Karakuri Burst
75 Fadado a Destruição.
Notas iniciais

LEN POV’S ON
Á esse ponto, já deixava de achar surpreendente como a cada segundo acontecia mais merda.
Bufei irritado. Eu precisava ter uma paciência que eu sinceramente não tinha. Estalei os dedos, apertando o couro da luva entre eles. Precisava de um minuto, ou dois, para processar tudo que estava acontecendo. O problema era justamente isso. Eu não tinha mais tempo.
Não estava com cabeça pra achar bom ou ruim o envolvimento do meu trabalho com os Hatsune. Pelo menos, agora não. Não me importava com praticamente mais nada que não fosse a Rin. Outro puta problema. Já havia quase vinte anos em que éramos manipulados por meia dúzia de filhos da puta. E eu não era do tipo piedoso. Passar a página? Queimar o livro. E é exatamente por isso que iria cuidar pessoalmente que cada um terminasse de preencher a cota do Inferno.
Acerto de contas? Longe disso. Hoje tive mais do que certeza que eu era pior do que pensava. Mas, tanto faz. Não tem como pagar na mesma moeda, muito menos como compensar pelas merdas que passamos, e principalmente, não tinha como trazer de volta os oito anos que um passou acreditando na morte do outro. E eu sabia que vingança não iria mudar absolutamente nada disso.
Mas, que se foda, iria me fazer melhor.
Não era uma pessoa tão boa ao ponto de perdoar. Não tem como esquecer. Não tem como melhorar. Vai ficar tudo na minha cabeça, pra sempre. Irei guardar ódio e rancor pelo resto da minha vida, e me sentir confortável com isso. Era o que eles mereciam. Se for isso que chamam de ‘’descer o nível’’, então que seja. Não tenho problema nenhum com isso. Só iria me certificar de acabar com tudo de uma vez, por todas.
O passado não fez ninguém melhor. Não precisava ser muito esperto pra saber que essa era a verdade. Eu já não tinha tempo, mas eles menos ainda. As coisas tinham um preço. E eu não estava disposto a escutar desculpas de pessoas que tinham como as maiores prioridades estragar a minha vida e a da Rin.
—Que decepcionante... – Miku resmungou, ainda com o rosto deitado na mão. – Vocês são tão chatos. Esperava alguma reação mais interessante vinda de vocês.
Você é uma vadia.
—Você bancou a capitã óbvia, querida. — Luka se ergueu do chão, lugar onde estava desde que Rin atirou em Gumi. Não tinha muita emoção naqueles olhos paranormais que a Megurine tinha. O que era sinônimo que ela não tinha nada mais nada pra ficar feliz. Normalmente, isso passava bem longe de ser bom. Mas agora, quase perfeito. – Não podia esperar mais que isso.
Olhei para Luka de soslaio, encarando sem encarar. Seus dedos tinham sangue até mesmo por debaixo das unhas. Sangue que de fato, não era dela. Ela limpou as mãos na roupa, praticamente adivinhando o que eu estava fazendo. Praticamente nada. Ela me encarou por poucos segundos antes de passar os dedos na bainha da katana.
Voltei a olhar para frente, obviamente entendendo o que ela queria. Suspirei, e deixei meus olhos correrem pela sala. Não tinha como isso dar certo. Mas eu não tinha mais o que fazer. Estava ficando sem opções, assim como não tinha tempo pra pensar em algo melhor. Ainda tinha o filho da puta do Kaito, que nos conhecia. Se iríamos fazer o que a Luka queria, eu não daria dois segundos até ele entender.
Embora não tivesse tempo, na minha cabeça as coisas aconteciam mais devagar. Ficávamos segundos sem dizer nada, que mais pareciam minutos do que qualquer outra coisa. A Sakine fez um daqueles barulhos que sempre fazia quando estava irritada ou fazendo algo contra sua vontade, e se levantou do chão. Por uns poucos segundos, os olhos de todos se prenderam a Meiko. A vi caminhar até parar ao lado de Luka, e nada dizer. Não que fosse necessário. Dava pra ver o quão ela estava puta há quilômetros.
Mordi a boca. Já tinha reparado que isso não era mais uma questão a ser discutida, e sim uma decisão já feita.
Olhei pra Gumi pela primeira vez desde o tiro. O foco na ladra de quinta tinha me feito menosprezar a retardada do grupo. Aquilo não foi na intenção de matar. Quase ficaria surpreso, se não soubesse que Miku tinha seus motivos de não querer a Megpoid morta agora. Mas deixar uma pessoa agonizar de dor parecia ser algo do feitio dos Hatsune.
E pensar que tudo que ela queria era filmar o pedido de namoro pra passar num daqueles filminhos bregas de casamento.
—Ah, sim. – A Hatsune rapidamente endireitou a postura como a ‘’natural líder’’ que pensava que era. Animada como se fosse a nova Hitler japonesa, arrumou os óculos e sorriu. Incrível. Pra dizer o mínimo. – Agora vai começar ficar interessante.
Não estava com paciência pra qualquer comentário infame da puta de óculos. Olhei Luka e Meiko, aparentemente firmes em suas decisões. Balancei a cabeça, ainda irritado com a situação como um todo. Mas agora, pelo menos, as coisas pareciam, mesmo que fosse bem pouco, facilitado.
—Luka, sua vagabunda. — Meiko murmurou. – Sempre pegando os mais fáceis.
Quase achei graça. Em outras oportunidades Luka meteria a mão na cara da Meiko. Admito que também quis isso, assim que a Sakine saiu correndo sem nenhum aviso prévio.
Respirei fundo.
Merda.
Fui em direção a Rin antes que fosse tarde demais. Tinha entendido que Meiko havia criado uma distração, assim como tinha certeza que fora completamente acidental. Na verdade ela só estava se remoendo de vontade de estalar a mão na cara do Kaito. Ou a katana. Coisa que acabou chamando atenção da Rin.
Ninguém esperou que ele fizesse alguma coisa. Até porque, até onde eu sabia, ainda eram namorados.
E também, o Kaito poderia ser o idiota que quisesse, mas não era tão retardado a ponto de tentar ir contra ela. Não do jeito que Meiko estava.
Ela tinha acertado um soco na bochecha direita dele. Kaito havia perdido o equilíbrio e quase caiu pra trás. Ela agitou a mão no ar, deixando claro que tinha doído quase quebrar o maxilar do, até então, namorado. Teve um intervalo de dois segundos até o próximo soco, ainda na direita, só que mais perto do olho.
Rin, numa calma anormal, destravou a arma mais uma vez e mirou em Meiko.
Observei aquele dedo enfaixado deslizar pelo gatilho.
Miku gritou alto o suficiente para deixar qualquer um dali surdo, ou perder a concentração, e até mesmo a mira. Agradeci Meiko mentalmente pela primeira vez ter feito algo errado, certo. A DR extremamente amorosa entre ela e o Shion havia conseguido distrair até mesmo a Hatsune. E daí o ‘’tarde demais’’ foi dela, não meu, ou da Sakine.
Rin olhou pra mim sem realmente me esperar ali. Perto. Ela perdeu a firmeza nas mãos nos poucos segundos que pensou no que iria fazer. Ela levantou o revólver o mais rápido que pode, mas não rápido o suficiente pra me impedir. Agarrei seus pulsos e forcei seus braços para cima. E o revólver disparou.
No teto.
Segurei os pulsos dela com mais força. O calor da pólvora esquentava nossas mãos, e quase chegava a incomodar. Nossos olhos estavam fixos no teto, procurando o estrago, poucos segundos depois que a bala foi disparada. Baixei a cabeça, a encarando frente a frente, como costumava fazer. Rin apertou os olhos, com um extremo desgosto que só o seu silêncio era necessário. Ela não dizia nada, mas conseguia ver seu ódio por tê-la feito errar o tiro. Meus ombros subiam e desciam, por ter corrido até aqui pra impedir que ela matasse mais alguém. Já ela, tinha a respiração descompassada. Partes pelo susto que a Hatsune havia dado nela, partes pelo susto que eu havia dado nela.
Forçou as mãos para baixo, mas ela não era forte o suficiente pra se soltar de mim. E quando percebeu isso, deu uma joelhada no meu estômago para que a soltasse. Apertei ainda mais seus pulsos. A conhecia muito bem, e já sabia o que mais ela iria chutar. A história da Bifurcação da Noite era mais do que suficiente.
Resmunguei baixo por aquilo. Eu não podia a soltar.
Ela mordeu a boca, confirmando que eu estava a machucando só de segurar seus pulsos. O revólver escorregou de seus dedos e perdeu o equilíbrio em sua mão, até acertar o chão. O barulho do metal não teve como não atrair atenção. Ela olhou para baixo, e logo pra mim, movendo os lábios num perfeito ‘’Filho da puta’’ sem som. Chutei aquela merda pra longe. Não só para o bem dela, mas para o bem de todos que ainda respiravam por aqui.
O barulho de saltos em um ritmo longe de ser uniforme era a confirmação que a Hatsune havia caído. Olhei por cima do ombro, e a vi jogada como um pano de chão. Luka havia a derrubado daquela cadeira de onde ela fazia uma missa, ao invés de contar o que tinha de contar. Os óculos, provavelmente, tinham caído dela antes mesmo dela própria cair, e as lentes estavam destruídas. Antes que ela pudesse levantar, a Megurine contornou seu corpo e a chutou com raiva, a fazendo se contorcer como um parasita.
Meiko estava certa. Ela realmente tinha pegado a mais fácil.
Voltei a prestar atenção em Rin quando a garota quase me deixou manco. Os saltos não estavam a um passo de me fazer a soltar, mas pisoteavam meus pés com cada quilo que ela tinha naquele corpo. Ela não deixou de olhar pra mim e sorrir, quase orgulhosa da merda que tinha feito. Seus olhos passearam pelo meu rosto, como se ela não tivesse mais nada pra fazer. Já eu sabia que não podia deixar as coisas desse jeito. Principalmente com tanta coisa a ser perdida em tão pouco tempo.
E com uma Rin encima dos meus pés.
Ela olhou pra mim com aquela cara de ‘’Eu vou foder com a sua vida mais uma vez’’, o que já era o bastante pra me deixar preocupado. Tinha chegado num momento em que nem me importava com o jeito que ela me encarava, mas agora ela estava se superando. Também tinha entendido que esmagar meus pés era o recado carinhoso dela sobre eu esmagar seus pulsos. Justo, quase.
Inclinando-se na curva do meu pescoço, ela murmurou três palavras no meu ouvido.
‘’Você é fraco. ’’
Rin puxou suas mãos das minhas mais uma vez, só que diferente das outras tentativas, ela conseguiu se soltar sem problema algum. Estalou a mão no meu rosto antes de eu ter qualquer reação, e me arranhou da sobrancelha até o queixo.
Ela correu de mim assim como eu me afastei dela, pelo menos por dois segundos, eu precisava ficar longe da Rin. Que merda, Kagamine. Como isso ardia. Xingaria até os tataravós dessa garota por isso. Tentei respirar fundo, mas eu não consegui. Tentei me concentrar, mas não consegui. Esfreguei o rosto com as minhas mãos, pouco me fodendo pra dor. As palmas estavam vermelhas, mas eu não queria saber.
Precisava achar ela.
A Hatsune gritava no chão de um jeito que só inspirava Luka a bater nela com mais força, porque pra fazer aquilo, estava perdendo parte da audição. Rin revirava as coisas que tinham na sala da Miku, as jogando no chão. O barulho dava a impressão que ela tinha quebrado tudo. No mesmo momento que ela achou um estilete, jogou a maior parte da lâmina pra fora dele. Segurou no cabo de plástico, e não precisou pensar quando atacou a Megurine.
Ela rasgou a boca da Luka.
Sem ver de onde Rin vinha e o que estava fazendo, Luka não conseguiu fazer nada. Gritou quando o estilete abriu sua bochecha, e não conseguiu mais ficar de pé. Cobriu a boca com as mãos enquanto continuava a dar gritos abafados.
Miku se arrastou para longe dela, e mais para perto de Rin. Passou as mãos trêmulas pelo cabelo, e pela pele suada. Cuspiu no chão. Cuspiu sangue no chão. Tinha um corte na sobrancelha, graças à surra que tinha levado. E então sorriu.
E começou a rir.
—Me chore um rio, sua puta. — Riu do sofrimento da Megurine. – Ainda assim, eu não vou te perdoar por ter feito isso comigo. – Rin estendeu a mão para ela com cara de insatisfeita. Miku agarrou os dedos dela como se quisesse esmagá-los. Se levantou e arrumou os óculos destruídos. Olhou nos rostos das pessoas ali com desgosto. — Selvagens.
Aquilo era muito além do meu limite de ‘’aceitável’’.
Andei até elas com passos pesados, enquanto as duas pareciam me ignorar ali.
Ótimo.
Levantei a mão enquanto não fechava um punho. Acertei um tapa na cara daquela vadia forte o suficiente para a jogar no chão mais uma vez. Segurei Rin pelo rosto, estalando minha mão nela com a mesma força de um tapa. Comecei a andar na direção contrária a de seu corpo, a arrastando junto comigo. Ela não conseguia andar pra trás. Tropeçou, mas eu não iria a soltar por merda nenhuma. Ela agarrou meu braço com as duas mãos, deixando o estilete cair no chão, numa tentativa de se soltar, mas é claro que não conseguiu.
—Você não é assim. – Olhei pra ela sem esperar resposta. – Não pode continuar matando as pessoas. Não é isso que você quer.
Ela apertou os olhos, me dizendo o quanto me odiava em silêncio. Soltei seu rosto e a deixei cair no chão.
-Jura? – Rin me perguntou sarcástica. – Então me observe.
Antes que ela pudesse levantar por conta, a arranquei do chão, puxando pelo seu pulso direito. Metade de seu corpo continuava deitado, enquanto outra parte era forçada para cima, quase a fazendo se sentar.
—Eu não vou ver nada. – Apertei seu pulso. — Eu vou fazer você parar de machucar as pessoas.
Ela se espantou. Entendeu o que eu iria fazer, e teve medo disso.
—Você não...
—Custe o que custar.
Virei seu pulso.
Quebrando sua mão.
Deixei ela cair no chão mais uma vez, enquanto gritava pelo o que eu tinha feito. Fechei os olhos, não querendo ver ela daquele jeito. Não queria saber que a culpa de tudo aquilo era minha. Mas era impossível não escutar os choros e os gritos. Quis respirar fundo, mas eu não consegui. Voltei a abrir os olhos, querendo pedir desculpas, mas não dizendo uma palavra. Olhei pra garota embaixo de mim, e depois para as minhas mãos.
Que Inferno. Eu não sentia arrependimento.
Esse era o certo mais errado que já tinha feito.
—Não acha que é egoísmo demais, Len? – A voz da Hatsune arranhava o ar. – Quem mais pretende sacrificar por essa garota? – Ela andava pela sala, com o barulho dos saltos a acompanhando. – Você já deveria estar acostumado a perder. Com o tempo, você esquece ela.
—É mentira. – Olho para Rin, ainda caída, no mesmo nível dos meus pés. – Tempo não cicatriza porra nenhuma. Não faz esquecer ninguém. E o problema de tudo é ela. Ela vale o risco.
Os saltos param.
—Se você insiste.
Me viro em sua direção quando escuto o barulho do metal no chão. O revólver para de deslizar não muito longe de mim. Não consegui me virar de volta, sentindo todo o peso de Rin se desabar nas minhas costas. Caí no chão sem conseguir fazer nada. A mão dela se prendeu entre o meu cabelo e agarrou todos os fios que conseguiu. Puxou minha cabeça, e a bateu no chão com toda, mesmo que pouca, força que tinha, todas as vezes que pôde.
Passei a mão na minha testa, me sentindo tonto, e esfreguei o sangue.
Rin passa por cima de mim, tentando alcançar a arma.
Não deixei ela se levantar. A puxei pelo tornozelo, a obrigando voltar pra mim. Ela prendeu um grito quando sua mão quebrada se arrastou no chão. Joguei seu corpo para o lado, a forçando ficar de rosto para cima.
Coloquei os joelhos em cada lado do seu corpo, a prendendo em baixo de mim. Seu olhar de raiva não me dava dúvida nenhuma que eu não era o único disposto á qualquer coisa para vencer ali.
—Me solta.
—Eu não posso.
—Pra que possamos lutar, pra que eu possa te matar, me solta.
—Você não entende as merdas que está fazendo.— Gritei com raiva. – Não é isso o que você quer. Não é pra isso que você vive.
Ela olhou para mim, mordendo os lábios e negando com a cabeça.
Esticando seu braço, ela pegou o estilete jogado no chão, e o enfiou por inteiro no meu braço esquerdo.
Ela olhou para mim, assustada e orgulhosa. E eu fraquejei até cair.
Ela tentou sair de baixo de mim, mas ficou ainda mais presa. Se arrastou o máximo que pôde, desesperadamente, até o revólver. O sangue não parava de cair. Escorria pelas minhas roupas, caía no chão e tocava na garota. Eu conhecia esse filme. E no final, nós morreríamos. Aquela sensação latejante era uma prova do Inferno.
Eu já tinha chegado num caminho sem volta. E o que eu tinha deixado pra trás não importava mais.
Arranquei o estilete do meu braço. E joguei o mais longe que consegui.
Me apoiei o máximo que pude com minha mão esquerda, antes do meu braço ceder, e me tombar em cima de Rin mais uma vez.
Com a mão direita, puxei a katana da bainha do cinto. A ergui o mais alto que pude, e mirei nela.
Alguém tinha que acabar com isso.
E nesse mesmo momento, ela pôs o dedo no gatilho, apontando o revólver para o meu peito.
Você nos levou até a destruição, Rin.
Não tem como escapar disso.
—Acabou, não é?
—Acabou.
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