Kalahari
9 Capítulo 8
Notas iniciais
Kalahari
Capitulo 8
Eu sentia o trotar e o lombo duro do cavalo em cada banda da minha bunda. O dia já havia se findado somente pela hora, pois o sol forte e insistente ainda brilhava alto no céu e eu suava bicas, mesmo usando o chapéu largo que Zahara me arranjara, que mais parecia um sombreiro. As botas também não ajudavam e faziam os dedos dos meus pés ferverem, oh vida!
Olhei com ódio para ele, que ia reto logo a frente de nós, junto com a manada dos bichos fedidos que ele enchia a boca de orgulho para dizer que eram seus búfalos!
—Bah, aposto que estes fedorentos possuem mais bons modos do que esta criatura tenebrosa!
Olhei para trás, havia um peão mal humorado na minha cola, Edward o ameaçara para ficar ao meu lado, o tornando a um pobre infeliz, assim como eu. Abaixei meu tronco para frente até encostar minha testa na crina do cavalo e logo me arrependi, pois um mosquitinho entrou no buraco do meu nariz.
—Aiê, que nojo!
Eu fui gritar e o inseto entrou mais e meu estomago revirou, pois senti o momento em que ele passou pela minha goela, desesperada passei a dar ordens desconexas para o cavalo que começou a girar comigo montada nele e o final daquilo, bem, o cavalo empinou e eu quase fui ao chão.
—Calma bichinho calma, sou eu a madre Bella! Eu sou sua amiga...!
Meu coração batia desvairado do tamanho que foi o meu medo de cair daquele animal desgovernado. Eu tive aulas de equitação quando era criança, adorava montar cavalos, mas eles eram muito diferentes deste em que eu estava montada, pois mais parecia uma besta indomada e, o bicho começou a correr sem a minha ordem. Eu agarrei a crina do animal, grudei no pescoço dele e gritei o quanto meus pulmões podiam sem me importar com os mosquitinhos ou com os carrapatos. Eu ainda podia ouvir alguns gritos além dos meus, até que a voz do peão que estava na minha cola falou perto de mim.
—Fica calma! – ele corria com o seu cavalo ao lado do meu e esticou o braço até pegar uma rédea e a puxou.
—Ohaaa!!!! Calma menina...!
Menina?!
Milagrosamente o bicho parou.
—Pronto! Calma agora, isso... – ele passou a mão no torso do animal o acalmando e eu tive inveja, pois queria que alguém me acalmasse também!
—Que confusão é esta aqui...?!
Mas para meus pesadelos serem concretizados, lá vinha ele, cavalgando ao nosso encontro, os raios do sol bateram nas costas do homem e eu pude ver somente o brilho de seus olhos verdes, mas eu não tinha dúvidas, era ele sim, Edward Cullen. Ele chegou com rapidez e facilidade ao nosso lado e inquiriu o peão.
—A égua se assustou com o grito da madre, não sei direito, mas...
—Não precisa dizer mais nada! – depois Edward olhou para mim, daquele jeito que somente ele conseguia, tinindo de raiva! Eu ia dizer alguma coisa, precisava, apesar de tremer tanto que até meus dentes batiam.
—Eu não consigo entender, toda vez que tem uma confusão você está metida... — Ele começou a falar daquele jeito escandaloso. Acho que até os búfalos ouviram, até os urubus no céu, se é que tinha algum — ...Divina é um animal dócil, somente VOCÊ para assustá-la com suas maluquices! O que você fez para a minha égua, você a mordeu?!
—Você não passa de um louco se acha mesmo que eu meti meus dentes neste animal bichento!
—Divina não é bichenta! – Edward apeou perto de mim, eu vi a cor branca dos dentes dele, o homem abaixou o tronco na minha direção e tomou as rédeas de minha montaria na mão grande antes de voltar a vociferar.
—Eu mesmo cuido dela!
—Então cuida muito mal, pois eu já contei pelo menos a uns três carrapatos aqui!
Ele puxou a minha montaria e nossos narizes grudaram.
—Divina não tem carrapatos, ela é limpa e saudável!
—Então com certeza ela pegou estes parasitas de VOCÊ! Agora solte estas rédeas! – eu coloquei uma mão minha sobre a rédea e a puxei para mim, claro que não houve se quer a um movimento.
—Quem é você? Um demônio vindo dos infernos para me atormentar?
Demônio, eu?!
—Faço eu a esta pergunta? Desde que nos vimos pela primeira vez, o senhor me caluniou e foi de extrema grosseria para comigo! Se não está feliz com a minha presença devo lembrá-lo de que a culpa é sua somente!
Verdade!
O abominável me forçou a vir nesta viagem, sei lá para onde, junto com os bichos fedidos dele e alguns peões da fazenda. O homem estava indomável, ele dizia que quando voltasse não teria mais uma fazenda e sim a um parque de diversões e que eu era um perigo ambulante em qualquer lugar, que o melhor era eu ficar embaixo do nariz dele, como se eu quisesse aquilo! Ele não soltou a rédea, mas começou a falar com o peão que estava vendo aquela cena desagradável.
—Vá ajudar Moabe, eu fico com ela!
Os olhos, que me descarnavam, de tão quentes que estavam não desgrudaram de mim por um segundo que fosse. E eu enfrentei tudo de queixo erguido. Se ele não estava satisfeito, eu muito menos! Homem atrevido, nunca vou me esquecer do modo bruto como ele me jogou no ombro e depois me colocou montada na garupa daquele animal. E o pior, quando eu ensaiei sair, ainda, fui ameaçada!
—“...tenha a ousadia de sair do lombo deste animal, que você vai se arrepender!”
Não havia ninguém para me ajudar, Jacob, coitadinho, fora quase que escorraçado para o curral e Zahara, depois que arrumara uma bolsa para mim, se escondera dentro da casa. Eu bem que tentei me esconder com ela, mas, fui pega primeiro por ele. Tudo porque ele não gostava de musica e de dança! E agora lá estava eu, a mercê daquela criatura indomada.
—Eu falei para soltar a rédea! -o ar quente que saiu das narinas dele, balançou as mechas dos meus cabelos e foi ai somente, que eu percebi que estava sem o chapéu.
—Eu vou ficar de olho em você, vou grudar em você como se fosse tua sombra! Talvez assim possa impedir que uma catástrofe aconteça com meus búfalos ou com meus cavalos!
—Eu não pedi para vir, o senhor me trouxe a força, não, praticamente amarrada no lombo deste animal, tudo contra a minha vontade!
—Você é perigosa, não pode ficar sozinha!
Tive que gargalhar.
Eu, perigosa?!
—Nem desconfiava que o senhor tinha a esta veia cômica?! No mais, não ficaria sozinha lá na fazenda, eu teria a Jacob e Zahara...
—Você está levando eles para o caminho da perdição!
—Como é?! Veja bem com quem está falando!
—É o que eu me pergunto toda vez que eu te olho, pois meus instintos me dizem uma coisa bem diferente do que você diz ser.
Calei minha boca naquele momento, que homem terrível era aquele Edward Cullen! Tudo podia já estar resolvido, eu havia planejado pedir para Jacob me levar para a cidade, claro que depois que eu tivesse colocado meu dinheiro em meus bolsos novamente. Virei meu rosto e cortei o contato visual, aquele não era um bom momento, para mim, pelo menos.
—Tome cuidado, Divina é sensível, não quero que a machuque!
Como se eu fosse mesmo conseguir machucar aquele animal, ela era enorme e bem musculosa. Mas, no ponto de visto do Sr. Cullen, eu era capaz de trazer as pragas do apocalipse sobre a terra.
Criatura desagradável que ele era, isto sim!
Peguei as rédeas e me afastei dele o máximo que eu pude, mas nunca havia distância boa o suficiente entre nós. Ele sempre estava lá a um passo de mim. Eu olhava firme e reto para frente, mesmo sentindo a presença dele tão forte quanto o sol na minha pele. Os peões andavam mais a frente conduzindo os búfalos, uns vinte mais ou menos, eram animais fortes e com um belo porte, tinha que admitir, mas, isto eu nuca iria falar para ele, nem sob tortura.
—Vamos passar a noite perto de um rio, os búfalos poderão se refrescar a noite para agüentarem a jornada de amanhã.
Não olhei para ele, e mordi minha língua, pois estava já cansada daquela cavalgada.
—Você deve estar cansada, vejo que não é acostumada a esta vida...
Continuei mordendo a língua, eu não iria falar com ele, mesmo sentindo a garganta seca, mas, parecia que ele podia ler a minha mente e me estendeu o cantil com a água.
—Beba, não é bom que fique desidratada. – senti algo de diferente na voz de Edward e virei minha cabeça, assim que nossos olhos se cruzaram, ele os desviou, como alguém que deseja esconder a algo, mas a mão continuava a me estender o cantil com a água e eu o peguei abrindo ávida de sede e bebi, como se aquilo fosse a ultima coisa que eu fizesse em minha vida. A água desceu refrescando tudo e me renovou também. Olhei para cima, para o céu que começava a ficar cinzento e lambi meus lábios que ficaram gelados e úmidos com a água fresca. Depois, derramei um pouco da água na mão e passei pelo meu pescoço e colo.
—Ai, que maravilha!
—Quando chegarmos, poderá se refrescar um pouco na água do rio.
Olhei para ele novamente e desta vez, Edward não desviou o olhar. Ficamos presos, um no outro por alguns segundos, eu vi os olhos dele indo para os meus lábios e foi inevitável não lembrar do beijo.
—Vou deixá-la um pouco sozinha, acha que ficara bem?
A voz rouca arrepiou os pelos da minha nuca e eu percebi que se naquele momento ele me pedisse qualquer coisa, mesmo a maior de todas as sandices, eu obedeceria alegremente.
Quem era aquele homem?
—Madre Bella?
—Sim?
—Não me olhe deste modo, ou eu sou capaz de me esquecer de tudo novamente...
O que ele estava dizendo?
Mordi minha boca e desci meus olhos lentamente por ele, parando no peito forte que subia rapidamente, senti as pontas dos meus dedos pinicarem, elas exigiam tocar em Edward, sentir novamente a firmeza daquele tórax, os contornos dos ombros musculosos...
—Eu...! – não consegui dizer algo além disto, pois Edward saiu de perto de mim e trotou até os búfalos e eu fiquei toda derretida no lombo da Divina. Desta vez o calor do sol não tinha culpa alguma do meu estado físico.
—Isto é muito inconveniente!
Sim o era! Eu estava me sentindo atraída pela ultima pessoa que desejaria me apaixonar na face da terra. Ele era bronco, sem refinamento, sem educação ou bons modos e impertinente. Nada justificava os modos dele, nem a boca carnuda, tão pouco as coxas firmes e quentes ou os braços fortes.
—Você é uma fraca, Isabella! Só porque ele fala assim, assim, você já fica neste estado lamentável!
—Quem Madre?!
—Aiê!!!
Era Moabe. Que chegou perto de mim e eu nem percebi!
—Que susto Moabe!
—Desculpe, mas creio que a senhora estava tão distraída que não ouviu o trotar do meu cavalo.
Distraída com Edward Cullen!
—Não interessa o que eu estava pensando! Moabe, você fala muito bem a minha língua.
O sorriso dele iluminou toda a sua face negra.
—A sim, aprendemos inglês na escola, mas somente o básico. Depois a Sra. Dwyer nos ensinou um pouco mais quando montou uma escola lá na fazenda, veio gente até das tribos para aprender.
Eu olhei aturdida para Moabe, minha mãe ensinou aquela gente?
—É mesmo Moabe?
—Sim, senhora! Ela nos ensinou musica também. Gostamos muito de sua mãe, fico triste por não conseguir fazer nada em relação a ela, espero que a madre me perdoe. Mas é perigoso subir o rio em busca de pistas deles, as tribos do sul não aceitam a nova cultura, eles são fortes e resistentes. Nunca conseguiríamos sobreviver a natureza daquela região e lutar com eles ao mesmo tempo.
Uma tristeza tomou conta de mim. Será mesmo que eu nunca mais veria a minha mãe? Achei injusto, que Moabe, Zahara, Jacob e até mesmo Edward, tiveram mais contato com Rennee do que eu. Eles falavam dela com orgulho e carinho, algo que eu não sabia o que significava.
—Madre? Desculpe se a deixei triste! Vou cantar para a senhora.
Sorri em agradecimento, que Moabe não tinha culpa de nada. Ele começou a cantar e me surpreendi com a força e a beleza de sua voz, logo, os outros peões passaram a cantar com ele. Era um lindo coral! Comecei a me sentir bem naquele momento, achei que tudo era perfeito, o sol que se punha deixando o dia alaranjado, o mugido dos búfalos e o canto dos peões, era uma bonita imagem que eu guardaria para sempre.
—Chegamos!
Novamente! Como eu conseguia ser tão distraída? Olhei para Edward, ele me sinalizou para que o seguisse, o som da água logo foi capturado pelos meus ouvidos e a umidade do ar refrescou a minha pele. Nós nos distanciamos um pouco dos demais e depois desmontamos e caminhamos um ao lado do outro sem nada dizer por algum tempo. Logo ouviu o barulho da correnteza, mas estava muito absorta com a vegetação ao meu redor que mudara repentinamente, do chão rachado eu passei a pisar em solo arenoso e tinha a uma pequena mata também. Assim que chegamos à margem do rio eu me empolguei tanto, que me esqueci de Edward e corri para a agua.
—Minha nossa!
Entrei com roupa e tudo, a água fresca bateu nas minhas botas e depois molhou as minhas calças até a camisa de sarja que eu usava, logo fiquei toda molhada e de dentro da água mesmo, eu tirei as botas as jogando na margem junto com o chapéu, para depois mergulhar de uma única vez. Quando voltei a tona me senti renovada, olhei pare o céu que estava quase todo escuro e ostentava uma lua redonda e prateada, sorri para ela e agradeci.
—Obrigada!
Eu estava feliz naquele momento e pulei dentro da água tentando dançar. Quando voltei a olhar para a margem eu o vi sentado me olhando muito atentamente. Edward tinha nas mãos um galho pequeno, ele o quebrava lentamente. O poder refrescante que eu sentia naquele momento era tão grande que me esqueci de tudo e o chamei.
—Vem, a água esta deliciosa.
Edward se levantou.
—Vou preparar as coisas para passarmos a noite aqui!
—Vem se refrescar primeiro! – eu estava muito feliz e sorria com generosidade, mas algo no modo como ele voltou a falar me deixou alerta.
—Seria mais prudente não corrermos este risco, Madre Bella! — Edward se afastou lentamente, eu pude ver com detalhes o quanto ele era alto e forte. Ele tinha razão, eu não sabia o que me esperava, seria melhor mesmo, sermos prudentes. Era evidente que Edward sentia que algo, além da implicância nos atraia. Molhei novamente minha cabeça e nadei por algum tempo antes de sair da água. Vi que a bolsa de roupas estava perto e olhei ao redor para ver se o via novamente, meu coração batia forte.
—Será assim? Toda vez? – eu murmurava estas palavras quando comecei a trocar as roupas e depois estendi as peças molhadas em um arbusto perto. Depois me aproximei do som das vozes, os homens ainda cantavam e já havia um cheiro gostoso vindo da fogueira acessa.
—Espero que esteja com fome madre, pois somente assim é possível comer a comida de Moabe!
—E que Deus não nos castigue!
A risada foi geral pelo acampamento e eu me deixei rir também. Agradecida peguei o prato de alumínio que me foi oferecido por Moabe, e a colher. Sentei a um canto e olhei para o céu, já era noite e havia estrelas. Comi e elogiei.
—Moabe, sua comida é muito gostosa, não perde em nada com a comida de Zahara.
—Obrigado!
Eu me sentia muito bem trocando aquelas gentilezas, mas tive que recusar o segundo prato de comida, pois a mesma era forte e pesada, feita para pessoas que tinham a uma rotina dura e exigente. O cansaço começou a tomar conta de mim, quando Edward se aproximou.
—Eu montei uma barraca para você dormir, mais a vontade.
Olhei na direção do queixo dele e uma forte emoção me dominou.
—Mas e você?
—Esta preocupada comigo? – ele me olhou de forma diferente naquele momento, como se desejasse desvendar algum grande mistério.
—Bem, todos nós sofremos o cansaço do dia, não é mesmo?! – eu não sabia o que dizer para ele, eu não tinha certeza do que precisava e se teria a coragem de lutar por aquilo quando descobrisse. Mas, acho que ele deva ter entendido errado aquela minha resposta evasiva.
—Couro duro não sofre, madre!
—Porque você é tão rigoroso, Edward?
—Porque a vida não é um conto de fadas!
Eu sabia disso, abri minha boca, pois desejei lhe dizer o quanto a vida me fora injusta. Eu vi que Edward esperou com um olhar atendo e cheio de expectativa, mas eu me fechei. O que eu diria para ele? Que tinha razão por desconfiar de mim? Que eu era uma fraude e que fugia da policia americana e da máfia italiana com um dinheiro que provavelmente era fruto de muito sofrimento e de mortes inocentes?
Eu tive vergonha da sinceridade que vi nos olhos de Edward.
—Eu sinto muito, Edward!
Levantei e o deixei só com a imagem confusa da pessoa que eu era.
Continua...
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