Kagamine Twins
24 DèjáVu
Notas iniciais
Acordei sozinho na manhã seguinte. Rin já tinha se levantado, mas eu continuava enroscado nas cobertas. Olhei em volta e vi que ela não estava no quarto. Trouxe as cobertas mais próximas do rosto. Tinham o perfume dela. Aliás, não só as cobertas, mas o travesseiro também. Todo o quarto tinha o inebriante e doce perfume da Rin.
Argh! Mas que diabos! Estou parecendo uma adolescente!!
Afastei imediatamente o travesseiro e as cobertas do meu corpo e corri para o meu quarto. Quase tive um infarto quando vi a hora. Merda! Eu devia ter levantado junto com a Rin.
Quando cheguei na cozinha encontrei meu café da manhã pronto e um bilhete:
“Bom dia dorminhoco! Apesar do que você acha eu vou pra escola sim! Não vou deixar aquelazinhas me derrotarem. Eu sou mais eu! Ah! Não se atreva a faltar na aula!”
Como uma coisa boba dessas pode me deixar tão feliz? Mas eu não posso baixar a guarda. Está na hora de proteger a Rin, assim como ela me protegeu por todos esses anos. Se eu pensar bem a respeito, era isso mesmo que ela estava fazendo. Ela sabia que eu ia sofrer. Nossos pais também. Não posso ser egoísta e pensar que eles estavam fazendo tudo para me deixar no escuro. Na realidade, tudo que eles queriam era que eu não sofresse. Ainda não consigo ser grato por isso, mas um dia eu sei que serei.
Opa, não é hora de ficar divagando. Tenho que correr ou me atraso.
Durante o caminho, me peguei pensando o quanto estava solitário. Eu sabia que provavelmente essa era uma condição que iria se estender por algum tempo. Mas é melhor assim. Droga... Deveria ter a menos combinado com o Kaito para irmos juntos. Ir assim sozinho me deixa um pouco deprimido. Acabei me lembrando do que Rin e eu conversamos na noite anterior. A conclusão que nós acabamos chegando para o nosso problema foi dolorosa demais, mas necessária. Iríamos nos separar. Pelo bem dela, pela segurança dela... Esse era o melhor a ser feito.
É claro que eu não vou simplesmente desistir desse amor. Durante anos eu fui um crápula egoísta que abandonou ela sendo que se não fosse por seu sacrifício eu não sobreviveria. Agora, era a minha vez de fazer algum sacrifício: Eu enterraria (momentaneamente) no fundo do meu coração o meu amor por ela. Ia me tornar outra pessoa por ela. Tudo para que ela possa ter um pouco de normalidade. E a única forma que eu consigo pensar de fazer isso é... Ser um shota! Foda-se a minha dignidade! É a segurança da Rin que esta em jogo. É “Len” que elas querem? É “Len” que elas vão ter.
Na frente da escola, imaginei meu coração sendo guardado dentro de uma caixinha e a caixinha sendo enterrada no fundo do oceano, nas fossas abissais. A única que vai ter acesso a esse local vai ser a Rin, e só quando for seguro me expor para ela dessa forma de novo. Serrei os punhos, respirei fundo, forcei um sorriso, e entrei para o que agora era um palco para a minha atuação.
– Bom dia!! – Cumprimentei a todos, sorridente.
– Bom dia Len-kun!
– Len-senpai! Bom dia!
– Bom dia!
– Bom dia!
O numero de garotas que me cumprimentou me deixou um pouco assustado. Tinha até algumas que eu nem conhecia. Acho que talvez nem mesmo eu soubesse a proporção das pessoas que me conheciam nessa escola...
Nem sinal do Kaito. Droga, não faz nem bem 15 minutos que estou nessa e já estou cansado. Minhas bochechas doem de sorrir e eu estou com sono...
Bem, ficar resmungando não vai ajudar em nada... Hora de agir. Vítima às 12 horas. Preparando para interceptar. Alvo: Aoki Lapis do primeiro ano.
Me aproximei dela sorrindo.
– Aoki-chaaaan! Preciso da sua ajuda! – Forcei um grande sorriso.
– L-L-L-L-L-L-LEN-SENPAI!!!!
Uou! Ela ficou com o rosto todo vermelho! Vou fingir que nem notei...
– S-S-S-S-S-SIM, COMO EU POSSO TE AJUDAR???
–Né, né... Você viu o Shion Kaito por aí?
– Shion-senpai?? Hm... Acho que vi ele com o Utatane Piko da minha classe.
– Sabe para onde eles estavam indo?
– Não... Mas foram naquela direção. – Ela apontou para o final do corredor.
– Obrigado Aoki-chan. – Me aproximei e dei um beijo no rosto dela.
Ah! Ela derreteu... Essas meninas são muito exageradas...
Corri na direção que ela apontou. Os avistei indo para o pátio interno do colégio.
– Kaito!!
Ele estava com Piko e seu semblante estava muito, muito sério e um pouco preocupado. São tão raras as ocasiões que ele faz essa expressão que ainda hoje elas me deixam um pouco assustado. É quase como se fosse outra pessoa.
Ao ouvir meu chamado, Kaito virou-se e me encarou.
– Len... Desculpe, mas estou numa conversa importante com o Utatane-kun. Poderia me esperar na sala?
– Ah...Hm... Ok...
Merda. Eu não contava com isso... Kaito está ocupado, Rin veio sem mim. Me sinto sozinho... O que eu fazia antes de conhecer eles dois? Como eu passava o meu tempo? Não lembro. Por mais que eu puxe na memória não consigo nem imaginar quando que o Kaito não estava comigo. Mesmo quando estávamos em salas separadas nós nos encontrávamos no intervalo.
Não... Teve um tempo sim. Nós nos afastamos. Por que mesmo? Não lembro. Mas era importante. O que eu fazia nessa época?
Bem, pouco importa. A aula já vai começar...
Fui para sala me sentindo mais sozinho que dente em boca de banguela. Kaito chegou logo antes do professor, então não conseguimos conversar.
Na hora do intervalo, quando dei por mim, Kaito já não estava mais lá. E foi quando uma ficha caiu: Ele estava me evitando.
Bem, fodam-se todos então! Eu não preciso de ninguém!
Fiquei rabiscando alguma coisa no meu caderno quando um grupo de meninas se aproximou.
– Len-kun, está tudo bem? – Disse a de cabelo vermelho.
– Você parece tão desanimado... – Uma de cabelo roxo disse.
Olhei para as duas e as identifiquei como Kasane Teto e Tone Rion, as duas da minha sala.
– Ah, estou bem. Só entediado... Vocês querem brincar? – Sorri para elas.
– Não podemos... – Teto olhou para baixo.
– Ah, mas... Aqui, pegue! – Rion me alcançou um pirulito. – Agora nos estamos ocupadas para brincar mas se precisar conversar, estamos aqui.
Peguei o pirulito que elas me deram e sorri mais ainda.
– Obrigado.
As duas ficaram vermelhas como pimentão e se viraram, dando risinho e conversando baixinho entre as duas. Cara, eu não sabia que era tão popular...
As duas voltaram a me encarar.
–Temos que ir agora. Mas Len-kun, se anime! – Rion me segurou pelos ombros e sorriu.
– Até depois. – Teto disse e se virou, saindo da sala com Rion.
Sozinho, de novo.
Sem mais o que fazer, decidi ir para a biblioteca. Não podia procurar a Rin e Kaito estava me evitando... Era o que me restava fazer.
Chegando lá encontrei a menina de hoje de manhã: Aoki Lapis.
– Aoki-chan! O que faz aqui na biblioteca?
– Len-senpai! – Ela disse, fazendo um notável esforço para controlar sua surpresa e não aumentar o tom de voz.
Sorri para ela.
– Estou sendo rejeitado por todo mundo que é importante para mim... Em outras palavras: estou entediado e sozinho. Quer passar algum tempo comigo?
– Claro! Isso é, se eu não for atrapalhar...
– Vamos sair daqui para podermos conversar melhor.
Aoki e eu saímos da biblioteca sem pegar nenhum livro emprestado. Sentamos em um banco no pátio e começamos a conversar. Se bem que parecia mais um interrogatório. Aoki estava tão nervosa que só respondia as minhas perguntas.
Ela me contou que na classe, Piko e Rin estavam sempre juntos um do outro. Volta e meio Piko esquecia o livro e tinha que se sentar junto com Rin para lerem juntos. Além disso, parece que andaram deixando animais mortos na mesa da Rin... Ela não tinha me contado isso. Mais de uma vez Rin precisou ir para a enfermaria pois alguém colocava tachinhas e lâminas das suas coisas e ela acabava se cortando.
Enquanto Aoki falava, percebi que muitas daquelas coisas nunca tinham sido mencionadas pela Rin.
Aos poucos, os dias foram passando e Aoki me fazia companhia. Pude perceber que ela era uma garota bastante tímida e que não gostava muito de falar sobre si mesma. Sempre conversávamos sobre mim, o que eu gostava de fazer, como tinha sido o meu dia... As vezes falávamos sobre a Rin mas ela parecia ficar bem triste quando falávamos dela.
Mas... Depois de uns dias, quanto mais o tempo passava, mais calada ela ficava. Parecia com a Rin quando começaram a fazer bullying com ela. Mas eu não tinha certeza se era isso mesmo, até que aconteceu. Estávamos sentados no pátio quando alguém jogou um saco de lixo em cima da Aoki. Primeiro ela ficou sem reação e depois começou a chorar.
– Aoki-chan... Calma, calma...
– Porque elas fizeram isso? Nós não éramos amigas? Isso não é justo! – Ela falava enquanto chorava.
– Elas quem?
– As meninas do seu fã clube. Elas fazem isso com todo mundo que se aproxima de você.
– Como assim? Aoki! O que você sabe sobre isso? Você sabe quem são elas?
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