Karakuri Burst
50 Memórias de um passado esquecido.
Notas iniciais

LEN POV’S ON
Anemia.
O sintoma mais comum de anemia é fadiga. Pode ser difícil para a pessoa com anemia ter energia para atividades normais.
Palidez, gengivas esbranquiçadas, unhas descoloridas.
Ela não é uma doença, mas um distúrbio.
Às vezes, as crianças podem ser cruéis.
Flashback on
É normal ser diferente, certo?
Deveria.
Eu cansei de tentar inúmeras e repetidas vezes de me socializar. Podemos chamar de ‘’perda de tempo. ’’
São pensamentos relativamente maduros pra uma criança de sete anos, não?
Não.
Pra mim não.
Quando ficamos sozinhos, pensamos demais. É um fato. Não há nada mais a fazer a não ser escutar os próprios pensamentos.
Diga uma pessoa que fica feliz ao acordar cedo para ir pra escola. Eu não consigo pensar em uma. Mas são apenas resmungos de que gostariam de dormir mais, permanecer na cama, não levantar para ir à escola.
Talvez eu me encaixe nisso. ‘’ Não levantar para ir à escola. ’’
Ir à escola.
Eu odeio aquele lugar.
Quando a expressão séria escapar do meu rosto, baterei palmas.
Empurro as cobertas para longe do meu corpo, havia feito frio aquela noite. Não que eu não goste, eu particularmente odeio o verão.
‘’Odiar é uma palavra muito forte, Len. ’’
Que pena. Odeio quando falam assim comigo.
Sento na cama cruzando as pernas, soltando um suspiro entediante. Olho com discrição meu uniforme.
‘’Uniforme é o que tem relação de igualdade, que é semelhante, idêntico, regular, constante, compassado. ’’
Eu não sou como todos eles. ’’Relação de igualdade’’. Claro. Como se todos me tratassem como um ‘’igual, semelhante. ’’
Qual a vocação de uma pessoa a ir para escola?
Ensino?
Amigos?
Amigos. Ver aquelas pessoas fazem o dia ‘’menos pior ’’, digamos assim.
Mas eu não tenho amigos. E se eu preciso de um?
Obviamente que sim.
Obviamente que não.
Não irá fazer diferença, de qualquer forma. Sou apenas um espectador observando as pessoas em seus círculos de amigos.
Uma pessoa ganha na loteria.
‘’Sortudo’’ dizem.
Não, a definição não deveria ser essa.
Se enturmar, ser carismático, simpático, amigável, atlético, rir a toa e ser parte de algo.
‘’Sortudo’’ direi.
Visto meu uniforme sem mais delongas. Gasto muito tempo com esses meus pensamentos rotineiros, e devo dizer, inúteis.
Vou até meu banheiro, pegando minha escova afim de escovar os dentes. Encontro meu reflexo no espelho.
–Você é o loiro de olhos azuis. Perfeito. – Falo desleixadamente por culpa da espuma do creme dental na minha boca. – É. – Cuspo. – Até parece.
Porque eu simplesmente não faço o que dizem?
‘’Você é estranho. ’’
Não, sou apenas diferente.
‘’Qual o problema daquele garoto?’’
Depende. Qual deles você notou?
‘’Porque continua aqui?’’
Eu não sei.
‘’Finalmente desistiu de tentar?’’
Só estou cansado. Apenas isso.
–Aliás, você parece uma menina de qualquer jeito. – Argumento para mim mesmo. Olho-me no espelho mais uma vez. – E prender o cabelo deste jeito só te deixa ainda mais estranho.
Tudo bem, eu não me importo.
Porque caralhos você se importa tanto com o que eles dizem? Idiota.
Pego minha mochila e forço a maçaneta do meu quarto. Trancada, assim como presumia. Tateei meus bolsos atrás da chave acinzentada. Bolso esquerdo casaco, claro.
Destranco minha porta escutando atentamente os ‘’clicks’’ metálicos que ela produzia ao longo que a chave era virada.
Saio do meu quarto guardando a chave no meu bolso novamente, logo partindo até o fim do corredor, para descer as escadas.
Claro, para o ciclo vicioso que chamamos de ‘’meu dia’’ recomeçar mais uma vez.
Da minha casa até o refúgio dos filhos de Lúcifer, digo, escola, é cerca de 10 minutos de caminhada. Coloco meus fones enquanto caminho pela calçada de rachaduras.
Olho minhas músicas. Após ouvir várias e repetidas vezes a mesma melodia ela se torna enjoada, monótona, sem graça. O silencio sempre me aquietou, ao contrário de muitas pessoas que sempre procuram se afugentar dele.
Observo meus pés durante a caminhada, eu sei que vou ficar cansado. Gasto de energia, perda de tempo. Enquanto estiver afundado na anemia eu não deveria ao menos tentar. Não consigo fazer as mesmas coisas que muito, por isso sou qualificado como esquisito, inútil.
Levanto minha cabeça e olho para as minhas mãos. Esbranquiçadas, estranhas, há algo errado comigo.
‘’Fraco. ’’
Não, apenas não estou me sentindo muito ‘’forte’’ hoje.
Olho para os portões da minha escola. Daqui, mesmo estando um pouco afastado consigo ouvir as vozes embargadas de sono ou de animação. Risos animados, sorrisos brilhantes.
Sortudos.
Eu crio risadas.
Faço falsos sorrisos.
E vocês com essa genuína felicidade, me dão raiva.
Odeio todos vocês.
Espero que saibam.
Passo pelo portão, vendo os típicos e imutáveis grupinhos de amigos. Todos em seus círculos fechados.
‘’Você definitivamente não se encaixa, Len. ’’
Diga-me algo novo.
Aumento meus passos. Odeio ficar no pátio com essas pessoas, se é pra ficar isolado, que seja realmente isolado.
–Mas, quer dizer, que vem pra escola assim? – Sussurra uma garota.
–Isso não é normal. – Replica outra.
–Shhhh! – Adverte uma menina com voz irritante. – Não fale tão alto, ele está passando! – Grita com voz relativamente baixa.
Meus olhos estão cravados no chão. Não vale meu tempo.
Sinto alguém tocar meu ombro.
Não me toquem.
Não quero ter nenhum tipo de contato com vocês. Eu odeio vocês, não fui feito para me socializar, apenas para ser o espectador da vida inútil de vocês.
–Len? — Não fale comigo, droga. Me viro para uma das garotas que me encaravam com cara de quem havia ‘’aprontado’’ e a mãe descobriu. – Erm... Você por acaso escutou algo?
Sim, eu consigo ouvir os sussurros sobre mim.
–Não. – Respondo, apontando para meus ouvidos. – Música.
Sim, música, aquela que eu sequer dei ‘’Play’’.
As garotas olharam para meu fone e sorriram.
Seus sorrisos são falsos, mas não tão como os meus.
Vocês falharam.
Sigo meu caminho até adentrar os corredores da escola, vagando até a sala 2-B. Segundo ano do fundamental... É um lixo.
‘’Você realmente gosta de ficar sozinho, né?’’
Eu não tive escolhas. Não optei por isso. Quem pede pra ser recluso? Quem gosta disso, imbecil? A única coisa que me forcei a fazer foi me adaptar.
Vou até a minha carteira mapeada. Sento naquela cadeira gelada, me reclinando um pouco para descansar minhas costas no encosto.
Faltam poucos minutos para sete da manhã. Eu deveria guardar meus sapatos no meu armário antes que o corredor se lote de gente. Nada melhor do que ser compressado ao próprio armário.
Suspiro com descontentamento. Que desnecessário. Se eu pelo menos racionasse um pouco mais, notaria que deveria ter deixado meus sapatos no armário antes de vir para cá, e agora preciso retornar ao caminho.
Ponho minhas mãos na carteira ao me levantar. Retorno ao gélido corredor, por conta do ar condicionado, da minha escola. Sigo pelo canto do corredor, com os fones fincados a meus ouvidos, mesmo não escutando nada. Não é a primeira nem será a última vez que fones me esquivam de conversas indesejadas.
Há pessoas por toda parte no corredor, mas nunca sozinhas, todas conversando sobre a estupidez rotineira. ‘’Dever? Que dever?’’ ou ‘’Ah cara, me passa, por favor, eu não podia ter esquecido essa lição. ’’
Uma palavra, treze letras, e um significado.
Incompetentes.
Desvio-me das pessoas, sequer me aproximo. Algum deles certamente simularia um tropeço para trombar em mim.
‘’Desculpa, cara.’’
Não.
Se não fizesse isso propositalmente e todos os dias, eu ponderaria.
Estou cansado de ver essa cena, apenas isso. É o que dizem, melhor do que prevenir do que remediar. De novo.
Chego até meu armário, e pego mais uma das minhas chaves para destranca-lo. Coloco meus sapatos no fundo, e coloco uma espécie de surippa¹ para andar por aí. Pego alguns cadernos de determinadas matérias que teriam.
Coloco meus cadernos embaixo do braço, segurando com o máximo de firmeza que meu organismo permite. Volto para a sala com um caminho um pouco mais conturbado, mas não indisponível. Há essa hora, certos ‘’sortudos’’ já se encontravam na parte interna da escola, ou seja, onde estou.
Sentei-me na primeira cadeira da última fileira da classe. Não, eu não podia observar a janela feito um imbecil que quer comer chuva. Não desenhava na mesa. Não cutucava as pessoas. Não mordia minha caneta. Não assoprava o pó de borracha. Não virava pra trás para conversar. Não conversava.
Não, não, não, não.
Limite-se a isso, Len.
Não tardou para a professora chegar. Coque desengonçado – ridículo. -, blusa de botões, saia até o joelho, sapato com pequenos saltos, e uma caneta azul atrás da orelha.
Nos levantamos de nossos devidos lugares em sinal de respeito a educadora. Após um breve aceno de cabeça, voltamos a nos sentar.
A professora colocou suas coisas encima de sua mesa. Abriu sua bolsa azul escuro e sacou um pequeno estojo preto de lá. O barulho do zíper ecoou. Ela pegou uma caneta esferográfica e deu leves batidas na mesa com a tampa da caneta. Uma, duas, três vezes.
–Eu passei alguma lição para casa? – Questiona.
Sim, passou.
–Não, não passou professora. – Nem me dei ao trabalho de virar a cabeça. Ichiro, um desocupado qualquer, respondeu.
A professora apertou seus lábios, um tipo de tique característico da senhorita Akemi em sinal de que está pensando se o que Ichiro disse é verídico ou não.
Não, não é. Ela passou a lição há dois dias. Página cento e vinte e dois, exercícios de cinco a catorze. Acontece que esse ser com retardo não fez ou deve ter esquecido.
Ela sorri.
–Obrigado pela honestidade. – Respondeu.
Conte com essa honestidade que você vai parar no quinto dos infernos.
–Bem, retomando nossa última aula... – Ela se vira de costas e começa a escrever no quadro.
Cerro meu punho.
Suspiro.
Algum filho de mãe mal amada jogou uma bola de papel em mim.
Balanço minha cabeça em negação. Isso não me importa.
Importa sim.
Abro meu estojo e pego minha caneta azul. Abro meu caderno e procuro a última página usada para minhas anotações. Toco a folha com a tinta nanquim da caneta. Escrevo dois ou três kanjis².
Um risco na folha.
Mais uma bolinha de papel.
E veio de outra direção dessa vez.
Fecho os olhos e solto ar pelo nariz.
Tanto faz.
Volto a escrever, porém apenas durante um intervalo de 15 segundos até outra bolinha me acertar.
Eu te divirto?
Fazer isso comigo é divertido?
–Hideki! – Grita a professora, que aparentemente se virou e viu a idiotice diária que seus alunos do ‘’fundão’’ fazem. – Isso não é comportamento exemplar de um aluno! Pare com isto imediatamente, antes que eu te ponha pra fora de sala.
Te garanto que o comportamento dele não é exemplo pra ninguém.
O barulho dos saltos contra o chão à medida que ela anda se prendem na minha cabeça. Direito, esquerdo, direito, esquerdo. Exatamente catorze passos até minha carteira.
Suspiro antes de começar uma conversa desnecessária que será ouvida por toda classe.
–Como você está, Len? – Pergunta ela.
Olho para cima, ela está me olhando daquele jeito.
Pena.
‘’Pobre garoto. ’’
Não consegue enxergar o que se passa dentro de mim? Estou vestindo uma máscara de falsa alegria, e, no entanto, você não é capaz de enxergar.
–Estou bem. – Respondo.
Não, não está.
–Tem certeza? – Insiste.
Nenhuma.
–Absoluta. – Completo.
Pare de mentir.
A professora se afasta, os barulhos do salto ecoam na minha mente mais uma vez. Suspiro, eu não sou capaz de prestar atenção na matéria agora.
Você não é capaz de exibir a verdade.
////
O último sinal é ressoado por toda escola.
‘’Liberdade!’’ gritam alguns exagerados. Claro, como se estivessem numa carceragem. Guardo alguns cadernos na minha mochila e aguardo exatos vinte minutos numa sala de aula vazia, com a minha exceção. Por quê? Bem, não quero ir na multidão desesperada para ir pra casa.
Pronto, é o suficiente.
Me levanto da cadeira, colocando minha mochila nos ombros e observando a sala.
Não tem ninguém aqui.
Você está sozinho, Len.
Como sempre, aliás.
Olho em volta, meu olhar fixa na janela. Pingos de chuva caem com força e rapidez.
Saio da sala e me dirijo ao armário, trocando meus sapatos e deixando alguns dos cadernos que carreguei até a sala de aula, e que não terei de levar para casa.
Vou até a extrema parte coberta da minha escola, onde a marquise me protege dos pingos, mas não da ventania. Ótimo, eu não trouxe guarda-chuva.
Droga.
Suspiro, antes de começar a correr para casa. No meio do trajeto, a chuva se intensificou. Ponderei se valia a pena ou não ir até o ponto de ônibus coberto que havia ali por perto. Eu já estava encharcado, que diferença faria?
Ah, claro.
Você não pode correr como todo mundo, não pode brincar como todo mundo, você não é como todo mundo.
Definitivamente não é.
E você sabe disso.
Paro no ponto de ônibus, e descanso, tentando controlar minha respiração descompassada e ofegante.
–Porque mesmo eu não trouxe meu guarda-chuva? Mamãe me avisou que iria chover e eu não trouxe mesmo assim, droga. – Praguejou uma voz do meu lado.
Uma voz feminina, a propósito.
Viro a minha cabeça e observo a menina ali do meu lado.
Loira, olhos azuis, cabelo curto. Usa um laço que deixa ela com uma tremenda cara de coelho, e eu não sei dizer se isso é bom ou ruim, uma mochila cor de rosa, e em vez de usar o casaco numa ventania chuvosa igual uma pessoa normal, está com ele amarrado na cintura.
Eu não preciso me socializar.
Mesmo não recuperando o fôlego por completo, trato de ir embora dali.
Ou pelo menos tentar.
Começa a cair granizo.
–Droga. – Resmungo.
Isso é tão clichê.
–Argh! – A menina reclama mais uma vez. Tem cara de quem tem sete anos assim como eu, mas reclama como se tivesse setenta. – Eu não acredito nisso.
Olho para o lado, a luz do anúncio que tem no ponto de ônibus se apaga subitamente.
–A luz acabou... – Murmuro.
Ela pega o celular e o olha por um momento.
–‘’Apenas chamadas de emergência’’ – Murmura. – Não... – Olha para mim, como se finalmente tivesse notado minha presença ali. – Pode ver se no seu celular tem sinal?
Meu plano era não falar com você.
–Só um segundo. – Pego meu celular. ‘’Apenas chamadas de emergência. ’’ – Não tem.
–Droga... – Resmunga.
O céu está acinzentado e a chuva não cessa.
Para completar, passa um carro relativamente rápido, e joga água acumulada numa poça em nós, terminando de nos encharcar.
Olhamos um para o outro antes de suspirarmos.
Ela sobe encima do banco de metal do ônibus e eu repito sua ação.
Um trovão ressoa pelo ambiente, criando um grande estrondo.
Só falta ela ter medo de trovões para ser ainda mais clichê.
No entanto, ela apenas observava o céu com uma tranquilidade anormal para uma garota que ela parece ser. Se inclinava um pouco para frente para ver os raios cortando o céu. Repentinamente se vira para mim e faz cara de irritada. Tira o casaco da cintura e rapidamente o veste, e começa a tentar acertar o zíper para fecha-lo.
–Não é para olhar aqui! – Grita, meio nervosa. – Só porque meu uniforme é branco, isso não quer dizer que...
Não vou mentir, instantaneamente olhei para lá. Um milésimo de segundo depois ela fecha o casaco até o pescoço.
Reviro os olhos.
Como se tivesse algo para mim olhar aí.
Observo a chuva, ela não dá trégua para eu desaparecer da situação.
–Você não é o garoto de que todos falam? – Ela pergunta estreitando os olhos.
Olho para ela e desço meu olhar até a sua saia. Olho a insígnia da escola na ponta dela. Ela não estuda no mesmo lugar que eu.
–O garoto que...
–Matou a própria mãe? – Interrompi. – É, sou eu. – Dei uma pausa. – Se sente melhor agora? Me xingar te fez sentir melhor agora? – Perguntei com desprezo.
Ela se encolheu.
–É Rin. – Falou. – Kagamine Rin.
–Não ouvi ninguém te perguntando nada. – Respondi. Eu odeio quando falam da minha mãe.
–Grosso... – Murmurou.
–Chata... – Murmurei.
–Estranho! – Gritou.
–Intrometida! – Gritei.
–Cresça, garoto. – Ah claro, isso vindo dela significa muita coisa. – Você é ‘’aquele garoto’’ que todos falam. Acha mesmo que eu quero continuar a falar com você? Eu não tenho costume de falar sozinha, sabe? ‘’Sozinha?’’ Você pensa. Sim, pra mim e pra todos, você vale o mesmo que nada. – Sorriu.
–Oh Laranjinha. – Sorri com a mesma maldade. Desci do banco. – Você não pode atingir os sentimentos de uma pessoa que nunca os teve.
Arrumo minha mochila nas costas e vejo que a agora a chuva não passa de uma simples garoa.
–Laranjinha? – Pergunta com cara de confusão e irritação ao mesmo tempo, enquanto colocava as mãos na cintura.
–Sim. – Sorrio. – É porque você é gorda e redonda como uma.
Viro de costas para ela e começo a correr até a minha casa.
Chego na entrada, abro a porta, tiro meus sapatos e vou praticamente correndo até meu quarto, logo me jogando na cama.
Dou um forte suspiro, enquanto me estico, relaxando os músculos.
Ninguém me entende.
Ninguém.
–Len? – Escuto do andar de baixo. – Pode vir aqui, por favor?
Faço uma careta.
‘’Por favor’’?
Desde quando meu pai pede ‘’por favor’’?
–Estou indo. – Respondo.
Saio do meu quarto e trato de voltar a minha habitual cara séria. Não vou por nenhum tipo de expectativa nesta conversa com Leon. Sério, que merda ele quer? Ele mal fala com o ‘’indesejado’’ como ele próprio diz.
Desço as escadas e olho pra ele.
Na minha perspectiva, ele está de costas para mim, observando a janela que temos na parte frontal da casa. Me aproximo com cautela.
–Tenho algo a te dizer. – Voz monótona, embargada de seriedade, como sempre. – Está vendo a casa a nossa frente?
Olho pela janela. Uma casa azul de dois andares, feita no mesmo estilo que a nossa. Um mesmo padrão.
–Sim. – Respondo.
–Eu não quero você lá. – Conclui.
Curto e grosso. Habitual.
Ele saiu de perto de mim e foi para qualquer lugar, não importa.
Debrucei no parapeito da janela, e comecei a observar a rua que separava as casas, até meu olhar se fixar na janela do andar de baixo.
Me acomodei melhor, estreitei os olhos.
A pessoa na janela frontal da casa em frente a minha, fez o mesmo ato que eu.
A gorda e redonda é minha vizinha então?
Como os vidros estavam levemente embaçados por conta da condensação, ela escreveu algo na janela.
‘’Idiota. ’’
E fez uma careta pra mim, mostrando a língua.
Sorri, escrevendo o mesmo que ela.
‘’Idiota. ’’
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