KURAI YOKUBÔ (desejos obscuros)
10 Capítulo 10- Mentiras perfeitas...
Notas iniciais

– Minos?
A voz grave e profunda soou longínqua, como se fosse dentro de um sonho. Ele tentava abrir os olhos e os sentia tão pesados e ardidos que o simples movimento dos cílios parecia uma tarefa árdua.
– Minos!
Novamente a voz, agora mais enfática e em um tom que retumbou como um trovão, fazendo-o romper a barreira do estupor e, finalmente, abrir os olhos. O rosto a sua frente era conhecido e o olhar enfático demonstrava que algo havia acontecido.
– Professor... – disse Minos com a voz rouca.
– Graças a Deus! Que susto você nos deu. – disse Yoshiki.
Minos olhou para o lado e notou estar em um apartamento pequeno e luxuoso, deitado em um sofá de couro branco sobre almofadas macias. Era um lugar claro, pouco mobiliado, porém havia obras de arte em todo o lugar. Esculturas, pinturas e alguns bonsais compunham um caminho até um terraço onde havia uma piscina de hidromassagem com luzes no fundo.
Ainda estonteado, Minos piscou duas vezes antes de tornar a fitar o rosto de Yoshiki e... Misty.
– O que aconteceu? Onde eu estou?
Um suspiro escapou dos lábios rosados de Misty.
– Você deu o maior susto na gente! Sumiu no meio da festa com um cara e quando voltou estava grogue e não dizia nada inteligível. Eu tive que chamar o professor.
– Como assim? Eu sumi com um cara?
– É, sumiu com um japonês extremamente parecido com aquele que ficava circulando no estúdio da estação de TV hoje à tarde. – falou Misty olhando para Yoshiki.
Com o cenho franzido e uma expressão preocupada no rosto, o professor aproximou-se, ainda mais de Minos e perguntou:
– Minos, isso é importante... Misty viu você saindo com um homem depois de beber uma cerveja e ele se parecia com aquele homem desagradável. Diga-me, ele o assediou lá no estúdio?
– Hiroaki? Não, eu já o conhecia. Ele não faria...
– Então você já o conhecia. – disse Yoshiki não acreditando na boa notícia que estava tendo. No início, quisera apenas desviar a atenção, mas agora, sabendo que o jovem conhecia Hiroaki, seu plano tinha mais chances de ser bem sucedido. Era matar dois coelhos com uma só cajadada!
– Eu... Eu conheço ele, mas...
– Vocês pareciam bem íntimos... – sugeriu Misty com um olhar maldoso.
Minos ouvia os dois, mas sua cabeça estava pesada, a boca seca e a dor... havia uma dor intensa no corpo, principalmente naquele lugar. Por alguns segundos, sentiu-se aterrorizado. A dor significava que tinha feito sexo, mais precisamente, alguém o tinha violentado, porque não se lembrava de nada. Nada!
– Misty! Pare com isso! – ralhou Yoshiki. – Não está vendo que algo grave aconteceu? Se o tal Hiroaki se aproveitou da amizade com Minos, isso é muito sério e exige providências.
– Ora, às vezes, depois que bebemos demais dá vontade de transar... – disse Misty sorrindo.
– Já disse para parar com isso. Minos pode ter sido drogado e levado a fazer algo que não desejava!
O tom de voz debochado de Misty entrando em choque com o tom severo do professor fez Minos experimentar uma súbita falta de ar.
– Eu preciso... preciso ir. – disse o jovem tentando levantar-se.
– Um tal de Hades ligou e está vindo para cá. Ele pareceu bastante perturbado com a sua situação. – falou Misty.
– Hades? – sussurrou Minos, ainda mais tenso.
– Fique tranquilo. Nós o colocaremos a par de tudo. Descanse. O que ele é seu? – indagou Yoshiki.
– Meu... namorado.
Um brilho cruel perpassou os olhos negros do professor e ele olhou direto para Misty que estava parado na porta do terraço com os braços cruzados.
– Deixe que eu fale com ele, está bem? Você não está em condições de enfrentar isso agora. – disse Yoshiki.
Minos sentiu o estômago embrulhado, mil pensamentos passando em sua mente e aquela sensação horrível de branco total. O que diria a Hades? Como justificar algo que ele nem mesmo se lembrava?
Após ouvir a explicação do jovem no outro lado da linha, Hades inspirou, manteve a calma e despediu-se de Halldora. Abriu a porta do carro, entrou, travou o cinto de segurança e inseriu a chave dando a partida com um movimento firme.
Com precisão controlada ele dirigiu até o bairro onde Minos se encontrava. O sinal fechou e uma emoção poderosa surgiu em seu peito. As mãos dele apertaram o volante e ele inspirou lenta e profundamente. Minos havia se embriagado. Ele era jovem e talvez devesse ter esperado algo assim em algum momento da relação deles! Mesmo sendo maduro para a idade, ele faria 18 anos em alguns dias! 18 anos! Não eram 32! Apesar de todo o seu histórico, Minos era jovem e... sedento de novidades. E fogoso...
O sinal ficou verde e ele enfiou o pé no acelerador. Isso talvez significasse que poderia estar se enganando... Desejando ficar com alguém ainda imaturo para uma relação com o compromisso que desejava. Droga! Parecia que as portas do inferno haviam sido abertas e toda a espécie de maldição escapara por elas. Primeiro a morte de Dione pelas mãos daquele louco, depois o ceder à tentação de deixar queimar a casa de sua infância e agora a situação de Minos que lhe parecia muito além de uma simples bebedeira.
Hades puxou a gravata e afrouxou o colarinho ao estacionar o carro. Estava cansado, mas se sentia tomado por uma ansiedade que só permanecia sob controle, porque era um homem acostumado a resolver problemas.
Tocou a campainha e foi atendido por um jovem bonito, mas com um olhar cruel que o perscrutou e, de imediato, transformou-se em algo contido.
– O senhor deve ser o Hades, não é? – disse Misty ainda extasiado com a visão do executivo.
– Sim, sou eu. Onde está Minos? – respondeu Hades sem nenhuma preocupação em ser simpático.
– Ele está aqui mesmo. Por favor, me acompanhe. – disse o loiro cedendo lugar para a passagem do executivo.
Sem hesitar, Hades o seguiu até a sala de estar onde Minos estava sentado com uma palidez que o assombrou. Só então percebeu o homem mais velho ao lado dele, oferecendo uma xícara fumegante.
– Minos. – o nome escapou de seus lábios com preocupação.
– Boa noite, eu sou Yoshiki, professor de Minos. – disse o japonês se apresentando.
– Boa noite. – respondeu Hades, mas sua atenção estava voltada para o jovem que o olhava embaraçado. — Minos, o que aconteceu?
O coração de Minos disparou. Ele queria falar tantas coisas, mas as palavras estavam presas na garganta. Olhou nos olhos de Hades, percebendo o rosto tenso e suas entranhas se revolveram com fúria, fazendo-o retorcer os lábios.
– E-Eu estou b-bem. – conseguiu pronunciar.
Yoshiki elevou uma sobrancelha e fez sinal para Misty. Em seguida, aproximou-se de Hades.
– Perdoe-me, mas quando Misty me chamou devido à ocorrência, tornei-me responsável por estes jovens. Acho que como homens mais velhos, precisamos conversar.
Hades franziu o cenho e tornou a fitar Minos. Estavam próximos um do outro e a interrupção o fez ter de prestar mais atenção no professor. Sem nada dizer, o executivo acompanhou Yoshiki até o terraço.
– Bem, Hades. Posso chamá-lo assim? Afinal temos a mesma idade, eu suponho.
– Claro. – respondeu Hades fitando os olhos escuros do japonês.
– Muito bem. – disse Yoshiki com uma expressão grave. – Acabei descobrindo ter parte nos negócios da estação de TV Fuji News Network e esse fato deu-me o privilégio de poder levar meus alunos para gravar um programa educativo à tarde. Todos estavam entusiasmados, mas foi bastante cansativo e eles resolveram espairecer em um clube. Típico da juventude. Eu não fui com eles, mas a certa hora da noite recebi um telefonema preocupado de Misty. Ele disse ter visto um homem se aproximar de Minos, alguém que ele conhecia e, em seguida, os dois sumiram. Algumas horas depois, Minos voltou, mas não estava nada bem. Não se lembrava de nada e estava grogue. Orientei-o a trazer Minos para casa e quando cheguei o encontrei neste estado. Acho que ele foi drogado.
Hades olhou incrédulo para o professor. Depois, a surpresa cedeu à raiva.
– Minos foi drogado? Mas quem era esse homem com quem ele saiu?
– Aí é que está o problema. Misty acha que o homem é o mesmo com quem eu tenho a infelicidade de trabalhar, uma pessoa detestável, mal-educada e envolvida com drogas. O nome dele é Hiroaki.
A boca de Hades se retorceu em um movimento de puro ódio e ele foi tomado por lembranças desagradáveis do passado. Hiroaki, o yakuza com interesse em Minos. O cliente rico que o desejava com exclusividade. O imbecil que fazia parte do passado como prostituto daquele que amava!
– E tem mais uma coisa... – falou Yoshiki pronto para dar o golpe final. – Eu tenho quase certeza que, além de ter sido drogado, Minos sofreu abuso sexual.
– O quê?
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Shun ficou pálido. Aquilo era uma visão ou... a dura realidade se materializando em sua frente com um sorriso divertido nos lábios.
– Oh, me desculpem, mas eu não podia perder essa oportunidade. – disse Rin aproximando-se da mesa onde Shun e Aiolia bebericavam um drinque esverdeado e refrescante.
Aiolia franziu o cenho e Shun permaneceu calado e sem jeito.
– Você é? – perguntou Aiolia tendo a impressão de conhecer aquela garota.
– Eu me chamo Rin e sou colega do Shun. Na realidade, eu estou tendo a oportunidade de me desculpar, pessoalmente.
– Desculpar?
– Sim, dias atrás eu me aproveitei da amizade do Shun e deixei que pensassem que nós éramos namorados. Eu sou filha de um cantor famoso e sou alvo constante dos paparazzi. Meu pai, aquele homem ali, apesar de levar uma vida movimentada, espera que eu não siga o mesmo caminho. – disse ela apontando para uma mesa onde seu pai já estava cercado por algumas pessoas pedindo autógrafo. – Ele é muito exigente e não raro, exige de mim...
Rin não terminou a frase. Seus olhos se encheram de lágrimas e ela olhou bem dentro dos olhos de Aiolia.
–Perdoem-me, os dois. – disse ela baixando o rosto.
– Rin... – falou Shun com uma súbita compaixão.
– Senhorita, não há motivos para isso. – disse Aiolia ao perceber as lágrimas da garota. – Eu sei bem o que significam as pressões familiares.
– Oh, que bom! Eu... eu não aguentava mais vê-lo me ignorar, Shun. Sua amizade é muito importante para mim. – disse ela.
O jovem corou, depois sorriu sem jeito.
– Aquele é o seu pai? – perguntou ele olhando na direção da mesa rodeada de pessoas.
– Sim. – disse ela agora sorrindo e limpando as lágrimas com as costas da mão. – Posso ficar um pouco aqui até que os fãs dele nos deixem em paz?
– Claro. – disse Aiolia.
Rin sorriu de um jeito doce e calculadamente ingênuo. Ficou ali puxando assunto até pedir licença e deixar a mesa. Não sem antes olhar bem dentro dos olhos dos dois e dizer:
– Vejo que o amor de vocês é lindo! Então... mais uma vez eu peço desculpas se fiz algo que os ofendeu.
– Tudo bem, vamos esquecer isso. Já passou. – disse Shun.
– Shun tem razão. Foi um prazer conhecê-la. – falou Aiolia sorrindo.
A jovem deixou os dois e dirigiu-se a mesa onde seu pai ainda sorria distribuindo autógrafos. Suspirou e abriu um sorriso, ao mesmo tempo em que sentava ao lado do pai.
– Vamos pessoal! Agora nos deixem jantar em paz, sim? – disse ela fuzilando os fãs do pai com o olhar enquanto sorria.
As pessoas se curvaram e sorriram, deixando a mesa. Tsuyoshi Kusanagi tocou a mão da filha.
– Onde estava? – perguntou ele.
– Cumprimentando uns amigos. – respondeu ela agradecendo aos deuses pela posição da mesa reservada onde estavam Shun e o namorado.
– Ah. E o seu namorado?
– Estamos dando um tempo. Os estudos exigem concentração full time, então...
Um largo sorriso se abriu e o rosto do cantor se iluminou.
– Finalmente! Rin, estou orgulhoso de você!
– Pois deve ficar mesmo! Aliás, eu acho que mereço uma recompensa... – disse ela mordendo o dedinho.
– Você herdou esse olhar feiticeiro da sua mãe, sua diabinha! O que quer como recompensa?
– Quero outro cartão de crédito com limite liberado.
– Continue me dando orgulho e você o terá.
Rin sorriu e já ficou imaginando mil artimanhas para conseguir o que desejava. Com dinheiro tudo seria mais fácil, inclusive descobrir quem era aquela delícia de namorado que Shun ostentava...
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– Minos olhe para mim. – disse Hades.
O jovem obedeceu. Enquanto o executivo conversava com seu professor, tentara se levantar, lembrar e entender o que fazia no apartamento de Misty que o olhava com um misto de arrogância e piedade. Mas nada fazia sentido. Em sua mente, fragmentos do dia dançavam em curtos intervalos...
– Hades, eu sinto... muito. Eu quero ir embora. – falou ele com a cabeça latejando.
– Vamos. – Hades disse ajudando-o e, em seguida apertou a mão do professor agradecendo pela ajuda a Minos e pelas informações.
– Eu espero ter feito a coisa certa. – disse Misty se aproximando com uma expressão contrita.
– Obrigado por trazer Minos a sua casa e avisar. – falou o executivo.
No carro, Hades ainda mantinha o tom de voz calmo, mas fervilhava por dentro.
– Vou levá-lo a um médico.
– Hades... Eu só saí com eles, por que... queria me enturmar, mas eu juro que não... não sei o que aconteceu.
– Você foi drogado e o seu colega disse ter sido aquele miserável do Hiroaki. Nós vamos ao médico e depois à polícia.
– Não.
A expressão de Hades se alterou e ele olhou para Minos com o cenho franzido.
– O quê? – disse o executivo.
– Eu não quero ir à polícia.
O rosto de Hades ficou sombrio.
– Eu entendo como se sente, mas vai ter que fazê-lo.
– Eu não me lembro de ter encontrado o Hiroaki, não no clube.
– Você foi drogado e violentado! Acha mesmo que eu vou deixar aquele miserável se safar?
– Você não entende...
– Eu não entendo? Não entendo o quê, Minos? – falou Hades pisando no freio.
O jovem sentiu o rosto arder. Sentia-se confuso, dolorido e humilhado, mas ainda assim, parecia que tudo aquilo não acontecia consigo e sim fora de si.
– Tenho medo que tudo isso seja um engano. Eu quero, ao menos, tentar lembrar.
Hades inspirou fundo e fez uma pausa. Seu emocional também estava em conflito, seu corpo estava tenso, embora mantivesse a postura ereta. Pegou o celular.
– Doutor Amamiya? É uma emergência, poderia nos atender?
Após a confirmação do médico, Hades rumou para o consultório no mais absoluto silêncio. Ao chegar, Ikki os recebeu, sério e preocupado. A compreensão de que algo grave acontecera, mesmo que ambos estivessem aparentemente inteiros o fez fitar o executivo e, em seguida Minos.
– Entrem, por favor.
Minos foi encaminhado para uma sala de exames, enquanto Ikki conversava com Hades.
– O que aconteceu? – perguntou o médico.
– Ele foi drogado e... abusado sexualmente em uma festa. Precisamos da confirmação disso para ir à polícia.
Ikki franziu o cenho.
– Vou examiná-lo. Você pode sair e beber um café.
O executivo fez um gesto assertivo com a cabeça, mas permaneceu ali. Foi até a janela e observou as luzes da cidade. Parecia calmo como a superfície de um lago, mas nas profundezas, a turbulência das suas emoções não permitia que parasse de pensar nas atitudes de Minos. Ele estava passivo demais, nem parecia o jovem desafiador que o exasperava, de vez em quando. E a insistência em proteger Hiroaki, quando todos afirmavam ter visto o japonês o estava corroendo de ciúme e ódio. Teria ele cedido a um reencontro com o yakuza? Estaria assim tão excitado, como colocara na mensagem que acabara transando com aquele idiota?
Ikki começou a examinar Minos. Fez algumas perguntas discretas e lhe mostrou uma seringa.
– Vou tirar uma amostra do seu sangue. Mas acredito que não vamos encontrar vestígios de droga.
Minos olhou desconfiado.
– Acha que eu só bebi demais, é isso?
– Não. Pelos sintomas que você apresenta, tenho certeza que foi drogado. Amnésia transitória, confusão, pupilas retraídas... Certamente, você caiu no tradicional Boa noite Cinderela ou, seja, alguém te deu GHB.
– Doutor... Eu acho que fui...
– Eu sei. – disse Ikki colocando a mão no ombro do jovem. – E não foi culpa sua.
– Sabe o meu medo? É que eu tenha bebido e, mesmo tendo sido drogado... Eu não tenha ficado passivo, mas não me lembre! É isso que Hades teme, eu sei! – disse Minos extravasando a angústia que pesava em seu peito desde que tinha acordado.
– Escute, Minos, o GHB é a droga usada para o estupro, porque tem esse efeito depressor em quem não a usa. A pessoa fica confusa e entorpecida. Somente quem é adicto e costuma usá-la para o sexo, se mantém ativo e consciente. E, mesmo assim, o GHB deixa as sensações exacerbadas e fora de controle por muito tempo e dificulta o gozo.
Minos olhou para o médico, aliviado por um lado e tenso por outro.
– Meu corpo dói muito. – disse por fim.
Ikki colocou as luvas e indicou a maca.
– Eu sei. E agora vem a pior parte, tire a roupa e tente relaxar.
As marcas roxas, embora não tão acentuadas evidenciavam que o estuprador tomara certo cuidado. Porém, o reto estava lacerado, com sinais de hemorragia, confirmando o ato sexual. Não havia presença de sêmen, o que confirmava o uso de preservativo ou lavagem após o sexo.
O médico fez o laudo e conversou com os dois, enquanto Minos se vestia.
– Vou ser franco com vocês, não tenho dúvidas que Minos foi estuprado. Mas quem fez isso tem a seu favor uma droga que metaboliza rápido e não deixa vestígios. Fisicamente, Minos está bastante machucado, mas ou o estuprador usou preservativo ou limpou o corpo dele antes que acordasse. O reto sofreu lacerações, mas está limpo. Vocês podem dar queixa com base no laudo que eu forneci, mas vai ser difícil pegar o sujeito que fez isso.
– Não, não vai. – disse Hades entre dentes.
Ikki olhou para o jovem, vendo que ele se mantinha sob controle, mas a situação humilhante e o estresse logo cobraria o seu preço.
– Minos, vou aplicar um sedativo leve junto com um analgésico para que relaxe e não sinta tanta dor. Vá para casa e repouse.
O jovem olhou desconfiado para a seringa.
– Não quero mais uma droga no meu corpo.
– Você tem coragem e é forte, mas precisa descansar e saber que não está sozinho. – disse Ikki olhando para Hades.
O executivo olhou para o amante. Minos estava ali, vulnerável e ferido, mas ainda assim mantinha uma postura distanciada. Uma barreira havia se erguido entre os dois e ele sabia exatamente o porquê. Estava lidando com a situação como sempre o fizera, com distanciamento emocional unido a um forte senso de fazer o que devia ser feito. Não importando como e nem quanto tempo levasse, quem ferira Minos iria pagar e muito caro. Porém, Minos parecia não desejar que o fizesse, estava arrumando desculpas como se sentisse culpado, como se tivesse consentido e isso o estava ferindo da pior forma possível. Sentia-se o próprio Otelo. Deixaria que este veneno o consumisse, assim como consumira tragicamente o amor do famoso personagem shakespeariano? O amor que sentia por Minos era tão frágil para sucumbir desta forma? Permitiria que a vida lhe tirasse parte de si mesmo ao negar-se a confiança em quem amava?
– Pode nos dar um minuto? – perguntou Hades ao médico.
– Claro. – respondeu Ikki.
Minos fitou o amante com um olhar que mesclava desespero e resignação.
– Sei o que vai dizer, assim como sei o que está pensando. Está claro nos seus olhos a desconfiança pelo que aconteceu. Acha que eu estou protegendo Hiroaki porque transei com ele e...
Hades se aproximou e tocou os lábios de Minos interrompendo-o. Ao fitar aqueles olhos violáceos que tantas vezes o enfrentara e deliciara e que agora o encaravam com tanta dor, ele soube a verdade.
– Desculpe, estou pressionando você. – disse o executivo balançando a cabeça. – Não é o momento para isso, agora. Vamos para casa, você precisa descansar como disse o médico. Resolveremos essa situação mais tarde.
Os olhares se cruzaram e Minos sentiu a garganta apertar.
– Eu preciso saber... Você acredita em mim?
Hades levou a mão ao queixo de Minos, vendo o lábio dele tremer. Sua voz soou profunda e grave, tomada de uma emoção que ele se permitiu mostrar.
– Eu acredito em você. Eu o conheço e eu amo você. – disse ele e puxou o jovem para si, abraçando-o com força até sentir que ele correspondia e se permitia chorar baixinho, um choro de alívio que confirmou a resolução do executivo em resolver aquela situação a sua maneira.
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Afrodite deixou a cama onde Ângelo dormia profundamente. Olhou-o com ternura, memorizando o rosto viril em repouso, as linhas de expressão suavizadas...
Perdoe-me! Repetia mentalmente, enquanto ia para o banho.
Alguns minutos depois, um som baixo despertou Ângelo do seu sono. Uma sensação boa encheu seu coração. Afrodite... ainda sentia na própria pele as carícias e ofegos que escapavam dos lábios voluptuosos.
Ele esticou o braço para tocá-lo, mas ele já não estava mais ao seu lado. Entreabriu os olhos e ficou esperando que ele retornasse, mas ele não voltou.
Com os olhos embaçados ele examinou o quarto, as sombras começavam ceder à luz, mas nada de Afrodite. Preocupado ele se levantou. Encontrou-o na sala já vestido e perfumado, os lindos cabelos longos preso em uma trança.
– Porque não me acordou?
– Eu não queria acordar você.
– Não é... cedo demais para sair?
Preciso fazer algumas coisas antes de ir para a faculdade.
– Espere eu tomar banho e me vestir que eu te levo.
– Não é preciso, já chamei um táxi.
Ângelo estranhou a atitude do amante, um frio desagradável na espinha o percorreu. Aproximou-se do loiro e puxou-o contra si beijando-o no rosto e no canto da boca.
– Dispense o táxi. Eu tenho mesmo e levá-lo na faculdade e...
– Eu já disse que não precisa. E também não quero que vá me buscar. Eu vou sair com uns amigos depois da aula. – disse Afrodite beijando-o, rapidamente nos lábios e saindo porta a fora.
O executivo não soube, exatamente, o que disparou seu coração como se fosse um alarme. Alguma coisa estranha pairava no ar e ele não sabia o que era. Haviam feito amor de forma intensa e ardente e agora isso?
Seu celular tocou e a tensão que se instalara em seu corpo arrefeceu por alguns instantes.
– Sim? Hades? Você está de volta, homem! Claro, eu conduzo a reunião. Algum problema sério? Está bem, conversamos pessoalmente, depois que você resolver o seu problema.
Ângelo vestiu-se com rapidez após um banho, igualmente, rápido. Deixou para tomar café no escritório e refletiu sobre o que acontecera pela manhã. Tinha que focar nos negócios, porém no final do expediente, iria contrariar Afrodite e buscá-lo na universidade.
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Minos dormiu bastante e acordou sobressaltado ao ouvir o barulho de vozes baixas, mas que ele conseguia identificar como a de Halldora e a de Afrodite. Deu um enorme bocejo e, por um instante, não se recordou do que acontecera consigo, mas a lembrança de repente o atingiu como uma bofetada e ele abriu os olhos imediatamente. Sentou-se na cama e sentiu uma fisgada interna, então tornou a deitar-se. Ficou admirado da hora, 16h00min. Dormira direto durante quase doze horas.
Pela conversa que ouvia, parecia que Halldora estava contando o que acontecera. Então lembrou que, após a consulta com o médico, Hades achou melhor que ele descansasse em casa sob a supervisão da tia. Halldora foi dispensada do trabalho para ficar com ele e o executivo foi para casa prometendo voltar no final do dia. Sorriu ao lembrar-se da atitude carinhosa e firme de Hades. Saber-se amado daquela forma ajudava a enfrentar aquela situação. Por um momento, pensara que a relação deles chegara ao fim, mas o executivo confiava nele e isso fizera toda a diferença.
Não sabia muito bem como lidar com as consequências de tal situação, mas só em saber que Hades continuava ao seu lado, sentia-se forte para enfrentar o que estava por vir. Iria procurar Hiroaki, olhar dentro dos olhos dele e então saber se tinham ou não se encontrado. Algo dentro de si dizia que não, havia uma imagem solta de alguém com uma garrafa de cerveja, mas não era Hiroaki...
– Minos! Mas o que está tentando fazer? Fique quietinho aí! – disse o loiro entrando no quarto e encontrando Minos tentando levantar-se.
– Afrodite... Como soube? Hades chamou você?
O loiro levou a mão aos cabelos presos e olhou para o amigo com lágrimas nos olhos.
– Na verdade, eu vim desabafar com você e sua tia me contou o que aconteceu. Pela deusa Amaterasu! Acho que algum demônio safado escapou do inferno e veio acabar com a nossa felicidade!
Minos notou a expressão sofrida do loiro e fez sinal para que ele se sentasse ao seu lado na cama.
– Senta aqui e conta. O que aconteceu?
– Ai, Minos... eu me sinto mal em trazer problemas para você. Não quero ser egoísta. Como você está?
– Somos amigos, Afrodite e falar sobre outro assunto me ajuda a não ficar pensando. Eu estou bem, agora conta logo o que te trouxe aqui, porque pela sua cara não é pouca coisa.
– Vou ter que deixar o Ângelo ou a máfia vai matá-lo! – disse o loiro com um tom desesperado.
– Como assim?
– Kanon é protegido de um yakuza chamado Kobayashi e o homem quer que o Ângelo pare de persegui-lo. Ele mandou dois homens me levar até ele e... até matou um sujeito na minha frente. Foi horrível!
– Mas por que você não conta para o Ângelo?
– Você sabe como ele é. Ele não vai parar e ainda vai querer enfrentar a máfia! Então... Eu vou fazer com que ele pare de se importar comigo.
– Isso é impossível, ele é louco por você.
– Não, não é.
– Afrodite... O que você tem em mente?
– Vou fazer com que ele acredite que eu amo o Kanon e quero voltar pra ele.
– Ele vai te odiar por isso.
– Eu sei e é isso mesmo que eu espero que aconteça. — disse o loiro apertando a mão de Minos, enquanto as lágrimas escorriam quentes pelo belo rosto...
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Hiroaki se apoiou no balcão do bar. Uma expressão insatisfeita encobria seu rosto aborrecido e insone. Por que se deixara persuadir a trabalhar naquela estação de TV ao lado da irmã? Ver Minos mexera consigo. Não era, propriamente, a volta da antiga paixão, mas um incômodo ao vê-lo junto daquele professor pervertido e insuportável!
Bem, talvez a lembrança de quando se enterrava dentro daquele corpo delicioso o fizesse ter um Déjà vu, algo que não combinava com a sua nova posição dentro da família. Aliás, nada poderia ser mais tedioso que ficar naquela estação de TV fingindo trabalhar e falando obscenidades! Tudo para preservar o poder da sua "querida irmã", a chefe da família! Bom, ver a cara incomodada daqueles almofadinhas e, principalmente do "colega" de projetos era divertido, às vezes...
Ele sentiu uma vontade incontrolável de não ir trabalhar. Podia ir até o Kabukicho, contratar um prostituto e ir para o hotel trepar a manhã inteira com ele e com Seiko. Sorriu ao pensar na mulher... Ela era um verdadeiro camaleão sexual na cama, fazia de tudo e sempre o deixava satisfeito.
– O que vai beber? – perguntou o garçom no balcão.
– Saquê. Já traz uma garrafa. Eu vou sentar ali. – falou o yakuza.
Uma garrafa foi colocada sobre a mesa com força, fazendo Hiroaki olhar incrédulo para o homem a sua frente.
– O que está fazendo? – perguntou Hiroaki com o cenho franzido.
– Vim ter uma conversa com você. – respondeu o homem.
A boca de Hiroaki se retorceu com humor.
– Está muito longe do seu ambiente e eu não tenho nada para conversar com você.
– Sério? – disse o homem com sarcasmo e um brilho quase assassino nos olhos. – Pois se eu fosse você, eu repensaria sobre o assunto.
Hiroaki fez menção de se levantar e enfrentar o homem, mas logo percebeu que ele não estava sozinho. Olhou para os dois homens encostados no balcão que mostraram estar armados e sorriu.
– Olha só, quem diria que alguém como você se rebaixaria a contratar uns merdas desses! O que você quer, afinal?
– Vamos conversar, mas não aqui. – respondeu o homem.
– Tá brincando...
O homem olhou para o yakuza com seriedade.
– Eu não brinco, você já devia ter aprendido. Assim como já devia saber que eu cuido do que é meu.
– Eu não sei do que você está falando.
O homem sorriu.
– Ah, você sabe... E essa brincadeira perversa acaba aqui!
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