Juventude terrena
5 Diamantes ao sol
Começou quando o mundo ainda era jovem...
Jovem como nós.
. . . .
—O que deseja saber?
Juliana olhou fixamente nos olhos da desconhecida:
—Tudo!
E então a porta novamente se abriu, mas dessa vez se abriu para o escuro, nada poderia ser visto através da porta e toda a natureza pareceu desaparecer. Juliana não pensou muito e caminhou calmamente até a ela, imergindo no escuro.
. . . .
O mundo em que vivi...
Murmurou a desconhecida, parada em meio ao escuro junto a Juliana.
Foi chamado por muitos nomes e não é algo que você conheceria... Estou falando do inicio de tudo, muito antes da sociedade que conhece. Pessoas como eu eram temidas, odiadas e ao mesmo tempo idolatradas. Nossas crenças sempre foram justas, porém distorcidas.
Aos poucos, o escuro ia ganhando cor, um tom marrom ia surgindo aos poucos em nuvens de fumaça e dando lugar a um tom esverdeado suave. Aos poucos Juliana também passou a ouvir o som da natureza e as nuvens passaram a se dissipar... Então estavam em frente à cabana, mas tudo era novo e recente, pássaros cantavam e flores belíssimas a embelezavam.
Os séculos que se passaram ajudaram a compor uma imagem de nós, se é verdadeira não é o ponto, pois é o que desejávamos. A exposição nos colocou em perigo uma vez, e é nesta vez que minha historia começa.
Eu vivia em uma cabana na floresta, meus pais já haviam morrido e as únicas companhias que eu tinha eram os animais e as flores que regava todas as manhãs na varanda. Era o suficiente para mim, eu apenas não via na época, e por não ver eu desejava mais, eu queria o amor, medo e a inveja de todos. Eu acreditava que havia nascido para aquele mundo, que aquele mundo deveria ser meu... Ó, mas como estava enganada.
. . . .
Havia em uma antiga aldeia e nela uma antiga lenda nasceu.
O povo do lugar comentava aos sussurros sobre a estranha garota que vivia na floresta, seus pais tiveram uma morte trágica, causada por uma seria doença. Com medo de que a garota pudesse trazer a morte para os outros os aldeões a expulsaram e ela passou a viver isolada, em uma cabana escondida e distante de todos.
Ainda assim a doença se espalhou, e o número de sobreviventes era pouco, as pessoas, atordoadas, souberam que a garota possuía um velho diário, em que escrevia seus feitiços e encantos, que curava os animais feridos e que não trazia consigo nenhum sintoma da doença. Isso os atraiu até lá e foi à oportunidade que a menina viu para reconquistar a todos.
Ela tentava aprimorar seus rituais de cura, passou a frequentar a vila, sendo novamente aceita por quase todos. Com o tempo, motivada pelo sucesso de sua arte, a menina passou a fazer cópias de seu diário para outras vilas, para outras cidades e logo o seu livro de feitiços era tão conhecido como ela.
Seria seu maior sonho, e tudo estava perfeitamente bem, ou quase...
. . . .
Juliana podia ver uma jovem sorridente, as imagens passavam a sua frente como se fosse um filme.
Muitas pessoas entravam e saiam da cabana. A jovem sempre se despedia com um sorriso e então todos diziam a ela o quanto era bela, que a juventude lhe fazia bem e o quão graciosa se mostrava.
Isso foi o suficiente para me iludir, para me enganar e me frustrar. Eu entendi que as pessoas na aldeia só confiaram em mim porque eu era bela, jovem e graciosa... A juventude para mim se tornou como diamantes ao sol... E diamantes são eternos.
Eu senti em minha alma que aquela lealdade não poderia ser verdadeira, mas ainda assim... Eu a queria, eu queria ser amada por alguém e por isso eu me tornei tão triste.
Na época, por mais que as pessoas fossem distantes de mim, tudo estava bem, pois minha presença não era odiada, mas com o tempo as coisas começaram a seguir um novo curso.
Então as cenas que Juliana via passaram a mudar, dentro da cabana solitária, a garota chorava em silêncio, suas mãos tremiam e ela claramente parecia estar há tempos sem dormir direito.
Enquanto a doença se espalhava pelo continente a minha presença e a de outros como eu estava começando a ficar mais conhecida. Eu apenas sabia como usar as plantas e como curar algumas doenças, coisas que minha mãe me ensinou, eu queria apenas ajudar, mesmo que de modo egoísta, eu queria o bem de todos...
Mas para eles isso passou a ser perigoso.
Juliana podia sentir em seu coração todo o pesar carregado pela voz, enquanto a sua frente via uma linda jovem se destruir aos poucos, sem dormir, sem comer, sem lutar... Apenas buscando algo impossível. Até mesmo as flores da varanda estavam a murchar.
Então começaram a procurar outros como eu, os condenar, e os matar. Eu me iludi achando que as pessoas naquela vila me amavam, pensando que me protegeriam, eu sabia que para isso eu deveria ter o amor delas enquanto pudesse, então comecei minha busca por realizar esse desejo, minha busca pela eterna juventude, eterna beleza, eterno amor.
Eu trabalhei por anos, sai muitas vezes pelas vilas. A procura de conhecimento estudei centenas de livros e tentei ajuda de diversas pessoas como eu, que sabiam muito mais e que me acrescentaram muito e foram cruciais para o meu futuro.
Fui escrevendo um segundo diário, mas este era diferente do primeiro, pois nele eu coloquei tudo o que aprendi durantes tantos anos, e, por temer ser perseguida, deixei algumas copias com algumas poucas pessoas em quem confiava e a quem eu havia prometido ajuda, na época pensei que estava em segurança, até que chegaram a mim...
Com um pesar no coração Juliana viu quando a jovem se trancou na cabana, em desespero, do lado de fora fortes batidas soavam, e soavam firmes vozes ordenando que ela saísse, que se entregasse. Mas a jovem tremia, entre lágrimas, encolhida em um canto escuro.
—O que houve? — A confusão atingiu Juliana, seu coração acelerado e resistindo ao impulso de abraçar aquela jovem tão assustada.
A pessoas da vila haviam me denunciado por bruxaria.
A jovem se escondeu em seu quarto, assustada, tremendo, seu olhar correu até o diário em que guardava toda conhecimento que havia adquirido em tantos anos de busca. Mesmo não tendo certeza se havia colhido as informações certas ela deveria tentar, á medida que as batidas na porta ficavam mais fortes ela escrevia um encanto em um espelho velho e rachado.
Quando as palavras começaram a brilhar e sumir o espelho pareceu se tornou fluído, nesse exaro momento o som das batidas parou e foi sendo substituído por sons de passos rápidos vindo em sua direção, a jovem chorou em desespero e gritou com suas ultimas forças o único desejo que vinha em sua mente:
"Eu não quer morrer! "
E esse...
Tudo voltou a ser escuro, Juliana sentiu os olhos pesarem e o corpo pender um pouco para o lado.
Foi o começo, foi o desejo desesperado que nos trouxe aqui, e aqui estamos novamente, pois esse desejo tende a se repetir, durante eras e eras, seja em um mundo moderno ou em um mundo de trevas...
Não há saída quando se trata das nossas decisões, temos que encará-las, sendo dolorosas ou não.
Tudo desapareceu e Juliana se deixou levar pelo pesar, desmaiando aos poucos até perder totalmente a consciência.
Fale com o autor