Karakuri Burst
8 Na minha vida.
Notas iniciais

LEN POV'S ON
Flashback on
Eu estou no chão, mas me sinto sem ele. Eu não sei o que fazer, a não ser chorar.
–Ei muleque! – Um fazendeiro que aparentava ser bem velho surgiu – Saia da minha propriedade!
–P-por favor... – Estava com a voz embargada de choro – A levaram...
–Do que esta falando muleq... Misericórdia! O seu olho! Você vai perder a visão garoto!
–N-não i-importa... Se você pudesse me matar... Eu morreria grato.
Realmente, não tinha mais a necessidade da minha existência nesse universo. O que fui até agora? O que de grande eu já realizei? Nada. Não sou nada, essa é verdade, mesmo que seja bem dura de admitir. Alguém ia sentir minha falta? Não. A única pessoa com que me importo vai sofrer até morrer, não preciso ser um gênio para saber disso.
–Eu não vou fazer isso. Me recuso a te matar, mas se quer tanto morrer tem uma rodovia logo ali na frente. Se jogue no meio da estrada e espere, porque é resultado garantido.
Essas palavras não doeram. Não me importo.
–Qual o seu nome hein?
–Len, Kagamine Len. Como se isso fosse importante.
–Muito impertinente! Mas você é um loirinho de olhos azuis, tem cara de ser filhinho de papai, playboyzinho.
Era só o que faltava, filhinho de papai? Desde que me lembro meu pai me evita, não olha na minha cara, não dá um ‘’boa noite’’ ou ‘’bom dia’’. Sei que ele não me ama, mas ainda machuca.
Finalmente parou de sair sangue pelo corte. Meus braços e pernas doíam mas ainda sim me levantei. Apenas para ser jogado de volta ao chão.
–Te achei.
Frio, frio e seco. A voz que eu só devo ter escutado umas 3 vezes ao ano, porem inconfundível: Meu pai, Leon.
Se tinha alguma coragem em mim ela se dissipou por completo. Senti um calafrio gigante apenas com aquelas duas palavras.
O olhar de reprovação do meu pai me percorria da cabeça aos pés. Analisou minhas roupas e não teve nenhuma reação ao reparar no meu rosto. Ele me puxou pelo capuz do casaco a ponto de meus pés não tocarem no chão. Mandou um olhar sinistro para o velho fazendeiro que simplesmente foi embora.
–O que você fez peste?
–E-eu...
–Eu vou repetir e quero me responda como homem – Engoli em seco. – A mãe daquela sua amiguinha, e mais um monte de pessoas irritantes vieram até minha casa por sua culpa. O que você fez com ela? O que você fez peste?
–Nada. Pai, me escut... – Fui interrompido
–Não me chame assim. Eu não sou seu pai. Não mais.
–Vieram duas pessoas que a levaram! Eu tentei com todas as minhas forças, mas a levaram!
–É mesmo? – Respondeu indiferente – Não acredito. Não acredito em você, e mesmo se essa sua historinha for verdade, não pode ser um Kagamine. Não foi homem o suficiente para protegê-la. Parabéns Len, conseguiu descobrir mais uma maneira de me desapontar.
Isso foi horrível. Ele realmente sabe como fazer tudo ficar pior.
Ele me pôs no chão sem soltar o capuz e começou a me arrastar pela grama, que arranhava minhas pernas. Depois me arrastou pelo asfalto, o que abriu feridas. Me jogou em um quintal e pude ver que vários vizinhos formaram um circulo ao meu redor.
–Leon, o que essa coisa fez com minha pequena?
–Miriam, eu acho que ele a entregou para dois homens.
O que?! Como ele pode falar uma coisa dessas?!
–Miriam eu... – Me cortou
–CALADO! – Lágrimas começaram a rolar por seu rosto – VOCÊ É UM MONSTRO! É A SEGUNDA PESSOA QUE MATA!
–E-eu não matei ninguém!
–Ah não? – Leon falava aquilo como se estivesse engasgado há muito tempo – Eu nunca gostei de você por isso. NUNCA! Eu te odeio desde o dia que nasceu, porque foi o dia que a matou! Me enchia de perguntas imbecis : ‘’Papai, onde esta a mamãe?’’ ‘’Porque eu nunca vi a minha mãe?’’ QUER SABER ONDE ELA ESTA? MORTA! A SETE PALMOS DO CHÃO! E TUDO ISSO POR SUA CAUSA! Eu te ignoro e te evito, porque eu não quero perder a cabeça e cometer assassinato!
Os vizinhos vaiavam e atiravam coisas em mim. Era isso? Todo esse tempo, todo esse ódio. A culpa é minha! Eu nunca queria ter nascido, eu estraguei a vida da minha mãe e corroí a vida do meu pai.
–Mas até que foi bom – Riu – Desse jeito Ann não precisa ter esse desgosto de filho!
Dito isso, ele me chutou na barriga e eu cuspi sangue. Alguns vizinhos aplaudiram e outros permaneceram calados. Mas não me dei ao luxo de chorar, não, de jeito nenhum. Não mais.
–Essa maldição tem que sofrer Leon! – Miriam apontou pra mim – Ele matou a minha pequena, é um assassino!
–E vai... ah se vai.
Ele tocou no meu corte e disse:
–Isso é para você se lembrar do mostro que você é, e o que fez.
Leon pegou um pedaço de madeira que tinha espalhado pelo terreno e deu uma pancada bem forte na minha cabeça. Eu toquei em meu cabelo que estava melado de sangue. As pessoas se moviam mais devagar e os sons ficaram abafados. Leon e Miriam possuíam um sorriso macabro no rosto e minha visão começou a ficar turva, até ficar completamente preta.
Então foi assim minha vida? Acaba aqui? Eu só estou pensando como tudo foi horrível até agora. Na escola eu não tinha um único amigo, me chamavam de esquisito e todos se distanciaram. Quando chegava na classe escutava sussurros ao meu respeito e não podia fazer nada. Me sentava bem no fundo, onde ninguém se atrevia a ir. Já teve uma vez que jogaram lixo em mim.
Mas nada importava. Se no final de cada dia pudesse ver o sorriso de Rin, nada importaria. Os xingamentos, as agressões, os olhares, Nada. Toda vez que me encontrava com ela me sentia renovado, e enfrentaria o mundo todo ao seu lado se necessário.
Mas não posso. Ela não esta mais aqui.
Abri o olho novamente, minha visão retornou, porem tudo girava. Ainda era noite e estava frio. Não tinha mais ninguém naquele terreno. Definitivamente não estava bem. O barulho de um par de sapatos se aproximou e não tive forças para levantar a cabeça. Apenas vi fios grandes e louros me pegarem em seu colo e apaguei novamente.
Acordei em uma sala branca e com ataduras no meu rosto, devia estar em algum hospital. Rapidamente as tirei e abri os dois olhos. Sim, eu estava enxergando com os dois olhos. Pulei da cama e andei até onde deveria ser o banheiro, me olhei no espelho e estava lá, bem cicatrizada e as palavras de Leon me atingiram:
‘’Isso é para você se lembrar do mostro que você é, e o que fez.’’
Que inferno! Eu odeio esse homem, não! Eu odeio essa criatura desalmada que julga ser meu pai!
Num ataque só, dei um soco no espelho que se rachou. Minha mão havia se machucado, mas trazia a tona o que restou dos meus sentimentos: Dor.
E a dor era boa. Minha companhia.
Um medico entrou na sala e eu fechei a porta do banheiro rapidamente. Sentei na cama e ele falou um turbilhão de coisas sem sentido que não prestei atenção.
–E a moça de longos fios louros?
–Filho, – pôs a mão em meu ombro – Não veio ninguém com você. Te encontramos na porta do hospital em um estado deplorável. Lavamos as suas roupas e você segurava isso na sua mão.
Ele me mostrou um tapa-olho preto de couro. O peguei e o medico foi embora, anunciando que estava liberado. Mesmo estando com visão pus o tapa-olho para ter certeza que nunca esqueceria daquela mulher de longos fios louros.
Estava na porta do hospital olhando para o nada sem ter idéia do que fazer. Já trajava as minhas roupas e caminhava sem rumo até que vi um beco com umas caixas razoavelmente grandes, perfeitas para um corpinho de 8 anos. Me encaixei e me encolhi logo antes de abraçar meus joelhos.
Era uma noite fria novamente e eu podia muito bem ver minha respiração. Me encolhi ainda mais numa tentativa falha de me esquentar. Sem ter mais opções, dormi.
Até que tive uma idéia: Suicídio!
Sim! Isso é a solução dos meus problemas! O fim da dor, o fim da fome, o fim do frio, o fim da culpa! Além de tudo isso irei encontrar minha mãe e Rin! Vai ser perfeito!
Mas... Como irei fazer? Não tenho uma corda pra me enforcar e tentar me afogar precisa de água. Não quero me cortar e morrer aos poucos, com chance de alguém me salvar. Vou pular de um viaduto. Isso, um baque só e estou morto.
Andei por cerca de 45 minutos até finalmente chegar ao meu destino. Subi na mureta e pensei: ‘’Até que... é bem alto, vai ser a sensação de voar, ser livre. ‘’ Sorri com esses pensamentos. Me inclinei só um pouco pra frente, pronto pro que ia acontecer.
...
–Ei!
Alguém me abraçou por trás e me impediu de pular. Um policial.
–O que pensa que esta fazendo?!
–Livrando o mundo desse lixo inútil! – Respondi seco
–Não comigo aqui!
Então o policial me colocou dentro da viatura e me levou até um reformatório infanto-juvenil. Lá eles trocaram minhas roupas por um uniforme cinza e não fizeram perguntas. Graças a Deus
Pra alguém de 8 anos eu estava assustador. Cabelo desarrumado, marcas e arranhões no corpo, uma cicatriz enorme no rosto junto com um tapa-olho e uma cara de quem se meter no caminho perde a vida.
Me empurraram pra dentro de uma cela com um garoto bem pequeno e esverdeado.
–Eu quero saber de uma coisa ô Loiro.
–Loiro? Ah, cara tanto faz. O que quer?
–Quero saber se quer sair daqui.
–Não viaja, não tem como sair dessa droga.
–Tem. Claro que tem. Não pode ser hoje nem amanha. Mas quinta-feira dá.
–Quinta? E porque me quer junto?
–Proteção.
Claro. Ele tem algo a ganhar.
–Não fomos devidamente apresentados. Kagamine Len
– Gachapoid Ryūto.
–Ainda é domingo. Preciso que me explique em detalhes o que vamos fazer.
Ficamos um belo tempo conversando sobre o plano, o tempo em que íamos realiza-lo, as horas de guarda e o tempo para almoço. Até que um guarda anunciou que era hora de recolher porque amanha as 6:00 em ponto começariam os trabalhos.
As luzes do reformatório foram se apagando de uma em uma até ficar um breu total.
–Cara, ta dormindo?
–Tentando. – Resmunguei.
–Como veio parar aqui?
–Nasci.
–Eu estava roubando comida com a minha irmã mais velha, só que quando ela foi pegar um guarda percebeu. Eu empurrei ela na hora que o guarda levantou o porrete. Desde então estou aqui.
–Qual o nome dela?
–Gumi. Sinto falta dela.
–Aff, foi mal mas não sou mais do tipo sentimentalista. Só posso dizer sinto muito e voltar a tentar dormir.
–Obrigado senhor por não me enviar um mariquinha-shota pra ser meu colega de quarto.
–Idiota. – Murmurei em um tom bem baixo para que só eu possa ouvir
Amanheceu com um maldito guarda disputando com o alarme pra ver quem gritava mais alto. As celas se abriram e fomos para o refeitório. Um tipo de comida suja era servida, mas se eu parar e pensar quanto tempo estou sem comer aquela comida tem aparência de hambúrguer.
Sentei com Ryūto em uma mesa qualquer com milhões de chicletes coladas em seu inferior. Comecei a comer até que Ryūto deixa sua colher cair. Eu pouco me importaria se o barulho ensurdecedor daqueles delinquentes não tivesse cessado por completo e um silencio perturbador não se instalasse no local.
–Você. É novo aqui não é?
–Quer saber mesmo a resposta ou você é muito burro pra não ver obvio? – Falei sem tirar os olhos do troço... ou comida.
–Cuidado ao falar comigo assim.
–Eu não tenho medo de você
–Devia ter. Você é bem parecido comigo. Mas não provoca o medo nas pessoas como eu.
Levantei o olhar e o sujeito parecia comigo. Loiro, de cabelos na altura das orelhas, com o olho direito coberto por ataduras que sumiam em seu cabelo e com o olho esquerdo dourado.
–Não devia se meter comigo.
Se eu sabia o que estava fazendo? Não, claro que não. Mas eu mudei, e se for pra ser Len BadBoy, eu vou ser o pior que aquele reformatório já teve.
Ele meteu um soco no meu rosto e revidei com outro bem no queixo. Começamos a brigar feito dois animais e um montinho se juntou ao nosso redor gritando: ‘’BRIGA!BRIGA!BRIGA!’’
Um guarda assoprou um apito e vários se juntaram e partiram pra cima daquele bolo de pessoas. Me imobilizaram e imobilizaram aquele idiota ridículo.
Nos levaram para uma sala escura que só tinha uma luz branca bem forte refletida em nossos rostos.
–É a quinta vez essa semana Oliver, vai ficar surrando todos os novatos? – Uma voz surgiu de uma caixinha de som no canto da sala.
–Não. Agora eu só tenho o objetivo de acabar com esse loiro de farmácia aqui.
–Desculpa, Não escutei a menininha falando, pode repetir por favor? – É, talvez não deviam nos deixar em uma sala pequena sozinhos só com uma luz e uma voz nos monitorando.
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