco, caí no chão.
Usei meus braços para levantar, mas no meio do processo caí de novo.
Tossi com força dessa vez.
As minhas pálpebras baixavam.
Eu estava perdendo pouco a pouco meus sentidos.
As cores, sons e movimentos ficaram destorcidos para mim.
Uma hora eu escutei um barulho imenso ao meu lado. Parecia que algo havia desmoronado. Era a casa.
Fechei meus olhos involuntariamente.
Quando os abri novamente, só escutava gritos e gritos.
Eu sabia quem era.
–Rin... – Murmurei.
Depois disso, apaguei.
//////
Acordei meio grogue.
Escutava um barulho de máquinas perto de mim.
Estava claro, dificultando a minha visão. Abri os olhos pouco a pouco e vi que estava num hospital.
Olhei para o meu lado e vi uma garota de cabelos azuis curtos me encarando com um sorriso mais falso que nota de três.
Do meu outro lado havia uma médica me olhando sorridente.
Guenta aê que é um sonho, deixa eu virar pro lado e dormir denovo.
–É muito bom que esteja acordado. – A médica sorriu de novo. Desculpa, isso é plástica? – Está se sentindo melhor, Hayao-san?
Hayao? Saúde, moça.
–Hayao o quê? – Perguntei confuso.
–Cala a boca Hayao! – A menina de cabelos curtos e azuis riu e encarou minha alma. – Hahaha, esse meu irmão, uma graça, né? – Ela começou a puxar minha bochecha. Espera aí! – Aí! – Ela gritou. Dei um tapa na mão dela.
–Meu nome não é Hayao! É Le – A azulada tampou minha boca. Mas que filha de quenga!
–Será isso perda de memória? — A médica começou a criar hipóteses.
MAS QUE MERDA ESTÁ ACONTECENDO AQUI?!
–Não! Hahaha! –Nossa menina, na próxima se esforça pra fazer uma risada falsa melhor. – Hayao que é muito bobinho mesmo. Adora fazer brincadeiras.
–Bem, então darei um tempo a sós a vocês Lapis-san.
Assim que a médica saiu do quarto eu me virei pra aquela menina.
–Qual é o seu problema?! – Comecei a gritar.
–Qual é o seu?! Estou tentando te ajudar tapado! – Ela rebateu cruzando os braços.
–Primeiro: Eu não preciso da sua ajuda! Segundo: Meu nome é Len! Kagamine Len! E não Hayao, que parece mais um espirro do que nome!
–O QUÊ?! – A garota ficou irritada.
–MEU NOME É LEN, SUA RETARDADA! – Agora eu me irritei.
–ISSO EU JÁ SEI, IDIOTA! – Ela levantou da cadeira e arregaçou as mangas. O quê? Além de barraqueira a menina quer me bater? – SÓ NÃO ADMITO CHAMAR O NOME DO MEU IRMÃO, HAYAO LAPIS, DE ESPIRRO!
–Espera... Se você sabe que eu não sou seu irmão, o que foi isso agora pouco? – Me acomodei na cama.
–Eu... – Ela arrumou o cabelo. – Tudo bem, vamos começar essa conversa como pessoas civilizadas. – Ela sorriu e estendeu a mão para mim. Garota bipolar. – Meu nome é Aoki Lapis.
–Len. – Estendi minha mão e cumprimentei-a. – Kagamine Len.
–Certo, Len. – Não. Não. Não.
–Não me chame de Len. – Cruzei os braços.
–O quê?! MAS ESSE NÃO É SEU NOME?!
–NÃO GRITA! – Isso é um hospital, merda!
–E VOCÊ DIZ ISSO GRITANDO?!
–Você não tem intimidade para me chamar de Len. – Virei a cara.
–Você é ridículo.
–Você é esquisita e eu nem falei nada. – Bufei. – O que estou fazendo aqui? O que estou fazendo aqui com você? Cadê a Rin?
–Virou interrogatório, é? – Ah, se ela soubesse com quem está falando... – Estava tentando te explicar isso. E eu não sei quem é Rin. – Ai, ela fez uma cara maliciosa. – Tá pegando, né?
COMO. É. QUE. É?!
Eu me virei para ela.
– E daí? Ela é a minha... – Parei pra pensar.
– A sua... – Aoki quis saber o resto da frase.
Completaria namorada sem nenhum problema, mas a esse ponto que eu e Rin estamos...
– A minha esposa. – Completei.
–Ui, ui, ui, olha aê o senhor comprometido. – Ela riu. – Ainda bem que te achei esquisito. Se não, pegava.
–Deus, — olhei pra cima. – Dai-me paciência, porque se me der força, eu mato! Escuta aqui sua piriguete de quinta. Eu amo a Rin, então nem tenta...
– O quê, com você? Seduzir você? Faça-me o favor, bem que eu falei que você era esquisito...
–Argh! – Comecei a apertar o lençol que estava me cobrindo. Se não fosse uma garota... Argh! EU JÁ TARIA SURRANDO, CERTEZA.
–Garoto esquisito... – Ela murmurou.
–Só me conta o que aconteceu, e o que está acontecendo, pra eu ir embora. A minha paciência já está no limite.
–Quer um suco de maracujá? –Ela perguntou já se levantando.
–NÃO! Eu quero saber o que aconteceu!
– Tudo bem. – Ela disse séria. – Primeiro, eu tenho um irmão, chamado Hayao Lapis. Bem... – Ela começou a ficar com o semblante tristonho. – Uma vez ele ganhou a oportunidade de estudar lá em Tokyo com a bolsa de estudos que recebeu para a faculdade de economia e...
–Espera, como assim ‘’lá em’’ Tokyo? Nós estamos aqui, em Tokyo.
–Não... – Ela disse balançando a cabeça negativamente. – Estamos em Nagasaki.
–N-Nagasaki?! – Falei incrédulo.
–Sim. – Ela assentiu.
–Nagasaki?! Isso é uma pegadinha? Cadê as câmeras? – Comecei a olhar para os lados desesperado.
–Garoto esquisito... – Ela murmurou de novo. – Ei, essa tal de Rin, não está em Tokyo, está? Puxa...
Fiquei pálido.
–Você quer dizer que... – Comecei a falar, mas não terminei a frase.
Quer saber por quê?
Estou simplesmente a...
Mil.
Duzentos.
E Vinte e nove.
Quilômetros.
De.
Distancia.
Da Rin.
COMO ISSO FOI ACONTECER?! NAGASAKI E TOKYO SÃO LONGE PRA CARALHO! COMO EU ESTOU AQUI E ELA LÁ?!
–Acabaram seus devaneios? Ah bem. Como ia dizendo, meu irmão ganhou a bolsa, e foi até Tokyo numa melhor oportunidade de vida. Mas então... Bem, já faz dois anos que ele desapareceu. Sem nenhum rastro ou algo do tipo e... Bem, quando me ligaram dizendo que o encontraram inconsciente dentro de uma casa abandonada com roupas esfarrapadas, eu tinha ganhado esperança... – Ela disse de cabeça baixa. – Sabe, eu era loira também, mas pintei de azul. Ele continuou loiro então, sabe... – Coçou a cabeça. – Um loiro de olhos azuis inconsciente numa casa abandonada com roupas levemente chamuscadas, dava a impressão que era Hayao. Te encontraram porque houve um incêndio na casa vizinha, de inicio os bombeiros só apagaram o fogo e declararam não ter nenhum sobrevivente, mas, mais tarde, uma equipe de paramédicos terminou de investigar tudo e por acaso te encontraram... Bem, como o sistema de Tokyo já tinha arquivado sobre o meu caso, eles deveriam ficar atentos caso encontrassem alguém com as descrições parecidas com Hayao, deveriam tomar uma medida e entrar em contato comigo... Estava tão animada que nem pedi que me enviassem as fotos, só pedi para...
–Deixa eu adivinhar... – Passei a mão pelo meu cabelo tentando assimilar aquilo tudo. – Pediu gentilmente para o governo de Tokyo trazer seu irmãozinho querido até a família dele?! – Gritei irritado.
–Me desculpa! Eu não pensei que...
–QUE IRIA ESTRAGAR A VIDA DE OUTRA PESSOA?!
–Me desculpa! Mas você não sabe o que é acreditar por dois anos que uma pessoa importante pra você vai voltar! EU SÓ ESTAVA FELIZ! SÓ ISSO! Estava feliz porque finalmente o meu irmão iria voltar! Como acha que me senti quando vi você?! Não queria que as coisas fossem desse jeito! Você não deveria andar com documentos, qualquer coisa que te identificassem como Kagamine Len e não um sem teto?!
–Eu não estava carregando isso por que... – Parei de falar. Naquele dia, nada podia me identificar, Eu saí de madrugada, com o intuito de matar uma pessoa e voltar pra casa, Não iria sair carregando documentos por ai. Depois de toda essa confusão, imagino que durante o incêndio algumas partes das minhas roupas podem ter sido danificadas ou chamuscadas, toda aquela poeira e fumaça só podem ter contribuído para a minha aparência suja. Para terminar, estava deitado dentro de uma casa abandonada. Tudo isso, faz, por mais que eu não queira admitir,
Faz sentido.
–Não jogue a culpa em mim! – Ela cobriu os rostos com as mãos para que eu não a visse chorar. – A CULPA NÃO É MINHA! É SUA! SÓ SUA!
Isso, Len. Fez a garota chorar. Que dez.
O que se faz pra consolar uma menina chorando? Abraçar ela?
Uh, eu é que não vou abraçar essa menina.
Tá, me deixa pensar...
–Pronto, pronto, shhh... – Comecei a dar tapinhas nas costas dela. – Foi só um susto...
–O QUÊ?! – A menina deu um salto ninja da cadeira em que estava sentada e se levantou de vez. – VOCÊ ACHA QUE EU TENHO QUANTOS ANOS? CINCO?!
–Bem grandinha, achava que tinha três. – Cruzei os braços.
–Escuta aqui, seu loiro de meia tigela! – Claro, quando não é loiro de farmácia, oxigenado, é loiro de meia tigela. Realmente, estou decaindo... – Só estou aqui porque te devo uma explicação! Não estou aqui pra ser chamada de criança! Se me der licença, estou indo! – Ela se arrumou e partiu para a porta do quarto. – Argh, loiro mal educado... – Murmurou a ultima parte, mas eu consegui ouvir.
–Espera! Espera por mim! – Falei enquanto me levantava da cama.
–O quê? Por quê?
–Primeiramente, você está me devendo uma!
–Ãn? – Ela cruzou os braços, levemente irritada. – Fala o que você quer, seu coiso amarelo.
–‘’Coiso’’?! – Vai a merda, menina. – Enfim, eu só preciso de ajuda. Só quero saber onde fica um banco ou algo do tipo... Ei, por acaso você está com seu celular aí?
–Ce... O quê?
–Um celular, sua lesa.
–Celular?
–Uga-buga pra você também. – Bufei irritado. – Um celular, animal.
–Len, Nagasaki não é igual à Tokyo.
–Sim, aqui é a maravilhosa terra das pessoas sorridentes e esquisitas que não sabem o que é um celular.
–Sim, exatamente! – Ela sorriu. – Eu sou a fada da coxinha de frango, quer que eu realize seus desejos, meu filho? Não pense que eu sou idiota! — Ela gritou. – Não percebeu o ambiente ao seu redor? Esse hospital não é a melhor das coisas, já reparou? Está acabado. Essa cidade não prospera há tempos, e é por isso que todos tentam dar o fora daqui! Você acha que Hayao foi para Tokyo por quê? Essa cidade é horrível! Temos uma péssima economia, e muita coisa que você deve achar simples, aqui já é uma grande coisa! Você mora NA CAPITAL DO JAPÃO, sua anta! Aqui é completamente diferente! Acha mesmo que eu vou ter um Celulite?!
–É celular.
–Não importa! Você não está me ouvindo! Vai ser praticamente impossível você voltar pra Tokyo tão cedo! Se comunicar então? Esquece! Que eu saiba... – Me olhou de cima a baixo. – Você não é rico!
–E é aí que você se engana. –Estou esnobando mesmo, a Rin não tá aqui, então eu tô podendo. –Só preciso saber onde tem um banco então. Eu pego o quanto de dinheiro que irei precisar para... Comprar uma passagem de trem, sei lá...
–Aqui não passa trem.
–Estou numa perfeita roça, é isso?
–Calado! É a minha cidade! Enfim, podemos passar no banco, mas não creio que o senhor esteja com algum cartão de crédito aí.
–Nop! Mas aqui deve ter algum tipo de caixa eletrônico, onde eu posso realizar a operação usando só os números da minha agencia bancária, o número da minha conta, e minha senha. E pronto. Dou adeus a essa cidadezinha e volto pra casa.
–Tudo bem, então. Mas já tá tarde, são quase oito horas da noite. – Ela disse olhando o relógio que havia na parede branco desbotada. – Eu...
–Você...
–ARGH, MAS QUE BOSTA MÃE! PORQUE ME ENSINOU A SER EDUCADA?! – Ela começou a gritar olhando pra cima, como se estivesse em um filme de drama.
Ela te ensinou? Nossa, cê foi uma merda de aluna então.
–Quer... – Ela bufou. – Kagamine, sinto muito pelo incomodo que criei para você. Apenas aceite meu gentil convite de passar a estadia na minha humilde casa até a amanhã de manhã o sistema dos caixas reativarem.
–Quem é você, e o que fez com a Aoki? Tudo bem, aceito.
–O quê?! Eu só fiz por educação! Não era pra você aceitar! – Não devia ter oferecido, trouxa.
–Eu estou sem dinheiro no momento, sua cabeçuda. – Dei um peteleco na testa dela, ato que não me esforcei muito, pois ela consegue ser menor que Rin. – Então, vou dormir na sua casa.
–Eu não tinha pensado nisso. – Suspirou derrotada. – Vem, vamos embora então.
Aoki acertou os detalhes médico-hospitalares na recepção do hospital. E começamos a andar pelas ruas até onde deveria ser a sua casa.
Permanecemos todo o trajeto calados.
Mas isso me fez pensar.
Uma pessoa coberta de poeira, cheirando a fumaça, com roupas danificadas, sem nenhum documento, chave, cartão de crédito, dormindo/desmaiado numa casa abandonada?
É, pode ser no mínimo que é um tanto suspeito. Por isso eu fui trazido pra cá.
Pelo o que Aoki me contou, passou apenas um dia desde o incêndio, então me encontraram, deduziram que eu era Hayao, e aqui estou eu.
Eu só me preocupo com as minhas meninas. A Rin e a Aya.
Será que estão bem?
Seja lá como for, amanhã mesmo eu estarei partindo dessa cidadezinha chata.
Eu não gosto de deixar a Rin sozinha.
Nunca deu certo deixar ela sozinha.
Então, quando der 6 da manhã, estarei arrastando Aoki comigo até o caixa eletrônico e dando o fora daqui.
–Chegamos. – Aoki parou enfrente a uma casa branca bem simples. Ela abriu a porta, tirou os sapatos e foi acendendo as luzes da casa. – E VÊ SE TIRA ESSES SAPATOS, MENINO!
Bufei enquanto tirava meus sapatos, tacando em qualquer lugar da entrada.
Fechei a porta logo atrás de mim.
–Porque você liga todas essas luzes, garota? – A repreendi. A casa dela tá tão clara que está quase me cegando.
–A luz elétrica aqui é barata. Acredite ou não, tem uma hidrelétrica nessa cidade. – Uhum, sei. Tem uma HIDRELÉTRICA AQUI, MAS ELA NÃO TEM CELULAR. Depois disso ela pegou um rolo de macarrão e apontou pra mim. – E DAÍ QUE EU ESTOU ACENDENDO AS LUZES? SE EU QUISER EU ME VISTO DE PISCA-PISCA DE ÁRVORE DE NATAL E SAIO ROLANDO!
Puta. Que. Pariu.
Depois dessa eu vou dormir. Já deu universo.
–Aoki, eu vou dormir, tá bom?
–Tá, tá, tanto faz, coiso amarelo. Vai no corredor, terceira porta a esquerda, era o quarto de Hayao. Não fica fuçando nas coisas dele, hein!
–Vai se ferrar.
–E mais uma coisa! Não sei se você é do tipo curioso metido a eletricista, mas não mexa na caixa de força que está anexada no poste ali da frente. Caso dê pane em uma delas, você pode acabar tirando a eletricidade de toda Tokyo!
–Fornecem energia pra Tokyo?
–Sim! E mesmo assim a economia continua um lixo... Francamente... ENFIM, NÃO DÊ UMA DE MARIO BROSS!
–Ele é um encanador, animal. Pra mexer com energia é eletricista!
–Foda-se, é a mesma coisa!
Fui até onde ela me indicou e me atirei na cama. Eu estava cansado, e ao mesmo tempo tão ansioso para amanhã. Só quero ir embora daqui e ficar com a Rin.
Então eu dormi.
Estava tudo preto, completamente preto. Então eu vi um borrão na minha frente. Eu não estava entendendo muito bem o que era aquilo na minha frente. Resolvi não me aproximar, o borrão parecia querer ficar sozinho. Eu sabia que estava sonhando, mas, eu não sei explicar, parecia real.
Então eu comecei a ouvir um choro.
Era alto, era um bebê chorando.
Me virei para ver se encontrava o bebê chorando, mas a única coisa que tinha na minha frente era o borrão.
Isso é meio... Perturbador.
Comecei a encarar o borrão. Sem dúvida, esse é o meu sonho mais esquisito em anos.
–Com licença? — Falei com o borrão. Eu to ficando maluco. – Desculpe, o que quê...
Fui em direção ao borrão na intenção de toca-lo, mas eu o atravessei.
AH, OKAY. ERA UM FANTASMA. KAGAMINE LEN, SUA SAUDE MENTAL TÁ ÓTIMA, PORQUE VOU TE CONTAR, ESSES SONHOS ESTÃO DEZ.
Olhei para trás, assim que atravessei o borrão.
Agora eu não estava mais na profunda escuridão com o borrão. As coisas pareciam tomar forma. Parecia criar um cenário essa total escuridão.
Dei a volta no borrão, porque eu não tava mais afim de atravessar aquela coisa.
Mas então, comecei a escutar um barulho de choro baixinho. E pequenos soluços.
Engraçado, esse barulho é igualzinho a...
–Rin?! – Me virei para o borrão, mas em vez de enxerga-lo, eu acordei.
Que merda de sonho foi esse?! Vou me tratar.
Saltei da cama e caminhei até a janela do quarto, logo a abrindo, aproveitando a brisa noturna.
Isso foi esquisito. Esquisito demais.
Mas, foi apenas um sonho,
Não foi?
//////
–COMO ASSIM?!
Sim, esse sou eu fazendo um escândalo no meio da rua.
–Coiso amarelo, as pessoas estão olhando.
–EU NÃO LIGO! – Gritei furioso, quase quebrando o caixa eletrônico de tanto chuta-lo. – PORQUE TODO O MEU DINHEIRO ESTÁ CONGELADO?! – Comecei a gritar no meio da rua. É. É, isso mesmo. – E SE VOCÊ DISSER PORQUE ESTÁ NO INVERNO, EU NÃO RESPONDO PELOS MEUS ATOS!
–Precisamos da cura da TPM... – Aoki murmurou, mas essa eu deixo passar.
–Eu não entendo isso! – Bufei frustrado. – Porque meus bens estão congelados?!
–Você não pagou a conta? – Aoki arriscou.
–UM MILIONÁRIO QUE NÃO PAGA A CONTA?! A LÓGICA MANDOU UNS ABRAÇOS, HEIN AOKI.
–PARA DE GRITAR COMIGO! – Ela gritou.
–NÃO ESTOU GRITANDO COM VOCÊ, ESTOU GRITANDO COM O CAIXA!
–PARA COM ISSO AGOOOOORA! – Ela me segurou pelos ombros e começou a me chacoalhar pra frente e pra trás.
–Chega disso, mulher! – Tirei as mãos dela dos meus ombros.
–Eu também não entendo, pra falar a verdade! Quer dizer, você não morreu ou algo do tipo, então porque sua conta não vale mais?
–É! Até parece que eu... – A ficha caiu. — Morri naquele incêndio.
NÃO. NÃO!
–E-eles... – Aoki ficou pálida. – Não sabem que você...
–Ninguém sabe... – Então a ficha caiu. – A RIN NÃO SABE!
–ELA NÃO SABE?! – Aoki perguntou desesperada.
–ELA NÃO SABE! – Gritei tão alto que um velhinho que passava ali se assustou.
MAS QUE MERDA! ELA ACHA QUE EU MORRI!
–Não! Isso não pode estar acontecendo! – Aoki começava a andar em círculos. – Sem o seu dinheiro, como você vai...
–Voltar... Para Tokyo... – Não, a ficha não caiu, ela se jogou do penhasco.
Eu estou tão irritado a ponto de matar alguém.
Respirei fundo.
–O que eu faço? – O peso da realidade pouco a pouco me atingia. Me sentei no chão da calçada.
–Eu não sei. – Aoki se sentou ao meu lado e observamos algumas pessoas passarem por ali. – Eu nunca sei de nada, Len.
–Eu não posso deixar ela sozinha... – Lamentei enquanto fechava os olhos.
–Não pode? – Escutei Aoki perguntar.
–Eu fiz uma promessa. – Suspirei, abrindo os olhos e encarando Aoki. – E eu vou cumpri-la. Custe o que custar.
–Acho que... – Ela se levantou e estendeu a mão para mim. – Você vai precisar recomeçar do zero. Só o suficiente para a passagem do ônibus até outra cidade, e de lá a passagem para o trem. Mas... Como disse a economia daqui é uma merda... Vai ser difícil, e... As passagens de trem não costumam ser baratas... Ainda mais para um destino tão importante e distante, como a capital do Japão. – Eu abaixei a cabeça. — Mas, eu estou disposta a te ajudar. – Ela sorriu. – Pelo menos, posso te dar um lugar para dormir e comida, até você... Ir.
Suspirei tristemente.
–Obrigado, Aoki. – Agradeci, segurando em sua mão e levantando do chão. Logo depois, a soltei, limpando a poeira das minhas roupas.
–Bem, a culpa é meio minha, né... – Ela sorriu amarelo.
–Meio? Você só pode tá de brincadeira! – Ri.
–Ei! – Ela fingiu estar ofendida. -Okay. Quase toda minha. Acho melhor irmos pra casa.
–É, vou ter que me acostumar com ela, por uns tempos...
//////
Hoje faz dois meses que estou separado de Rin.
Eu costumo sonhar muito com ela.
Eu fico feliz quando sonho.
‘’É uma forma de vê-la’’ Eu penso.
Mas ela nunca está feliz nos meus sonhos.
Isso me entristece.
Ela sempre está triste. Chorando.
Sempre sonho com ela em nosso apartamento, mas as vezes, ocorrem umas mudanças.
Por exemplo, nossas fotos estão viradas. Nenhuma foto minha e dela está a vista. Eu ainda não entendi muito bem o porquê disso. Mas a ‘’Rin’’ parece preferir assim.
–Boa noite, Aoki. – Disse para minha amiga azulada enquanto me dirigia ao meu quarto.
–Boa noite, coiso. – Ela respondeu com aquela educação de ouro.
Entrei no meu quarto e fechei a porta atrás de mim.
Deitei na cama e me cobri com as cobertas.
–Hora de te ver de novo, minha princesa.
Fechei os olhos e dormi.
Estava pronto para rever ‘’Rin’’.
‘’Rin’’ estava sentada no chão da sala, coisa que ela faz muito. Fiquei um tempo ali a observando, então ela se levantou com um brilho nos olhos que eu nunca vi a ‘’Rin’’ ter.
Ela se levantou e foi até o nosso quarto, parando antes na frente da porta, posicionando a mão na maçaneta.
–Entra. – Disse para ela.
E como de costume, a ‘’Rin’’ me ignorou.
Ela girou a maçaneta e entrou no quarto. Eu entrei também. Nossa, aquilo tava uma bagunça.
Me virei para ‘’Rin’’, que por um momento esboçou um sorriso. Fiquei surpreso e ao mesmo tempo contente, ‘’Rin’’ geralmente sempre chora. Ver ela feliz me faz feliz.
Olhei de volta para ‘’Rin’’, que agora estava chorando.
–Por que você está chorando? – ótimo, mais uma pergunta sem resposta. – Por favor, me responde...
Isso era um saco. Eu falava com a ‘’Rin’’, mas ela não falava comigo. Ela sempre me ignorava, deixando perguntas sem respostas. Eu não consigo entender o porquê disso! Porque ela não me responde?!
Ela começou andar até o banheiro, então eu a segui.
Ela ligou o interruptor da parede e... OLHA A BAGUNÇA QUE ESTÁ DO LADO DO BANHEIRO DA RIN. É BOM QUE ELA LIMPE, PORQUE EU NÃO SOU TROUXA PRA LIMPAR PRA ELA.
–Isso aqui é um chiqueiro, ou um banheiro, Kagamine ‘’Rin’’? – Falei em tom reprovador.
Ela suspirou com isso.
Parecia que sabia que iria levar um esporro por deixar as coisas assim.
Ela caminhou até minha parte do banheiro, e começou a se olhar no espelho.
Só acho, mas só acho mesmo, que ela vai arrumar um belo problema se bagunçar o meu lado.
–Descabelada, com olheiras e lábios ressecados, mas ainda assim, é a garota mais bonita que eu já vi. – Comentei.
Ela ficou mais um tempo se encarando até morder o lábio inferior.
Ah não.
Só resulta em merda quando ela faz isso.
Ela levantou o punho bem devagar, e eu só acompanhei com o olhar a sua mão, tentando prever o que ela iria fazer. Ela tomou impulso,
E começou a socar o espelho.
–Para Rin! – Ela deu mais um soco no espelho. – PARA AGORA!
E é claro.
Você não me escutou.
Corri para segurá-la por trás e a afastar do espelho, mas quando eu fiz isso, apenas a atravessei.
–Ãn?! Não é hora pra isso, merda de sonho! — Praguejei.
Tentei mais uma vez a agarrar e tirar ela dali, mas... Nada aconteceu.
Ela terminou de quebrar o espelho, que não resistiu a pressão e se quebrou em incontáveis partes.
Olhei para ela, que ofegava por conta do esforço.
Ela apenas olhou para o outro espelho.
Depois encarou a sua mão.
–Não, Rin... – Fiquei na frente dela. – Por favor, não faça isso...
Ela ficou um tempo parada, então começou a quebrar o espelho.
E eu não posso fazer nada, a não ser observar.
Quando ela terminou e quebrar, se jogou de joelhos no chão.
Continuei em pé, atrás dela.
– Por que você fez isso, Rin? Por quê?
Ela continuou chorando.
Ela esticou sua mão até um caco de vidro afiado e o agarrou. Continuei observando o trajeto de sua mão, até que ela virou o antebraço,
E aproximou o caco de vidro ao pulso.
Ela vai... Se matar?!
A Rin vai se matar na minha frente, sem eu poder impedi-la?!
–NÃO!
Ela soltou o caco de vidro no chão e se virou pra mim.
Ela... Me ouviu?!
–Len?! – Ela gritou.
–Rin! – Corri para abraça-la, mas,
Eu não conseguia tocá-la.
Ela cobriu os olhos com as mãos, tentando abafar o choro.
–Rin... – Murmurei tristemente.
–Por que você faz isso comigo?! POR QUÊ?! – Ela gritou.
–Por que você faz isso comigo?! – Respirei ofegante. – É VOCÊ QUE ME IGNORA! SEMPRE ME IGNORA! EU SÓ ESTOU TENTANDO VOLTAR PRA CASA PRA FICAR COM VOCÊ!
Sem respostas.
Mas eu já devia esperar por isso.
Ela ficou parada, encolhida e submersa em seus pensamentos.
E tudo que pude fazer foi a observar e não poder impedir as lágrimas que rolavam pelo seu rosto.
E assim o tempo se arrastou por longos quarenta minutos. Pelo canto do olho, olhei o relógio no meu criado mudo. Três e trinta e oito da manhã.
Voltei a olhar ‘’Rin’’, que estava enchendo a banheira de água. Ela estava encolhida no cantinho dela, tremendo um pouco por culpa da água fria.
Assim que a banheira se encheu, ela fechou a torneira e esticou seu braço para fora, derramando um pouco de água da banheira no processo. Ela agarrou um secador que estava em algum canto do banheiro e segurou o objeto firme nas mãos.
Arqueei uma sobrancelha.
Logo depois ela se esticou até uma tomada que havia ali por perto e plugou o secador.
Ela trouxe o objeto perto de si e o ergueu um pouco acima da água.
Não...
Não. Ela não vai fazer isso.
–Não! – Eu comecei a correr até ela. – Não, Rin! Não!
Então ela soltou o objeto na água.
Acordei suando frio e assustado.
Virei para o lado e vi a cabeceira com o relógio digital em cima.
Três e trinta e seis da manhã.
Ela ainda não morreu.
Joguei todas as cobertas no chão e pulei da cama. Abri a porta do quarto com força, a fazendo bater na parede e criar um grande barulho. Saí correndo até a porta de entrada e girei a chave na fechadura com violência. Assim que saí da casa da Aoki, disparei até o poste de luz do outro lado da rua.
Coloquei a mão na caixa de força. Ela tinha uma tranca lateral, ainda com um cadeado. Na frente da caixa havia uma placa de ‘’Perigo: Alta voltagem. Risco de morte. ’’
Peguei uma pedra um pouco maior que a minha mão. A ergui um pouco acima da minha cabeça e tomei impulso pra acertar a tranca. O cadeado caiu no chão, completamente amassado.
Joguei a pedra em qualquer lugar e abri a caixa de força.
Tinha vários cabos e fios, botões... A parada toda.
Não sou engenheiro, eletricista, ou o Mario, mas eu vou desligar essa merda.
Peguei uma pedra mais pesada e maior dessa vez.
– Len! – Aoki saiu de casa apressada. – O que você pensa que está...
Não dei ouvidos a essa tapada.
Simplesmente levantei a pedra o mais alto que pude, e a joguei com o máximo da minha força na caixa de luz.
Era a hora de criar um curto-circuito.
Várias faíscas azuis saíram de onde, pelo menos era, a caixa de força.
Um fogo de labaredas azuis começou a consumir a caixa de força, e consequentemente, o poste, seguindo para a fiação de luz.
Mas há essa hora a cidade toda já se encontrava num perfeito breu. E consequentemente,
Tokyo também.
–VOCÊ É MALUCO?! – Aoki gritava em plenos pulmões.
–QUE HORAS SÃO? – Gritei com ela.
–Isso lá importa?! Você...
–Que horas são?!
–Argh! – Ela disse estreitando os olhos, procurando ver melhor o relógio analógico que estava no seu pulso. – Daqui a dois segundos... Três e trinta e oito da manhã. VOCÊ É RETARDADO? TEM IDÉIA DO QUE FEZ?! ISSO É DANO A PROPRIEDADE PRIVADA E...
Ignorei Aoki porque estava imerso em meus pensamentos.
Se isso são apenas sonhos...
Porque são tão reais?
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