Karakuri Burst
51 Guarda chuva azul.
Notas iniciais

LEN POV’S ON
Flashback on
Qual a minha escolha a não ser levantar? Escutar isso até o óbito, claro.
Estiquei meu braço até o criado mudo, peguei meu celular, olhei a hora, desativei o alarme.
Empurrei as cobertas para o lado, logo saindo da cama. Seis e meia da manhã. Relativamente tarde para quem acorda cinco, relativamente cedo para quem acorda nove.
Mas não importa, continua o mesmo ’’chamado sexy da morte’’ pra quem precisa levantar.
Visto meu uniforme, coloco minhas meias e o sapato.
Observo o céu pela minha janela. Nublado, chato, monocromático.
Pego meu guarda-chuva azul e o guardo no bolso da frente da minha mochila.
Vou andando até o banheiro, tropeçando no meu sapato jogado por aí e quase caindo.
–Droga... – Resmungo. Pego o sapato e jogo em qualquer canto do meu quarto.
Que criança aplicada eu sou.
Abro a torneira, juntando minhas mãos em formato de concha, pegando um pouco de água e jogando no meu rosto. Olho meu reflexo no espelho.
Ah, remela.
Esfrego meus olhos com os dedos. Dou duas ou três fortes piscadas antes de deixar meus olhos abertos por completo. Prendo meu cabelo, observando minha diferença notável: Hoje estou menos pálido.
Parece que está funcionando.
Pego a cartela de comprimidos, destacando um e guardando no bolso. Pego minha mochila, que antes repousava na cadeira da escrivaninha, e a coloco, carregando de um jeito desleixado em um único ombro.
Pego minha chave e destranco a porta do meu quarto. Apoio uma das minhas mãos na porta e coloco minha cabeça para fora, espiando os dois sentidos do corredor. Nada.
Saio por completo do meu quarto, fechando a porta com minhas costas. Me desencosto dela, indo até o final do corredor e descendo as escadas. Passo pela sala de jantar até chegar na cozinha. Me apoio na bancada de mármore da pia para alcançar um copo. Seguro ele e vou até a geladeira, jogando meu ombro pra trás para ver se a mochila parava de se mexer.
Abro a geladeira, pego a garrafa de água e preencho o copo com o conteúdo. Vasculho meu bolso atrás do comprimido de cor amarelo claro, inspirando forte antes de por aquilo na minha boca.
Aquilo tem um gosto tão amargo que só eu sei.
Joguei o comprimido na boca e logo tratei de engolir a água antes que os ácidos de dissolvessem na minha língua e me dessem o sabor amargo. Tomei dois goles para conseguir engolir. Coloquei o copo na bancada, arrumei a mochila sobre minhas costas mais uma vez.
Destranquei a porta da frente, saindo, e a fechando atrás de mim. Girei a chave na fechadura e forcei a maçaneta. Trancada, sem dúvidas.
Me virei para retomar o caminho da escola, até que encarei a casa da frente.
Gorda. Redonda.
Ela havia terminado de trancar a porta de casa, assim como eu.
Droga.
Fui andando até a calçada, com cara de quem nem viu. Coloquei meus fones, pus as mãos nos bolsos do casaco e comecei a andar olhando para baixo.
Comecei a murmurar a letra da música, até que quase dei de cara num poste por estar olhando pra baixo.
Ela riu.
Do outro lado da rua, podendo muito bem estar cuidando de sua vida, ela riu.
Olhei para ela, que fez cara de desentendida. Claro, como se não tivesse culpa de nada.
Mimada detectada.
Fiz cara de poucos amigos e voltei ao meu caminho. Estava mais concentrado em não olhar pra ela do que olhar o caminho, e quase dei de cara no poste, isso Len. Vai nessa garoto.
Continuei andando por mais alguns minutos. Um do lado do outro. Isto é, se puder considerar que ‘’um do lado do outro’’ é com uma rua de diferença nos separando.
Escutei um baralho alto. Sabia bem o que era.
Olhei para ela sem hesitar, precisava guardar essa cena na minha cabeça.
Ela tropeçou no cadarço. E caiu.
Quando falam para amarrar o tênis não é à toa, trouxa.
Aos poucos, parei de andar. Ela se sentou no chão com cara de choro, e trouxe sua perna o mais perto o possível de seu corpo, olhando o joelho. Ralado e sangrando, e como foi no chão, provavelmente ardendo.
Ela olhou para mim, eu olhei para ela.
Virei de costas e continuei a andar.
‘’Se vira aí, campeã. ’’
Retomei o meu caminho para a escola, já perdi meu tempo olhando ela cair. Involuntariamente, deixei um sorriso escapar dos meus lábios.
Foi engraçado.
Suspirei pesado, olhando o portão da minha escola. Entrei sem muitas delongas, tentando traçar uma linha reta até as portas que davam acesso interno. Tentei, ao menos.
Meu olhar se desviou para um grupo de garotos jogando um jogo de cartas. Pokémon? Yu-Gi-Oh? Digimon?
Parece divertido.
Balancei minha cabeça, rindo internamente de mim mesmo.
‘’Não, claro que não. ’’
Eles nunca me deixariam brincar.
Voltei a andar e olhar para frente, de olho por onde andava. Quase fui atropelado pelo menino que fugia de uma menina. Olhei. Chiclete roxo preso no cabelo dela.
Entrei no corredor frio e gélido. Ar condicionado no máximo, presumo. Aqui não é hospital, não é necessário esse frio todo por culpa de proliferação de bactérias, e ainda mais com esse clima. Parei em frente meu armário, destrancando ele com mais uma das minhas chaves. Troquei os sapatos, peguei alguns cadernos e fui andando até a sala.
Tirei a mochila das minhas costas, colocando ela nas costas da cadeira. Sentei, me espreguiçando e me permitindo a soltar um bocejo. Deitei minha cabeça na carteira. Isso é um tédio.
Passei um, cinco, dez minutos ali.
Akemi está atrasada. De novo, para variar.
Aos poucos a sala se enchia. Mantinha minha cabeça na carteira. Escutava várias vezes sussurros do meu nome.
–Você ao menos disfarçam. – Murmurei.
Levantei a cabeça, os saltos da professora sempre a denunciavam.
–Bom dia turma. – Disse.
Droga. Tirei os fones e tratei de levantar depressa, assim como todos já permaneciam de pé. Riram. Eu tinha esquecido completamente disso.
Ela deu seu aceno de cabeça, todos sentamos.
–Que tal começarmos com um pouco de Ciências Sócio Históricas? E um pouco de Geografia também? – Houve resmungos de descontentamento. – PIRRALHOS! Digo, alunos. Vamos estudar sobre o Japão. Ficou conhecido como o maior atentado terrorista da história da humanidade. Obviamente podem me dizer qual é.
–Onze de setembro? – Perguntou Hideki.
Tá certo, jovem.
Levantei a mão.
–Pode falar. – Akemi disse.
–Foi o atentado contra Hiroshima e Nagasaki. Onde o governo americano atirou bombas atômicas sobre essas cidades, dizimando milhares de vidas. Esse foi conhecido como o maior atentado terrorista da história da humanidade. Bem, pelo menos por enquanto.
‘’Nerd!’’ Escutei uns dizerem.
–Correto. – A professora sorriu. – Como nosso colega Len acaba de falar, o atentado contra Hiroshima e Nagasaki foi o maior atentado da história. Rezemos aos deuses que isso nunca venha a acontecer novamente. – Murmurou. – Pois bem, Japão e Estados Unidos estavam em guerra, porém algum de vocês acha que justifica a dizimação de várias vidas?
–Não. – Houve um coro.
–Ocorreu nos dias seis e nove de agosto do ano de... – Escreveu no quadro. ‘’1945’’. – Primeiro Hiroshima, depois Nagasaki.
–Houveram alguns sobreviventes? – Perguntou Yuki.
Se eu fosse menina, não gostaria de me chamar Yuki. Fala sério, tem uns trocentos animes e histórias com uma ‘’Yuki’’ no meio.
Tanto faz, ela não tem o que eu tenho no meio das pernas. Eu acho, né.
–Sim, houveram. – A professora respondeu. – No entanto querida, onde a bomba caiu, já era. Morte instantânea, na hora. Não houve nem reação. E também, onde a bomba caiu, não há mais vida. Quer dizer, não há relatos que vida voltou a crescer ali. E crianças, mesmo após a queda das bombas, mais tarde mais vidas inocentes foram tiradas pela radiação. – Deu uma pausa. – Sabem por que pensam, como seu colega Hideki, no tão famoso onze de setembro?
–Por ser mais recente? Em 2001? – Perguntou Mayumi.
–Há teorias. Pode ser que seja isso, pode ser que o povo tenha memória curta. Mas... Não espero que entendam, mas é os Estados Unidos. Nação mais influente e poderosa desde o fim da União Soviética... As pessoas sempre, sempre, vão dar mais atenção a eles.
Ih, legal. Agora a tiazinha vai colocar idéias conspiratórias nas cabeças desses retardados, e eu não quero nem ver.
–Eu sabia! – Gritavam alunos do fundão. – A fêssora é Iluminatti confirmada!
–IHHHHH – Gritava algumas meninas. – É o triangulo!
–Turma, silêncio. – Pedia Akemi.
–Gente, eu sei, Hitler tá vivo. – Começava outro. – Um dia eu estava indo...
–Turma... Silêncio. Eu não quero gritar. – Repetia.
–Cês não sabem, — Um menino falava. – Minha mãe disse que eu era um bebê no onze de setembro, ela disse que eu estava comendo macarrão de letrinhas, comi tudo, e só deixei algumas letrinhas e números. E ERAM OS NÚMEROS E AS LETRAS DO AVIÃO!
–TURMA, CALADOS, AGORA! – Gritou Akemi igual uma louca. Aí de quem não calasse a boca. – Eu não quero ouvir nem mais um ‘’piu’’. – Ameaçou.
Silêncio de quatro de segundos.
–Piu. – Alguém disse.
Uau, que radical. Fez o quê? Comeu muito Nescau Ball, né criança?
–Kazuo... Fora de sala. – Akemi disse.
–Mas... – Tentou contestar.
–FORA DE SALA, MOLEQUE. – Gritou. Sinto que essa professora sofre de algum transtorno.
Ele saiu.
–Bem alunos, vou passar um trabalho pra vocês... – Começou.
Por favor, em dupla não.
–E vai ser em dupla. – Completou. – Mas se aquietem, vão ser duplas escolhidas por mim.
–Ei, gente, olha aqui! – Um menino gritou, apontando pra janela. – Tá chovendo!
–A EDUCAÇÃO FÍSICA! – Gritou um desesperado.
Melhor assim... Não poder fazer o mesmo que os outros na Educação Física, sempre me torna ainda mais isolado. Não que hoje isso faça alguma diferença, mas... É o hábito.
–Vão continuar me interrompendo dessa maneira deselegante ou vão me deixar falar? – Akemi já se estressava. – Vocês acham que é fácil? Vir aqui e falar na frente de trinta e cinco crianças? Vocês juntos falam MUITO mais alto do que eu, que sou uma ÚNICA pobre professorinha. Olha crianças, vocês acham que quem está perdendo sou eu, mas eu lhe digo, quem estão perdendo são vocês. EU, já estudei tudo isso, MAS VOCÊS NÃO. Então vão me deixar falar? Ô Takeshi!
–Fala psôra. – Era o garoto que falou da chuva.
–Parece que você está entendendo muito da matéria, quer vir aqui no quadro e explicar? – Ergueu uma sobrancelha.
–N-não...
–Bem... – Juntou as mãos. — Prossigamos.
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O sino bateu.
A aula estava incrivelmente chata nas últimas horas. Eu já havia estudado sobre o assunto em momentos de lazer, odiava escutar coisas já ditas.
Esperei calmamente meus vinte minutos a sós na sala se passarem. Suspirei enquanto empurrava minha cadeira para trás e me levantava.
Peguei minha mochila, coloquei em um ombro, fui andando até meu armário, troquei os sapatos e deixei meus cadernos.
Inclino minha cabeça para dentro de uma das salas, observando especificamente a janela. Chuva, mais uma vez. Acreditava que ela havia parado mais cedo, mas pelo visto me enganei.
Abri o bolso da frente da minha mochila, pegando meu guarda chuva azul.
–Ah não... – Resmunguei.
Na porta da escola, Hideki, um imbecil da vida estava parado.
Fui andando até a porta, tentando passar em branco.
–Ah, olá Len. – Cumprimentou olhando para meu guarda-chuva. Cara, você me cumprimentou, ou foi o guarda chuva? – Não tem problema de você me emprestar esse guarda chuva aí, né?
–Claro que tem. – Respondi. – Eu preciso dele e,
–Eu não me importo. – Sorriu. – Ninguém se importa.
Suspirei.
–Sabe Hideki, — Soquei o rosto dele com o guarda chuva, que recuou alguns passos pra trás e escorregou no piso molhado. Me afastei, abrindo o guarda chuva e indo em direção ao portão da escola. Virei de costas, para que ele pudesse me ouvir. – Você sabe como é o ditado. Melhor prevenir do que ser o otário que ficou na chuva.
Bufei enquanto seguia meu caminho.
Apertei com força a haste do guarda chuva.
Idiota. Quem ele pensa que é? Isso é tão...
Subitamente, meus passos pararam.
Do outro lado da rua, no mesmo ponto de ônibus, a gorda e redonda estava parada com cara triste. Seu nariz estava rosado. Espirrou por um momento. Abaixou a cabeça por isso, mas levantou quando percebeu que eu a encarava.
Mordi meus lábios. Pego no flagra.
Olhei para ela, ela olhou para mim.
Ah cara, eu não quero nem saber.
Ela mantinha aquele olhar irritante fixo em mim. Não dizia nada, mas seus olhos me entregavam tudo.
Praguejei, abaixando a cabeça e suspirando forte.
Balancei o guarda chuva.
–Vem logo pra cá.
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