Juventude terrena

4 Ser jovem eterno?


Do fundo do quarto escuro, Laura espiava pela fresta da porta a agitação do lado de fora, estava descansando em seu quarto, jogando contra si mesma uma partida de xadrez quando notou que os outros jovens corriam até perto do balcão principal do refeitório e se aglomeravam perto de alguém. A garota mordeu os lábios, apreensiva, não poderia ter chegado outra pessoa nova, ela saberia, ela sempre percebe.

Seus olhos pesaram, cansados, quando ouviu uma voz diferente, e ela se afastou da porta um tanto desanimada, sentando-se em seguida sobre o chão gelado de madeira, Laura não era como os outros jovens, ela sabia, e por isso conseguia ver com clareza tudo ao redor, diferente da irmã mais velha, Virgínia, que, mesmo ciente da realidade, preferia vendar os olhos para a realidade.

—Pobre garota... – Sussurrou vagamente, voltando a sua atenção ao tabuleiro de xadrez.

. . .

Juliana se apoiou no balcão, assimilando, sua mente tentando juntar as peças, repassando as ultimas horas vividas e como elas haviam encaixado para chegar ao ponto em que se encontrava. Viver eternamente jovem? Em que ponto essa realidade entrou em sua vida?

Os jovens ao redor a encaravam com uma mistura de seriedade e curiosidade. A imagem de Virginia ali poderia ser uma incrível miragem, uma loucura inventada, se não fosse pela naturalidade como todos os outros lidavam e interagiam com a garota, ou todos estavam loucos ou Virginia realmente permaneceu jovem por todos esses anos.

— Estou louca... – Murmurou para si mesma, tentando focar no ambiente e se esquecer das ideias, não havia provas que comprovassem o grau de realidade em que se encontrava, porém não existiam iguais evidências capazes de provar que o que via era apenas uma pegadinha de sua mente.

Juliana não estava acostumada a lidar com ideias imperfeitas, não queria lidar com o abstrato, esta não era sua realidade. Ela teria que se acalmar, e encontrar tudo o que fosse plausível e aceitável.

Mesmo em situações confusas a jovem conseguia lidar bem e interpretar as informações que captava a todo o momento, era assim que ela era. Sua capacidade de compreender, analisar e se adaptar a novas realidades era o seu diferencial e foi o que a levou a sair de casa e explorar o mundo, fazendo inúmeras viagens e passando com as melhores notas na faculdade, uma busca pelo sentido oculto que todos os seres e todas as coisas traziam consigo, era esse seu modo de ver a vida. Nada fora dos eixos, nada sem contexto e sem explicação a agradava.

—Querida! – Virginia tocou-lhe o braço gentilmente. —Sei como isso soa, é inacreditável, parece algo ilusório, parece um sonho em que estamos presos, mas é a realidade, se me permitir lhe mostrar o meu mundo, pode ter certeza que tudo se tornará mais claro.

—Onde realmente estou? Por que essa seria a realidade?

Virginia sorriu para Juliana de um modo terno e lhe estendeu a mão:

—Dê ao menos uma chance e você entenderá tudo, e se não entender estará livre, não quero prender ninguém aqui, só quero lhe oferecer esta oportunidade!

Juliana olhou nos olhos daquela tão bela moça, uma pessoa que já pertenceu a sua nobre família, uma pessoa graciosa, jovem, jogando vida e sonhos para todos os lados, como poderia, aquela menina que apenas via em quadros e fotografias antigas estar ali a sua frente lhe estendendo a mão?

Era sua família, era seu passado, mesmo com medo Juliana não poderia fingir que nada aconteceu, não poderia ignorar os fantasmas do passado para sempre, não poderia ignorar a oportunidade de entender a situação por si mesma.

—O que vão me mostrar?

Os outros jovens se entreolharam, era difícil para Juliana decifrar os rostos daquelas pessoas tão estranhas para si. Então o ruivo deu um passo a frente e passou pelas duas jovens rapidamente, Juliana o seguiu com os olhos e viu quando ele foi até uma grande porta branca nos fundos do refeitório, Virginia segurou uma das mãos da morena e começou a puxá-la calmamente até a porta, nessa hora uma pequena zona se criou entre os outros, que dispararam cochichos e falas exasperadas entre si, Juliana fingiu não se importar, mas Virginia não pensou duas vezes antes de lançar seu melhor olhar fatal para os companheiros:

—Ei! Já agitaram muito por hoje, vão arrumar o que fazer! As coisas não vão se limpar sozinhas, seus baderneiros!

—Sim senhora! – Alguns resmungaram em tom irônico ao se dispersarem pelo refeitório.

—Alguém tem que por ordem nesse lugar. – Virginia resmungou com um suspiro enquanto o ruivo abria a porta branca. —Este rapaz a sua frente é Edward, um amigo de longa data que sempre me ajuda. – Edward sorriu de lado, seu olhar parecia um pouco vago e até triste, mas ele o desviou antes que a morena pudesse tirar mais conclusões. —É isso... Faz um bom tempo, mas...

Os dois entraram primeiro, Juliana foi um pouco depois, ainda receosa, quando finalmente passou pela porta chegou a um pequeno quarto quase vazio com paredes brancas e uma janela de vidro de tamanho médio.

Virginia lançou um olhar estranho a um tabuleiro de xadrez que se encontrava jogado no chão e Juliana estranhou, mas preferiu focar em seu real objetivo, que era uma nova porta no fim do quarto, essa era totalmente preta e parecia ser feita de ferro ou coisa assim. Ela nem sequer esperou os outros dizerem alguma coisa e se adiantou em passar pela porta no exato momento em que ela foi aberta.

. . .

Assim que passou pela porta teve a nostálgica sensação de novamente mergulhar, mas deva vez estava acordada e podia ver com clareza a água vir em alta velocidade e sentir seu corpo mergulhando, novamente não precisou prender a respiração, como ela própria havia suspeitado o espelho era um portal que se tornava liquido para que a travessia pudesse soar mais tranquila, e aquela porta certamente possuía um encanto parecido. A diferença desta para a ultima vez, Juliana notou, era que com o espelho todos os seus sentimentos profundos afloravam e você se perdia em si mesmo, entretanto dessa vez foi apenas uma travessia, com um único “mergulho” de olhos fechados ela pode sentir o momento de fluidez passar e a o chão se apresentar novamente para seus pés.

Um ponto havia compreendido. Agora lhe faltava saber os detalhes da existência daquele lugar, ela respirou fundo e reabriu os olhos, esperando encontrar mais uma sala escura, vazia e velha, ou até mesmo outro campo vasto e infinito cheio de pessoas estranhas.

Foi então que Juliana arregalou os olhos.

O que a rodeava era uma verdadeira e enorme floresta, a morena deu alguns passos á frente, ainda completamente incrédula, havia arvores por todos os lados e, ao contrário do que normalmente se espera do interior de uma floresta, tudo estava inacreditavelmente bem claro e o sol brilhava sobre ela.

—Como? – Ela se virou ao notar a presença dos outros e só então viu a cabana de madeira escura coberta de musgo e plantas de todos os tipos, parecia abandonada há séculos e ainda mantinha certo encanto e nobreza. A cabana era pequena, a porta estava aberta e a única janela estava fechada. —Onde estamos?

—Nós a chamamos de a casa das respostas. – Edward sorriu levemente, encostando-se a parede da cabana, seus olhos castanhos claros reluziam ao sol a medida que seus cachos ruivos caiam sobre seu rosto, a tristeza parecia ser parte dele, e já estava começando a incomodar Juliana. —Sempre que alguém novo chega por aqui nós os trazemos para esse lado se for necessário, é sempre a mesma confusão, então é bom ter sempre respostas concretas, então nós tentamos buscá-las aqui, não que sempre dê certo, mas sempre é bom tentar novamente. – Ele olhou nos olhos de Juliana. — Continuamos no mesmo mundo se quer saber, mas esse é como se fosse... A face oculta.

—A face oculta?

—Isso mesmo. – Virginia concordou rapidamente, parecia um tanto receosa aos olhos de Juliana. —Não somos de vir aqui muitas vezes, não... Gostamos do ambiente, ou coisa assim, mas como é uma necessidade, bem... Não se contenha... – E dizendo isso ela apontou para a porta aberta. —Não tema, estaremos aqui, é ir lá, fechar os olhos e se concentrar em suas duvidas, ou algo assim, se tiver sorte o que há na casa poderá lhe responder... – Virginia olhou ao redor, apreensiva. —É meio complicado... – Ela montou um pequeno bico. —Só conseguimos até hoje usar minha irmã para saber das coisas, mas ela não quer mais cooperar, então nós trazemos todos aqui, eles tentam conseguir uma resposta e depois disso vamos embora, porque esse lugar me da agonia.

—Por que nem todos conseguem? – Juliana anotou a informação em sua mente, duvidas não lhe faltavam e isto era um fato.

—Vai saber... – Edward murmurou, encarando o céu ensolarado.

Juliana suspirou e começou a caminhar até a cabana. Depois de ser tão impulsiva durante o dia inteiro não lhe fazia mais diferença uma loucura a mais ou a menos, só esperava que após entender tudo possa descobrir um modo de fazer sua vida voltar aos eixos.

Ela encarou a porta e deu os primeiros passos para dentro da cabana, tudo estava tão escuro que mal podia ver a si mesma, a única claridade vinha de fora e ainda assim parecia não fazer tanta diferença.

—Alguém ai para me responder? – Juliana sussurrou um tanto nervosa e um calafrio a tomou.

“Se for digna... Se souber me dizer o que quero ouvir... Responderei!”

Uma voz soou a assustando, era uma voz feminina, doce, suave... Juliana não podia ver nada e nem ninguém, ainda assim tentou acalmar seu coração e respirar fundo.

—Como serei digna?

“Sempre o mesmo... ‘Deixem-nos morrer jovens ou deixem-nos viver eternamente’... Eles dizem... Eles sempre dizem... ‘É tão difícil ficar velho sem motivo’, diga-me o que eu quero ouvir...” A voz soou mais intensa e mais próxima. “Você quer viver eternamente?

Juliana suspirou. Esta era a pergunta que se fazia há anos, ah... A doce juventude lhe era tão graciosa... A morte lhe era tão penosa. Ela odiava pensar no fim, odiava pensar em uma vida desperdiçada, de fato, odiava pensar em acabar em um tumulo como seu avô.

Mas havia algo que só Juliana sabia sobre si mesma.

—Se eu quero viver eternamente? – Juliana riu da pergunta, a resposta para si era tão óbvia, mesmo que considere muitas vezes a hipótese de desistir de tudo, para alguém como ela, desistir de tudo e se isolar em um mundo com seu próprio ego seria tão abstrato quanto todas as ideias que tanto odiava, ela não poderia se dar ao luxo de ser tão hipócrita. —É claro que não.

A porta atrás de si se fechou com o estrondo, que fez com que Juliana desse um salto para trás.

“Bem...” A voz soou mais perto do que nunca, Juliana sentiu uma delicada mão tocar-lhe o rosto e a escuridão aos poucos foi se dissipando a sua frente, enquanto a jovem, estagnada e sem reação, contemplava os olhos negros e hipnotizantes que entravam em seu campo de visão. “Diga-me o que quer saber!”