Karakuri Burst
34 Sonhos.
Notas iniciais

RIN POV’S ON
Dois meses após o incidente incendiário...
Me desculpe.
Eu acho que... Eu realmente estraguei tudo.
Estou tentando o meu melhor para nos juntar... De algum jeito.
Eu não quero contar os dias que já se passaram, ou das minhas tentativas fracassadas de chegar até você. Quando eu penso em você, eu sinto a dor ficar mais intensa, a cada dia pior, desde que você me deixou.
Uma vez me peguei imaginado como as coisas seriam. Eu, você e a nossa filha.
Estou sendo irracional. Procurando por coisas que nunca existirão.
Os nossos retratos e fotos estão virados. Estão de um jeito que eu não possa vê-los. Quando olho pra você eu me lembro, e quando me lembro, me machuco.
Estou lutando para aguentar tudo isso.
Para aguentar mais um dia.
Me desculpe.
Eu acho que... Eu realmente estraguei tudo.
Me desculpe por me deixar se apaixonar por você.
Eu não consigo desfazer esse ‘’eu e você’’, não consigo apagar, não consigo esquecer.
Mas ‘’eu e você’’ desapareceu. Só restou apenas ‘’eu’’.
Mais uma vez a noite chegou.
E você não veio.
Eu odeio a noite. E não é só porque significa que fiquei mais um dia sem você. Mais um dia te esperando. Mais uma noite no escuro.
É porque eu sonho.
Mesmo que por pouco tempo, eu durmo, e consequentemente sonho.
Odeio meus sonhos.
Quer saber por que, Len?
Porque todas as noites, eu sonho que você continua aqui. O fantasma ao meu lado, é perfeitamente igual a você. É você, Len. E quando acordo, você desaparece. Você volta para as sombras, onde eu não consigo te alcançar.
Quantas vezes já estiquei meu braço tentando te alcançar e impedir que você vá? Estou tentando me convencer que é um sonho.
Só um sonho.
Um sonho que eu não queria acordar.
Você é só um sonho.
Você é a mão que eu não posso segurar, você não pode ouvir as palavras que eu não pude dizer. Eu sei que estou só.
Eu só quero você de volta. Porque quando estou com você, eu não estou sozinha.
Diga-me o que acontece com corações partidos. Diga-me para onde vai o amor se ele não tem onde ficar.
Eu não tenho nada, a não ser um vazio dentro de mim. O amor deixa um grande buraco quando morre.
Como eu, se quer, poderei amar novamente?
Me faça uma promessa, isso é, se você for capaz de cumpri-la desta vez.
Me prometa. Me prometa que o tempo não irá nos apagar, que não iremos perder tudo o que tivemos, perder tudo desde o nosso começo.
Eu morreria para estar onde você está.
Eu tentei estar onde você está.
Até porque, você sabe. Sabe que todas as noites, eu sonho que você continua aqui. O fantasma ao meu lado, perfeitamente igual a você. Mas você desaparece. Você volta para as sombras, para longe de mim.
Não pode me julgar.
Não pode me julgar por tentar estar onde você está.
Você está me torturando.
Então não pode me julgar por tentar me matar.
Sempre ando sem rumo pela nossa casa. Sempre. Às vezes eu admiro a fina cama de poeira que se forma sobre as coisas, sinto uma relação de orgulho e tristeza. Sinto-me orgulhosa por não mexer em nada desde que você me deixou sozinha. Mas me sinto triste por saber que já faz tanto tempo que você foi embora.
Hoje, eu vou fazer algo diferente. Vou entrar no seu quarto. Eu desejo dizer ‘’nosso’’ quarto, mas ele tem tantos traços seus, com todos os móveis escolhidos cuidadosamente por você, com seu cheiro em cada peça de roupa no armário. Então não me sinto no direito de dizer que é ‘’nosso’’.
Eu sei que vou me arrepender disto que estou fazendo.
Mas é que seu quarto é o único cômodo da casa que me acolhe, e me faz sentir que você ainda continua aqui. Eu juro que tentei parar minhas pernas quando elas me direcionavam a seu quarto, mas elas não me obedeceram.
Na verdade, elas só fizeram a minha vontade. A minha real vontade.
Eu também hesitei quando toquei na maçaneta da porta. Eu sabia que aquilo iria me ferir mais do que me ajudar. Mas eu entrei no seu quarto mesmo assim. Eu criei uma pequena felicidade dentro de mim. Eu deixei escapar um sorriso. Quanto tempo eu não entrava no seu quarto?
O meu mero sorriso se desfez. Ele foi ficando sério até esboçar tristeza. Sentia minhas lágrimas geladas escorrerem pelas minhas bochechas.
Esse quarto é seu! Tudo nele é seu! Tudo nele lembra você!
Por quê?!
Por que eu fiz isso?! Lembrar de você dói, sabia?!
Lembrar dos nossos momentos juntos, nossas risadas e até mesmo as nossas brigas! Tudo isso...
Eu sinto falta de tudo isso...
Lembrar que aquilo que eu julgava serem coisas simples, terem grande importância agora, dói!
Mas o que mais me dói é que eu não posso fazer nada... A não ser lembrar.
Eu entrei no seu quarto, Len. Eu me arrependi por isso.
Olhei para a sua cama bagunçada, que permaneceu exatamente igual desde que nós dois saímos.
Observei algumas mechas do meu cabelo balançarem quando a brisa que vinha da janela passou por mim.
Len sempre deixava as persianas abertas.
Isso me incomodava. Mas sempre que eu era acordada, sendo de madrugada ou de manhã, por aquelas malditas luzes, eu tinha certeza que ele estava ali. Len estava ali para esquecer as persianas abertas.
Agora, com um pouco da janela entreaberta, e com as persianas abertas, precisando ser levantadas, o vento entrava sem nenhuma dificuldade.
Andei até seu banheiro.
Deslizei minha mão pela parede até encontrar o interruptor para acender a luz.
Todo o seu banheiro se clareou. Eu me lembro como fiquei impressionada em ver isso aqui pela primeira vez.
Meu olhar caiu sob suas coisas que haviam por lá. O seu banheiro é dividido de modo que havia dois espelhos, duas pias, duas bancadas, sendo um de cada lado do banheiro, de modo que ficassem opostos um a outro. (N.A: Ajudando a visualizar, notas finais do cap 17.)
No seu lado do banheiro, ainda havia suas coisas, todas organizadas, enquanto o meu estava uma verdadeira bagunça.
Deixei escapar um suspiro, imaginando a bronca que você me daria por deixar as coisas esparramadas desse jeito.
Caminhei até suas coisas, e vi como eu fiquei admirada em ver como tudo me lembra você. Levantei lentamente a minha cabeça lentamente, e encarei meu reflexo.
Eu estava horrível.
Com lábios ressecados, olheiras fundas e cabelos bagunçados.
Naquele momento, aparência era a última coisa na qual eu me preocuparia.
Eu continuei firme me encarando. Eu costumava pensar que éramos parecidos. Sempre pensei que éramos parecidos.
E me olhar agora... Ver meu reflexo, tão... Parecido com você...
Me faz perceber o quão sou ingênua.
Eu não sou parecida com você!
Eu sou uma pessoa horrível! Sou alguém ruim, uma pessoa maldosa, uma pessoa com sangue frio!
E você não é assim!
Eu nunca deveria me comparar com você.
O reflexo nesse espelho não deveria existir.
Eu vou quebra-lo.
Desculpa por fazer isso, Len. Mas eu preciso.
Eu soquei seu espelho com meu punho direito até ele trincar. E quando trincou, mirei no ponto trincado e soquei com mais força ainda.
Por um momento eu observei o sangue escorrer do meu punho e descer lentamente pelo espelho cheio de rachaduras. O espelho cedeu a pressão que sofria, então se espatifou em vários cacos que se espalharam pelo chão.
Me virei de costas e encarei o meu reflexo no outro espelho.
Observei minha mão.
Eu consigo fazer isso de novo.
No fim, eu estava ajoelhada no seu banheiro. Os cacos cortavam a pele desprotegida das minhas pernas. Mas eu já não me importava mais.
Tudo que fiz foi em vão, não foi, Len?
Com todos esses cacos no chão, eu consigo ver incontáveis reflexos de mim mesma.
Talvez o problema não seja o reflexo, seja a pessoa.
Eu peguei o maior e mais afiado caco de vidro, machucando a palma da minha mão com esse ato. Virei ele em minha direção, e encarei meu reflexo mais uma vez.
Eu só quero ficar com você, Len... Estou tentando o meu melhor para nos juntar... De algum jeito.
Até agora o máximo que estou fazendo para nos juntar é engolir cada remédio que encontro. Isso é pouco. A overdose não consegue me encontrar pelo jeito.
Talvez assim... Seja mais fácil.
Estiquei meu braço, depois virei , avistando meu antebraço¹, seguindo caminho até meu pulso.
Firmei meus dedos no caco de vidro.
Se eu for fazer isso, que faça logo.
Aproximei o caco de vidro próximo ao meu pulso.
–NÃO!
Soltei o caco de vidro no chão, e virei minha cabeça rapidamente em direção a porta.
Essa... Voz...
–Len?!
Não tinha ninguém.
Absolutamente ninguém.
Mais uma vez, me encontrava sozinha.
Cobri meus olhos com as mãos.
–Por que você faz isso comigo?! POR QUÊ?!
E você não me respondeu.
Porque não tinha ninguém lá.
Len, você está me deixando louca. Estou ficando doente.
Eu não tentava mais esconder meu choro com minhas mãos.
Fiquei parada por aproximadamente 40 minutos.
Quando finalmente meus olhos doeram de tanto chorar, eu resolvi me levantar.
Caminhei até a sua banheira e a adentrei. Fiquei encolhida em um canto, deslizei minha mão pela torneira, a abrindo, fazendo com que pouco a pouco a água entrasse em contato comigo. Eu sentia a água molhando o tecido da minha roupa, mas nada mais me importava. Quando a água atingiu a altura do meu pescoço, fechei a torneira.
A água estava fria, pois eu não escolhi que ela fosse aquecida.
Estiquei meu braço até o secador de cabelo que havia esparramado pelo chão, pois ele havia caído da bancada quando eu comecei a quebrar o segundo espelho.
Assim que consegui pega-lo, me estiquei novamente até conseguir coloca-lo na tomada que havia ali por perto. Apertei o botão que iria na maior velocidade, criando um vento quente.
O bom daquele secador era que o fio dele era grande o suficiente para ele ficar ligado até mim.
Você, assim como eu, Len. Sabe que água e eletricidade não se misturam.
Eu estou tentando. Eu juro. Vou conseguir te alcançar.
Respirei fundo.
Levantei o aparelho um pouco acima da água.
Mas um barulho me chama atenção.
O vento que o secador produzia falhou por um momento. Encarei o aparelho por um momento, então o vento que ele produzia parou.
Então fiquei no escuro.
A luz de toda Tokyo se foi.
Soltei o aparelho na água em desespero, mas nada aconteceu.
Não...
–Droga, Len! – Recolhi todo ar que havia nos meus pulmões para gritar a próxima frase. — ME DEIXE MORRER! – Recomecei a chorar. – Por favor... Eu quero ficar com você...
Saí da banheira, me sequei e troquei minhas roupas.
Olhei com tristeza para a sua cama, Len.
Eu peguei seu típico sobretudo preto, e me deitei em sua cama.
Agarrei sua roupa contra mim.
Todas as noites...
Eu sonho que você continua aqui...
O fantasma ao meu lado...
É perfeitamente...
Igual a você...
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