Karakuri Burst
48 Encontro perfeito.
Notas iniciais

LUKA POV’S ON
Alguns meses atrás...
Acordar cedo, correr, ir trabalhar.
Praticamente, minha vida está resumida nisso.
Às vezes é meio monótono, mesmo não sentindo tanto direito de declarar isso. Aliás, meu trabalho deve ser mais agitado que todos os outros, mas ainda sim...
Joguei todos os meus cobertores pra fora da cama, fazendo meus resmungos diários e enfim levantando.
Olho para o relógio, são 5:30 da manhã de um sábado.
É, de um sábado.
Calcei minhas pantufas cor de rosa e rastejei até o banheiro. Olhei meu reflexo no espelho, a juba tá pior que o normal. Comecei a pentear o meu cabelo, e quando terminei, o prendi num rabo de cavalo alto. Joguei uma água no rosto, peguei minha escova de dente e um tubo de Colgate, pronta pra escovar os dentes.
Saí do banheiro com um pouco menos de sono e fui até a cozinha pegar uma maçã pra comer. Merda, sábado não é dia da Chloe vir trabalhar.
Segurei com ambas as mãos o aquário da minha pequena lula, e fui andando até a piscina. Afundei o aquário até minha lula sair lá de dentro e começar a brincar na piscina.
Primeira tarefa do dia: Completada.
Voltei para o meu quarto, indo até meu closet, escolhendo uma regata branca e uma calça leggin. Troquei de roupa, pus um tênis esportivo da Nike, procurei pela minha garrafinha d'água e as chaves de casa.
Tranquei a casa e comecei a correr até o parque de Shinjuku, onde eu sempre corria.
Sim, a monotonia prevalece.
Dei duas voltas no parque, o que dava cerca de dois quilômetros. Já havia quase acabado com a água na minha garrafinha, então decidi voltar pra casa. Fui pela área externa do parque, onde os carros passavam não muito longe da calçada do parque.
Observei o outro lado da rua, havia um Starbucks já lotado a essa hora da manhã.
Voltei a olhar pra frente, mas só foi a tempo de eu ser acertada por um cara e seu café tamanho Venti¹. Eu caí de um lado e ele do outro.
Então eu comecei a gritar.
–Se acalma! – Ele gesticulou colocando suas mãos pra frente.
–QUE SE ACALMAR O QUE! – Gritei, colocando a mão na minha barriga.
Seu olhar percorreu meu corpo até chegar na minha barriga.
Ele olhou para o copo de café caído no chão e pra minha blusa branca, agora tingida de marrom na região da barriga.
CAFÉ.
CAFÉ QUENTE.
E tá ardendo pra caralho!
–Me desculpa! – Disse atordoado, porque só agora esse animal percebeu o que fez. – Me deixa só... – Foi até a barra da minha blusa na intenção de levanta-la.
Aí eu dei um murro na mão dele.
–TARADO! – Gritei bem alto, chamando ainda mais a atenção dos que passavam ali. – PERVERTIDO!
–O quê?! – Disse ele com cara de irritado. – Eu estou tentando te ajudar!
–MENTIROSO, APOSTO QUE É UM ESTUPRADOR BARATO. – Gritei. – EU VOU TE PRENDER, SEU CANALHA.
Ele bufou e se arrastou até conseguir pegar minha garrafinha que havia caído poucos metros de nós. Tirou a tampa da garrafa e despejou o que sobrava encima da área ferida.
Observei melhor quem era o estuprador barato de criancinhas inocentes. Estava vestido com terno preto, que cobria uma parte da camisa social branca que estava por baixo. Usava calça social preta, e sapatos, também sociais, pretos.
Mas com certeza o que mais o destacava era seu longo cabelo roxo. E olhos também roxos.
Tinha que admitir, ele era bonito.
MAS PODE SER MUITO BEM UM TARADO-PERVERTIDO-ESTUPRADOR.
–Olha, eu estou atrasado pra uma reunião e... Bem, se quiser, eu te levo até a minha casa... Ela não é muito longe daqui, e sei lá, você pode pegar uma roupa da...
–Você ta achando que eu tenho cara de otária? NUNCA que eu vou na casa de um estranho! – Respondi de imediato.
–Eu estou te fazendo um favor! – Gritou. – Aliás... – Se levantou. – Eu realmente tenho mais o que fazer. – Me estendeu a mão para levantar. – Vai ser orgulhosa agora e negar minha ajuda?
Revirei os olhos, logo agarrando a mão dele e me levantando.
–Peço minhas sinceras desculpas em nome da família Kamui. – Se pronunciou.
–E eu digo em nome da Karakuri que se não fosse negligencia e má conduta, eu JURO que te rendia aqui, e agora!
–Ah, tá bom. – Passou o olhar pelo meu corpo novamente.
–TARADO! Para de me olhar desse jeito!
–O quê?! Não estava te olhando porra nenhuma! – Virou o rosto, escondendo as bochechas vermelhas. – É só que... – Tirou o terno. – Toma.
–E pra que eu iria querer isso?! – Levantei minha mão pronta pra acertar a dele.
–Sua camisa... – Apontou pra marca do café na minha blusa. – Sua camisa, digo, regata, é branca. Essa mancha se destaca muito. Isso... – Balançou a mão em que ofertava o terno pra mim. – Vai cobrir. Aceita logo.
Peguei com violência o terno da mão dele.
–Obrigada. – Falei tão rápido que eu mal entendi.
–Ah... Tudo bem. Não tem de quê. – Respondeu.
–Bom... Então eu vou indo embora. – Virei o rosto.
–É... Eu tenho que ir pra minha reunião e...
–ISSO É POR ATACAR MULHERES INDEFESAS A ESSA HORA DA MANHÃ!!!
Um cidadão alheio surgiu no meio das árvores daquele parque e meteu um soco na bochecha do qualquer coisa Kamui, que caiu no chão mais uma vez.
Que isso cara, por pouco o sujeito não chega de voadora.
–Você esta bem, senhorita? – O ‘’herói’’ pegou na minha mão.
–É... – Olhei para o Kamui.
–Agora que eu nobremente te salvei, — O sujeito chegou mais perto de mim. – Você me deve um jantar, senhorita. Aliás, seu pai é mecânico? Porque você é uma...
SEU PAI É O CAPETA, ENTÃO.
–Não. – Kamui se levantou e deu um famoso ‘’chega pra lá’’ no sujeito. – Você não pode cantar nem chamar pra sair... – Pôs a mão no meu ombro. – A minha namorada.
QUE QUÊ CÊ DISSE AÍ?
–Só estávamos num pequeno... – Me olhou. – Um pequeno ‘’desentendimento’’ aqui. Não é mesmo, amor?
Hein?
Olhei para o Kamui, que só moveu os lábios sem produzir som.
‘’Colabora. ’’
–Ah... É? É! É isso mesmo! – Dei o sorriso mais falso da minha vida. – Obrigada pela preocupação, mas agora eu e ele resolvemos juntos. Não é mesmo, — Apertei a bochecha dele, que me olhou torto. Sorri, isso é uma via de duas mãos. – Minha doce berinjela?
–Bom... – O sujeito que acertou o Kamui me encarou. – Vocês deveriam fazer um ‘’DR’’² então.
Acenamos com um sorriso estampado no rosto, completamente falso, pro cara, até ele sumir de vista.
–Agora você me deve uma... – Kamui murmurou sem perder o sorriso do rosto, e sem parar de mover a mão para dar ‘’tchau’’, um movimento quase mecânico.
–Não te devo nada... – Cantarolei ainda sorrindo e mandando tchauzinho pro além.
–Quem é que te emprestou o terno e te salvou de um encontro forçado com um vagabundo nojento?
Revirei os olhos.
Você que é o vagabundo nojento por aqui, aquele só era pior.
–Quero ouvir você dizer. – Disse com um sorriso de raposa.
Ah, daqui a pouco eu mando o sorriso do Coringa se ele não parar de me mostrar esses dentes.
–Foi você, Kamui. – Disse com relutância. – Feliz agora?
–Meu nome é Gakupo. – Estendeu a mão direita pra mim. – Kamui Gakupo.
–Sou Luka. – Apertei a mão dele. – Megurine Luka.
–E como eu disse, está me devendo uma. – Cruzou os braços.
–Vamos fazer assim, ‘’doce berinjela’’. Vamos na minha casa pra tratar dessa sua bochecha inchada, porque agora você ta pior que o Kiko.
–Ah... – Fez um sorriso malicioso. Vou quebrar os dentes do infeliz pra ele parar de sorrir! – Agora é você que quer me levar pra casa.
–Cala a boca aí. – Murmurei. – E essa sua reunião?
–Por sua culpa. – Deu ênfase no ‘’sua’’. – Vou ter que cancelar. Não posso dar de cara com os meus associados desse jeito. – Apontou pro seu rosto, mais especificamente, sua bochecha.
Suspirei. Que saco.
–Eu vim correndo e...
–Vamos no meu carro. – Respondeu.
–Só quero lhe informar que sou uma agente muito bem treinada, e também fui pra escola militar. Então, se tentar QUALQUER GRACINHA, eu vou precisar eliminar você.
–Como você é fofa. ‘’Vou precisar eliminar você’’. – Corei com o comentário repentino, e em partes, desnecessário. – Acha mesmo que põe medo em mim?
De vermelha de vergonha, foi pra vermelha de raiva. Quem esse filho da puta pensa que é?
Dei uma cotovelada num ponto especifico das costas, que fez ele se contorcer pra frente. Aproveitei sua guarda baixa e puxei seus braços pra trás, logo o imobilizando. E só pra humilhar, dei um chute nas suas costas, o que fez ele cair de cara no chão –de novo- só que dessa vez seus braços não o amorteceriam, pois até poucos segundos atrás eu havia os segurado nas suas costas.
–Argh! – Praguejou no chão.
–O nome disso é desacato a autoridade. – Cruzei os braços. – Eu posso te prender por isso.
–Fala sério...
–Vai se foder. Te juro que ainda quebro seu braço.
–Extremamente feminina... – Murmurou.
–Vai falar mais alto ou não tem coragem pra isso?!
–Vamos logo pra sua casa. – Cortou o assunto.
A passos largos e num silencio desconfortável, fomos andando até seu carro, uma BMW. Ele destravou o carro apertando um botão na chave. Entrei no carro sentando no banco do carona, cruzando os braços automaticamente. Indiquei o endereço pra ele e fomos os dois pra minha casa.
Mas quer saber, estava bem alerta, com a guarda alta, até parece que esse cara não é suspeito. Ninguém em sã consciência faz isso que estou fazendo, o que meio que me qualifica como anormal. Aliás, trazer um cara que te acertou com café hoje de manhã, o cara que te salvou de um encontro esquisito, o mesmo cara que você achou bonitinho, é coisa de gente maluca.
Guiei ele pela casa até chegar no meu quarto.
–Ah... – Suspirei. – Você quer um copo de água? Estou morrendo de sede... – Ele assentiu. – Beleza, eu vou lá na cozinha buscar. – Apontei para uma gaveta da minha cômoda. – Ali, se não me engano, eu guardo algumas coisas que servem de kit médico. Se quiser apressar as coisas, pode ir pegando.
Me virei e caminhei até a cozinha indo pegar dois copos de vidro e minha jarra de água gelada. Coloquei a água nos copos, suspirando, bem que Chloe poderia estar aqui...
Peguei os copos, levando um em cada mão, e caminhando até o quarto.
Parei na porta, observando a gaveta que Gakupo abriu.
Aquela era...
Era a minha gaveta de...
–PARA DE MEXER NAS MINHAS CALCINHAS, SEU PERVERTIDO!
Soltei os copos no chão, espatifando-os.
Por impulso, peguei qualquer coisa e joguei no Gakupo.
Um chinelo.
Eu joguei um chinelo na cara do Gakupo.
–Descul... DESCULPA COISA NENHUMA. – Gritei, iria pedir desculpa, mas... São as minhas calcinhas!
–Ai... – Ele disse com voz mole. – Homens não choram, homens não choram...
–Tá... Desculpa. – Murmurei indo até minha cômoda, fechando a gaveta com violência. – Mas qual é o seu problema, você é o que? Um adolescente desesperado?
–Não! Fugiu de um hospício, foi?! Você disse: ‘’ Ali, se não me engano... ’’ MAS VOCÊ SE ENGANOU. Eu fui lá, inocentemente, abrir a gaveta atrás de um kit médico, porque por SUA culpa eu levei um soco, então eu abri e... BOOM.
–BOOM?! – Gritei furiosa.
–BOOM! – Repetiu.
–EU VOU TE DESFIGURAR, HOMEM!
–Calma! – Gritou levantando as mãos. – Quer saber, esquece o kit, que tal só colocar um gelinho?
–Vou colocar um ‘’gelinho’’ no seu...
–Fica fria, Luka-chan. – Sorriu. – É só isso que eu preciso, um gelinho de nada, vai, por favor, não me deixa na mão.
–Tá. – Resmunguei. – Mas agora você vem comigo, só falta você querer atacar a gaveta de su...
Quer saber, não vou nem dar idéia.
–Vou contigo, não quero ser agredido mais uma vez...
–Eu não garanto que não irei te bater no processo...
Fomos os dois a caminho da cozinha, só que dessa vez eu o obriguei a ir na frente. É certeza que se eu fosse na frente esse pervertido só iria ficar olhando a minha bunda. Certeza! Aliás, eu realmente não sei o que mais esse cara vai me fazer quebrar: Ou um outro copo ou a cara dele.
Abri o freezer e peguei uma compressa de gelo. Até atiraria na cara do Gakupo pra esse sem vergonha aprender que não se mexe com uma Megurine, mas aí lembrei que posso ser indiciada por agressão se continuar a tacar coisas na cara dele.
–Aqui. – Entreguei a compressa a ele. – Pode levar, vai embora, siga sua vida e adeus.
–Está me despejando?
–Estou. – Respondi sem paciência. – Você é um estranho, um desconhecido na minha casa! Te conheci hoje porque você jogou café em mim e... Eu nem troquei a blusa! – Bati os pés no chão.
–Em minha defesa, eu vi que não fui o único a estar desatento! Diferente de você, eu não estava paquerando ninguém! Eu havia acabado de terminar uma importante ligação, e não estava prestando atenção ao meu redor!
–Como assim paquerando?! Eu estava vendo a movimentação no Starbucks! – Respondi irritada – E além do mais, se eu estivesse paquerando, o que você teria haver com isso?
–Nada. – Respondeu. – Ou melhor, tudo. Porque por sua culpa...
–Não vem com essa de novo, para de sempre colocar a culpa em mim! Você mesmo acabou de admitir que também estava distraído.
–Okay, mas mesmo assim, não muda o fato que estava distraída... Provavelmente olhando caras, não, comendo caras com o olhar!
Dei aquele tique no olho de assassino.
–Primeiro... – Peguei um cutelo. ³ — Se tem alguém que devora as outras pessoas com o olhar, esse alguém com certeza é você! – Apontei o cutelo pra ele, que deu uns passos pra trás. – Segundo... SAI DA MINHA CASA AGORA! – Taquei o cutelo, que fincou na parede. – RUA! XÔ! VAI EMBORA, DESGRAÇA!
Ele saiu correndo comigo atrás dele. Até levaria o cutelo comigo, mas ele prendeu na parede. Fui atrás dele até a porta da garagem. Aquele cagão saiu correndo até entrar no carro dele. Depois abaixou a janela e mandou um beijinho no ar pra mim antes de arrancar com o carro.
Esse idiota...
Voltei pra dentro de casa e fui andando até meu quarto. A pele embaixo da mancha de café estava melada e grudando na minha camisa... Merda de açúcar, filho da puta do Gakupo. Eu vou tomar um banho daqueles que demora 4 horas na água, até os dedos ficarem ‘’velhos’’ e já ter feito toda a reflexão da minha vida e ter cantado todas as músicas da playlist do meu celular. Eu vou fazer isso.
Cheguei na porta do meu quarto e olhei atentamente aquele objeto encima da minha cama.
Ah não.
Aquele terno preto.
Sorri de canto.
É, Kamui Gakupo, você quebrou minha monotonia.
/////
Google, google, google, meu amado google do coração, como assim quando eu jogo o nome ‘’Kamui’’ aparece que Kamui é o nome de uma empresa multibilionária, com várias ações em alta e tendo uma das bolsas de comércio mais promissoras do Japão moderno?
Como assim o Gakupo é o único herdeiro dessa bagaça toda, e presidente da empresa?
Como assim eu agredi ele.. Pelo menos três vezes?!
GOOGLE, NÃO MINTA PRA MIM, PELO AMOR DE DEUS.
–Folgado! – Reclamei quase acidentalmente jogando meu notebook no chão. – O cara é rico, mas faz miséria por uma compressa de gelo! Aliás, gente rica é esnobe, Len é a prova viva disso, então, como esse cara não criou caso comigo por jogar ele no chão?
Já havia passado um dia desde nosso ‘’lindo acidente’’. Agora, no meio da tarde do dia seguinte, eu havia acabado de pesquisar o nome ‘’Kamui’’ no google. Minha doce berinjela é rica, mas não é um homem de caráter pelo visto.
Bufei enquanto pegava aquele odioso terno preto e o jogava dentro da minha bolsa. Fui até minha garagem e abri o portão com o controle. Peguei um capacete e montei na minha moto, indo até a empresa dele.
Estacionei uma esquina antes do prédio da empresa e fui andando até lá pela calçada. Entrei pela porta da frente, que dava na recepção, e estranhei o prédio de uma grande empresa não conter uma porta giratória onde pertences de metal não passam e blá, blá, blá... Assim como nos bancos. Se tivessem uma segurança melhor, talvez invasões futuras sejam evitadas.
–Oi. – Chamei a recepcionista que me olhou torto. – Eu estou aqui para...
–Já pegou uma senha?
–Quê?
–O número, queridinha. – Ela disse ríspida e com um tom de deboche. – Olhe pra cima.
Olhei pra cima e vi uma placa com luzes de led, que mudava de acordo com o atendimento das pessoas. Olhei pra trás e vi a quantidade de pessoas esperando atendimento dessas recepcionistas incompetentes.
Nem fodendo que eu vou ficar nessa fila toda só pra entregar o casaco desse inútil.
–Mas...
–Nada de mas! – A mulher respondeu. – Se está com dificuldades de entender, eu posso chamar o segurança para te colocar no seu devido lugar. – Sorriu. – Agora, tenha um bom dia.
Há-há-há. Quem essa mulher pensa que é pra falar assim comigo?
–Escuta aqui...
–Senhor Kamui! – A mulher gritou fazendo uma breve reverencia.
Olhei para onde ela observava, e vi que em um dos elevadores do saguão, Gakupo saía de lá com uma grande quantidade de gente ao seu redor. Estava com uma cara de tédio profundo. Então sei lá, como se fosse o grande imperador Akihito, as pessoas faziam breves reverencias pra ele.
A mulher da recepção me olhou de um jeito acusatório e repreensor, e eu levantei um dedo pra ela. O dia que eu me reverenciar pro Gakupo vai ser quando quebrarem meus joelhos. Aí, quem sabe.
Quando Gakupo me viu, fez um gesto com as mãos que parecia dispensar aquela gente ao seu redor. Veio até mim e pegou minha mão. Espera, ele vai...
–Sem! – Puxei minha mão antes que ele encostasse aqueles lábios nela. – Sem essas formalidades, por favor.
–Feminina como sempre... – Murmurou. – Vem comigo.
–Ah, espera, eu só vim aqui pra...
E me ignorou. Me arrastou até o elevador e apertou o último botão. Antes das portas se fecharem, olhei pra mulher da recepção que me olhava boquiaberta. Sorri vitoriosa, me pronunciando sem produzir som.
‘’Chupa, vadia. ’’
As portas fecharam.
–O que se deve a essa ‘’ilustre visita’’? – Fez aspas com as mãos.
–Seu... – As portas se abriram. – Terno. O casaco, sabe.
–Hm. – Respondeu.
Saímos do elevador, nos deparando com uma espécie de mini-recepção, que continha apenas uma mulher atrás de seu balcão. Gakupo acenou pra ela, que acenou de volta, e voltou a digitar qualquer coisa no computador.
Passamos por ela, e daí eu vi uma porta com um ‘’K’’ dourado um tanto estranho, primeiro que ele era gigante, segundo que só falta cair glitter daquilo.
–Meu pai não tem gosto pra decoração... – Comentou.
–Percebe-se... – Murmurei.
Ele abriu a porta, dando para uma grande sala circular, com vidraças a contemplando em quase todas as paredes, criando uma bela vista. Havia um sofá de couro preto por ali. Algumas portas, a grande mesa de mogno de Gakupo, e uma cadeira reclinável atrás da mesa. Alguns eletrônicos, umas pilhas de papéis. No canto da sala havia um frigobar e uma pequena mesa com uma máquina de café expresso e de chá também.
–Bela sala...
–Obrigado. – Se sentou na cadeira. Com aquela cara de ‘’feels like a boss’’. – E então?
–Ah. – Lembrei do que tinha vindo fazer aqui. – Aqui.
Puxei o terno da bolsa e entreguei pra ele.
–Não precisava ter feito esse esforço todo.
–Não precisava mesmo. – Revirei os olhos. – Mas aí você esqueceu esse treco lá em casa, e eu fiquei na obrigação de te devolver.
Ele suspirou e apoiou sua cabeça em suas mãos.
–Você não facilita em nada...
–Eu não sei o que está falando aí, mas...
–Antes que especule qualquer coisa, eu tenho namorada.
Olhei pra ele incrédula. O que ele pensa que eu estava especulando? Eu sequer estava especulando alguma coisa.
–E você supõe que eu queira ter algo com você, é isso? – Cruzei os braços. – Faz-me rir.
–‘’Faz-me’’? Não foi você que dispensou as formalidades? – Arqueou as sobrancelhas.
Fui até a máquina de café, percebendo que havia uma pequena jarra de água, com sua boca coberta com uma espécie de renda para impurezas não entrarem. Despejei um pouco de água em copo descartável e fui até a frente da mesa, logo pegando minha bolsa, que havia deixado ali.
–Talvez você não queira ter nada comigo, mas eu adoraria ter algo com você.
Então eu cuspi.
A água saiu toda voando.
Triste vida.
–QUÊ? – Perguntei gritando.
–Ah Luka, você molhou documentos importantes... – Disse ele sacudindo algumas folhas. – Calma mulher, eu só quero ser seu amigo.
–Só amigos? – Suspirei. – Bom, na verdade eu não to afim de ter nenhuma relação com você, nem mesmo ‘’só amigos.’’ Mas quer saber, se é assim, tudo que faremos é só ser amigos. – Disse autoritária.
–Tá bom. – Respondeu. – Ah, só por curiosidade, antes de ir embora, como me achou?
–Pesquisei no Google.
–Procurou por uma pessoa no Google? Isso não é meio paranoico?
–Não. – Respondi meio ofendida. – Isso é só curiosidade, é completamente normal.
–Baseado nisso que você disse, posso procurar sacanagem no google e falar que foi só curiosidade. ‘’Completamente normal’’.
Fiquei vermelha, mas que porra de assunto.
–Eu vou embora antes que mais neurônios queimem. – Anunciei enquanto me dirigia até a porta.
–Ô Lukaaaaa, qual o número do seu telefone?
Parei antes de empurrar a porta.
–Pesquisa no Google.
E empurrei a porta, deixando Kamui Gakupo, aquele esquisito, pra trás.
/////
– E Meiko, sabe, ele estava mexendo nas minhas calcinhas!
–Aham.
–Já não bastasse ele sujar minha regata favorita!
–Aham.
–E além do mais, me acusou de comer homens com o olhar!
–Aham.
–SAKINE MEIKO, EU VOU TE TAMPAR NA PORRADA SE RESPONDER ‘’AHAM’’ MAIS UMA VEZ!
–Aham.
Puxei o cabelo da Meiko, que mandou uns palavrões pra mim. Estávamos as duas sentadas nos bancos do balcão do barman, no bar favorito de Meiko, o The Scarlet Drink.
–Ah Luka, já vi que você precisa beber. – Concluiu. – Willian, mais uma rodada!
–É pra já! – O tal ‘’Willian’’ respondeu.
–Meiko, você é minha melhor amiga e conselheira amorosa, então trate de resolver.
–Bem... – Pôs a mão no queixo. – Eu ainda não entendi muito bem isso que está sentindo. É indignação? É isso?
–Não sei... – Me debrucei no balcão. – Quer dizer, ele disse ‘’ Calma mulher, eu só quero ser seu amigo’’. Então sei lá, hipoteticamente falando, eu não sou suficiente?
–Hum... Eu não sei, não entendo muito a mente dos homens...
Suspirei.
–WILLIAN, E ESSES DRINKS?! – Gritei.
–Aqui, aqui. – Ele trouxe dois Martinis.
–Calma Luka, esse tipo de coisa não é pra...
Foda-se Meiko, já virei a taça.
–E bem, eu não sei, quando ele disse que eu ‘’comia os homens com o olhar’’, ele estava com ciúme?
–Pra inicio de conversa, porque está tão presa a um cara que conheceu uma semana atrás? Eu hein, Luka. O máximo eu fazem é ficar enchendo a porra do saco um do outro no WhatsApp, que até agora eu não sei como ele conseguiu seu número... Enfim, além do mais, ele não tem uma namorada, uma tal de Yuzuki?
–Tem...
–Ta vendo só, Luka? Não tem necessidade de pensar nesse cara.
–Hum... WILLIAN, TRAZ MAIS. – O Willian trouxe. – Não, não, deixa a garrafa.
–Luka, isso é vodka pura. Quer dizer, é mais queimação que qualquer coisa, além do mais, vai te dar uma puta dor de cabeça de manhã, e amanhã nós temos que trabalhar.
–Ah, pede pro seu namoradinho pra falar com o Len, e aí fica tudo nos esquemas... –Murmurei.
–O Len não vai deixar você... Peraí, o quê?
–Ééééé Meiko. To sabendo, hein. – Irritar os outros por culpa de um amorzinho. Quem nunca? – Partiu sorveteria?
–Partiu hospital, sua quenga?
–Ui, ficou irritadinha, é?
–Cala a boca. – Olhou pra mim.- Quer saber, agora morre.
Ela pegou a garrafa e enfiou na minha boca.
–Nossa amizade é tão linda... – Anunciei enquanto tirava a garrafa de perto de mim e dela.
–Sabe que eu não gosto de falar de casais.
–Poxa Meiko... –Murmurei. – Se sexo é vida, prostitutas são eternas?
–Ah Luka... – Meiko me abraçou. – Eu não tenho a menor idéia do que você ta falando... – Sorriu. – Quer saber, aposto que te perturba ficar pensando demais em um cara, por isso, saí com outro.
–Mas...
–Vocês são pisca-piscas! – Meiko gritou. – Você, Kaito e Len são pisca-piscas na arte de beber, eu sou o Sol! Não tem comparação!
–Você acabou de comparar...
–Shhhh – Pôs o indicador sobre meus lábios. – Nossa equipe é realmente complicada, tem você, que é esse caso perdido, que fica pensado num homem que conheceu um pouco mais de uma semana...
–Tem você e o Kaito, que são dois retardados mentais e... – Ela me olhou feio. – Tá bom, o Kaitinho é bem mais que você, mas ainda sim não enxergam o que eu vejo...
Nota mental: Operação: Ice Cream Lover, começar!
– E tem o Len. – Meiko concluiu. — Que passa o rodo.
–Os meninos são engraçados, se um menino pega muitos é pegador, mas se a menina pega muitos é vadia. Normal. – Ironizei.
–Só espero que ele arrume uma menina que apague esse fogo.
–Ih, Meiko, eu tenho o pressentimento que só vai por mais lenha na fogueira... (N.A: Luka está profetizando ‘o’ )
–Enfim, saia com outro cara, sei lá, só dá teu jeito.
/////
Meiko estava certa e mesmo assim não me parou, eu vou bater naquela vaca. Massageei minhas têmporas. Dor de cabeça do caralho me assola, e com isso estou com um humor péssimo.
–Nossa, que belezura é essa que estamos vendo? – Comentou Meiko assim que cheguei na sala da equipe 202.
–Não enche. – Olhei em volta. – Cadê aqueles dois?
–Saíram pra fazer escolta de um membro politico aí... Não precisavam da gente.
–Saco... Quer dizer que vim trabalhar a toa?
–Tipo isso. – Meiko se levantou da cadeira. – Só fiquei aqui pra te avisar mesmo. Então... Vamos?
–Ah... Eu odeio quando tenho que acordar cedo a toa!
–Devia estar mais feliz pelo fato que ganhou uma folga.
–Olhando por esse lado... – Comentei.
Fomos até a garagem, e cada uma pegou sua moto. Nos despedimos, enquanto Meiko seguia pra sua casa e eu pra minha.
Assim que cheguei lá, a primeira coisa que fiz foi tomar banho. Não era tão cedo e também não era tão tarde, então dava tempo pra uma corridinha.
Dessa vez, coloquei uma regata preta. Assim, se acontecesse alguma merda eu não iria precisar ficar com ternos alheios. Nunca mais. Aliás, eu não preciso de outro que fique falando comigo no WhatsApp até 3 da manhã.
E com isso descobri coisas que o Google não conta. Primeiro que o Gakupo mantém aquele cabelo longo por conta da tradição familiar da sua família, segundo que quando tinha cinco anos ele se perdeu por umas duas horas na floresta, já bateu o carro numa ambulância porque não estava, mais uma vez, prestando atenção. É alérgico a abelhas, e realmente gosta de berinjela. Fica andando de kimono pela casa e tem uma coleção de katanas e...
Espera, tá pior que Wikipédia.
Comecei a caminhar desta vez, observando a movimentação pelo parque. Quando dei por mim, passava naquela calçada em que trombamos e nos conhecemos. Olhei para o Starbucks do outro lado da rua.
Não é o Gakupo ali?
–Ei Luka! Luka! OIE LUKA! – Ele gritava do outro lado da rua enquanto balançava as mãos freneticamente.
–Ai que vergonha alheia... – Murmurei indo até ele. – Oi Gakupo, se importa de fazer menos barulho? Não faz bem pra minha imagem.
–Ah tá. É claro... – Ironizou. – Ta indo pra casa?
–Não, eu cheguei não faz muito tempo, mas... Eu nem cheguei a correr. É preguiça... Por quê?
–Vou te dar uma carona, ué. – Disse ele após bebericar o café. Acho que ele é dependente de cafeína...
Fomos andando até a sua BMW. Ele destravou o carro e eu sentei no banco do carona, observando ele dar ignição no carro. Nem me preocupei em dizer mais uma vez meu endereço, não fazia tanto tempo que ‘’minha doce berinjela’’ havia me levado pra casa.
–Sabe, achei que essa hora você ainda estaria trabalhando... – Disse enquanto manobrava pra sair da vaga.
–Hm? – Ele olhou pra mim e depois voltou a olhar a rua. – Eu sei.
Legal Luka, é o Gakupo, deve estar querendo ir numa feira pra comprar as malditas berinjelas dele. E se não for, eu vou dar um murro na cara dele se aprontar alguma coisa.
‘’ Extremamente feminina. ’’
–Ah não, nem vem, na minha cabeça não! – Reclamei.
–Algum problema, Luka? – Gakupo me olhou com aquela cara de ‘’Essa é com certeza maluca’’.
–N-nada. Digo, nenhum... Er... Pra onde estamos indo?
–Aqui.
Olhei em volta. ESCURECEU. E estamos numa rua escura, de noite. Okay Luka, respira, respira. Dá pra matar uma pessoa com uma sacola plástica, eu tenho uma caneta por aqui? Ah, ali. Estou vendo, ali no porta luvas. Dá pra furar a garganta de alguém desse jeito... Dependendo do tamanho, pode ser inserida no ouvido e perfurar o cérebro... E dá pra furar o olho também. Então tá, se eu quiser, eu posso assassinar o Gakupo e...
–Luka?
–Quê?! – Sai do transe hipnótico.
–Luka. – Disse com a voz séria. Cadê a caneta, cadê a caneta? – Luka olha pra mim.
MAS SE EU OLHAR PRA VOCÊ EU PERCO O CONTATO VISUAL COM A CANETA.
Merda... Olhei pra ele.
–Tenho algo importante pra te falar.
É que você vai me matar com uma sacola? Porque eu tenho a caneta.
–P-pode falar.
Ele pôs a mão na nuca, olhou para um lado, olhou pro outro, depois voltou a me olhar.
Suspirou pesado.
–Foda-se para as palavras.
Os lábios do Gakupo são quentes. Demasiadamente quentes. Ah, e é claro, são gostosos também. Mas aquilo foi um beijo não correspondido. Por quê? Porque eu estava com uma perfeita cara de retardada.
COMO ASSIM A DOCE BERINJELA ESTÁ ME BEIJANDO?
Empurrei ele pra trás, e meu próprio corpo também.
Precisava manter distancia.
–Luka... Eu realmente preciso te dizer que...
Caneta, caneta, caneta.
–Fica longe. – Coloquei minha mão a frente do meu corpo. – Caso tenha se esquecido, a Yuzuki é a sua namorada, não eu.
–Luka, eu...
–E aquele papo de ‘’só amigos’’? Foi pra onde?!
–Eu não quero ser só seu amigo!
–Mas foi você mesmo que...
Ele veio pra cima de mim.
Eu simplesmente movi minha mão tão rápido quanto um reflexo, e peguei a caneta. Ele segurou minhas mãos pelos meus pulsos e me prensou contra a janela do carro. Olhou para a caneta que segurava na minha mão direita, e simplesmente a mordeu, tirando ela do meu poder com a boca.
–Tá. – Respondi ofegante, tomada pela adrenalina. – Não quer seu meu amigo... Tudo bem. -Mas isso não muda o fato da Yuzuki...
–Pare de falar dela. – Me olhou com seriedade. – Sabe Luka, às vezes você toma decisões permanentes baseadas em sentimentos temporários.
–E esse sentimento por mim? – Indaguei. – É temporário?
–Não, Luka. É permanente.
–Jura? – Perguntei sarcástica. – Eu tenho cara de vadia?! Você tem uma namorada, uma vida, e eu a minha! Tá falando que se apaixonou perdidamente pela estranha que você tacou café? Faça-me o favor! — Bufei irritada. – Me solta. Só... Se afasta.
Acompanhei com atenção seus movimentos. Assim que se afastou o suficiente pra não respirarmos o mesmo ar, pude suspirar com uma pequena parcela a mais de tranquilidade. Tateei a porta do carro até achar a tranca. Tentei abrir, mas a porta estava travada.
–Abre o carro.
–Não. – Respondeu seco.
–Gakupo. – Estava definitivamente perdendo a paciência. – Abre o carro.
–Não. Nós não terminamos nossa conversa ainda.
–Você não pode me obrigar a ficar aqui!
–Eu não vou te deixar andar sozinha numa rua escura!
Olhei os botões que havia perto do rádio. Controle do ar condicionado, pisca alerta e... Com um pequeno desenho de cadeado, o botão que destrava o carro.
Apertei aquilo com urgência e abri a porta do carro, quase caindo durante o processo. Então comecei a correr. Se eu estava com medo? Obviamente que não. Tendo o meu trabalho, a última coisa que vou ter medo é correr numa rua escura, fala sério. Meu problema mesmo era o Gakupo vindo atrás de mim com uma BMW.
Só isso.
–Céus mulher. Pare de falar como se isso fosse algo corriqueiro. – Reclamei comigo mesma.
Despistar alguém em perseguição é relativamente fácil. É só encontrar um caminho viável apenas para você.
E foi assim que cheguei em casa. Me atirei na minha cama, mas alguns minutos depois a berinjela tarada começou a buzinar na minha porta. E aí foi necessário eu abrir minha janela, rastejar até minha geladeira, catar uma cartela de ovos e atirar no carro dele.
/////
–NÃO BRINCA! – Len gritou igual uma bicha escandalosa.
–Cruzes, não achei que ia ficar tão animado. – Kaito falou.
–Gente, a linda e maravilhosa história de amor da Luka está quase sendo passada em branco por culpa desse acontecimento. – Meiko relembrou.
Sim, eu contei pra eles. Tudo que ocorreu. E contei inclusive pros dois idiotas. Afinal, confiamos uns nos outros, e se tem algo que nos perturba, é melhor desabafar.
–Tudo bem, isso é realmente uma grande noticia mesmo... – Murmurei.
–Quer dizer, tava mais do que na hora desse caso ser passado pra nós! – Len continuava. – Já era hora! Se passasse mais algum tempo, era só sinal que Big Al estava com fogo no cu.
–SHHHHHHHHHHHH KAGAMINE LEN! — Meiko irritou-se. – CAMERAS MONITORAM A GENTE.
–Ah, o Dell é parça. Gente fina. – Len deu de ombros. – Então tá. – Fez cara de determinado. Ah não, lá vem... – Não vamos descansar enquanto não pegarmos a Kagamine!
–Saí dessa, rapá. Não vai me dizer que vai ficar paranoico. – Kaito comentou.
–Claro que não. – Ele respondeu. – Mas agora esse é meu... Não, nosso principal objetivo. Os outros idiotas lá já falharam, e nós nunca falhamos. E por isso mesmo, temos que reafirmar nossa posição de melhor equipe.
–Tá, vendo por esse lado... E também pensando no bem da população... – Meiko murmurou.
–Imagina efetivar essa prisão no meu histórico... – Len esfregava as mãos feito uma mosca pra atacar o açúcar.
–Okay. Alguma informação dela? – Perguntei.
–Ah, sim. – Kaito falou como se lembrasse de algo. – Um informante aí falou que ela vai atacar o prédio da empresa Kamui e Associados...
–Ka-Kamui? – Perguntei incrédula. – De Kamui Gakupo? AQUELA MULHER VAI ATACAR LÁ?
–É o que dizem... – Murmurou Kaito. – É só um prédio da corporação, mas ainda sim...
–Bom... – Começou Len. – Então é hora de traçar um plano.
/////
Uma semana.
Já faz uma semana desde então.
Desde que Gakupo deu a louca e me prensou dentro de um carro. E também, uma semana desde que o caso da Kagamine passou pra nós. E pelo que sabemos é hoje que ela vai atacar. Eu realmente fiquei pensando qual o caráter desse ataque.
Porque razão a Kagamine invadiria a empresa do Gakupo?
Não estou falando com ele. Quero, mas não quero. Santa contradição. Quer dizer, ninguém faz as coisas que ele fez do nada, o que deixa a história com um final inconclusivo, inacabada.
Yuzuki Yukari.
Esse nome. A filha de uns magnatas. A namorada do Gakupo.
Mas quer saber, essa daí definitivamente não dá conta do recado.
Maldita doce berinjela. Não está me deixando dormir, simplesmente porque pode morrer. E se ele morrer, aquele imbecil confessou seus sentimentos pra mim sem ao menos obter uma resposta decente. E vai morrer pensando no ‘’e se?’’
E se?
E se eu realmente quisesse namorar ele? Porque não?
Porque você não é uma vadia, Luka.
Ele tem uma namorada. Eu acho. Inconclusivo... Inconclusivo...
É esquisito eu ainda querer beijar ele novamente?
É, é sim.
–Não, isso não vai dar certo, definitivamente não. – Respondeu Len, com cara de quem estava puto.
Quê? Estava tão imersa nos meus pensamentos que boiei legal na conversa.
–Não seja idiota Meiko, você sozinha não da conta dela. – Kaito apoiava a decisão de Len.
–Ah, então quer dizer que vocês acham que eu não sou capaz?!
Espera, espera, espera. Volta a fita.
Len deu um soco na mesa, falei que tava puto, que acabou até me assustando.
–Meiko, estamos aqui pra formar um plano para capturar a Kagamine, se não vai ajudar, não atrapalhe! – Ralhou.
Essa ‘’pequena’’ obsessão de ‘’vamos prender a Kagamine’’ já deixou de ser saudável há muito tempo.
–Não escutei você dar uma ideia melhor. — Rebateu Meiko.
Bem, eu tenho uma idéia, mas...
–Que tal se nós nos escondêssemos no armário secreto do Gakupo, e quando ela chegasse, armássemos uma emboscada e pegássemos ela no ato? – Sugeri.
Meiko ficou quieta como se pensasse no assunto.
Já aqueles dois viados, Kaito e Len, trocaram olhares e sorriram como tarados.
– Boa ideia Luka, como soube desse armário? Estudou as plantas do prédio? — Falou Kaito com um tom provocativo.
Ah, Kaito. Vai tomar no cu.
Ah espera. Vai ser dois coelhos em uma cajadada só.
– Sim, estudei. Espero que a Hatsune esteja bem com seu novo namorado... – Sorri.
Kaito fez uma cara estranha e Meiko revirou os olhos.
Double Kill.
Engraçado, não sei como Kaito se abala com a Hatsune. Quer dizer, todos sabemos quem é ela. Só não dá ligação isso do Kaito. É uma queda, ou outro tipo de sentimento?
–E o que a Hatsune tem a ver com isso? — Perguntou Kaito, muito irritado por sinal.
Porque ele ficaria irritado? Eu hein.
–Nada, nada, só comentei... – Falei com olhar vingativo.
Len suspirou. Lá vem bronca...
– Parem vocês dois! – Mandou um olhar mortal. — Vamos agora para a empresa do Gakupo.
Fomos até lá com a viatura, com Kaito dirigindo, o que deixava a minha expectativa de vida um pouco maior. Len no banco do carona, e eu e Meiko sentadas nos banco de trás.
Assim que chegamos, passamos pela recepção, sem antes eu dar um tchauzinho pra minha linda ‘’amiga’’ da recepção. Com o uniforme eu pareço bem mais assustadora, né sua vaca?
Pressionei o botão do vigésimo sétimo andar, e o elevador não tardou a subir.
–A barata diz que tem... – Cantarolou Kaito.
–Agora não. – Respondemos eu, Meiko e Len.
–Vocês são é muito chatos. – Murmurou Kaito.
Chegamos. Len começou a falar com a secretária que tinha ali, e entregou uma foto da Kagamine.
Você acha que me engana, inocente?
Kagamine Len, eu só deixo essa passar porque hoje eu estou morrendo de preocupação e ansiedade, se não, na certa eu te zoaria por carregar uma foto dela por aí.
Aliás, isso é bem interessante. Não, não o fato do Len ser quase um stalker obsessivo, mas sim pelo fato que há uma foto dela em circulação. Quer dizer, se eu fosse uma assassina, eu seria cautelosa.
Ou isso é proposital?
Empurrei a porta do ‘’K’’ brilhante e gigante, logo dando de cara com Gakupo. Até pensei em recuar alguns passos pra trás, mas lembrei da nossa real situação. De tudo, e a do momento.
Então mais uma vez ele veio pra cima de mim.
Ótimo.
Mas era um beijo desesperado. É esquisito de receber uma urgência tão desesperada de uma pessoa através dos lábios.
Ele está com medo de morrer.
Só não admite isso.
Vi Meiko passar por nós e mandar aquele olhar de ‘’Hoje tem’’. Kaito passou por mim torcendo o nariz, e Len passou fechando os olhos, apontando pra boca com cara de quem ia vomitar.
Amigos. Sempre fodendo com a minha vida.
Ficamos um tempo conversando e repassando o plano. Depois, Kaito, Meiko e Len foram se esconder no armário. Torcia silenciosamente que Kaito e Meiko se pegassem no armário e brincassem ‘’De sete minutos no paraíso’’, com o doente do Len observando e apreciando minuciosamente em silencio.
Mas eu acho que não vai acontecer.
Até ficaria lá com eles, mas Gakupo pediu que ficasse. Merda, começou a falar coisas melodramáticas que estão me deixando com vergonha daqueles três estarem escutando.
Havia se passado duas horas. Então já era dez da noite. Será que a informação estava erra...
Meu pensamento foi dissipado com o barulho de tiros.
Está atrasada, Kagamine.
E matando pessoas ainda por cima.
Ficamos em silencio por um tempo, só na expectativa. Depois de um período de tempo relativamente pequeno, a Kagamine abriu as portas de Gakupo.
Olhei pra ela, que olhou pra mim, e depois pro Gakupo.
Gente, que cara de tédio.
Quer dizer, não da minha parte, eu estava com um lindo cagaço de ver ela ali, mas ela está com uma cara de ‘’estou pouco me fodendo pra vocês’’.
–Que bela surpresa temos aqui. – Gakupo falou com um sorriso no rosto.
Trinquei os dentes.
HÁ, HÁ, HÁ. Acha mesmo que vai despertar ciúmes em mim assim?
–Porque não guarda seus últimos suspiros, falando algo mais inteligente? — Perguntou a Kagamine.
Fiquei olhando aquilo. É do tipo: ‘’Ela fala!”
–Faria se fosse o caso – Deu uma risada seca. — Mas claramente não é.
Pronto, sinal dado.
Len se teleportou, aparatou, a porra toda pra ficar ali na frente dela. Aí que eu me toquei que eu precisava me posicionar.
Então ela sorriu. A cara de tédio sumiu.
Isso foi meio esquisito...
–Isso vai ser divertido. – Declarou com sorriso e olhar desafiador.
Não, isso é muito esquisito.
–Porque não cala a boca, sua imunda?! – Len respondeu. Viu? Tava puto desde o inicio.
–Então quer dizer que o famoso Len, vai fazer uma injustiça numa luta? Justo você, que se diz tão certo e limpo? Vai lutar contra uma mulher e ainda vão ser três a mais. – Respondeu com um sorriso Colgate.
Engraçado... Algo na frase dela não faz sentido.
Len fez cara de ‘’ challenge accepted’’ e fez menção da posição de ataque.
Ele é idiota por acaso?!
–Não, Len... Viemos juntos aqui com apenas um único objetivo, não se desvie! Se for pra enfrenta-la faremos isso juntos.
Kaito e Meiko assentiram. E a Kagamine lá, com uma cara de desinteresse de proporções estratosféricas.
Revirei os olhos, mas me arrependi por isso.
É como se visse as coisas em câmera lenta. Ela levantando a arma, sorrindo pra mim, e deslizando o dedo no gatilho.
Fechei os olhos esperando pelo pior.
Um descuido, Luka.
Um descuido e você morre.
Mas estão... O idiota do Gakupo se jogou na frente.
Que idiota!
Fui ao chão junto com seu corpo, com espanto aparente e pupilas dilatas. Pra que ele fez isso?! Que merda!
–Não morre! – Gritei pra ele. – Eu não permito você morrer! É uma ordem!
Eu sou retardada ou o quê?
As coisas não funcionam como eu quero. Não desse jeito.
Olhei pra cima, procurando ajuda nos olhares de meus amigos.
Então escutei um barulho de vidro sendo espatifado.
A Kagamine.
Me virei pra trás só a tempo de ver ela pulando a vidraça. ‘’Como?’’ foi o que eu pensei. Mas isso realmente não era prioridade agora. Só era... Assustador. Era apavorante.
Len e ela ficaram se encarando.
E daí eu lembrei de uma frase do Gakupo. Queria que ele estivesse bem pra ver isso.
Não Gakupo, isso sim é se comer com o olhar.
Kaito pegou seu celular do bolso e discou o número da ambulância. Len finalmente saiu do transe, com uma cara de ‘’vou assassinar alguém’’.
– Já chamaram a ambulância? – Perguntou.
Eu fazia pressão nos lugares perfurados para tentar estancar o sangue. Aquilo parecia algo como uma hemorragia.
–Sim. – Kaito respondeu. — Len, você parece cansado, se quiser pode voltar pra sua casa.
Parei de prestar atenção, mas tenho quase certeza que Len mandou um ‘’vai se foder’’ pro Kaito.
Eu estava concentrada em fazer pressão com o máximo de maestria. Meiko me dava assistência enquanto os paramédicos não chegavam.
Calma. Você foi treinada para manter a calma em situações de descontrole.
Concentre-se nas respirações dele. Nos batimentos cardíacos, se a cor da pele permanece normal.
Você precisa ter força, Luka.
Len obviamente ficou puto de ter tido o plano falhado, e sumiu do cenário sem mais nem menos.
Depois de um tempo os paramédicos finalmente chegaram, e assumiram o trabalho.
Pavor.
Isso é apavorante.
Perguntei se poderia os acompanhar até o hospital, mas eles negaram. Só sei que comecei a gritar e a criar caso. Eu o deixei sozinho quando ele precisava de mim uma vez, não posso fazer de novo!
Não posso.
////
Fiquei quieta observando ele.
Dormindo quietinho na cama de hospital.
Dopado, eu acho.
A cirurgia foi rápida. Era emergencial.
A culpa disso tudo é minha. Eu optei por esse plano. Eu me descuidei. Eu deixei que uma pessoa quase morresse.
Por minha culpa.
O que mais me irrita nessa situação toda é ela. Ela estava ali, há alguns quartos de distancia, com o babaca do Len vigiando.
Não, a culpa não é minha!
É dela!
Se algo acontecer ao Gakupo, a culpa é dela.
Aliás Gakupo, onde é que está a sua querida Yuzuki nesse momento? Queria que estivesse acordado pra responder. Pra responder várias questões que rodeiam a minha cabeça.
Por quê?
‘’Por quê?’’ é a principal. ‘’Porque fez isso? TUDO isso?’’ Você não precisava ter jogado café em mim, não precisava ter me emprestado o terno, não precisava ter entrado na minha vida.
‘’Não precisava mesmo. ’’
Mas acho que ficou na obrigação de fazer isso.
////
–Isso é uma conversa franca, Luka. – Gakupo sorriu. – Tentou mesmo matar a Kagamine por minha culpa?
Droga, ele estava tirando sarro da minha situação.
Okay, eu realmente tentei usar o truque mais velho que tinha. Travesseiro no rosto. Depois que Gakupo piorou, eu lembrei de quem era a verdadeira culpa. Len não estava vigiando, então foi a hora perfeita pra uma impulsiva inconsequente de cabeça quente como eu atacar.
Eu realmente devo ter problemas.
Eu fui dispensada.
Mas nada me impede de vir aqui no quarto do Gakupo e visita-lo durante a recuperação.
–Pode, por favor, não falar disso?
–Hey Luka. – Gakupo olhou pro chão.
–Fala.
–Você nunca vai me amar, não é?
Eu realmente odeio esse tipo de pergunta repentina.
–O quer com essa pergunta?
–O que estou tentando te dizer é que... Você me ama como amigo, não é?
–Quer saber? – Cerrei os punhos. – Você cometeu um erro. Yuzuki Yukari é que a sua namorada, e isso que você está fazendo, é coisa de covarde. Comigo, e com ela.
–Talvez eu tenha errado mesmo. – Deu de ombros. – Errado com ela. Mas se isso é o que realmente de perturba, eu já acabei com ela.
–Ah é? – Perguntei com ironia. – Por mim, é?
–E por mim também. – Respondeu. – Seria presunçoso dizer ‘’por nós’’?
–Um pouco. – Respondi.
–Então deixe-me pensar, a única razão pra você não ficar comigo é que talvez eu não faça seu tipo. Podemos fingir então?
–Não Gakupo, não é que você não seja meu tipo. E além do mais, mesmo se não fosse, isso seria mentira. Mentiras não costumam durar.
–Está dizendo indiretamente que faço seu tipo, Megurine?
–Nunca iremos saber se não tentarmos, certo?
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