Kalahari
25 Capítulo 24
Notas iniciais
Kalahari
Capitulo 24
As minhas pernas e meus braços se movimentavam em um lago macio e aconchegante. Eu me esticava inteira tentando alcançar algo que era afastado de mim e que me causava a muita irritação. Mas quando eu esticava a perna para dar um passo, tentando ganhar espaço naquele lugar maravilhoso, aquilo que era o meu objeto de desejo e adoração se afastava ainda mais.
—Não! – meus lábios protestavam contra aquela tirania, meu corpo se retorcia e eu quase chorava. Apenas o conforto daquele lugar não permitia que eu me desesperasse. Por um segundo eu fiquei parada completamente, apenas permitindo sentir aquela sensação que abraçava meu corpo e beijava a minha alma. Por um instante eu quase esqueci do meu desejo maior, quase. Então eu voltava a me esticar e tentava alcançá-lo, tocá-lo com meus dedos e retê-lo em meus braços firmemente. Ele estava lá, como uma luz que brilhava para mim. Se eu esticasse um pouco mais meus dedos, talvez, desta vez eu pudesse pegá-lo. Concentrei toda a minha energia naquela idéia e ergui meus braços e estiquei bem meus dedos. Eu me aproximava dele e sorri com satisfação, daquela vez ele não fugiria de mim, ele seria meu e, como se um véu tivesse sido tirado de meus olhos, eu soube quem ele era.
—Edward!
A luz foi se transformando diante dos meus olhos e dando forma milimetricamente a figura forte de Edward. Agora eu podia vê-lo por inteiro, metido naquele brim sujo e justo em suas coxas fortes. Meus olhos seguiam em adoração pelo tórax largo até se fixarem no rosto másculo, moldurado pela barba loira e rala que lhe dava a um ar selvagem e indomado. E, os olhos verdes, que me causavam febre por toda a parte do meu corpo. Edward ergueu a mão em minha direção e aquilo foi como uma mola propulsora que me impulsionou em sua direção. Quando meus dedos estavam a milímetros dos dele algo aconteceu e, eu cai vertiginosamente. A magnífica imagem de Edward se esvaneceu diante dos meus olhos enquanto eu mergulhava na queda escura e dura do chão do quarto. Abri meus olhos assustada, para em seguida tirar o fino lençol que cobria minha cabeça e parte do meu corpo. Eu estava deitada no chão olhando para o teto branco e rústico do quarto e feito a uma demente perguntei intimamente se o teto era feito de barro.
Balancei minha cabeça forte o suficiente para sentir meus cabelos se agitarem e sentei, notando que estava ao lado da cama. A evidência de que eu havia caído dela me era sentida através da dor fincada em cada banda da minha bunda. Suspirei lentamente e me ergui sentido que cada pedaço do meu corpo estalava. Como se fosse possível que meus ossos quebrassem com aquele movimento. Ainda estava claro lá fora, mas eu não fazia a menor idéia que horas eram aquela, tão pouco que dia do mês estávamos. Para mim, havia a sensação de que eu estivera naquele mundo escaldante a uma década e, ao olhar as frestas que havia nas paredes rústicas do quarto, era como se eu olhasse para velhas amigas. Caminhei até a cômoda que tinha uma vasilha com um refratário com água fresca, no caminho meus dedos dos pés esparramaram-se livres e felizes pelo chão de madeira. Quando cheguei até a cômoda pude olhar-me no espelho e agradecer a Deus por estar viva. A minha pele agora apresentava um tom mais escuro, dourado pelo sol. Meus cabelos brilhavam tanto quanto estavam leves e o tom avermelhado estava mais acentuado também. Por mais que houvesse cansaço nos meus olhos com evidentes olheiras, ainda sim, de um modo bom a minha aparência apresentava saúde e disposição.
—Nem parece que eu passei por tudo aquilo!
Derramei um pouco de água na vasilha e aquele som, da água batendo no fundo era a algo estarrecedoramente lindo de se ouvir. Depois mergulhei as duas mãos dentro da agua e senti o fresco molhado envolvendo meus dedos, me causando pequenos choques pelo corpo. Lavei meu rosto com aquela água vigorosamente, na intenção de apagar do meu rosto os vergões que se formaram e tirar definitivamente aquela expressão de sono. Voltei a me olhar e me dei por satisfeita. Procurei por uma toalha e meus pensamentos me levaram finalmente para o que me esperava fora daquele quarto. Covardemente eu havia decidido me refugiar aqui e tentar acalmar meu coração. Após chorar muito, o que rendera a uma crise de irritação em Rennee, eu adormecera. Ao final associei que o sonho que eu tivera fora fruto do meu drama pessoal, e novamente deixei que a tristeza se apoderasse de mim.
O que eu faria?
Mesmo que Rennee e Alice falassem e, elas falaram muito, sobre Edward não amar Tânia, de que o casamento deles era uma piada de mau gosto. Ainda sim, eles eram casados e Tânia dizia que estava grávida de Edward. Como eu poderia me tornar aquilo que eu mais critiquei em minha vida? O que Edward Cullen havia feito comigo? Ele virara do avesso meus preceitos e minha credibilidade. Eu tinha a minha frente o meu reflexo e por um instante questionei quem era aquela mulher? Meu cérebro iria frita antes de eu conseguir a qualquer resposta, mínima que fosse, então decidi que era hora de encarar meus tormentos e sai do quarto com passos firmes, mas mole e trêmula por dentro. A primeira coisa que eu vi, foi um corredor vazio, mas os sons de vozes me indicaram para onde seguir, a sala principal, onde pude encontrar Edward no centro, Rennee sentada ao lado com Phil e no lado oposto Alice e Jasper. O cenário se fechava com Jacob e Zahara, todos absorvidos por algo que Edward falava com eloqüência. Eles estavam tão entretidos com a explanação de Edward que não notaram a minha presença.
—Eu quase não acreditava no que via com meus olhos da cara, não senhor! Depois de termos andado embaixo do sol escaldante, aquele toco de mulher, sentou na pedra e com coragem de guerreiro bateu uma pratada da comida do Moabe!
—Misericórdia! – Jacob protestara, como se uma blasfêmia tivesse sido pronunciada.
Edward olhou para ele e ergueu a mão deixando em evidência dois dedos antes de voltar a falar.
—O quê?! Ela ainda teve animo para repetir a porção, meu amigo!
—E você deixou, hombre?!
—Arre, que se tiver em meu poder, ninguém passa fome perto de mim!
—Aposto que a coitadinha teve a uma má digestão!
—Qual o quê?! Roncou a noite inteira, eu nem me preocupei com as víboras, nada que tivesse inteligência e senso de auto preservação iria se aproximar do acampamento com aqueles roncos!
—Hombre, você é muito cruel!
—Arre égua! Que estou aqui explicando como fiz para salvar a santinha e você me vem com está, Jacob?! – Edward levou as mãos a cintura, como se procurasse por algo, suspeitei por um instante que ele procurava pela pistola dele. Jacob não se deixou intimidar e cruzou os braços em forma de protesto.
—Que fica difamando a pobre madrezita!
—Eu?!
—Sí! Dizendo coisas grosseiras sobre a coitadinha. Não viu que ela é diferente, hombre? É mulher santa, filha de Deus! – Jacob conclui erguendo as mãos aos céus.
—Só porque ela é santinha não come e nem defeca mais?
Jacob deu um pequeno pulo e olhou para o teto, como quem busca proteção. Eu vi Rennee se mexendo lentamente, como se algo a estivesse incomodando e Alice colocou dois dedos nas têmporas, como se tivesse dor de cabeça. Eu estava em estado de letargia, como se algum búfalo tivesse passado por cima de mim, incapaz de conseguir entrar na sala e meter um pé inteiro dentro da boca enorme de Edward Cullen. A imagem que eu tive dele em meu sonho, lindo e sexy se esvanecera por completo, pois a única coisa que eu conseguia ver naquele momento era a cara de babuíno vermelha que ele tinha, com os dentes grandes que reluziam para fora da boca como se fosse matar alguém a dentadas! Edward Cullen era uma criatura das trevas e sem qualquer sensibilidade para notar o mal estar que se instalara na sala. Somente Jasper parecia se divertir com o que ele falava e como se tivesse recebido a uma injeção de motivação Edward continuou a falar daquele jeito bestial e escandaloso.
—Jasper, meu irmão, vou confessar aqui e agora... – ele apontou dois dedos para o chão, com ênfase antes de continuar com seu relato de terror-...que eu morreria antes de ver outra mulher tão valente como foi Alice no deserto.
—Edward, pelo amor de Deus! – Alice bateu com vigor a mão pequena na coxa fina.
—Não Alice, eu preciso dizer que fiquei com o queixo no joelho quando te vi comendo aqueles ovos cozidos de avestruz, com farinha e feijão.
Jasper deu uma gargalhada tão alta e vigorosa que o copo que estava em cima de uma pequena mesa ao seu lado tremeu, depois ele foi silenciado por uma cotovelada no meio das costelas, mas nada era capaz de fazer Edward Cullen de silenciar.
—Detalhe o feijão azedou naquele dia, você lembra? – ele apontou um dedão para Alice que virou o rosto para o lado como resposta. Não se dando por satisfeito, Edward ignorou aquele gesto da irmã e conclui dizendo que o feijão fora lavado e misturado a farinha e que Alice comeu tanto que quase não podia sentar na égua e ficar reta.
—Tive mesmo que amarrá-la para que não caísse e quebrasse esse narizinho bonitinho que ela tem ai nessa cara de fuinha. Qué, qué, qué, qué, qué!!!
Ele passou a gargalhar enquanto se curvava para frente e batia a palma da mão nas coxas duras. Jasper não conseguiu se conter e o acompanhou nas risadas altas e desenfreadas. Até mesmo Rennee parecia incapaz de segurar o bico que tinha na cara e que aos poucos se esticou em um sorriso contagiante. Phil escondera o rosto na mão, mas era evidente que ele ria também, a julgar pela vermelhidão que se espalhava até o pescoço longo. Eu me sentia tão sufocada com tudo aquilo que não pude evitar de levar minhas mãos até o pescoço, um pouco antes de Alice saltar da poltrona onde esteve a mercê das grosserias de Edward e apontar um dedo para ele e ameaçá-lo. Eu via o brilho da morte reluzir através dos olhos dela.
—Edward Cullen, eu vou descarregar uma arma bem no meio da tua cara! – então ela deu dois passos longos até ele e meteu a mão que bateu com um estalo acima da barriga de Edward que se aprumava enquanto limpava as lagrimas que saiam dos olhos.
—Alice sempre vira uma monstrenga quando eu conto esta história!
—Eu não entendo qual é o teu problema, Edward? Certas coisas a gente deveria esquecer, definitivamente!
—O quê?! Esquecer que depois você ficou tão entupida, que não conseguia cagar por três dias seguidos e que teve que tomar um copo de leite de búfala coalhado com uma colher de óleo de ricino? Mas nem sobre tortura! Lembrar da tua cara de fuinha não tem preço! HueHueHue.....
Agora nem Jacob ou Zahara conseguiam esconder o riso que contagiava a todos e, eu me compadeci de Alice. Eu dei um passo a frente decidida a socorre a irmã de Edward quando uma voz musical me vez dar um salto e olhar para trás.
—Oh, mas quanta alegria nesta casa! – Edward tomara a atenção de todos com tamanha eficiência que eu me esqueci por completo dela, Tânia. Ela deslizou elegantemente para dentro da sala, passando por mim sem me dar a mínima atenção, como se de fato eu não existisse, como se eu fosse um adorno da parede. Ela usava a um vestido rosa com tons leves de verdes nas extremidades e parecia que tudo colaborava para que ela se destacasse acima das outras mulheres. Pelo cheiro, pelo balançar das ancas e pelos cabelos que estavam ordenados de forma sublime em um coque leve que deixava a alguns fios soltos que se emolduravam pelo rosto dela. Eu toquei a pele da minha bochecha e percebi que perto da esposa de Edward eu parecia uma lavradora, com a pele queimada pelo sol e, para minha maior insegurança, percebi que não passara uma escova nos meus cabelos e estava descalça.
Eu nunca poderia competir com ela, pois não tinha ginga, classe, tão pouco um décimo do charme de Tânia. Na verdade eu era estúpida e desastrada! Eu tive que engolir em seco toda a minha insignificância e me encolhi no espaldar da porta de entrada da sala. Parecia que com a entrada de Tânia todos finalmente tiveram as atenções desviadas de Edward que continuava a rir feito um jegue. Jacob, assim que percebeu que Tânia parara a seu lado, empinou o nariz para o alto e se colocou o mais distante que podia dela. Finalmente algumas pessoas passaram a notar a minha presença, ali, paradinha perto da porta de entrada da sala, até mesmo Edward que me iluminou com seus olhos.
—Isabella, não sabia que tinha acordado! Espero que tenha descansado e... – ele foi interrompido pela voz musical da esposa.
—Oras meu bem, com você rindo tão alto fica difícil para alguém conseguir dormir nesta casa. Até mesmo eu, que tentei relaxar um pouco, pois meu estado interessante inspira certos cuidados, acordei com a alegria que vinha desta sala. Diga-me, o que você dizia que alegrava a todos? – Tânia se dirigiu até uma poltrona alta, localizada quase no centro da sala e assentou-se nela como se fosse um trono. Tudo nela era deveras teatral e, eu não pude deixar de notar o modo clássico demais como ela cruzava as pernas e mantinha ereta as costas, como se fosse uma rainha que recebia aos súditos em seu palácio.
Depois, como quem deseja causar a algum impacto, ela olhou para o rosto de cada um dentro da sala, antes de brindar Edward com um sorriso enorme e convidativo. Eu não conseguia entender como Edward não percebia o modo com que a sua esposa se declarava para ele. Ignorando todos os demais, Edward com duas passadas ficou parado a minha frente e com delicadeza tomou as minhas mãos.
—Como você está se sentindo? Rennee disse que você precisava dormir um pouco, que estava deprimida... – ele parou de falar por um instante e engoliu algo que desceu seco pela goela, de tal modo que eu vi o pomo de adão se mover para cima e depois para baixo-...o que eu puder fazer por você, minha santinha, eu faço!
Havia tanta sinceridade em seus olhos. E, o calor de suas mãos abrandaram pelas minhas, se alastrando pelos meus braços e ganhando meu corpo. Sem perceber eu estava projetada para frente e meu nariz quase encostou no queixo quadrado de Edward. Dei-me conta do que estava preste a acontece e voltei a ficar reta enquanto tirava minhas mãos do meio das mãos dele. Edward notou meu constrangimento, que não o impediu de tocar com leveza a ponta dos dedos no lado esquerdo do meu rosto. Foi o carinho mais sutil e ao mesmo tempo acalentador que eu já recebera. Eu sentia-me leve, mas tão leve que se o peso que se formou na boca do meu estomago e que me causava eletricidade pelo corpo não fosse tão forte eu acho que iria flutuar pela sala. Edward tomou do ar longamente, antes de expeli-lo suavemente pelas narinas.
—Entre, estávamos a sua espera. – eu fui conduzida gentilmente para dentro da sala, pude notar que apesar da evidente irritação, Alice voltara a sentar-se ao lado do esposo. Eu fui colocada sentada em outra poltrona e para minha surpresa, Edward ficou em pé ao meu lado, sem importa-se se alguém acharia estranho ou não aquilo. Eu ouvi alguém limpando a garganta e notei que era Tânia, que me olhava de um modo muito intenso, como se fosse capaz de enxergar a cor da minha roupa intima. Aquela inspeção não me deixou muito a vontade, mas foi o que ela disse a seguir que acabou com a minha paz de espírito definitivamente.
—Então, Edward, do que todos riam tão alegremente? – ela perguntou e erguendo as mãos, para depois complementar que adorava reunião de família. Alice resmungou alguma coisa, algo que não ficou muito claro para mim, sobre Tânia nada saber sobre reunião ou família, algo assim. Já Edward estufou o peito para frente e colocou as mãos na cintura antes de anunciar que estava, a principio, enaltecendo minhas qualidades.
Hein?!
—Conte-me, querido, sobre as qualidades da madre! – Tânia olhou-me detalhadamente, de cima a baixo, enquanto praticamente soletrava cada palavra. Eu me senti em perigo naquele momento, não era nada confortável virar o centro das atenções e Edward se posicionou novamente no centro da sala antes de falar que eu era a garota mais corajosa que ele já conhecera em todos aqueles anos.
—Verdade seja dita, quando eu conheci a santinha, eu não botei muita fé! Ela era uma coisinha miúda que tremia a todo instante. – então, ele deu uma cusparada no chão da sala antes de voltar a falar – mas, como o sol do Kalahari queima mais do que em qualquer outro lugar deste mundo velho, eu afirmo que a minha santinha não amoleceu no meio do deserto, não senhor!
—Não me diga! – Tânia semicerrou as pálpebras e falou de um modo enfadonho. Edward sentiu-se provocado com aquele pouco caso e ergueu os braços, como a enfatizar sua narrativa.
—Arre, que se fosse qualquer outra mulherzinha, tinha morrido por lá. Mas, não a minha santinha, ela não! Eu digo, que Isabella é tão forte quanto o deserto e que nada pode detê-la, nem o calor, nem os selvagens.
Tânia ainda não se sentia convencida e suspirou. Então Edward falou que a minha coragem era tanta que até da comida do Moabe eu havia comido e esta parte eu não entendi muito bem, pois não havia nada de errado com a comida de Moabe. Mas, parece que aquele feito causara algum espanto em Tânia. Ela colocou dois dedos sobre os lábios e olhou para mim, como quem via a um fantasma e disse:
—Não creio!
—Pois foi, com direito a repetição e, falo mais, não tinha frescura não! Comeu com gosto, um verdadeiro prato de peão! – como a evidenciar o tamanho e formato, Edward utilizou as mãos enormes, fazendo formas. Eu o odiei naquele momento! Como assim ele ficava reparando o quanto eu comia?! E que negocio era aquele de contar para todo mundo, inclusive para a esposa dele que agora me olhava de forma não somente assombrada mas, com um certo ar de desdém.
—Tenho que dar todos os créditos a santinha aqui! Inclusive você Tânia, deveria parabenizá-la!
—Eu chifrudão?!
—Sim, senhora! Pois eu tenho certeza que você não teria passado nem pela metade do que a santinha passou e sair inteira para contar depois.
Primeiro, que eu não estava contando nada! Eu estava sendo execrada na frente de todos e desejei fervorosamente ter a algo bem pesado para tacar na cara de Edward Cullen, a criatura mais irritante que eu já conheci em toda a minha vida!
Quase rindo Tânia não contestou, apenas frisou que ela não duvidava destas minhas qualidades, inclusive de comer a comida de Moabe. Cansada de ser esculachada eu me levantei em protesto.
—Pois saiba que não havia nenhum problema com a comida de Moabe e, eu comeria novamente de bom grado.
Orgulhoso com o que eu falei, Edward se aproximou de mim e colocou um braço em volta do meu ombro antes de dar o aval com o queixo, todo satisfeito e disparou.
—É exatamente isto o que eu estou dizendo, dona Tânia! Minha santinha aqui, comeu tanto da comida do velho Moabe que nem deixou para trás os testículos de búfalo!
Tânia riu suavemente e mencionou que sorte a minha estar em uma fazenda de búfalos, pois não correria o risco de ficar sem aquela iguaria. Eu me desvencilhei do braço de Edward e protestei.
—Eu não comi testículo de búfalo!
—Comeu!
—Não comi!
—Arre, que você comeu tanto que até lambeu os beiços! – Tânia agora ria aberta, sem preocupar-se em esconder a boca aberta que exibia a dentes brancos e miúdos. Eu comecei a espumar de raiva.
—Edward você é uma besta retardada! Como ousa contar uma mentira desta, na frente de todos?
Edward pareceu não se importar com o insulto, ele deu um passo para o meu lado e colocou uma mão sobre minha testa.
—Oh, minha santa, você não está bem das idéias de novo! Vou passar um rádio para a cidade pedindo para o doutor vê-la. Que assim eu até fico preocupado!
Depois ele colocou a mão no peito, como se algo doesse por dentro.
—Beba você do seu próprio remédio, Edward Cullen, e pare de falar mentiras sobre mim!
—Eu não estou mentindo! Acho que você deva ter batido a cabeça com força, venha aqui, me deixe ver se não ficou algum calombo...- Edward me puxou e colocou as mãos enormes em mim, mexendo nos meus cabelos, tateando todo o contorno da minha cabeça a procura do tal do calombo. Irritada eu deu um safanão nas mãos dele.
—Você faz estas coisas de propósito, Edward? – eu estava tão enfurecida que sentia meus olhos se injetarem para fora.
—Fique quieta, Isabella, estou te examinando! – ele parecia alheio a minha fúria e continuava a me apalpar.-Rennee você não notou nada de errado com a tua filha?
Finalmente minha mãe ergueu-se da cadeira com evidente irritação.
—Não tem nada de errado com Isabella, agora tire suas mãos dela!
—Arre, Rennee, que eu estou preocupado, só isto!
—Preocupado? Você a expõem com tuas grosserias e agora me vem com esta de preocupado?! Tenha paciência, não é Edward!
—O que eu fiz?- Edward olhou a volta, para o rosto de todos – falar que ela comeu testículos de búfalo é heresia? Só porque dizem que o troço é afrodisíaco?!
Ele me olhou de cima a baixo antes de sugerir que eu deveria tomar uns banhos gelados caso sentisse alguma caloria subindo. E a única coisa que subiu foi o sangue que se concentrou no meu rosto. E parecia que Edward Cullen não tinha freios na boca.
—Da minha parte eu asseguro que não farei nada! Nem vou ficar perto da santinha para não correr risco e Jacob também vai ficar longe!
—Que sacrilégio é este hombre?!
—Sacrilégio o cacete! Este papo de madrezita não adoçou meu bico, tô velhaco com você, seu espanhol de merda! – havia a uma clara intimidação na voz de Edward. Ele mirava Jacob com um olho aberto e outro fechado, enquanto inclinava o tórax para frente. Eu tremia tanto que parecia que meu corpo iria desmontar. Edward em um curto espaço de tempo conseguira levar ao limite dos nervos a todos naquela sala, menos a Tânia que ainda ria feito a uma galinha choca. De repente Zahara saiu da sala, julguei mesmo que fosse pelo fato de todos estarem aos nervos. Minha mãe se posicionou ao meu lado.
—Calma filha! — Eu não havia percebida que voltara a chorar, mas daquela vez era de pura raiva.
—Você ouviu tudo o que ele disse, mamãe? – mas é claro que sim, todos ouviram as coisas estapafúrdias que Edward Cullen falou! De repente todo o amor que eu sentia por aquele ser havia desaparecido e no lugar restara apenas raiva. Ele havia mudado seu alvo como quem muda de roupas. Eu sentia tudo o que Alice passara minutos atrás, até mesmo assumira seu lugar, em pé na sala. Se houvesse algum tipo de arma mortal por perto eu teria atingido Edward em cheio e depois acabaria com a pompa da galinha choca que ria irritantemente as minhas costas.
—Eu não comi esta coisa nojenta, mamãe, não comi! – eu precisava enfatizar a minha inocência, era essencial que todos acreditassem em mim. Rennee colocou uma mão de cada lado do meu rosto.
—Oh, meu bem, isto não importa mais! Esqueça as idiotices que Edward fala, por favor! – mas eu não conseguia, eu queria fritá-lo em óleo quente, um instinto assassino tomou conta de mim e quando eu me virei para ele e olhei as costas largas algo estalou dentro de mim e eu lembrei das “carninhas” que Moabe serviu por cima do grude que estava amontoado no meu prato de alumínio.
Não podia ser!
Eram tão macias e saborosas! Eu tentei vislumbrar o formato de um testículo de búfalo e nada que vinha a minha mente se associava ao sabor daquela “carninha”. Eu me virei para Rennee.
—Então não era bacon?
—Não querida! – havia complacência no modo como Rennee me olhava. A fúria que rugia dentro de mim mudou um pouco de sintonia, ela abrandara. De fato, não tinha gosto de bacon, tinha um gosto bom que eu não consegui comparar com qualquer outro tipo de carne que já experimentara antes, antes daquilo.
—Você sabia, mamãe? – ela confirmou com um balançar de cabeça. Eu não conseguia lembrar se Rennee comera ou não daquilo, mas, ela me viu comendo e não fez nada para impedir.
—Você me deixou comer! – meu grito fora alto o suficiente para fazer Tânia parar de rir e de chamar a atenção de Edward que virou-se para nós.
—Oras, Isabella, você precisava se alimentar! – como se aquilo fosse desculpa suficiente.
—Você poderia pelo menos ter me alertado do que se tratava! Que espécie de mãe é você?
—A mãe que faz de tudo para que a filha fique nutrida! Você necessitava de todas as proteínas necessárias para atravessar bem o deserto e...!
—E comer testículo de búfalo iria me salvar?! – eu sentia que meus olhos estavam tão arreganhados que as veias queimavam ao redor. Rennee deu de ombros, como se aquilo fosse de fato a um grande engodo.
—Depois de picado e cozido é uma carne qualquer! Você ficaria surpresa se eu contasse o que já comi para manter-me viva. Coisas muito estranhas, como cobras, macacos, guinus e bacalhau podre!
—É isto ai, Rennee! – Edward apoiava mamãe- é como eu sempre digo, o que não mata, deixa o couro duro! E pode falar, pode falar santinha, você bem que gostou, não foi?!
A minha angustia somente não era maior do que meu estado de choque. Mas eu fui salva de ter que responder aquela pergunta indigesta quando Zahara voltou acompanhada de alguém
—Boas noite! – Ben Chenney – Espero não estar atrapalhando.
—Você já é de casa, meu amigo! – Edward deu um tapa estrondoso nos ombros magros do xerife, que se encolheu com o impacto.
—Rennee, é bom poder te ver novamente! Fiquei muito feliz quando Edward passou o radio dizendo as novidades. – Chenney entrou na sala e passou a cumprimentar a todos, inclusive a mim.
—Oras, se não é a madre Swan! Está bem diferente da ultima vez que a vi, acho que Kalahari fez muito bem a você, se não for ofender, é claro!
—É isto o que eu estava acabando de falar, Ben! A santinha aqui, domou na unha esta terra quente dos infernos! Até parece que ela nasceu aqui antes que o capeta botasse fogo no mundo.
Alguns riram com aquele comentário, menos eu, que ainda me sentia ofendida e sem argumentação. Edward voltou a ficar do meu lado, como se fosse dono, proprietário e precisasse guardar a algum bem muito precioso.
—Tânia, espero que tenha arrumado tuas tralhas, pois tua carona chegou — sem importunasse em olhar para Ben Chenney, Tânia balançou displicentemente seu leque colorido antes de mencionar sua decepção.
—Nosso acordo era que eu ficaria ainda mais três dias e depois você iria me levar para a cidade, chifrudão!
—Arre, para quê perde a oportunidade quando ela aparece! Ben, você não se importa em deixar Tânia na cidade na volta, se importa?
—De forma alguma, mas receio que vá demorar um pouco ainda, pois coisas urgentes me trouxeram hoje aqui.
O xerife olhou para mim de um modo preocupante. Meus pêlos do corpo se ergueram como os pêlos de um gato quando se sente ameaçado. Edward perguntou da forma mais direta possível.
—O que aconteceu?
—Ainda não aconteceu nada, mas, apareceu na cidade por estes dias pessoas estranhas, estrangeiros.
—E você está com esta cara de merda só por que veio da casa do cacete alguns gringos? O que tem de errado com estes porras?
—Além deles serem italianos e estarem procurando por uma jovem freira, nada!
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