Karakuri Burst
71 Rei morto, Rei posto.
Notas iniciais

RIN POV’S ON
Flashback on
– Sete semanas depois –
Mordi meus lábios mais uma vez. Eu imaginava que pelo quinto ou sexto cigarro apagado em mim eu me acostumasse com a sensação. Ou pelo menos não sentisse, ou melhor, sentisse, mas não ligasse para a dor.
Pra variar, eu estava errada.
Miku matava a si mesma a cada minuto que passava. Assoprava a fumaça pra fora da boca como se estivesse vomitando aquilo. Queria eu estar só assistindo, do que participando. Não sabia se aquilo era falta de cinzeiro ou inteligência, mas minha ‘’ilustre participação’’ se resumia em ter cigarros apagados no meu braço.
–Ah! – Mordi meus lábios com mais força. – Para com isso.
–Eu não pedi sua opinião, pedi pra ser apoio do meu braço. – Com essa deixa, apoiou o cotovelo no topo da minha cabeça, e deitou seu rosto em sua mão. Torceu, pelo que parecia, o último cigarro que tinha no meu braço e o jogou no chão. Naquele momento em particular, nunca odiei tanto ser baixa. – Eu estou enjoada disso. Tudo isso. Papai está fazendo tudo isso daqui ser chato.
Respirei fundo antes de começar a conversar. Meu braço inteiro estava vermelho e coçando.
–Explique.
–Já parou pra pensar qual o sentido disso? Quer dizer, pra quê pegar meia dúzia de pirralhos sujos e mal lavados e colocar aqui dentro? Desnecessário. Tudo isso porque meu pai gosta de crianças? Patético. Pouco me importa que orfanatos encham. Deviam matar as crianças para fazer salsicha ou carne moída. – Respirou fundo, colocando mais peso na minha cabeça. Fechei os olhos, deixando o ar escapar pela minha boca.
–Você é nojenta.
–Você é suja. – Riu sem humor. – Mas eu gosto de você, de qualquer forma. Eu acho que meu pai na verdade é curioso. Só quer saber o que acontece com um corpo quando fica muito quente, ou muito frio. Ou quanto tempo você vive sem um ou dois órgãos. Sei lá.
–Foi com essa mesma ‘’curiosidade’’ que seu pai, ou melhor, o Primeiro, matou a sua mãe?
–Ah não... Papai a enforcou com suas próprias mãos enquanto discutiam. Tudo bem, mamãe era mesmo um tanto chata e ficava gritando comigo.
Batuquei meus dedos em minha perna, pensando como eu ainda conseguia ficar surpresa com o que acontecia ou deixava de acontecer. Nunca sequer tinha perguntado pra alguém sobre a mãe da Miku, porque, de fato, nunca me interessou. Embora já tivesse minhas hipóteses. Quem diria que eu teria um palpite, quase, certeiro.
Hatsune não se importava muito com isso, pelo visto. Justificou na frase seguinte que não parecia importante ter a mãe morta ou não. E não é mistério pra nenhum idiota que o Primeiro não moveria um dedo para ajudar sua filha. Tenho uma dificuldade ridícula de tentar entender o que há com minha memória. Sinto uma dor como se estivesse batendo na minha cabeça com um martelo, sem falar dos zumbidos que escuto, me dando a impressão que na verdade eu tenho rádio no lugar do cérebro. E mesmo assim, até mesmo com os chiados que não me deixam escutar os próprios pensamentos, eu me lembro do meu primeiro dia aqui, há três anos.
–Mesmo assim, as coisas não são movidas a partir de curiosidade. As coisas tem que ser movidas a partir da minha vontade. O jeito do papai está ultrapassado, portanto, deve ser esquecido. E claro, algo novo posto. – O peso no topo da minha cabeça se aliviou. Ela finalmente tinha se desencostado de mim. Com os saltos que usava, juntamente com sua roupa, lhe dava um decadente ar de secretária de um pornô. Com seus dezoito anos chegando, aquele penteado ridículo dela se transformou em um grande rabo de cavalo. E seu rosto ganhou um novo acessório por conta de uma vista ruim. Óculos. Ela andou uns poucos passos para frente, e girou em círculos, com os braços abertos. Miku definitivamente tinha um problema. – Tudo vai mudar, mas não se preocupe. Você vai mudar também.
Torci o nariz, finalmente me tocando, literalmente, que eu já podia passar minha mão pelo braço queimado. Ao primeiro toque, segurei um belíssimo ‘’Puta merda’’ que por pouco não escapou dos meus lábios. O lugar da Miku no inferno está mais do que garantido.
–Tsc. — Chiei irritada. Aquele assunto não me interessava muito, mas me forçava a prestar atenção justamente por parecer importante. Importante, mas não interessante. – E quem te garante isso?
–Mikuo. – Ela sorriu, aparentemente contente. Oh, que interessante. Havia um idiota que a fazia feliz, então. – Ele é meu... ‘’irmãozinho’’. Outro, na verdade. Ele e Ka... – Pareceu morder a língua. – Minha família não é da sua conta. O que eu posso te dizer é que eu escolhi você. Deixe meu pai brincar com suas amiguinhas. Eu escolhi um futuro diferente pra você.
–Não é você quem decide meu futuro.
–Querida, acha mesmo que está na posição de negociar? Deveria estar feliz de eu te incluir nisso. Odeio dizer isso, e não pretendo repetir. Eu preciso de você. E não seja iludida, eu não estou esperando respostas como sim e não. Já está decidido. Porque se contentar fazendo parte de uma curiosidade idiota quando se pode ser muito mais? Você não é esse tipo de burra.
–Basicamente, você tem planejado há sei lá quanto tempo algo que vai ‘’revolucionar’’ tudo o que isso é ou já foi. Que interessante, Miku. O que mais esconde ‘’embaixo dos panos’’?
–Nada mais que te interesse, pirralha mal lavada.
////
Já entediada da mesmice que a Senhorita Defoko me proporcionou, atirei na última bola de pelos. Particularmente achava aquela arma uma merda. Definitivamente não era, e muito menos seria, perita em armas, e tudo que eu sabia era que esse revólver uma merda. Uma merda de calibre trinta e oito, diga-se de passagem.
Sete tiros. Sabia que tinha de melhorar isso logo. Estava bom, mas não estava ótimo. E o pior que ótimo não chega nem perto do ideal. Defoko sempre se irritava comigo por frequentes falhas, e eu sinceramente já estava bem enjoada dessa frase. Me perguntava mentalmente o que havia de errado com essa gente praticamente todos os dias. Quantos processos defensores de animais os jogariam, se soubessem das atrocidades cometidas aqui dentro. Se bem que animais é o último problema de urgência por aqui. Os bichos da vez eram coelhos.
Não me entenda mal, atirei em todos.
Mas aquilo já tinha perdido uma graça que nunca existiu. Tudo isso era para quê? Perder a pena? Escapar da compaixão? Testar a coragem? Resgatar o ódio...?
Bah,
Não importava, de qualquer forma.
Coelhos eram malditos bichos espertos e rápidos. Do jeito que o enredo segue, em breve irão me mandar atirar em camundongos, e logo após, formigas. Deixei minha respiração pesar, agradecendo pela munição ter acabado. Não me incomodava matar as crias do coelho da páscoa, o que me incomodava era o cheiro que essas praguinhas deixavam. De fato, era meio nojentinha pra esse tipo de coisa. Cheiro de sangue era nojento.
Não achei que fosse de minha conta perguntar onde estavam minhas amigas. Tanto IA quanto Miki não estavam comigo. Respirei pela boca, preocupada com elas. Não tem como aplicar o meu antigo, e idiota, lema. ‘’Vai ficar tudo bem’’ não se estende ao território dos Hatsune.
‘’– Estão vendo isso? O mais forte, vive. O mais fraco, morre. De vocês três, a Rin é a mais forte, e vocês duas são as fracas. Preciso dizer o que vai acontecer?’’
Fechei os olhos com força.
Senhorita Defoko, com todo respeito, vá se foder.
–Isso foi... Razoável. Considerando que na primeira semana que eu te dei essa porcaria você deixou a pressão da arma te acertar na cara pelo menos umas cinco vezes. Mesmo assim, sei que pode mais que isso, baratinha. É bem simples, até.
As solas das botas dela batiam no chão denunciando do quão perto de mim ela estava. Mesmo enjoada disso, tratei de endireitar a postura antes de me virar pra ela. Me surpreendi quando Defoko se ajoelhou em minha frente, e segurou minhas mãos. As colocou uma com a outra, as unindo. Feliz com aquilo, guiou minhas mãos até a frente de sua cabeça.
Observava silenciosamente ela mexer nas mãos de quem segurava um revólver.
–Kagamine, atire.
Senti minhas mãos vacilarem no cabo da arma. Esse já era o segundo ‘’Puta merda’’ do dia.
–Quê?
–Kagamine, por favor, atire.
Neguei, para mim e para ela, em silêncio. Balançava minha cabeça de um lado ao outro, enquanto sua expressão indiferente só me dizia um ‘’anda logo’’ indireto. Atirar em alguém era diferente de atirar em algo. Isso era estranho. Todo esse tempo que estavam nos ensinando a matar, era pra matar pessoas, não animais largados.
As pessoas realmente são seres horrorosos.
‘’-Já parou pra pensar qual o sentido disso? ‘’
Puxei o gatilho.
E por um segundo, ri comigo mesma naquele pátio. O ar que aquilo cuspiu quase me assustou. Vazia. Sem munição.
Nada que eu já não soubesse.
Confirmei mentalmente que aquele revólver era mesmo uma merda. Sete balas no máximo, que desgraça. Quem fazia o quê com sete balas? Atirava em latinhas de Coca no quintal de trás? Uau, que emoção.
–Senhorita Defoko, — Pus as mãos na cintura. — poderia me explicar que merda foi essa?
Ela se levantou do chão, um pouco inconformada. Já não tinha ideia se ela esperava por isso ou não. Se esse era o ‘’grande’’ teste dela, ela tinha que contar com algumas variáveis. Afinal, eu iria ou não iria disparar.
Tsc, ela deveria saber que não pode depender das pessoas.
–Diga-me você, Kagamine. Pra você, qual o preço de uma vida?
–Depende do quanto forem me pagar.
Defoko deu um sorriso torto e se distanciou de mim. Já tinha tempo que havia desistido de entender as reações daquela mulher. Sentei-me no chão gelado, esperando ela voltar pra onde quer que tenha ido. Poucos minutos depois, ela voltou falando ao telefone com uma das mãos escondida nas costas. Se agachou perto de mim largou o celular no chão.
Respirei fundo antes das coisas começarem.
–Ponha as mãos para frente.
‘’Olaaaaá Rin!’’ – A Hatsune saudou pelo telefone. – ‘’Eu estou te observando o tempo todo.’’
Espalmei as mãos no chão enquanto lentamente observava as câmeras nos cantos das paredes.
‘’E sabe, temos um problema. Você só sabe fazer as coisas certo com a mão direita. Isso é muito triste. ‘’
Defoko era uma subordinada desgraçada. Desgraçada o suficiente para esconder um martelo em suas costas e acertar minha mão direita. Agonizei no chão. Gritei também. Tinha certeza que ela tinha sido quebrada.
‘’Espero que não fique chateada. Isso é só um incentivo! Como iria trabalhar com a mão esquerda sem ter a direita destruída? Caso fique brava, lembre-se: Pra quê ser se contentar em ser ‘bom’ quando se pode ser excelente?’’
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Mordi os lábios de nervoso. Sabia que se as coisas continuassem no rumo que estavam, eu não teria lábios daqui uma semana. Olhei para minha mão engessada, achando aquilo uma outra merda. Por hora, eu só conseguia mexer o indicador e o dedão. Tentava relaxar o braço, mas não adiantava de nada, uma vez que ele estava queimado.
Droga Hatsune, você fodeu com tudo direitinho dessa vez.
–Eu conheço essa cara, mãe.
Lily parou o que estava fazendo, no caso, parou de passar um gel no meu braço, que de tão gelado que era, parecia ser a Antártida num pote, pra me olhar. Ela respirou pesado pelo nariz, e tampou o pote de Antártida. Estávamos na minha cela, já que Lily só descobriu o que tinha acontecido por volta de duas horas depois do ocorrido.
Não pude deixar de notar que Miki e Sophia não estavam aqui também.
–Eu cansei.
Prendi meus pensamentos.
–Cansou do quê?
–Eu vou te tirar daqui.
–Mãe...
–Eu vou te tirar daqui. – Disse mais alto. Era como se eu estivesse levando um esporro sem ter feito nada. – Você é tão diferente da garota que chegou aqui três anos atrás. Eu não fui capaz de impedir que eles te mudassem, e mudaram. E eu não posso suportar mais nem um segundo disso.
–Você quer que eu volte a ser a mesma menina assustada e iludida de três anos atrás?
–Não. – Ela pôs as mãos em meus ombros. – Eu quero que você volte a ser você. Não a personalidade que eles estão criando em você. Quero que seja Kagamine Rin.
–Para de me chamar assim! – Gritei irritada. – Eu não quero ser Kagamine. Já não basta a vadia da Defoko! Era assim que a... A...
–Miriam. – Lily falou. – Você me contou. Era assim que a sua mãe te chamava. Mas você não se lembra dela, não é mesmo?
–Eu...
–Pare de discutir comigo. – Ela firmou a voz. – Corte esse cabelo.
Lily atirou o pote de vidro contra a parede, deixando uma gosma com cheiro de menta escorrendo nela. Caminhou chutando alguns cacos, e pegou o maior que encontrou. Limpou no jaleco branquinho e me entregou.
Supus por mim mesma que aquela era a minha ‘’tesoura’’.
Deixei aquilo perto de onde dormia.
Passei a mão pelas minhas mechas. Meu cabelo já passava da metade dos meus braços. Respirei fundo, não estava com paciência pra esse tipo de coisa. Sempre pensei que cabelo grande deveria ser uma coisa que tinha de ter.
–Por quê?
–Porque eu vou trazer de volta tudo que eles tiraram de você. Vou fazer você se lembrar do que foi apagado. Mesmo que eu tenha de forçar. E você Rin, gosta de ter o cabelo na altura dos ombros.
–Isso não é verdade.
–Sim, é sim. E você adora desenhar e pintar as coisas.
–Eu?
–Eu deixei isso tudo ir longe demais. – Lamentou consigo mesma. – Depois de três anos te fazendo de rato de laboratório, depois de três anos te injetando sabe-se lá o quê, depois de todas as experiências, eles conseguiram alterar até o pigmento dos seus olhos.
–Quê?
–A cor dos seus olhos, Rin! Ou você acha mesmo que as pessoas nascem de olhos vermelhos? Ah, merda. Isso é loucura. — Massageou as têmporas. – E... E dele você se lembra?
Me sentia incrivelmente inútil na conversa. Não formulava frases inteiras, ou só fazia perguntas. Aquilo estava sendo uma porcaria.
–‘’Dele’’ quem, Lily?
–Len. Você se lembra?
–Sinto muito... – Olhei para ela. – Mas eu não sei quem é.
Minha mãe apertou os lábios, aparentemente nervosa.
–Um dia você me disse que gostava dele. Também disse que eram melhores amigos. E me contou que ele não te abandonaria. – Ela segurou em minha mão. – Me desculpe, Rin.
E a cada segundo, mais confusa ficava.
–Pelo quê?
–Por deixar isso acontecer.
–Não se preocupe... – Disse sem pensar. – Eu sou péssima no esconde-esconde.
Ela sorriu.
–E é exatamente por isso que ele sempre vai te encontrar.
E então fiquei triste. Não a ponto de encarnar a ‘’menininha chorona’’, mas, triste. E eu não sabia muito bem o porquê. As coisas que Lily falou e falava pareciam ter e não ter sentido. Me encontrava completamente confusa e com um sentimento estranho. Não sabia direito o que era, mas sabia que já odiava.
Os corredores se encheram de passos.
Espiei Miki e IA sendo colocadas para dentro de suas celas. Acenei para as duas, mas ambas pareceram me ignorar. IA ficava em frente a mim, enquanto a cela de Miki era do lado da de IA. Andei até as paredes que em limitavam de ir até elas. Sophia estava de costas para mim, com o corpo encolhido no canto. Já a Miki, assim que passou pela porta, começou a arranhar o chão contando até quatro. Observei sua mão, tentando manter a calma quando percebi o quão estava azulada, e como só tinha três dedos onde deveriam ter cinco.
–IA. – Chamei. – Sophia.
Ela balançou a cabeça, negando meu chamado.
Me virei para Lily, já incomodada com a conversa que tínhamos tido antes, e agora com isso.
–Miki nunca agradou as pessoas daqui. – Ela comentou enquanto se aproximava de mim. – Ela era tímida, porém animada. E isso não fez muitas pessoas felizes.
–Ela é tímida e animada.
–Sua amiga já foi castigada várias vezes. Dessa vez a trancaram no congelador de carnes do Primeiro. Dizem ter sido umas três horas, mas eu sinceramente acho que não. O frio a congelou pouco a pouco, e então alguns dedos dela caíram. – Lily respirou fundo. Parecia não estar muito a vontade de me contar isso. – Também queriam testar lobotomia em uma criança. E esse é o resultado.
Olhei espantada pra ela.
–Mãe, o que você ainda está fazendo aqui? – Segurei em seu pulso e acabei por a conduzir contra sua vontade até a porta. – Ela precisa de ajuda!
–Eu não posso.
–Porque não? – Puxei ainda mais Lily. – Ela está sofrendo, anda!
Ela puxou o pulso de minhas mãos, se arrumando um pouco.
–Não tem nada que eu possa fazer. E ela não é minha responsabilidade.
Quis gritar de raiva, e xingar tudo e todos com xingamentos que eu mesma não conheço. Merda.
–E Sophia?
–Ela...
–Não se preocupa, Rin. — Mesmo falando da IA, me assustei por ouvir a voz dela. – Por favor, não diga nada. Eu... Eu ainda consigo explicar. O Senhor Primeiro, o... Pai da Miku, você sabe, quis conversar comigo. Eu não entendia muito bem o que ele falava. Juro que tentei ser o mais simpática possível, mas...
Sophia começou a chorar.
Me permiti soltar o peso dos joelhos, e me sentei no chão, assustada.
–Eu não posso a ajudar, Rin. – Lily disse, de pé. – Ele pediu que ninguém a ajudasse.
Respirei bem fundo. Sabia muito bem como era ter cinquenta por cento da visão, mas não tinha a menor ideia de como era ter o olho arrancado. Que porra de curiosidade é essa que faz o rosto de uma pessoa começar a apodrecer? Agradeci mentalmente por IA me pedir para não falar nada. Eu realmente não sabia o que dizer.
Poderia odiar Miku o quanto quisesse, mas por ela ser minha ‘’amiga’’ eu era poupada de muitas coisas. Droga, não tinha como eu negar essa merda. Poderia doer, mas o que era uma mão quebrada perto de perder meus dedos? Ou meus olhos?
Que droga.
‘’O que eu posso te dizer é que eu escolhi você. Deixe meu pai brincar com suas amiguinhas. Eu escolhi um futuro diferente pra você.’’
–Eu tenho que ir. – Lily beijou o topo da minha cabeça. – Vejo você mais tarde. – Passou pela porta assim que o sensor a reconheceu. – Não se esqueça de quem você é.
Colei minhas costas com o chão. Não tinha mais equilíbrio para ficar sentada. Em uma coisa Lily tinha razão. Aquilo era loucura.
E eu era a mais louca de lá por achar que a Hatsune realmente mudaria algo.
Esperei pelo menos quinze minutos desde que Lily fora embora. Estava irritada demais pra raciocinar direito, mas estava convencida que não deixaria nenhuma das pessoas que me importam sucumbirem a loucura ou se entregar a morte. Não mesmo. Se depende de mim e da Hatsune mudar as coisas, assim eu farei.
Não Senhorita Defoko, eu não sou tão ‘’barata’’ quanto pensa.
Olhei para pequena câmera no alto da parede.
–Venha aqui.
Poucos minutos depois, ela apareceu.
Realmente, ela não estava brincando com o ’’Eu estou te observando o tempo todo.’’
Garota perturbada.
–Faz tempo que não jogamos uma boa partida de xadrez, não é mesmo? – Disse assim que entrou na minha cela. – Porque me quer aqui?
–Eu nunca te quero aqui.
–Já vi que ficou putinha pela mão. ‘’Desculpa’’, querida.
–A mão não tem nada a ver dessa vez. – Odiava jogar seu jogo. – Você está enjoada, assim como eu.
Me pus de pé, me preparando psicologicamente pelo o que iria fazer. Pensar que não era por mim, e sim por outros, ainda assim, não me fazia mentalmente sã.
Ergui minha mão esquerda.
–Eu quero que as coisas mudem a partir de agora.
Hatsune sorriu de canto e arqueou suas sobrancelhas. Modéstia a parte, eu sabia ser surpreendente quando queria.
–Não se fecha nenhum acordo com a mão esquerda, Rin. Mas eu vou relevar. O incentivo está sendo ótimo, pelo visto.
Segurei a cara de nojo quando ela segurou na minha mão.
Sacudimos as mãos.
–O que quer?
–Já sei! Pra começo... – Riu com uma animação que eu desconhecia. – Você vai matar meu pai!
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