Karakuri Burst
57 Pequena mal agradecida.
Notas iniciais

RIN POV’S ON
Senti meu corpo enrijecer, me forçando a apoiar minhas costas no recosto do sofá. Porque isso? Não era tão devastador assim, afinal. Apoiei minhas mãos nas pontas dos meus joelhos, endireitando minha postura.
Gumi colocou seus dedos pálidos na frente da boca, tentando dar mais autenticidade naquele pigarro.
Ah, sim.
–Quando?
–Ontem. – Tombou sua cabeça para o lado, parecia sono. – De madrugada. Telefonema. – Seus lábios formaram um pequeno sorriso. – Olha Rin, por essa eu não esperava, sério mesmo.
Mordi minha boca, terminado de estragar meus lábios. É só pele morta.
–Hm. Grande coisa, o que ela queria?
–Aí que indiferença com o meu ser. Machucou meu coração, estou me retirando, estou bolada, tremendamente... Enfim, falar de negócios. Mas era só com você. Ela não bate bem, liga pra mim querendo falar com você, ô tiazinha esperta.
–Isso realmente vale meu tempo? – Reclamo. – Não estou mais nisso.
–‘’Nisso’’. – Murmura. — Nisso, né? É impressão minha ou você não disse nada a ela e simplesmente ‘’sumiu’’?
–Justamente. Só sumi. Fim.
–E você não disse nada?
–Eu não dou satisfações nem ao Len, imagine ela. – Cruzei os braços. – Analise a situação, não nota nada estranho?
–Era pra...
–Quanto tempo eu estou sem falar com ela? – Cômico, não? Não é difícil fazer estimativas. — Um ano? Mais, talvez?
–E?
–Um ano para falar comigo.
–Ah, olhando por esse lado é meio... Estranho.
–Meio? Meio, Gumi? Meio é a tua cara. Porque só agora ela veio me procurar?
Com seu sorriso brincalhão, Gumi piscou duas e longas vezes até entender. Tem horas que Gumi parece uma velha máquina de fliperama, só esperando a ficha cair. Satisfeita, estendeu o polegar.
–Boa questão!
–Se isso for um vestibular, sinto que não passo. Perguntas complicadas e difíceis que nos prendem na ‘’boa questão’’ são as que mais me fodem.
–Ahhh, Rin. Você foi como um guardanapo, depois de usado foi jogado fora por ela.
–Não me compare com um guardanapo, sua puta. As coisas não eram desse jeito.
Gumi balançou a cabeça, fazendo seu cabelo se bagunçar Sua franja se descabelou por um momento, deixando a aparecer aquela mecha pequena e castanha, o único pedaço original dos, agora, fios verdes limões da Gumi.
–E de que jeito deveria ser?
Talvez ela tenha entendido que olhar para ela significava muitas coisas, depois de um certo tempo de amizade, achei que dessa vez ela iria me entender.
Me encolhi no sofá, observando a vidraça quando falei com ela.
–Desculpe.
–Não, tudo bem.
Gumi abriu um sorriso. Caloroso, sincero, sei lá. Eu já devia ter catalogado esses sorrisos há muito tempo.
–É sempre interessante como sempre consegue sorrir.
–Quem te garante que estou sorrindo de verdade? — Dá uma pausa. – Enfim, eu não vejo muitas razões dela só te procurar agora. Você era importante. Devia ter te procurado na semana seguinte desde que você sumiu, não no ano seguinte.
–É, talvez. Eu sempre estive lá. Sempre. Mas foi um desapego fácil. Por quê? Era como uma casa, no fim das contas.
–Casa? Quanta consideração. – Riu. – Você é uma bela mal agradecida, amiguinha. Você não disse nada quando veio ficar com o Len.
–Agradecer? Por eles terem feito aquelas coisas?!
–Seu rosto está vermelho, Rin. Está exaltada, querida. – Riu com suas próprias palavras. – Porque está tão brava, Rin?
Meus dedos se contraíram, fechar a mão, criar um punho.
Isso é impulso?
É verdade.
Porque está tão brava, Rin?
Relaxei minha mão. Ninguém estava me atacando. Eu não precisava atacar ninguém. Não tinha necessidade de armar um punho, afinal.
Porque está tão brava?
–Não disse nada. – Concluiu com um sorriso sacana no rosto. – Esqueça, Rin. Releve. Só acho um pequeno ‘’descaso’’ com as pessoas que te criaram, não concorda? Você tem tendências a fazer merda.
Comecei a estalar meus dedos um a um. Dói, mas não me impede de continuar.
–Pode me descrever como foi? – Puxo o indicador. — A ligação. Quero detalhes.
–Tá, foi mais ou menos assim: Aconteceu pouco tempo depois que voltamos da província de Akita. Len e você nos deixaram, eu e Piko, em casa. Sendo que vocês dois estavam com uma cara de bunda que só Deus. Bem, daí o Piko foi tomar banho e tentou me seduzir para ir com ele, mas eu não quis. Mais tarde. Aí né... Do quê que eu tô falando mesmo? Ah sim. Quebra de tempo. QUE-BRA DE TEM-PO, sabe o que é isso? Rin não me bate, somos amigas. Tá bom vadia, caí dentro. Não, mentira, cê sabe que eu te amo. Ahhhh, daí o meu celular começou a vibrar por volta de duas da manhã. Isso lá é horário de ligar? Eu olhei aquele número restrito todo bugado e tals, e atendi, podia ser da loteria.
–Foco, Gumi. Foco. Quero saber da Miku, não das putarias que você e o Piko fazem. Não sei nem se sou capaz de imaginar uma coisa dessas... Enfim, bora porra. A ligação.
–Eu atendi, e atendi longe do Piko, porque né. Rin, ela sabia meu sobrenome. ‘’Matrix!’’ eu gritei, mas... Tá, FOCO! Ela falou o nome dela, ‘’Hatsune Miku’’, e perguntou se eu estava com a ‘’Kagamine Rin’’, eita, ficou meio sintetizado isso né? Respondi que dependia de qual Kagamine Rin ela queria, e meio que ela bufou. Meio que. Pediu pra que eu te avisasse que ela está te procurando, para tratar e resolver assuntos pendentes. Negócios, eu imagino.
Eu tinha me sentido numa relação de email e usuário. Adoraria exigir um ‘’Insira o assunto aqui’’ do que essa espécie de título mal feito. Esse foi o seu jeito de me deixar curiosa a ponto de ir aí, correto Miku?
Não faz sentido.
Ela não me acrescenta ou me diminui em nada.
Doze meses separam uma conversa entre nós, mulher dos olhos turquesa.
Engraçado.
Deixei as palavras escaparem da minha boca com um breve sorriso.
–Isso é interessante.
–Você não vai evita-la, não é mesmo? Não fez isso uma única vez até hoje, e sinto que não fará agora.
–Fugir dela é algo muito inapropriado.
–Vai falar com ela?
–O que há para me impedir?
–E quando vai falar?
Olhei para o relógio de prata pendurado á cima da pequena estante de livros nunca lidos por nós. Aquilo era um desperdício de papéis e palavras entre nós.
–Daqui onze números.
–Belo jeito de me confundir. Só não deu certo esta vez. Hm, nove horas agora, sinônimo de sete da noite.
–Raciocínio genial. – O som das minhas palmas fracas preenchem a sala momentaneamente.
–Você quer retornar a ligação?
–Não Gumi. Crianças mal agradecidas devem se retratar pessoalmente.
////
Jogo meus cabelos molhados pra trás, passando minhas mãos entre os fios embaraçados. Coloco a toalha em volta do meu pescoço, e esfrego minhas palmas no espelho. Pouco a pouco começo a me ver com clareza novamente. A superfície do espelho estava completamente condensada, embaçando tudo. Banhos quentes, banhos longos.
Vamos Rin, desenhe uma carinha feliz no espelho.
Eu nunca fui aquele ‘’belo’’ estereótipo de garota que planeja horas e horas o visual. Mas a hesitação do que escolher me destruía de um jeito doce, e turquesa, claro. Não pensei muito quando decidi que as coisas com Miku deveriam acabar do mesmo jeito que começaram.
Uma arma carregada, um vestido vermelho, uma lótus artificial e impregnada de vermelho, e por fim, e talvez o mais reconfortante, um kimono branco.
Obrigada por me lembrar de tudo, meu ex- acessório preferido. Meu cabelo quase sempre estava erguido num coque e preso pela lótus.
E quando eu a percebi, foi trilhando a bancada em que meu espelho ficava. Você foi um objeto esquecido, quase algo translucido aos meus olhos depois das coisas que aconteceram. Ao menos notei ou me lembrei da sua presença, enfeite barato.
Mas você sempre esteve nessa bancada caótica que chamo de minha, não é.
Após alguns minutos, eu me vejo pronta. Não é casual. Não é mais normal. Pouco a pouco se afastou do usual eu me ver daquele jeito. Como uma antiga Rin. Quase como um terceiro elemento, uma segunda pessoa comparada a ‘’Rin atual’’.
Afinal, não é tão devastador assim. Pense nisso.
Subi encima dos meus antigos sapatos, cambaleando um pouco para o lado.
Eu me desacostumei a ficar encima de um salto, enfim.
Também havia me esquecido como um revólver era pesado junto comigo. Preso a mim, eu sentia exatamente o que era um peso morto. Era estranho.
Quando cheguei na sala, pronta para encontrar ela, eu a vi ter um espécie de choque. Um choque disfarçado, não era algo ‘’eletrocutante’’ pelo visto.
–Nós já podemos ir, Giulia.
Ela deu um sorriso sem graça... Que graça.
–Eu já te disse que meu nome é Gumi.
–Só agora. – Sorrio de canto.
–É Rin. – Revira os olhos. – Só agora.
É engraçado como ela se irrita com isso. Bati meus pés algumas vezes contra o chão, esperando que ela notasse meu tédio. Desde a nossa conversa de manhã, as coisas haviam se passado relativamente rápido.
Eu não estava ansiosa para falar com Miku. Ao menos temerosa. Eu não sentia nada.
Já havia trancado a porta e me encontrava no elevador com Gumi. Pequenas lembranças daquele adorável vizinho passearam á minha mente, como se eu batesse na tecla da nostalgia com força.
Quando as portas se abriram, eu não me assustei ao ver Len parado na porta, com os olhos cravados no celular e uma sacola do mercado na mão esquerda. Atrás dele estavam seus amigos, Luka, Meiko e Kaito, e mais atrás, Piko, provavelmente vindo buscar Gumi.
Gumi bateu suas mãos, cerca de três vezes, cerca de três palmas.
Gumi não precisa de esforço pra chamar atenção, convenhamos.
Eles cinco me encararam de um jeito estranho, outrora engraçado. Me encaravam de um jeito como se esperassem que eu fosse fazer um crime. É, é esperado.
Me movi para frente, esperando eles se dispersarem do caminho, para que eu pudesse passar. Não era difícil dizer ‘’Com licença’’, mas eu não queria dá-los a oportunidade de optar por ‘’não’’.
Gumi me seguiu, passando por eles como se fossem meros cones num teste de direção.
Era interessante vê-los vestidos de preto mais uma vez.
Pela hora e pela nossa habitual rotina, não era novidade o fato deles estarem chegando do trabalho á essa hora. Na verdade, eu já previa por isso. Era só interessante ver aqueles velhos uniformes.
As portas do elevador se fecharam pouco a pouco, fazendo um barulho mediano de aço contra aço ao suas extremidades se selarem. Subiu não poucos segundos depois.
O fato era que eles ainda estavam aqui embaixo, de certa forma exagerada, ‘’presos’’ a esse andar. Presos a garagem.
Claramente eu já havia percebido que sou o estopim da curiosidade de Len, ainda mais quando fazia essas coisas que ambos consideramos suspeitas.
Eu bati meus saltos contra o concreto, me sentindo como uma juíza decretando algo com um martelo. Que frieza agradável.
–Len. – Chamei-o. – Eu sei que te peço várias coisas, mas vou precisar pedir mais uma coisa a você.
Me virei em direção a ele, mudando minha posição em relação a tudo isso, antes de costas, agora de frente.
Vi a tela do seu celular escurecer, ele havia travado o aparelho. O guardou no bolso e se virou para mim, desviando sua atenção das portas prateadas do elevador.
–Me deixa adivinhar. – Quando falava sem emoção desse jeito, me fazia sorrir. Talvez seja meu cérebro tentando compensar as coisas. – Vai me pedir para ficar fora disso?
Mordi meus lábios mais uma vez. Destruir pele morta.
–Não. – As proporções da sua animação quase nula se estenderam para alguma coisa. Realmente, não é difícil captar sua atenção. – Pelo contrário. Eu quero que venha comigo, Len. Eu preciso de você.
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Parecia um prédio condenado, algo que deveria ser destruído e levado ao fim.
Mas lá era o playground de Hatsune Miku.
Antes uma área condenada e deserta, agora habita uma coisa que Miku apelidou de ‘’Burst’’. Um lugar num local isolado desde o terremoto de setenta e quatro, era o que antes eu quase chamava de ‘’casa’’.
Grande, imenso, era similiar a uma usina nuclear ‘’abandonada’’.
Já viveram pessoas ao redor desse lugar, antes de ser o que é, antes do ano de setenta e quatro. Agora é só um lugar esquecido por tudo e todos.
Menos por mim.
Menos por Miku.
Menos por ele.
Menos por aquelas pessoas.
Nada protegia aquele lugar, porque nunca houve ou haverá uma ameaça num lugar que ao menos se lembravam da existência. No entanto, vive num pleno funcionamento. Claro. Os canos expostos ao redor do terreno estavam sujos e enferrujados. Rangiam e ar quente era constantemente expelido, provocando um chiado.
Eu apertei a faixa do meu cinto do banco do carona quando nos aproximamos da entrada.
Nos quarenta minutos do nosso trajeto, menos da metade foi usado pra explicar a Len o que estava acontecendo. Desde então estava quieto, perguntando umas coisas ou outras. Fiquei surpresa, mas também não impedi dos outros vierem também, mas em um segundo carro obviamente.
Todos nós sabíamos quem era Miku.
Como não conhecer Hatsune Miku?
Creio que já sabiam dela desde o nosso primeiro encontro. Tenho quase certeza. Miku é icônica, e suspeita, também. Mesmo parecendo que não, ela zela pela pouca ‘’imagem’’ que tem.
Bati a porta do carro de leve, dando a volta no carro e esperando Len.
Quando nos aproximamos de verdade, segurei em sua mão e o saí puxando, sempre na frente, guiando os outros desocupados.
Eu sei que eles ficaram surpresos ao entrarem lá pela primeira vez. A frase o ‘’interior é o que importa’’ realmente cabe à situação. Era como duas realidades diferentes o lado externo e interno.
Moderno, limpo, branco.
Assemelhava-se a um hospital.
‘’Branco é a cor da pureza’’, não?
As pessoas que permaneciam na entrada não fizeram nenhum tipo de alarde, porque eu já era esperada, afinal.
Os guiei até o elevador do final do primeiro corredor a direita, apertando o botão do nono andar, e aguardando as portas se fecharem.
Quando ouvi o pequeno barulho indicando que nosso andar havia chegado, lembrei do quão habitual isso costumava ser. Dei um passo para fora, trazendo Len comigo, e logo após o resto do grupo que me acompanhava.
Miku não tinha uma sala, ela tinha um andar, um local todo para ela. A visualização mais perspicaz seria como um lugar enorme projetado especialmente para ela. Um andar sem paredes, um lugar praticamente ilusório aos olhos.
Lá, no alto de tudo, da situação, estava ela.
Sua cadeira realmente ficava em um patamar mais alto que a dos outros.
Miku gostava de ser ‘’superior’’, absolutista.
Seus cabelos estavam presos como se havia acabado de sair de uma reunião. Um rabo de cavalo alto. Miku tinha um péssimo hábito de ler no escuro, e se divertia distraidamente com um tablet no seu colo, iluminando seu rosto e seus óculos pelo reflexo.
A luz estava baixa, tudo estava tradicionalmente escuro no seu andar.
Ela queria se diferir daquele branco.
Nada que eu não soubesse.
Soltei a mão de Len e dei um passo à frente, batendo meus sapatos no chão.
–Miku.
Ela levantou sua cabeça e se desviou do aparelho, como se só notasse minha presença naquele momento. Seus lábios pintados para ser rosa, formaram um pequeno sorriso.
Não muito tempo depois, senti uma mão puxar o meu braço com força o suficiente para me desequilibrar. Olhei para Len, que havia sido jogado no chão por Kaito, a mesma pessoa que me puxava.
Senti ele arrancar alguns fios do meu cabelo quando ele arrancou a pequena lótus de mim.
Jogou-a no chão e a pisoteou o quanto conseguiu, até Len o empurrar para longe de mim.
Passei a mão por cima dos lábios para limpar o sangue que escorreu do meu nariz.
Uma dor aguda atingiu minha cabeça.
Eu sabia que algo iria dar errado.
Tinha que dar.
Estávamos falando de Hatsune Miku, afinal.
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