Kalahari
28 Capitulo 27
Notas iniciais
Kalahari,
Capitulo 27
A noite veio suave sobre nós. O jipe seguia em velocidade moderada pela terra seca e mesmo no escuro da noite que nos brindava com estrelas cintilantes no céu limpo, eu podia ver a poeira que subia com a passagem do carro através da savana. Pouco antes de entrarmos no carro Jacob entregou um rifle para o xerife advertindo que ele mesmo havia lubrificado, checado a mira e estava carregado. Ainda confirmou que dois peões da fazenda seguiriam um pouco atrás até os limites da cidade, onde estaríamos seguros. Depois ele voltou-se para mim, com aquele jeito que somente ele conseguiria, uma mistura de menino em um corpo de homem.
—Oh, madrezita!- eu pude ver o brilho da emoção naqueles olhos negros-Edward precisa ser chamado à razão! Não deveria sair de casa na hora dos predadores da noite.
—Oh, Jacob, você nunca irá me decepcionar! Eu sinto que posso sempre contar com a tua amizade!
—Con. Certeza, puede! Confio no xerife com a minha vida. Ele tem um dos tiros mais certeiros por estas paragens. Vai ficar segura no caminho até a cidade!
Ele olhou para dentro da casa e voltou-se rápido.
—Amanhã, eu dou um jeito de levar algumas coisas para a senhora, madrezita! Não pode ir-se assim, com uma mão na frente e outra atrás! Edward vai queimar no fogo da perdição, pois que é uma criatura desalmada!
—Oh, Jacob, por favor, não se indisponha com teu patrão por mim! No mais, a única culpada de tudo fui eu.
—No!
—Fui sim! Tudo o que começa errado Jacob, termina errado!
—Nossa madrezita, até parece que Deus falou através da tua boca agora!
—Não! Foi meu pai quem me falou isto há muito tempo!
—Ele deveria ser um homem sábio!
Suspirei profundamente e disse que meu pai foi um homem triste! Logo atrás do gigante Jacob estava a frágil e bela Zahara que me sorriu lindamente. Constatei naquele instante que eu fui recebida com carinho por aqueles dois somente, Jacob e Zahara!
—Oh, Zahara! Você sempre foi um anjo para mim, obrigada!
Aquele jeito humilde e meigo sempre me encantava nela, que abaixou os olhos em contemplação e falou com sinceridade na voz.
—Por favor, perdoe meu patrão! Ele tem um bom coração e logo vai perceber todo este engano!
Zahara sempre tinha uma palavra de defesa para Edward. Não importando o quanto ele poderia ser rude e cego, ela sempre tinha algo gentil para dizer em seu favor! Que sorte tinha Edward por ter um anjo assim zelando por ele.
—Meu tempo aqui chegou ao fim e não importa se amanhã teu patrão irá pensar diferente. – As palavras de Rennee soaram na minha mente, um pouco antes de eu sair do quarto. Supreendentemente ela concordava com a minha ida para a cidade e disse que tão logo fosse possível, iria me encontrar.
—Ao final, esta foi mesmo a melhor solução! Passamos por muito estresse nestes últimos dias! Devemos todos tomar do tempo necessário antes de tomarmos decisões importantes em nossas vidas!
Eu não tinha planos para o futuro. Não tinha casa e meu lugar não era ali, não mais! Na situação em que me encontrava eu ia apenas passando, vivendo a cada instante do modo como desse para viver. Meu ultimo adeus foi um aceno triste para Alice e mamãe que estavam na varanda da casa. Um aperto no peito fez meus olhos novamente se encherem de lágrimas, nem naquele momento Edward apareceu. Eu não podia acreditar que ele fosse assim, tão volúvel! Virei meu rosto para frente, para a escuridão que me recebia de braços abertos e mormaço quente. Olhei as estrelas do céu e fiz um pedido mudo. Que Deus cuidasse dele!
Não sei precisar quanto tempo ao certo levou, pouco mais de quarenta minutos. Mas meus olhos cansados podiam vislumbrar luzes mais ao longe. Aquilo era uma novidade para mim, era a cidade, finalmente! Pela minha percepção acho que levou meia hora até ultrapassarmos o arco de boas vindas e a confirmar minhas suspeitas Ben. Cheney falou-me sorrindo:
—Ângela ficará muito feliz em conhecê-la finalmente, madre!
Voltei meu rosto para ele que sorria sem receios, de um modo aberto e franco.
—Apenas, Isabella ou Bella, se preferir!
Ele coçou desajeitado o lado esquerdo da cabeça, como quem acaba de lembrar-se de algo muito significativo.
—Ah, sim! Desculpe, vai demorar um pouco até nos acostumarmos com isto!
Com uma das mãos o xerife desengatilhou o rifle e o colocou no banco de trás. Aquilo alertou-me para o perigo que passamos desde que saímos das terras da fazenda Cullen até chegarmos na entrada da cidade. Lembrei que não eram somente os leões ou rinocerontes que poderia nos ameaçar, havia aqueles ladrões, os mesmos que me assaltaram logo que coloquei meus pés neste solo seco. Mas meu coração deu um descompasso, pois lembrei naquele momento, que na cidade estavam os italianos a minha procura.
Virei meu rosto para todos os lados do que pude ver naquela cidade. Nada de excepcional e bem diferente do que eu esperava na verdade. Havia apenas uma rua principal com alguns prédios, um banco, a prefeitura, um hotel e os correios. Está rua dava para uma pracinha bem cuidada com um coreto no centro e um chafariz e, acabou a cidade!
O carro contornou a praça com o chafariz e eu procurei por pessoas com um aspecto assim suspeito, com tapa olhos, cicatrizes, chapéus de coco e ternos com listras. Tudo deserto! Sentei no banco e respirei aliviada! Mas a preocupação voltou a tomar conta de mim, pois eu deveria ficar naquele hotelzinho. Talvez lá eu encontrasse com a gangue do mafioso gordo e seria o meu fim! Engoli em seco e pensei como se daria aquele processo, o de liquidarem comigo! Minha mente perturbada me mostrou que talvez eles me amarrassem na cadeira e me torturariam até eu expiar meu ultimo suspiro, que seria por Edward. Depois, eu me vi descabelada e com a face vermelha de tanto levar tapas em um quartinho e, lá na minha frente, um homenzinho atarracado com cara de mau e um charuto fedido na boca. Balancei a minha cabeça, como para me livrar daquelas ideias, assim como fazemos com as moscas. Mas não tinha jeito, lá vinha outra forma de morrer, lenta e dolorosamente. Em todas, meu ultimo pensamento era sempre para ele! Uma mão tocou meu ombro e eu berrei a plenos pulmões!
—Uééééé!!!!! – depois me encolhi de tal modo, que enfiei minha cabeça no vão entre os dois bancos, ficando com a bunda virada pra cima à espera do meu fim. Mas ouvi alguém engatilhando o rifle e olhei para fora do carro e vi o xerife mirando para todos os lados.
O fim chegou!
Fechei meus olhos e pedi a Deus que tudo acabasse rápido e sem dor! Esperei não sei pelo o quê exatamente, por um tiro, uma facada, um puxão nas tripas e, fui surpreendida pela voz de Ben. Cheney, muito sério.
—Está tudo bem, estamos sozinhos!
Sozinhos?!
Como assim, sozinhos? Quem tocou no meu ombro?! Abri meus olhos novamente e com pouca coragem coloquei meu nariz para fora do carro e vi o inusitado. Uma mulher jovem que tremia mais do que eu em frente a uma casa de dois andares com cerquinhas pintadas de branco. Ben. Cheney deu a volta pelo carro e chegou-se perto da mulher e deu um abraço desajeito, pois que ele não largara até aquele momento o rifle.
—Tudo bem, Ângela! Está é a madre Swan, quero dizer, a filha de Rennee!
—Por que ela gritou?! – a tal da Ângela sussurrou, com medo, é claro!
Então! Percebi que era mais um daqueles momentos desconcertantes em que eu me metia! Vi aqueles olhos voltados para a minha pessoa e podia mesmo adivinhar o que o xerife e sua assustada esposa estavam pensando de mim e não podia culpá-los. Abri a porta do carro e quase cai de boca na calçada pavimentada de paralelepípedos, pois havia esquecido de me aprumar! Não foi nada bonito, mas fiquei em uma situação assim, meio desconfortável, meio sem classe, sabe? Eu precisava fazer alguma coisa e, engatinhei para fora do carro ficando no chão de forma pouco digna de quatro. Lá de onde eu estava estendi uma mão me apresentando. Que a humilhação fosse de uma vez por todas a minha marca registrada.
—Prazer, viu! Isabella Marie Swan a seu dispor!
O xerife fez a gentileza de ajudar-me a levantar e pude olhar de forma direta para a sua jovem esposa. Ela estava toda ressabiada. A verdade era que eu fiquei tão focada em imaginar como os mafiosos do gordo iriam arrancar a minha pele que nem percebi quando o carro havia estacionando em frente à casa e paguei a maior vergonha diante do xerife e da esposa! Com presença de espirito a moça sorriu timidamente e pegou na minha mão de forma amistosa. A vergonha me era por companhia naquele momento!
—Então, você é a filha de Rennee?
—Hã, sim! Desculpa o vexame viu, é que bem, ando um tantinho nos nervos!
Ângela olhou rapidamente para o esposo, para depois passar um braço pelos meus ombros. Tínhamos a mesma altura e acho mesmo que a mesma idade.
—Não se preocupe, ficará em segurança conosco!
Gostei dela!
Mas notei em um átimo que ficaria com Ben. Cheney e a esposa e não no hotelzinho como supus no começo. Aquilo deveria ser coisa da Rennee.
—Venha, vamos entrar! – fui conduzida para a porta de entrada e olhei para trás, lá estava o xerife que agora segurava com as duas mãos o rifle e olhou uma ultima vez para todos os lados, antes de fechar o portãozinho branco e com duas passadas largas posicionou-se atrás de nós, como se fosse um vigia, muito sério e atento.
Ângela abriu a porta larga que tinha uma janelinha linda e entalhes delicados que já anunciava o zelo e cuidado dos donos daquele lar. Assim que eu entrei na sala principal confirmei minhas suspeitas. Era uma casa decorada com amor em cada detalhe! Até mesmo a atmosfera inspirava calma, tranquilidade e aconchego. Nem sei dizer o motivo, mas naquele momento algo me assaltou no peito, pois a certeza de que eu nunca teria aquele tipo de felicidade magoou meus sentidos.
Lembrei de uma canção triste, que no refrão dizia que a felicidade era para poucos. Nunca pensei que fosse uma pessoa tomada de inveja. Mas o amor espelhado na candura e na simplicidade de Ben e Ângela me incomodou um pouco. Um tempo atrás meu desejo supremo era ir para Paris e virar uma artista de teatro, quem sabe cinema. Hoje, neste exato momento, uma casinha em uma cidade pacata, com cercas brancas e Edward, era tudo o que me deixaria feliz!
A cama era macia e os lençóis cheirosos. Fui acolhida em um quarto pequeno, bem decorado, como deveria ser a exemplo do resto da casa que era composta de dois quartos, dois banheiros, a sala aconchegante lá em baixo, uma sala de jantar, cozinha e um quintal. Não tive ânimo para comer o que Ângela, tão gentilmente me oferecia. Na verdade eu sentia um vazio por dentro, mas somei a causa a outra fonte. Apenas pedi para dormir, antes agradeci todo o auxilio.
—Não tem de quê, e um enorme prazer acolher a filha de Rennee!
Percebi que minha mãe era muito bem querida naquele lugar. Quando deitei minha cabeça no travesseiro dormir quase que imediatamente. Mesmo com a tempestade de emoções que assolavam meu corpo, eu havia chegado no limite de minhas forças e apaguei. Tive um sono sem sonhos. Não senti o passar das horas, não senti nada para falar a verdade. Apenas que com um certo tempo, havia a uma perturbação desagradável a minha volta. Quando fui sacudida e ouvi com muita impaciência Rennee reclamando.
—Pelo amor, Isabella! Só não chamei o padre para encomendar tua alma, por causa dos teus roncos!
Era muito chato as pessoas falarem aquelas coisas de mim!
—Eu não ronco!
—Como sabe?! Você se escuta quando dorme?
—Claro que não, mamãe! Eu estou dormindo!
—Então deveria ter mais fé no que as pessoas dizem sobre você, quando dorme!
Pronto! Levantei já com o sangue fervendo. Joguei longe os lençóis e me pus em pé, em cima de um tapetinho macio e bordado, quando dei por mim que aquele não era o quarto da fazenda Cullen e, lembrei da noite anterior. Minha tristeza encheu meu peito de um jeito que até esqueci de dizer uns desaforos para Rennee.
—O quê você está fazendo aqui, mamãe?
Rennee andava pelo quarto, arrumando uma coisa aqui e outra ali. Percebi que havia uma mala aberta em cima de uma cadeira com roupas dentro e no chão um par de sapatos bonitos. Em uma cadeira perto da cama estava um vestido de rendas em tom turquesa e toquei nele para ter a certeza de que era de verdade.
—Vamos mocinha, não temos muito tempo! Tira logo está camisola e..!
—O quê está acontecendo?
Rennee bateu a mão com impaciência do lado do quadril.
—O que você acha, Isabella?!
—Eu não sei, até a pouco estava dormindo! O que está acontecendo?
Rennee respirou fundo e juntou as mãos a frente do corpo. Como as professoras do preparatório e foi bem didática.
—Isabella, enquanto você estava praticamente em coma durante todo este dia...!
—Dia?! Como assim, que horas são esta?
—Final da tarde! Continuando, eu já providenciei tudo, mas, agora gostaria de contar com a sua ajuda e, pedir que se apresse, pois o carro que irá nos levar até o porto parte em meia hora!
Eu dormi praticamente um dia inteiro! Não estava em condições de raciocinar direito, mas algo teimava na minha cabeça me causando um acesso de coceiras pelo corpo. Começou assim de leve na cabeça, alastrou-se pelos braços, quando dei por mim já coçava uma das bandas da minha bunda.
Aquilo irritou Rennee, misericórdia!
—Para com isto!
—Aiê, tá coçando!
—Não temos tempo! Troca logo de roupa, já cuidei do resto!
Que resto, meu pai?!
—Mamãe, é que..?!
—É, nada! Vou te dar algumas alternativas, já que está assim, tão difícil pensar!
—Hum, fala ai!
—Italianos ou Paris? Escolhe, agora!
Edward?!
Não?!
Não!!
Ele preferia Tânia para ser mãe de seus filhos!
—Paris? – minha voz saiu quase que sumida e, se Rennee havia percebido, nem se deu por achada, afinal, não era bem uma afirmativa!
—Muito bem! Precisa de ajuda para trocar de roupa?
Dedos brancos e magros foram mostrados para mim e eu me revoltei, pois não era bem aquele toque e daquelas mãos que eu queria sentir em meu corpo.
—Não! – daquela vez não havia duvidas na minha resposta – Vou descer em 10 minutos, está bem?
—Sem atrasos, por favor! – dito tal, Rennee fechou a mala e saiu do quarto de cabeça erguida e passos firmes. A coceira havia voltado, indicando que eu não estava sonhando. Fui até a janela e vi que o sol brilhava escandaloso no céu azul sem nuvens. Não dava para saber que horas eram aquelas, podia tanto ser oito da manhã, como duas horas da tarde! Mas, segundo Rennee o dia iria se encerrar. Abaixei a cortina e tirei a camisola que Ângela tão gentilmente havia me emprestado na noite anterior. Cocei mais um pouco a minha barriga e coloquei o vestido de renda que caiu sobre o meu corpo perfeitamente. Depois fui até a pequena penteadeira e lá agradeci mentalmente a providência de uma jarra com agua e uma bacia. Depois de alguns minutos desci as escadas devidamente penteada, e calçada com aqueles sapatos bonitos. Na sala estavam minha mãe com Ben. e Ângela.
—Finalmente!
—Eu não demorei, mamãe!
—Vamos querida, nosso tempo está se esgotando! – Rennee pegou a mala e se dirigiu sem qualquer cerimonia para a porta de saída a abrindo. Fiquei constrangida com aquilo.
—Desculpem os modos de mamãe!
—Talvez seja melhor não contrariá-la, vá!
Ângela falou de forma suave, eu tive tempo somente de apertar as mãos gentis daquele casal simpático e correr para a porta de saída, pois Rennee já estava com os pulmões aos gritos.
—Mas que pressa!
—Parece que a mocinha esquece que está sendo caçada por italianos mafiosos e, que não conta mais com a proteção da fazenda Cullen!
Meus joelhos tremeram, eu olhei a minha volta com medo e me imbiquei para dentro do carro, assim que Rennee abriu a porta. Fiquei o mais abaixada que pude no banco do automóvel e puxei minha mãe para ficar comigo naquela posição.
—Para com isso, Isabella!
—Mas, e se eles te verem?
—Eles estão caçando por você, uma jovem madre, não por mim!
Verdade!
A minha segurança estava em manter bem firme meu nariz grudado no banco do carro. Não podia correr o risco de algum bandido me ver lá de fora. E foi-se assim, naquela posição incomoda por mais de quarenta minutos e finalmente ouvi Rennee dizer alguma coisa para o motorista que parou o carro e eu pude sair do meu esconderijo. Meu pescoço doía muito quando percebi que de fato, estávamos no porto e já era noite.
—Vamos, meu bem, estamos em cima da hora!
Eu saí com dificuldades do carro e somente não cai, pois os dedos firmes de Rennee me seguraram.
—O que é isto, Isabella?! Aprume-se, mulher! – praticamente fui rebocada até a plataforma de embarque em um navio de porte médio. Alguns marinheiros passavam por nós com sacas nas costas e riam de alguma piada grosseira. Assim que coloquei um de meus pés na passarela de embarque, eu olhei para trás.
—Não se preocupe, não tem ninguém atrás de nós!
Sim, com tristeza no coração eu via somente a rostos estranhos. Continuei a procurar por ele. Em busca daqueles cabelos bagunçados e de cor tão familiar. Apurei meus ouvidos, atenta ao som de palavras grosseiras e em sinal de alerta para o timbre daquela voz que me fazia tremer por inteira. Mamãe continuava a me rebocar para cima, para dentro do navio e não tomava ciência do meu drama intimo. Foi quando eu vi um homem muito sinistro, vestido com um terno escuro, com uma carranca de poucos amigos e usando chapéu de coco. Uma pedra de gelo se formou na boca do meu estomago e, eu corri passarela acima arrastando mamãe e quem mais estivesse na minha frente. Ao final, um bolo de gente, uma confusão de pernas e braços embarcou estatelando-se abaixo do nariz do comandante daquele navio, que olhava tudo chocado.
Foi uma confusão só e gente xingando havia por demais. Eu fui a ultima a sair do chão do convéns, toda dolorida e envergonhada. Olhei ao redor e percebi com alivio que o navio já estava se afastando do porto. Deixei mamãe cuidando dos pedidos de desculpa e olhei lá para baixo e vi o carrancudo. Ele tinha um cigarro na boca e anotava alguma coisa em uma cadernetinha. Foi quando o homem olhou para cima, bem para meu lado e, eu me joguei no chão de qualquer modo.
—Oh, Isabella, por favor, tenha decoro! – dedos duros me ergueram do chão com certa brutalidade.
—Aiê!
—Aiê, o quê?! Olha para você mulher, tenha dignidade!
—Oh, mamãe eu vi um homem estranho e...!
—Isabella? – Rennee pegou no meu rosto com as duas mãos- a partir de agora você vai começar uma nova vida, longe de todos os problemas! Filha, você está indo para Paris! Não é isto o que você mais desejou?
Olhei para Rennee e depois para o porto que a cada instante ficava mais distante. Caminhei até a mureta do convés, as pessoas lá do outro lado, andando na plataforma de embarque e desembarque, estavam ficando pequenas e logo não poderia mais vê-las!
—Parabéns, querida! Você conseguiu deixar Kalahari, sã e salva! – Rennee abriu o maior sorriso que pode, seus olhos azuis brilharam intensamente.
—Mamãe, mas é você, Phil?
—Não se preocupe, meu bem! Phil irá nos encontrar em alguns dias. Ele ficou para trás para vender a nossa parte nos negócios. Vamos começar nossa vida em Paris, nós três! Isto não é maravilhoso?
Eu não consegui responder, apenas virei meu rosto e vi que agora já não conseguia mais ver o porto e, eu sabia, logo não viria mais a porção de terra. Engoli a minha saliva e olhei para o céu negro e estrelado e pensei nele. Será que Edward estaria vendo agora, naquele exato instante, as mesmas estrelas que eu via? Desejei tanto saber mais sobre as constelações! Desejei tanto ver o brilho dos olhos verdes de Edward naquele momento. Eu olhei para baixo, para a agua que ganhava a cada instante mais espaço entre eu e ele e me preparei para pular daquele navio e dar as braçadas que me separava daquele solo seco e quente. Mãos me detiveram bem no momento em que eu já subia em um monte de cordas grossas e sujas em busca de sustentação para o meu pulo.
—Não pode ficar no convés! Deve se recolher agora para o dormitório!
Olhei sem conseguir ver bem o rosto de quem falava comigo. Percebi que eu chorava e tudo estava borrado.
—A senhorita, está bem? — desejei do fundo do meu ser que aquele estranho fosse ele.
—Para qual lado ficam os dormitórios? – o marinheiro me indicou e mais, acompanhou-me até a porta do quartinho que eu dividiria com mamãe. Ele ainda teve a certeza de fechar a porta atrás de mim. Pensei em me largar no choro.
—Finalmente!
Rennee já estava com quase tudo pronto naquele cubículo!
—Você pode ficar na parte de baixo, meu bem! – ela passou a falar sem freios, totalmente alheia ao meu estado de calamidade.
—Sabe que este navio fará apenas uma rápida parada, acho que na China. Nunca visitei a China! Dizem que é um país exótico e...!
—Mamãe, eu não posso! – eu voltei para a porta e abrir o trinco quando Rennee finalmente decidiu parar de ignorar a minha dor.
—Não, Isabella, não!
Ela caminhou até onde eu estava e olhou-me bem firme nos olhos.
—Filha, está na hora de deixar de ser criança! Chegou o momento de encarar a vida de frente e abraçar a generosidade que te é ofertada após tanto sofrimento.
—Eu o amo, mamãe! Ele precisa saber disso!
—Sim! Edward precisa se encontrar também! – o som do nome dele sendo pronunciado apertou minha garganta- Isabella, o que fazemos com algo que nos é caro e precioso?
Eu não sabia o que dizer com aquela mudança repentina de assunto.
Mas Rennee sabia!
—O que nós é precioso, nós protegemos! O seu amor por Edward é lindo e puro! Mas, Edward precisa saber se está preparado para ele, meu bem! Deixe que ele sinta a tua falta, vamos ver até onde vai à fibra daquele jagunço!
Eu ria e chorava ao mesmo tempo, era tudo um plano de Rennee. Claro, mesmo por que de planos eu era um desastre!
—Espero que ele não demore demais!
—Hum! Enquanto isto, nós vamos descobrir o que Paris pode nos oferecer!
Ela falou gesticulando com os braços, parecia até uma dança. Suspirei profundamente e me encaminhei para a parte de baixo daquele beliche estranho e lá deitei. Quando fechei meus olhos, sonhei com ele!
Continua...
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