Kalahari
30 Kalahari, capitulo 29
Kalahari
Capitulo 29
Acordei com o frescor da manhã. Senti o cheiro de flores, café e croissant quentinhos. Não esperei por nada e joguei longe os lençóis me projetando para fora da cama. Que visão linda! A janela do quarto estava aberta e uma brisa suave fazia a cortina em algodão branquíssima mover-se com suavidade, era quase uma dança elegante aquele bailar. Caminhei descalça sentindo o macio do carpete até o janelão aberto que dava para uma ruazinha de paralelepípedos toda sombreada com prédios de no máximo dez andares. Lá na sacada havia uma mesa posta de forma simples e linda. Passei meus dedos pelo linho da toalha com detalhes de pequenas flores coloridas bordadas em relevo e me encantei com o toque de suavidade em tudo, que ia desde o vasinho com uma flor até a beleza da prataria que trazia meu café da manhã. Antecipando meu gozo, tirei a tampa redonda em alumínio de um prato e sorri, quase gargalhando. Lá estavam eles, rechonchudos, quentinhos, morenos, cheirosos e estralando. Esperando somente pelo momento sublime de serem devorados por mim.
Já estava salivando! Peguei um croissant e o parti ao meio e vi deliciada a fumacia cheirosa que saiu do miolo quente e amarelinho. Mordi um pedaço que entrou suave na minha boca, bailou na minha língua e o sabor entorpeceu meus sentidos, antes de descer suculento pela minha goela.
Puro prazer, até gemi!
Eu iria engordar como uma pata, de tanto que eu comia desde que chequei em Paris. Era um banquete gastronômico que agradava a todos os sentidos. Pura sedução no olhar, aroma e degustação. Tudo na cidade era incrivelmente encantador, desde o músico que ficava nas esquinas tocando com a gaita, até o mimico nas praças. Havia uma elegância subentendida no andar do povo, no falar e gestos. Até quando eles eram desagradáveis, pois eles não tinham muita paciência comigo, mas eram com elegância e charme. Lembro que nos primeiros dias em que aqui chegamos, eu havia conseguido me meter em algumas situações, digamos, vexatórias com direito a tombos coletivo, muita bagunça, gritos e xingos. Até me arrepiei com está lembrança, na minha primeira semana em Paris eu havia conseguido ser xingada em francês! Rennee entendeu e ficou muito braba com o homem baixinho e narigudo que tivera seu carrinho de pães e seus doces rolando ladeira abaixo até cair no rio que cortava a cidade, qual era mesmo o nome? Assim, La Seine! Já eu me senti em outro nível de esculacho, mais internacional não poderia ficar. Talvez na China, mamãe tinha planos de visitarmos aquele país.
Uma batida na porta e Rennee entrou, sem cerimonias.
—Bom dia! Vejo que já trouxeram seu café.
Rennee estava linda usando um vestido vaporoso que gingava com o balançar de suas passadas. Ela tinha uma expressão leve e bem humorada. Ao final, como alguém conseguiria ficar triste em Paris?!
Ela caminhou até onde eu estava e por alguns minutos olhamos para o horizonte, as varandas dos apartamentos dos prédios vizinhos e o telhado das casas nas ruas abaixo. Mais a frente um casal ria feliz enquanto andavam de mãos dadas pelas ruazinhas que cercavam os prédios e naquele momento em perdi o foco de Paris. Diziam que aquela cidade era amor, romance no ar. Aquela sensação para mim não era mais a mesma, causava-me sufoco. Ao longe ouvimos uma gaita tocar uma musica suave e alegre, bem parisiense. Voltei a sorrir e comi o outro pedaço do croissant.
—Hum, filha? — Quando me virei, vi Rennee se servindo de uma xicara de café fumegante – Talvez fosse melhor você não se empolgar muito com os pães daqui!
Algo ficou assim, envolto no ar, sem uma palavra especifica para esclarecimento. Eu mordi com gosto o último bocado do meu delicioso pão e quando fui em busca do segundo, um tapa acertou meus dedos.
—Aiê!
—Bella, um está bom! Venha beba café, ou prefere leite?
—Eu quero outro croissant, está muito bom!
—Sim, você fala isto todos os dias, meu bem! Já se olhou no espelho?
Lancei um olhar demorado para a bandeja das delicias antes de me voltar e fazer o que Rennee dissera. Perto do banheiro havia um espelho em tamanho grande, lá nada ficava escondido. Olhei-me sem muitas expectativas. Lá estava eu, de camisola, descabelada e descalça. Cheguei bem perto e a única coisa que notei foram aquelas pintinhas que apareceram pelo meu corpo naqueles últimos dias, elas vieram com as coceiras. De certo foi algum bichinho que me picara. Com a mera lembrança daquele inconveniente, voltei a me coçar. A vermelhidão se alastrou pelos meus braços, pescoço, colo, um verdadeiro horror que conseguia amenizar somente depois de um banho.
—Não tem nada de errado comigo! Só esta alergia que eu peguei não sei onde.
Rumei decidida a pegar outro croissant e me deleitar, quando Rennee enfiou em minhas mãos a um xicara com café preto perfumado e só! O dia estava muito lindo para se iniciar um entrave, beberiquei da bebida que era forte e ao mesmo tempo suave e pensei que o dia ainda correria solto e cheio de delicias.
—Onde vamos almoçar hoje?
—Sério, filha, você só pensa em comer?!
Dei de ombros, até do outro lado do oceano as pessoas falavam da culinária francesa, eu tinha de aproveitar enquanto podia.
—Hum! Vamos ter que comer em algum momento do dia!
—Sim! Mas podemos aproveitar melhor nosso tempo, também! Paris tem muito mais do que boa comida!
—O quê, então? – já estava ficando impaciente com aquela conversa e a coceira voltou irritante também, me obrigando a deixar o café em uma mesinha próxima e me coçar freneticamente.
—Apresentações musicais! Desde que chegamos não fomos a um teatro. Peguei uns panfletos com algumas boas opções. Isabella, por favor, pare de se coçar!
—Não tenho culpa se peguei esta alergia!
—Use a loção!
—Eu uso! Mas não está resolvendo!
—Oh, que alguém me ilumine! Isabella o único momento que você não está se coçando é quando está comendo! Venha de uma vez, troque de roupa e vamos sair! Quem sabe você não se distrai com alguma coisa nesta cidade maravilhosa!
Levou ainda quase quarenta minutos até sairmos do quarto com Rennee reclamando da minha falta de ânimo para tudo o mais que não fosse comida! Fazia pouco mais de um mês que estávamos em Paris. As primeiras semanas foram difíceis para mim e eu me recusava a sair a noite, explorar a cidade com seus encantos. Eu queria voltar para a Africa, para ele!
Com o passar dos dias meu desespero cedeu lugar aos encantos da culinária parisiense. Aquelas guloseimas tinham o poder de me acalmar.
Era assim tão difícil de entender?
Rennee conduzia o passeio daquela manhã com um entusiasmo contagiante! Fomos a vários lugares, lojas, praças, prédios históricos e programamos para o próximo dia a ida até o museu. Mas naquela tarde, já tínhamos os ingressos para visitarmos o cartão postal da cidade mais charmosa de todas que eu já conhecera em toda a minha vida! O que para mim significava muita coisa. Notei uma agitação extra nos modos de Rennee.
—Está com fome, mamãe?
—Oh, filha, tenha a paciência!
—O quê?! Andamos muito hoje! E desde que saímos do hotel comemos apenas aquela baquete.
—Não, você comeu!
—Credo, você está contando tudo o que eu como?! – até me deu a coceira pelo corpo novamente.
—Filha, olhe a sua volta. Quando terá a oportunidade de contar para seus filhos sobre os lugares belíssimos em que passamos, você irá dizer o que?
—Que cada lugarzinho desta cidade linda, tinha uma guloseima deliciosa!
Rennee olhou-me com um pouco de impaciência, mas depois seu sorriso aflorou no rosto.
—Bella, você sabe que hoje marquei de encontrarmos Phil?
Sim!
—Aqui?! Mas pensei que ele iria até o hotel. – olhei a minha volta, estávamos na praça do Trocadero sentadas nas escadas. Em uma de minhas mãos eu tinha um pacotinho de deliciosas pipocas com cobertura de manteiga. Havia vários turistas por perto também! Todos felizes e sorrindo, somente eu comia.
—Não, vamos encontra-lo lá em cima! – Rennee apontou para o lado da torre. Havia um casal abraçado sorrindo para um fotografo. Pelo o que entendi, a foto sairia com eles visivelmente apaixonados e no fundo a belíssima imagem da torre eiffel. Suspirei triste, entre todas as informações Paris era conhecida como a cidade dos amantes. Até mamãe teria a um encontro romântico, a mim sobrara as guloseimas e pensando nisto virei o que havia sobrado dentro do pacotinho na minha boca e mastiguei ruidosamente as tenras pipocas. Havia levado mais tempo do que esperávamos até Phil conseguir encerrar os negócios que eles tinham em Kalahari. Pelo menos duas vezes por semana íamos até o telegrafo receber noticias dele e foi somente na última semana, quando recebemos o ultimo telegrama que me dei conta definitivamente que Edward não viria.
—Hum, talvez eu deva voltar para o hotel. – levantei e sacudi as migalhas da minha roupa. Eu definitivamente não queria estar lá quando eles se encontrassem.
—Não seja tola, compramos os ingressos!
—Posso trocá-lo para amanhã!
—Isabella, não vou deixa-la sozinha em Paris, nem pense nisto!
—Mamãe, eu não estou sendo uma boa companhia e faz muito tempo que você e Phil não se... – eu tive que engolir em seco, pois fazia também o mesmo tempo que eu não o via. A dor foi forte no meu peito, pois diferente de mim, Rennee iria reencontrar o amor de sua vida, onde diziam ser a cidade mais romântica do mundo — Mamãe, eu não posso, por favor entenda!
—Filha, eu entendo e digo para você nunca perder a fé na vida! Olhe a sua volta, veja quanta gente bonita e feliz. Isabella, eu prometo que você voltará a sorrir, voltará a amar!
—Não! Eu serei eternamente triste!
—Oh, querida, isto é muito dramático, até mesmo para você!
—Não mamãe, é genético!
Rennee me olhou sem entender.
—Papai nunca se recuperou depois que você o deixou. Não quero magoá-la falando disto, mas eu me sinto como ele, e agora eu sei que ele te amou, mamãe, te amou muito!
Soltei-me das mãos de Rennee e sem ter o que mais falar, andei em busca de solidão, pois somente isto me ajudaria naquele momento. Não olhei para trás, apenas caminhei sentindo as minhas lagrimas salgarem a minha boca. Andei em linha reta oposta ao enorme monumento. As pessoas passavam por mim sem me verem, elas sorriam entusiasmadas e a única coisa que eu conseguia pensar era em afogar as minhas mágoas com uma bandeja enorme de croissant.
Percebi que eu chorei no deserto, chorei no mar e agora eu chorava de frente para o belíssimo chafariz a margem do lago. Era muita agua na minha vida. Alguém tocou no meu ombro, quando olhei para o lado havia um daqueles artistas mímicos. Ele tinha o rosto pintado de branco e uma lagrima desenhada de preto logo abaixo do olho esquerdo. O mimico passou a fazer movimentos estranhos quando ele tirou de um dos bolsos um lencinho branco e o estendeu para mim.
—Não tenho dinheiro!
Então o artista fez um movimento com uma das mãos próximo ao rosto e entortou o canto da boca, sugerindo que chorava.
—Você também? – eu aceitei o lenço e enxuguei meu rosto. Quando devolvi o lencinho ele se afastou e deu uma cambalhota e depois voltou para perto de mim e se ajoelhou pegando em uma das minhas mãos e a beijou.
Acho que consegui sorrir pela primeira vez com sinceridade depois de vários dias. Aquilo deva ter significado alguma coisa, pois o mimico ergue-se e sem que eu esperasse beijou-me no rosto. Eu fechei meus olhos e fingi que os lábios eram dele. A minha imaginação foi tão forte que eu senti o cheiro de Edward, forte e único, mas quando eu ouvi a voz, abrir meus olhos, pois se era para alucinar que fosse de olhos bem abertos.
—Que o capeta chute a minha bunda, se hoje eu não mato a desgraça de um palhaço francês!
Foi assim, rápido como piscar os olhos e, Edward Cullen se materializou na minha frente. Eu temi pela minha sanidade e somente tive a certeza absoluta de que não estava sonhando de olhos abertos quando o mimico deixou de ser mudo e xingou Edward assim que foi arremessado no chão por um murro dado bem ao lado da orelha esquerda.
—Fils d'une jument, misérable bâtard! – o pobre do homem brandiu seu impropério sacudindo o punho esquerdo e olhou enfurecido para Edward que parou a minha frente, feito a um poste.
—Do quê foi que me chamou? – Edward colocou uma das mãos no ouvido, aquele gesto de quem não ouve muito bem – repete de novo, se tem coragem!
—Ta mère est une pute! – então o mimico ergue-se do chão e empurrou Edward com as duas mãos. Eu não sei bem dizer o que aquele pobre homem queria com aquilo, mas levou um safanão tão forte que voltou a cair no chão. Edward permaneceu rígido no mesmo lugar. Uma confusão começou a se formar ao nosso redor, pois os visitantes pararam para olhar Edward que passou a socar o mimico. Foi quando uma balburdia de vozes soou mais alto do que tudo. Eu olhei para além da multidão que se formava ao nosso redor e vi mais atrás tranças loiras agitadas ao ar, indicando que alguém corria. -O que eu falei?! – era Rosalie Hale com a sua inconfundível voz – Ele achou a Santinha. Sai povo, que eu quero passar! — Rosalie passou a empurrar as pessoas a nossa volta e o tumulto apenas generalizou-se.
—Arre, a dona não está vendo que está na minha frente? Não reclama não se eu empurro! — e foi-se assim mesmo, Rosalie empurrou para o lado várias pessoas, entre elas uma bonita moça francesa que foi ao chão. O companheiro da moça não gostou e empurrou Rosalie. Esta, assim como Edward moveu-se apenas para desferir a um surpreendente soco no rapaz que rolou pelo chão. Um homem atarracado com cara de quem tinha asco de tudo passou a falar com Rosalie e, acho que a estava xingando.
—Não vem pro meu lado com está língua enrolada, não! — quando ele tocou no braço dela, foi o caos na terra.
—Não relé em mim! – não pude ver de onde saiu a enorme sombra que cobriu o homem, apenas ouvi Rosalie dizer “Pega ele bezerrão!”, no exato momento que o mimico se ergue do chão e se joga em cima de Edward. Desta vez ele e Edward sairam do lugar, com o mimico agarrado em sua cintura e comigo logo atrás, os três indo parar direto para dentro da fonte de agua. A minha boca estava tão aberta que eu engoli agua e tive a uma imensa dificuldade em me erguer, pois erámos os três um bolo de gente dentro daquela. Quando pude finalmente levantar, levei uma pesada bem na orelha do lado direito e fui para dentro da agua novamente. Tudo girava e eu ouvia vozes se sobrepondo umas as outras, mas a de Rosalie Hale era a mais audível de todas.
—Vem pra cá que eu meto-lhe os pés no fundilho!
Finalmente consegui chegar até a borda da fonte e quando pensei que estava firme com as duas mãos na beirada, fui projetada novamente para dentro da agua, pois naquele momento Rosalie juntamente com um homem comprido e magro cairam em cima de mim com pernas, braços e dentes. De repente uma mão firme e grande me tira da agua com tudo e logo depois Rosalie vem fazer-me companhia no chão. Eu estava dolorida, com a roupa molhada e rasgada, mas estava fora da agua finalmente.
Lá dentro da fonte era uma confusão só! Emmett tinha dois homens pendurados em seu pescoço enquanto esganava um terceiro com as duas mãos bem firmes no pescoço do coitado. Eu pensei que a qualquer instante ouviria o som característico de algo se quebrando. Não muito longe Edward ainda se estapeava com o mimico que mostrava ser um excelente malabarista. Do meu lado, Rosalie já estava em pé, com os punhos cerrados, gritando a plenos pulmões!
—Pega eles bezerrão, quebre-lhe as fuças! – eu tentei levantar, sentia meus joelhos tremerem e minha sanidade pifando.
—Rosalie Hale?!
—Oi Santinha! – ela notou naquele momento a minha dificuldade em ficar em pé e resolveu tudo com apenas uma mão de ferro que me soergueu e me manteve firme em pé.
—O quê, como? Hein?!
Rosalie abriu aquele enorme sorriso.
—Entendi nada, não! Mas espera só mais um minuto que meu Emmett vai botar uns franceses para dormirem! Demora nada não.
Olhei aturdida para todos os lados, a multidão aumentava a perder de vista.
—Rose, o que está acontecendo?
—Arre, não está vendo Santinha? – Rosalie vira para mim toda sorrisos – Isto é um pedido de casamento a moda de Kalahari! – depois ela abre os braços antes de dizer com a maior felicidade.
—Que hoje nós duas vamos ficar noivas! – ela aponta dois dedos para o chão – aqui mesmo, nesta cidade linda de doer no olho. Eu e você dona madre, vamos casar!
Continua...
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