Karakuri Burst
79 Quem você pensa que é?
Notas iniciais

RIN POV’S ON
O barulho do tiro ecoou por toda a sala.
Mãos no revólver.
Trava da arma.
Dedos no gatilho.
Quando percebi, eu já tinha atirado.
Me forcei a baixar a cabeça, e a olhar os pingos de sangue atingirem o chão. Tentava manter os braços erguidos, mas não conseguia. Precisava, mas não conseguia. Meus fios de cabelo tocavam meus ombros, me apavorando, e lentamente cobriam a minha visão. Sentia meus lábios tremerem, e quis me esconder entre minhas mechas.
Por favor, agora não.
Comecei a olhar para os lados, sem ideia do que faria. Juntei minhas mãos, e as pus junto ao meu peito, mesmo segurando um revólver em uma delas. Lembrei com quem estava e porque estava ali, e sabia que ele não iria ficar contente comigo assim. Mesmo que devagar, pus o cabelo atrás da orelha, para conseguir o enxergar. Com a cabeça baixa, tudo que conseguia ver era um pouco de seus pés. No fundo, eu sabia que ele sabia que eu estava apavorada. Não sabia se tinha culpa nisso. Não conseguia entender as coisas como ele entendia, muito menos com a calma que ele levava.
Achei que precisava erguer a cabeça, mesmo não querendo fazer isso. Eu não queria muitas coisas agora. Eu não queria matar mais ninguém. Eu não queria ter que fazer isso. Mas aos poucos, percebi que isso não era mais escolha minha. Não fazia nem uma hora desde que eu havia enfiado um estilete no braço do Len, e embora eu sentisse que só fazia péssimas decisões, eu não conseguia parar. Mas eu queria olhar pra ele. Dizer que estava tudo bem por eu ser a ‘’criança errada’’ entre nós. Dizer que eu não estava arrependida de desobedecer a Miriam, ou de o conhecer primeiro no meio da chuva, e depois o reconhecer no meio da Bifurcação da Noite. Ou então dizer que estava tudo bem sermos de uma mesma família, além da que eu já considerava que eu e ele, como namorados, formávamos.
Queria pedir pra ele não desistir agora. Agora não.
Por favor, não desista de mim por isso.
Mas a situação não deixava. Eu tinha que ficar quieta. Acompanhar os pingos caírem no chão. Minha cabeça podia ser uma confusão, e meus pensamentos poderiam chegar a lugar algum agora, mas eu sabia, que mais cedo ou mais tarde, ele iria se culpar pelas coisas que aconteceram. E a verdade é que a culpa não era dele, mas eu não sabia se ele iria me escutar. Len sempre esteve disposto a descobrir o que aconteceu comigo e porque não conseguia me lembrar das coisas, justamente porque o que ele queria saber era a verdade. E no momento, eu tinha certeza que essa não era a verdade que ele queria.
Culpa não era um sentimento que faltava em mim. Não havia, nem que fossem bem curtos, períodos de tempo, para tentar entender as coisas que me eram ditas. Eu só sabia que eu sempre teria uma parcela de culpa em cada história que era contada. Tinha que lidar com mortes de maneira rápida, quando na verdade, só queria chorar sozinha. Tinha que lidar com as coisas que fiz ou fazia, e continuar como se isso não me afetasse em nada.
Mas eu sabia que isso era mentira. E ele também.
Olhei para Len, sem realmente ter coragem de encará-lo. E antes que eu pudesse perceber, comecei a conversar com ele, num completo silêncio, assim como costumávamos fazer. Balancei a cabeça. Nossas conversas mudas, onde os olhos faziam o trabalho de bocas, não era exatamente o mais convencional.
E isso era uma pena. Eu tinha muito a dizer, e pouco tempo pra ‘’falar’’.
‘’Você nunca teve culpa.’’
Talvez o pior dessas conversas era não ter certeza do que um dizia para o outro. Tive de escolher entre umas cinquenta frases que poderia dizer, pra optar pela mais ambígua e importante. Ele sorriu sem muito humor, como se eu estivesse falando um absurdo, e como se aquele sorriso fosse apenas para me confortar.
Passaram-se poucos segundos até que ele me desse uma resposta.
‘’Vai ficar tudo bem.’’
Baixei o olhar, sentindo minhas bochechas molharem aos poucos. Chega. Enjoada dessa resposta que o forcei a guardar pelo resto da vida, eu não sabia se essa era a melhor hora pra escutar as amaldiçoadas quatro palavras da Rin de sete anos. Guardei um ‘’mentiroso’’ comigo, que achei que não precisava ser dito. E ele, uma mentira consigo, porque já estava claro que nenhum dos dois acreditava mais nisso.
Finalmente afastei o revólver do meu peito, me afastando de um abraço que tinha com a arma. Mesmo tendo uma das mãos quebradas, foi com ela que sequei meu rosto. Respirei fundo antes de reiniciar a coragem, e ergui meus braços mais uma vez.
Eu não queria ter que matar mais ninguém.
Mas eu precisava.
Sabia que precisava matar meu ti...
...Pai do Len.
Não apenas dar tiros de raspão.
—Isso... – Minha voz não saía. – Foi um aviso.
Encarar o pai dele não era exatamente uma tarefa fácil. Embora eu conseguisse enxergar Len em Leon, aquele homem era totalmente diferente do filho. O sangue que pingava de sua orelha escorria pelos ombros e atingia o chão depois de passar por toda a extensão de seu braço esquerdo. O sangue formava manchas em seu terno escuro, que não era capaz de cobrir a quantidade que pingava no tecido. Depois do disparo, Leon não largou a arma como eu quase larguei a minha, mas não conseguiu manter os braços eretos como eu tentava manter. Ele sabia que eu não havia errado. Que era proposital. O raspão na orelha foi escolhido justamente pra assustar e causar dor.
Eu só queria que ele abaixasse a Colt.
Ele tinha colocado as mãos na orelha num primeiro momento, e durante esse curto período de tempo, eu tentei me acalmar. O barulho do tiro havia assustado até a mim mesma. E naquele mesmo momento, eu não soube o que fazer.
Leon arqueou as sobrancelhas.
Ele ainda segurava a arma em uma das mãos, e mesmo que em suma ela estava mais apontada para baixo do que para cima, eu ainda não descartava a ideia de que ele é, era, e jamais deixaria de ser uma ameaça.
—Ela iria adorar ver você. – Comentou, parecendo ignorar o fato de que eu havia acabado de atirar em sua orelha. – Ela ainda te quer. Mas não assim. Normal.
Não consegui definir muito bem o que eu senti após isso.
Então ela estava viva. Minha mãe, viva. Miriam. Mesmo que em momento algum Leon tivesse citado morte, era isso o que eu esperava. Mas aqui, ela não viria. Se viesse, ele não falaria desse jeito. A verdade é que eu não me importava. Nem com os ‘’normais’’ que achassem que eu deveria ser. Isso era a última coisa que eu acreditava que seria.
Pude perceber os olhares que pai e filho trocavam. Não era de cúmplices, como eu e Len éramos em cada coisa que fazíamos. Não. Havia raiva. Muita raiva. E eu acho que entendia isso. Ou então, entenderia. Talvez me sentisse assim com a Hatsune, mas se um dia encontrasse Miriam, viria a entender perfeitamente.
—Chega. – Len encarava o pai. – Não sei que merda você acha que tem a falar que vá mudar alguma coisa.
—Você tem alguns dias. – Leon tornou a falar comigo, numa conversa que parecia mais um monólogo. — Poucos. É a última oportunidade que você tem de ver a sua mãe.
—Quem você pensa que é? – As pontas dos meus dedos chegavam a doer com a força que apertava o revólver. — Quem vocês pensam que são? – Me referia a Miriam e Leon. – Afastaram irmãos. Destruíram famílias. Separaram...— Deixei a frase morrer enquanto olhava para Len. – E agora, agem como se ainda houvesse alguém, ou alguma coisa, a espera de vocês. Como se restasse algo, qualquer coisa, pra consertar a merda que vocês fizeram. – Respirei fundo. – Mas não tem.
-Oh. – Ele deu de ombros. – Não me entenda mal, eu não vim aqui atrás de nenhum tipo de perdão. Muito menos pra reunir essa merda de família que me deu tanto trabalho pra separar. Não sou o estúpido daqui. Eu vim acabar com isso... – Seus olhos pararam em Len. – ...De vez. Estou te fazendo um favor, garota. São os últimos dias de vida da sua mãe. A Miriam não vai durar por muito mais tempo.
Ri, sem ter algo pra achar graça.
-Eu não dou a mínima.
Foi a vez dele sorrir.
—Então eu não tenho mais motivo para ficar aqui.
A arma havia sido destravada.
—Não ouse. – Ameacei. — Não se mexa.
—Se não, o quê? Vai atirar? Vai me matar? – Riu. – Foi assim que a filha do Primeiro te criou. Mas não é assim que você é. Você mesma disse isso. Tanto eu, quanto você, quanto ele, sabemos que não tem coragem pra matar. Não mais. Não alguém da sua família. – Seus braços foram erguidos. A boca da Colt já sabia para quem apontar. — E é nisso que nos diferenciamos.
Ouvi Len respirar fundo.
-Uma última vez, – Ele me olhou. — me deixe fazer o que é certo.
Não consegui formar uma frase sequer. Meus braços continuavam erguidos, com as mãos no revólver, e o dedo no gatilho. Ouvia os passos de Len em minha direção, mas não conseguia pensar ou dizer algo que o afastasse. Queria manda-lo parar, só dessa vez. Não se aproxima. Agora não.
Por favor, agora não.
Seus passos eram seguidos pela boca da Colt, mira de Leon. Embora nossa distância desde que nos separamos não fosse tão grande, sentia que o tempo se associava com a eternidade enquanto Len se aproximava de mim. E mesmo nessa pequena eternidade, eu não consegui fazer ou dizer nada, esperando, sem querer esperar, por ele.
Seus braços me envolveram num abraço contra a minha vontade.
Fui forçada a abaixar os braços para me manter naquele abraço, enquanto o corpo dele me cobria. Eu não sabia dizer se o sangue que escorria do lugar onde enfiei o estilete continuava a cair ou se já havia parado, mas no momento em que seus braços me tocaram, pude sentir o molhado que sua manga se encontrava.
Eu ouvi e senti ele respirar no meu pescoço, fingindo não parecer cansado. Quando saiu dali, me olhou nos olhos, e sorriu sem humor por uma última vez.
Sem esconder a voz, ele me disse,
—Adeus.
Apertei a sua manga com toda força que tinha.
—Por favor, não. Por...
E foi nesse momento que ele me interrompeu.
—Não estava falando com você.
Então, ele me soltou. Suas mãos passaram pelas minhas, e agarraram o revólver de mim. Foi aí que entendi. Servi de pretexto. Servi de distração.
Porque no segundo seguinte em que ele se afastou, Len ergueu um dos braços,
E atirou.
—Eu disse chega. — Ele me deixou lá, imóvel, praticamente inútil. Andou até o corpo de Leon, que havia acabado de levar um tiro no ombro e caído no chão, e esmagou uma das mãos que ainda segurava a Colt, o forçando a soltar, com a sola do seu sapato. – Quem você pensa que é? Destruindo a vida das pessoas. Eu não sei de que Inferno você veio, mas devia ter ficado lá. Eu não sou a criança que você incriminou, Leon. Eu sou aquele que vai se certificar de ter acabado com a sua vida.
Em meus pés, a arma bateu contra meus sapatos, resultado do chute que Len deu nela.
Seis de sete.
Faltavam seis balas para zerar a arma.
—O que você quer? Quer que eu admita? — Leon perguntou, rindo sarcástico. – Eu não me arrependo de ter matado a Annelise. Não me arrependo de ter matado aquela puta.
—Você definitivamente devia ter me matado quando teve chance. – Len comenta, balançando a cabeça com um sorriso de canto. — Esse tempo todo você sabia. Sabia que minha mãe tinha uma gravidez normal. Sabia que a culpa não era minha. Sabia que a minha única amiga, na verdade era a minha prima. E mesmo assim, você não fez nada. Foda-se o que queira admitir ou não. Foda-se perdão. Foda-se que é meu pai.
—Eu te criei. – Leon responde. Sua respiração é pesada. Ofega. Descompassada. – E o que quer que você pense de mim, é o que você vai se tornar. Querendo ou não, é o meu sangue que corre nas suas veias. Se você acha que eu sou um monstro por isso, é um monstro o que você vai se tornar.
—Ótimo. — Len aponta o revólver mais uma vez para o seu pai. – Eu precisei passar a minha vida inteira sem depender de ninguém. Justamente por achar que já era um. Agora eu sei que eu sou como você. – Seus dedos param no gatilho. — Só que pior.
Cinco de sete.
Quatro de sete.
Três de sete.
Dois de sete.
Um de sete.
Observei em silêncio enquanto Len descarregava o revólver em Leon.
No tempo entre cada tiro, fechava os olhos, apenas para levar um novo susto.
Em um determinado momento, Len se agachou, ficando no mesmo nível que seu pai. Ele encostou a boca da arma na lateral da cabeça de Leon, e começou a sussurrar.
—Sua função como pai acabou no momento que você atirou na minha mãe. E a minha função como filho acaba agora.
Zero.
Zero de sete.
Acabou.
A verdade é que no terceiro tiro ele já estava morto.
Mas eu não era louca de impedir Len.
Ele se levantou. Respirou fundo mais uma vez. Seus ombros subiram e desceram, e diferentemente das últimas vezes, eles estavam alinhados. Lentamente, ele se virou em minha direção. Tentei ficar calma. Tentei não demonstrar pânico. Não agora. Ele não precisava de isso agora. Em seu rosto, havia respingos do sangue do pai. Mas percebi que não tinha nada a dizer.
Sequei meu rosto quando notei que minhas bochechas estavam molhadas novamente.
Ele ainda segurava o revólver até o último segundo em que olhou pra mim, e disse,
—Desculpa.
Mas não eram desculpas por um queima-roupa. Sim por ter acabado com minhas balas.
Minha arma foi largada no chão.
E então, nesse mesmo chão, ele pegou a Colt do pai quando se aproximou de mim. Me estendeu a mão, como se eu fosse uma princesa, e ele um príncipe das chacinas. Sua mão estava quente e grudenta pelo sangue, mas eu não me vi no direito de me incomodar ou recusar o único que estendia a mão pra mim até mesmo no fim.
Me guiando, sempre me mantendo a um passo atrás de si, eu escutei ele travar e destravar a arma em sua outra mão.
Sem parar de andar, Len ergueu o braço e pôs o dedo no gatilho.
—É melhor correr, filha da puta. – Ele dizia, em direção a Hatsune. — Porque você é a próxima.
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