Kalahari
26 Capitulo 25
Notas iniciais
Kalahari,
Capitulo 25
Voltei ao passado com apenas um piscar de olhos, via-me como se estivesse em um daqueles filmes de teatro e cinema, mas um filme de terror que era passado de trás para frente. Lá estava eu com a roupa rasgada e a face ardendo devido a uma tapa que recebera certeira no lado esquerdo. Nem tentei entender o motivo ou a causa do milagre de não haver sido alvejada na troca de tiros entre os mafiosos que resultou nos dois caídos no chão esvaindo-se em sangue. Pulei aqueles corpos e me apossei em um átimo de segundos da mala cheinha de dinheiro e me precipitei para fora do quarto, correndo desembestada escadaria abaixo, sem olhar para trás ou mesmo, pensar por apenas um instante no que estava me metendo.
Toda impulsiva!
Tomada de medo e pressa, nem me dei conta de como acabei indo parar em um navio, no meio do oceano, cercada de piratas e com o cano de uma pistola marcando a minha testa. A cada piscada de minhas pálpebras havia a mudança de cenário, de pessoas e de conflitos. Sendo que eu era sempre o centro, o mastro que conduzia a tudo e a todos.
Eu vivia naquele momento a uma miscelânea entre o passado e presente. Revivi tudo, desde o barulho de tiros, vozes gritando e olhares raivosos. Aos poucos fui tomando ciência da agitação que se dava a minha volta com gente andando, gesticulando e em meio aquele caos estava euzinha, toda sem noção de tempo e espaço.
—Pois deixem que venham, sei muito bem como receber esses porras italianos!
—Edward, você precisa entender que a segurança dela é mais importante!
—Não interessa Alice! Quero que todos se fodam! Ninguém chega perto da santinha e ponto final!
—Cabrón, chamo agora mesmo alguns peões armados!
Rennee tocou-me com carinho, olhei para seu rosto e via apenas seus lábios se movimentando, parecia que ela dizia-me alguma coisa, algo para eu não me preocupar, pois todos ali iriam me proteger.
Eu fiz tudo errado! E agora todos estavam correndo risco de morrer por conta da minha estupidez. As vozes se sobrepunham umas as outras, cada uma com uma ideia e várias perguntas. Foi quando ela falou, somente ai, eu percebi de que dependia de mim somente dar cabo de todo aquele problema.
—Oras, ainda não entendi qual o problema?! Deixem a madre ir ter com os italianos, afinal, eles vieram até aqui por causa dela, não foi?
Tânia levantou-se da confortável poltrona com o máximo de elegância em cada gesto, como se fosse a uma rainha e arrebatou de um modo muito cínico:
—Eu de minha parte não me importo se o xerife a levar agora mesmo! Logo se vê que ele tem pressa em resolver a isto seja lá o que for! – houve um aceno de pouco caso com as mãos em minha direção. Assim, de alguém que deseja se livrar de uma tralha velha — No mais, o que pode ser de tão ruim assim?!
Ela deu de ombros e antes de se voltar olhou-me de cima a baixo e, voltou para a poltrona, passando a inspecionar as unhas com cuidado, como se aquilo fosse a coisa mais importante do mundo.
— A única pessoa que irá sair desta casa é você Tânia, vá pegar tuas tralhas ou parta com a roupa do corpo. – Dito a tal, Rennee virou-se para o xerife e de modo cortante foi bem objetiva.
—Eles não chegam perto da minha filha, ou vai haver a um banho de sangue como nunca se viu antes neste deserto, fui clara?
—Eu tenho que pedir muita calma a todos, agora! – Ben. Cheney levou uma das mãos ao alto, como a trazer ordem em meio ao caos.- mas preciso ter uma conversa com a madre Swan.
Edward posicionou-se ao meu lado.
—Por quê? Ela não cometeu nenhum crime para ser interrogada!
—Eu não vou interroga-la, Edward!
—Então mete o pé daqui e leva esta outra junto – Edward apontou o queixo para o lado de Tânia, antes de continuar — E fala pros italianos que aqui não tem nada pra eles!
—Edward, espere! – eu não podia permitir que todos se arriscassem por mim daquele jeito, eu sentia fortes vertigens e meu estomago doía, mas não me impediu de fazer o que era preciso.
—Eu irei conversar com o xerife, mas antes quero que saiba de algo que eu fiz! – minha voz falhou e senti minha garganta ardendo. Havia chegado finalmente o momento da verdade. Olhei para Rennee, os olhos dela brilharam para mim e um sorriso de incentivo deu-me coragem de prosseguir. Tomei do ar quente daquele final de tarde e tive a certeza de que todos olhavam para mim com grande expectativa. Meu coração se encheu de dor olhando para cada um deles. A cada instante eu me sentia pior por ter permitido que toda aquela história tivesse chegado tão longe.
—Eu não tenho palavras para dizer o quanto sinto por ter enganado a todos vocês!
Edward moveu-se incomodado.
—Arre, que diacho de conversa doida!
—Deixe-a falar Edward! – Alice pareceu uma gigante perto daqueles homens, Jasper, Ben. Cheney e Jacob. Ela chegou perto de mim e segurou com firmeza em uma de minhas mãos.
—Então fala santinha!
Tânia abandou seu ar de desinteresse e passou a me encarar fixamente. Ela inclusive inclinou o corpo para frente, como se desejasse me visualizar com mais clareza e, seus olhos gatunos brilharam. Eu respirei fundo naquele momento e olhei bem firme para Edward, para aquelas orbes verdes, lá eu vi tanto sentimento! Eu não poderia continuar com aquela farsa, mesmo sentindo que meu coração ficava pequeno de tanta tristeza. De repente me dei conta de que não desejava decepcioná-lo, mas Edward precisava saber de uma vez por todas que tipo de mulher eu era. Uma fugitiva, uma ladra e mentirosa, eu sabia que deveria partir após expor a toda verdade.
—Este é o problema, Edward! Eu não sou santa, não sou madre superiora, tão pouco freira! – Pronto! Falei o mais alto e claro possível e senti a um enorme alivio que saiu bem audível por entre meus lábios. Tomando de fôlego continuei.
—Estes mafiosos vieram atrás de mim, quero dizer, do dinheiro que eu roubei deles! – virei para o xerife e estendi meus pulsos em rendição.
—Pode me prender, pois não vou permitir que ninguém se machuque por minha causa, eu não posso aceitar isto, me leva!
O xerife chegou mesmo a abrir a boca, no que foi bruscamente cortado por Edward.
—Se tem apreço a este teu couro velho nem chega perto dela! – em seguida ele voltou-se para mim – Sempre te achei um tanto confusa! E até que desconfiei no começo desta tua história de madre superiora, pois nas minhas ideias tinha algo de errado. Posso ser um pouco nervoso, meio sem educação e bronco, mas eu não costumo me enganar assim tão fácil com a índole das pessoas! E tenha certeza de uma coisa, já fiz muita merda nesta minha vida de lobo sarnento. A prova maior tá aqui do lado, empesteando o ar desta sala!
Nisto ele vira o queixo quadrado para o lado de Tania, que acompanhava tudo com muito interesse, sem se deixar melindrar pelo comentário grosseiro de Edward.
—Mas, se tem algo que é tão certo quando o sol de Kalahari, é que você não é e nunca será uma bandida. Arre, acho mesmo mais fácil continuar a acreditar que você seja freira!
Meus olhos se encheram de lagrimas, eu passei todo aquele tempo imaginando quando chegaria a este dia. Achando mesmo que seria escorraçada, depois de ser apedrejada, até mesmo morta e assada! Mas agora que o momento da verdade chegou, eu tinha a minha frente a mais pura expressão de amor.
—Oh, Edward! – eu vivi muita coisa para chegar até aqui. Tive perdas, enfrentei sozinha momentos muito ruins. E somente agora, olhando para o calor que emanava dos olhos de Edward eu me senti verdadeiramente protegida! Olhei a minha volta, Alice me sorria abertamente e Rennee balançou a cabeça em sinal de positivismo, até mesmo Zahara tinha para mim um olhar de complacência.
—Oh, Jacob! Você pode me perdoar? – voltei-me humilde para ele, que desde o principio me protegera. Pensar em perde a amizade daquele peão grande e gentil fazia meu coração doer.
—Arre, perdoar o quê?! Pois que acabei de dizer que você não é uma bandida!
O voto de confiança que me deram foi muito importante. Deu-me forças para caminhar até o meio da sala e falar novamente, sem qualquer reserva de ser execrada, mas minha atenção estava naquele momento voltada unicamente para Jacob que estava a um canto da sala todo acabrunhado, com os ombros curvos e olhando para a ponta das botas surradas.
—Jacob, eu estava sozinha no mundo quando tudo aconteceu! – então, eu contei tudo para todos. Não omiti nada, era importante para mim aquele resgate. Enquanto falava, percebi que eles haviam se tornado parte mim, parte da minha história.
—Antes de Edward me arrastar para o deserto, eu tencionava fugir para a cidade levando o que restara do dinheiro. Nestes dias todos vivendo com vocês eu vi o deserto exercer um poder soberano sobre o povo daqui e que para sobreviver devemos ser fortes!
Voltei meu rosto para mamãe antes de prosseguir.
—Mamãe, eu fui criada em um mundo de regalias, cheia de coisas desnecessárias. Papai tentou me dar tudo do bom e do melhor, acho que era para suprir a falta que você fez em nossas vidas. Eu nunca aceitei aquela separação. Tinha ideias estreitas e posso dizer que por uma má orientação me envolvi com pessoas duvidosas. Eu era uma tola, durante um tempo achei mesmo que fosse conseguir me safar sem me arranhar. Que iria juntar dinheiro suficiente e ir para Paris.
Parecia que eu falava de coisas que ocorreram a uma década! O desejo de ir para Paris estava tão distante quanto os Estados Unidos da America do Norte. Naquele momento meu maior desejo era me redimir para aquelas pessoas que tornaram-se em um curto espaço de tempo importantes para mim.
Jacob chorava copiosamente. Ele já tinha em mãos a um lenço vermelho e assoava o nariz de forma ruidosa o que causou a um acesso de irritação em Edward.
—Toma vergonha nesta cara, homem!
—Dios Mio! Que é muita emoção para um dia só!
—Oh, Jacob! — fui até ele e tomei uma daquelas mãos enormes e calejadas a mantendo entre as minhas — Eu jamais seria capaz de magoar a alguém na vida, principalmente você! Eu não pretendia, não desejava que tudo fosse assim tão longe. Pensei que poderia fugir daqui sem causar a danos maiores.
—Oh, Madrezita! – os olhos estavam marejados e vermelhos e a voz grossa teve dificuldade em sair pelo beiço que tremia. Jacob era a sensibilidade em forma de ser humano, ele era único! Meu anjo da guarda. E assumindo a outra esfera de sensibilidade, Edward pronunciou-se daquele jeito, que somente ele conseguiria, rude até a medula dos ossos!
—Arre, deixa de ser lesado, Jacob! Ela não é madre! O que na minha opinião é muito bom de se ouvir, pois já vai me poupar a muito trabalho nesta vida! Agora que tá tudo em panos limpos, vamos lá pra cidade, temos que limpar Kalahari de uma infestação italiana.
Um pavor tomou conta do meu corpo.
—Não, eu não posso permitir a isto, eles vieram atrás de mim!
—E, o que exatamente a santinha acha que vai fazer?! Se jogar nos braços daqueles comedores de macarrão? – Edward colocou as mãos na cintura. Eu não tinha a um plano exatamente, mesmo porque, eu não era boa em planejar nada, mas aquela pergunta me tomou de surpresa. Percebi que em toda a minha vida, tudo o que eu planejava dava errado e as coisas aconteciam das formas mais inusitadas possíveis.
—Se eu for presa, eles não poderão me pegar! – sim, era uma excelente saída para aquele drama.
—E por qual motivo você seria presa?! – Rennee estava ao meu lado. Havia um quê de incredulidade em sua voz e espanto em seus olhos.
—Mamãe, eu acabei de dizer que...!- fui cortada sem qualquer piedade. Parecia que minha vez ao verbo se encerrará.
—Você não disse nada que justifique sua prisão querida! – Alice falou com calma – Seja lá o que for que tenha acontecido, foi em outro continente. Aqui, no Kalahari, você não é criminosa!
Eu olhei aturdida para todos!
—Não sou?!
—Não, não é!
—Mas, ainda sim tem os italianos...! – eu passei a contar nas pontas dos dedos, enumerando meus problemas ainda vigentes, quando Edward com muita impaciência encobriu a minha fala.
—O que tem esses porras? – ele passou a gesticular com as mãos, como se falasse através delas também — Já disse! Vou botar eles de volta no navio direto para a Itália ou o raio que os parta!
Acompanhei com os olhos quando ele esticou a mão para o lado esquerdo que dava para uma janela aberta, como a indicar o local exato de onde ficava o raio que partia. Eu passei a respirar muito rápido, idéias alucinadas me assaltavam e uma sensação de perda se apoderou do meu corpo. Naquele momento eu passei a usar as mãos, a fim de me fazer ser compreendida antes que alguém resolvesse me cortar novamente: -Edward? Eles querem o dinheiro de volta! – eu mostrei as palmas das minhas mãos brancas e lisas – eu perdi grande parte daquele dinheiro, o que sobrou está no cofre que você guardou. Eu receio que eles não irão aceitar isto muito bem!
Eu já sabia o que fazer, então estufei o meu peito e falei sem qualquer rodeio sobre a minha decisão para aquele impasse.
—Então eu vou me entregar para os italianos e explicar tudo para eles, dizer que não tenho mais o dinheiro, que fui roubada e que eles perderam o tempo deles vindo atrás de mim, pronto!
Edward vociferou por entre os dentes : Nem sobre o meu cadáver!- as gotículas de cuspe praticamente lavaram meu rosto antes dele me agarrar pelos ombros e me sacudir inteira
— Qual parte não ficou clara nesta tua cabeça oca? — ele me soltou somente para abrir os braços antes de concluir – Já disse que vou dar um jeito nestes porras!
Eu me desesperei naquele momento, não podia aceitar, não daquele modo : Eles te matam! Edward, eu não posso viver com esta culpa. – o medo tomava conta de mim – eu prefiro morrer antes que qualquer mal caia sobre você!
—Então morra de uma vez, querida! – a voz melodiosa soou com muito pouco caso – Ao final, acho mesmo que seja esta a melhor alternativa para toda esta bagunça que você trouxe até nós!
Tânia ergue-se da cadeira confortável e veio para o nosso lado, ficando ao lado de Edward e, pegou em um dos braços dele antes de voltar-se para mim, cheia de veneno e acusação:
—Vivíamos em paz, nesta terra sagrada! – ela olhou-me de forma jocosa – Agora está bem claro que de santa e do sagrado você, menina, não entende nada e, ainda abateu-nos com toda a má sorte que é esta tua vidinha infeliz!
Ela gingou o corpo e estalou a língua no céu da boca me olhando de cima a baixo. A voz continuava cadenciada e mortalmente ácida quando ela voltou a falar.
—Cabaré?! Cantora de cabaré e, algo a mais, com certeza!
Não! Eu meneei minha cabeça em negação.
—Nunca fiz nada de errado para sobreviver!
—Oras, mas é claro que não! Apenas era uma mariposinha das noites! Alegrando homens promíscuos e bandidos mafiosos. Francamente, eu não me enganei nem por um instante quando deitei meus olhos em ti!
Ela apontou para meu lado, bem na direção do meu nariz com o leque florido, que antes era batido de forma enervante nas ancas moles.
—Toda aquela sujeira pelo visto estava impregnada até na tua alma, falsa madre!
—Tania, pra quem não tem moral, você já falou demais! – A voz de Rennee soou raivosa.
—E vou falar um tantinho mais! – Tania não havia se importado com o tom de ameaça de mamãe e deu continuidade a todo o seu desdém:- Eu nunca disse que era santa, ao contrário desta ai, que posou de madre superiora! – ela olhou para o teto da sala e suspirou antes de prosseguir – Que sacrilégio! Mentiu, roubou e, isto tudo que ela mesma proferiu, quem sabe o que mais tem no passado obscuro dela?
—Eu falei tudo, não tenho mais nada a esconder!
—Isto é o que você diz! Eu exijo que o xerife faça a uma investigação minuciosa na vida desta farsante! Já temos muitos problemas em nossa região, não podemos ficar a mercê de mafiosos, bandidos e mentirosos batendo em nossas portas.
—Tânia cale a merda da tua boca, é meu ultimo aviso!
—Não Rennee! Você está cega por se redimir de seu passado escuso e não quer ver a verdade dos fatos!
—Fatos? Quais?!
—Que nossa santa família, aqui em Kalahari corre a um grande perigo com esta mentirosa por perto! Sou a favor de que o xerife a leve presa! Não quero saber se ela não cometeu crimes neste solo sagrado, apenas vejo ao perigo que e é esta menininha duvidosa! Eu, como futura mãe, tenho o dever de proteger o pai do meu bebê, lutarei pela honra e segurança da minha família custe o que custar.
—Que tal se custar os teus dentes?
Dito a tal um punho firme e bem direcionado acertou em cheio a boca mole e pintada de carmim de Tânia que não teve tempo de defesa, apenas despencou, feito a um fruto podre, direto ao chão.
—Mamãe?!
Foi tão repentino!
Eu estava como que hipnotizada pela boca mole de Tânia que movia-se de forma cadenciada e ferina. Sem forças para rebater a todas as palavras cruéis que eram lançadas em minha face. Claro que eu deveria pagar pelos meus erros, mas pagar penitência a mulher de Edward estava sendo muito difícil de suportar. Ela com muita eficiência articulava as palavras certeiras da minha condenação. Meus olhos estavam secos naquele momento e meu coração batia desenfreado, quando Rennee resolveu a seu modo silenciar aquela língua maldita, desferindo a um potente soco bem no meio da boca que naquele momento estava aberta proferindo ao último verbo antes de ser silenciada brutalmente.
Eu vi com horror que umas coisinhas brancas saíram da boca dela e foram parar do outro lado da sala. Jacob também acompanhou aquele voou estranho e quando caíram no chão notei com nojo que eram dois dentes.
—Céus!
Lá estava Tânia, bem no meio da sala, estirada no chão feito tronco apodrecido, com a boca escancarada que tinha a um filete de sangue escorrendo e, quando eu me aproximei, notei duas coisas. Primeiro que ela estava apagada, aquele soco de Mamãe havia mandado a esposa de Edward direto para o mundo do inconsciente. Para tirar a prova eu dei dois tapinhas em cada lado do rosto dela e nada! Depois, notei que havia a uma falha grotesca na gengiva de cima e para confirmar minhas suspeitas, com dois dedos eu ergui o lábio superior dela e constatei que havia dois buracos enormes onde deveriam estar os dentões da frente, aqueles que ela ostentava com orgulho toda vez que sorria.
Me arrepiei todinha! Eu podia ser mentirosa, mas definitivamente não seria desdentada!
Olhei para Jacob que deu de ombros, como se aquela visão fosse a coisa mais comum que ele já tivesse visto em toda a sua vida. Olhei para cima e aquelas expressões me deram um gelo mórbido na alma. Edward esticou um bicão na cara vermelha dele antes de acentuar em um muxoxo:
—Belíssimo soco, Rennee!
Alice suspirou aliviada:- Finalmente alguém calou esta boca infernal, antes que eu descarregasse minha arma todinha lá dentro!
Rennee tinha a expressão da morte cruel e sanguinária nas faces, enquanto massageava a mão carrasca que desferira ao potente golpe.
—Devia ter feito isto logo que a vi!
—E teria nos poupado a todo aquele falatório de merda! – Edward virou para jacob.
—Jake, leva esta aí direto para o carro! Zahara, arruma as tralhas dela e vamos manda-la direto para a cidade, para aquele hotel fedido de onde ela nunca deveria ter saído.
Eu me ergui, estava em choque, estava mesmo estarrecida!
—Estão todos loucos?! Uma mulher gravida acaba de ser abatida com um murro! – eu apontei meu dedo para baixo e a única reação foi de muito pouco caso da grande maioria dos que olhavam para aquela mulher desfalecida no chão com a boca ensanguentada e sem os dentes principais, era medonho tudo aquilo! Busquei em cada rosto a compaixão, o humanitarismo e consegui apenas a uma tímida reação de Zahara que olhou uma ultima vez, com piedade sincera nos olhos antes de voltar-se e cumprir com as ordens de Edward.
—Mamãe, você viu o que fez? Isto é um sacrilégio, mamãe, você bateu em uma mulher gravida!!
—Que, o quê?!?! – Rennee se impacientou e, eu assim como Edward, demos vários passos para trás, pois o olhar assassino estava muito firme em Rennee. Ela se abaixou e de forma pouco digna, cortês, seja lá o que for, levantou o vestido da abatida Tania, mostrando as calçolas de rendas que iam até a altura dos joelhos e continuou a subir sem qualquer pudor ou piedade. Alice chegou perto e passou a auxilia-la naquela tarefa degradante e segurou com firmeza em seus dedinhos finos as barras da saia do vestido, enquanto Rennee procurava, agora mais livre, com as duas mãos à algo muito compenetrada para finalmente com um grito de triunfo exibir diante de meus olhos esbugalhados a um pequeno e redondo travesseiro.
—Aqui está a barriga!
Hein?!
O que era aquilo? O que estava acontecendo?!
—Barriga?! Mamãe isto é um travesseiro! – gente, era muita coisa em um dia só! Eu não consegui atinar sobre mais nada e fiquei com a boca aberta esperando que alguém tivesse misericórdia de meu cérebro e traduzisse tudo aquilo! Alice levantou-se com ar de triunfo nas faces magras e seus olhos brilhavam tanto que eu poderia me queimar com aquele olhar.
—Gravida é?! Hum, eu já desconfiava que era tudo a uma grande farsa que ela estava nos metendo, de novo!
—Então, ela não está esperando um filho de Edward?!
Quase não podia acreditar que minha boca dizia aquelas palavras! Olhei novamente para a mulher estatelada no chão completamente inconsciente e tive raiva dela! Toda a minha piedade se esvaíra por completo.
Como ela pode?!
Era-me difícil atinar que alguém faria algo assim tão sórdido, tão vulgar! Não se brincava assim com algo tão importante como a vida de uma criancinha, um bebezinho que nem mesmo existia!
Edward deu duas passadas e pegou nas mãos ao travesseiro redondo e ficou olhando para ele como se visse a um fantasma.
—Mas com todos os demônios, por esta eu não esperava! Achei mesmo que ela estivesse prenha e que teria a uma trabalheira danada com esta história. Que o capeta chute a minha bunda se eu não me livrei de uma boa! Jacob leva este traste de gente pro quarto. Quando ela acordar quero ter a satisfação de esfregar este travesseiro nessa cara pintada de bosta!
Todos acompanharam com enorme expectativa ao enorme Jacob abaixasse e pegar em seus braços o corpo mole de Tânia. Para depois desaparecer no corredor. A pergunta escapou pelos meus lábios repentinamente.
—Como vocês sabiam?!
—Verdade?! Que estes seus olhos enrugados até que são bem sabidos, viu Rennee! – Edward esqueceu por alguns instantes da fúria assassina de minha mãe e pulou de lado no mesmo instante que ela voltou para ele com o brilho da morte refletida no olhar.
—O que foi que você disse, peão, repete se honra as tuas bolas? – eu vi que ela posicionou um pé adiante do outro e, adivinhei o que viria depois se Edward não censurasse melhor as suas palavras grosseiras.
—Arre égua!! Que agora nem apelar para a santinha posso mais!– nisto ele me olhou de cima a baixo e ficou atrás de mim, antes de voltar a falar.
—Oi, eu estava era te elogiando, mulher! Tu acaba de salvar teu genro da danação eterna!
—E, é muito bom que nunca, nunca se esqueça disso! Nem mesmo quando o capeta vier pegar teu corpo velho e furado de balas!!
Daí, ela voltou-se para nós dois! Imagina aquele caçador, com aquele olhar espreitando a caça através da mira do rifle, pronto para dar o tiro certeiro. O caso era que ela pretendia abater a dois com apenas um único tiro, eu e Edward!
Cientes das intenções nada escusas, nos agarramos e demos vários passos para trás. Pouca coisa resolveu, pois ela moveu-se para o nosso lado, gingando perigosamente. Até parecia a uma leoa faminta. De repente senti falta dos italianos!
—Hã, mamãe?
—Mamãe, nada! – a voz soou alta demais para os meus ouvidos, olhei para cima e vi Edward atrás de mim, cheio de receios, até parecia que ele estava com medo.
—Olhem bem para mim, vocês dois! – era como se um raio houvesse caído bem no meio de nós. Eu, muito covarde e sem noção de nada, fiz o que sabia fazer de melhor. Berrei a plenos pulmões!
—AIÊ!! – com direito a me agachar de cócoras e colocar as minhas mãos na cabeça. De repente, alguém se apiedaria de mim!
Um silêncio sepulcral imperou pela sala por alguns instantes e, cheguei a supor que estivesse morta em outro plano. Olhei para cima, Edward olhava sem piscar para Rennee, acho mesmo que ele nem respirava. Covardemente procurei rostos amigos, me lasquei, claro! Alice parecia com um daqueles juízes que dariam o veredicto da morte. Jasper e Ben. Cheney, naquele momento estavam perto da janela aberta, olhando com muito interesse não sei o quê do lado de fora e por fim Rennee, que ainda mantinha aquele dedo esquelético virado pro meu lado, com uma carranca, nada, mas nada amiga!
—Levante-se Isabella e receba a tua sentença com dignidade, mulher!
Senti dedos firmes me soerguendo, minhas pernas tremiam muito. Oh, meu pai! A cada hora era uma tormenta na minha cabeça, eu já achava mesmo que não chegaria ao final do dia inteira!
—Rennee, deixe que eu fale, por favor! – Edward me passou para trás de suas costas.
Uma mão branca e magra, com umas tatuagens diferentes de todo o desenho que eu já vi na vida, foi erguida bem diante do nariz de Edward o proibindo de continuar.
—Não, quem vai falar sou eu! Tire esta mulher de trás das tuas costas, Edward. Pois o que eu tenho para dizer, tem que ser dito, olhando bem fundo nos olhos.
Era isto ai!
Eu estava bem enganada se cheguei a pensar que me safaria desta numa boa. Limpei minha garganta com um pigarro e dei um passo de trás de Edward, ficando ao seu lado. Depois, peguei em uma de suas mãos, ele apertou meus dedos com firmeza. Fosse o que fosse enfrentaríamos juntos.
Olhamos os dois para ela, que passou a andar, para lá e para cá, em uma linha reta, com as mãos nas costas e, de vez em quando nos lançava aquele olhar. Edward explodiu em alguns poucos minutos, claro!
—Pelo amor, Rennee! Não demora muito que eu preciso trocar a cueca que está aqui já deu prazo de validade! Desembucha!!
Rennee parou no meio daquela reta imaginaria e olhou com desdém para Edward.
—Francamente, Edward! Que da primeira vez, fosse Tania, nem me importei, afinal nada de bom poderia vir daquele pardieiro e de um jagunço ensopado com a pior bebida destilada do mundo. Mas a minha filha?!
—Rennee, Rennee!! Já dei minha palavra que vou arrumar todo este furdunço!
—Cala a boca, peão! Que eu ainda não acabei com você!
—Arre égua, que assim eu fico louco! Arruma daqui, desarruma de lá! Assim não dá, hoje mesmo eu mato um, depois dou um tiro nos miolos, pronto! – Edward gesticulou com as mãos, assim, como que finaliza algo e indica que não tem mais nada. Rennee apontou o maior dedo seco no nariz dele antes de decretar:
—Pois fique sabendo que eu vou lá no inferno pedir a tua alma de volta pro capeta, se você morrer antes de casar com a minha filha, seu desdentado, cachorro cheio de sarna!
—Oi! Assim é muito esculacho, mulher! – Edward olhou descabido rapidamente para o meu lado.
—Eu nem comecei!
—Então termina logo! A única coisa que eu quero neste mundo quente é casar com a santinha aqui, ó! – ele me puxou para o seu lado, como a confirmar posse e propriedade.
Rennee em seguida me tirou do lado dele.
—Isto é o que vamos ver!
—Quê?!? – perguntamos ao mesmo tempo, eu e Edward.
—Acha mesmo que é só estender esta tua mão larga, cheia de dedos e pegar nela?! Mas você não merece nem a piedade do altíssimo, Edward! Acreditou mesmo que Isabella fosse madre e, ainda sim, esticou este teu bicão por lado dela! E você, menina?
Ela voltou-se para o meu lado.
— Hein?!
—O quê, o quê?!?- Rennee me olhou de cima abaixo com as mãos na cintura– não se deu ao respeito, ficou se amassando com este peão xucro e tarado bem debaixo do meu nariz! Isabella, eu vivi muitos anos no deserto, mas não esqueci a decência que uma mulher deva dar para pervertidos da laia de Edward Cullen!
—É...! – eu nem sabia por onde começar, com aquela carraspana que estava levando.
—Se eu não chegasse, a merda maior já teria acontecido! Agora mesmo, vamos arrumar toda esta bagunça! Não quero fechar o dia com uma filha mal falada!
—Ai credo, mamãe! – eu arrumei a barra do meu vestido, para depois tentar ajeitar meus cabelos. Era muito importante passar a imagem de mulher decente! Mentirosa, fugida de mafiosos, tudo bem! Mas eu não era qualquer uma! Virei-me para ele que estava com uma vermelhidão bem acentuada naquela cara larga, descarado que só ele! Ao final, Rennee tinha razão! Era tudo culpa daquele miserável que vinha pro meu lado com aquelas mãos quentes e grandes, amassando as minhas carnes. Me despindo com aquele olhar depravado e me beijando todinha com aquela língua libidinosa, atrevida e aquela boca suculenta! Sem por na conta aquele monte de bobagens que ele ficava sussurrando no meu ouvido enquanto se esfregava inteiro em mim. Dizendo onde exatamente ia me lamber e chupar!
Oh, perdição! Quem pode meu pai, com isto tudo?!
Rennee também não tinha clemência, afinal ela já tinha o Phil!
E eu, era uma desgarrada torrando feito pão no deserto, sem eira e nem beira! Minhas idéias estavam um tantinho frouxas, acho mesmo que parte do meu cérebro havia derretido. Ainda sim, eu nunca seria capaz de fazer frente a Edward, ao contrário, eu me jogaria naqueles braços fortes e exigir ser consumida por ele a qualquer hora, em qualquer lugar!
Demônio Cullen!
Continua...
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