Ao entardecer naquele lugar, Juliana notou ao olhar por cima do ombro, a maioria se reunia em volta da fogueira, felizes, contando histórias e tentando não dormir. Alguns poucos se sentavam perto das arvores, conversando amigavelmente ou simplesmente olhando as estrelas.

Aquela simplicidade a tocou, fazendo com que a morena guia se seu olhar até as brilhantes estrelas do céu, quando havia parado para reparar nelas? Era difícil encontrar pessoas tão jovens livres de vícios banais, ou melhor, Juliana se corrigiu, com diferentes vícios banais.

Isso a impressionava e ao mesmo tempo a fazia se sentir cada vez mais distante de casa, seja lá onde fosse o lugar que poderia chamar de lar.

Juliana suspirou e logo notou que mais alguém se aproximava, a jovem loira que conhecera mais cedo: Lucia, que andava calmamente enquanto terminava de trançar o próprio cabelo.

Naquele momento ambas se encontravam no início do corredor dos dormitórios masculinos.

Os dormitórios eram divididos, existiam dois chalés, o feminino, que Juliana havia conhecido mais cedo, e o masculino, que era praticamente igual ao das meninas, ela passou os dedos pela parede com textura do corredor, a diferença era que a fachada parecia ter sido pintada com diversas cores jogadas diretamente do balde e ao mesmo tempo.

—Gostou? – Lucia indagou ao notar seu olhar.

Juliana podia ouvir o chão de madeira ranger sobre seus pés, e constatou, com certo desgosto, que as paredes do corredor principal seguiam o mesmo 'não padrão' de cores jogadas sem rumo. Qual a dificuldade de fazer as coisas com um pouco mais de perfeição? Ela perguntou a si mesma ao parar no meio do corredor.

—É meio... — A morena murmurou o mais baixo que pôde — Eu diria que foi o tipo de arte terminada em dois minutos.

—Você é bem direta, certo? – Lucia riu baixinho. -Os meninos um dia começaram a reclamar que não sabiam o que fazer para deixar o chalé interessante, nós tínhamos usado flores para decorar o nosso e eles se sentiram ultrapassados... – A loira revirou os olhos. -Ai o Santana encontrou as tintas embaixo da pia da cozinha e eles usaram para decorar desse jeito ai.

—As coisas por aqui simplesmente aparecem?

—É... Nós não entendemos bem, mas é como se algo trouxesse vida a esse lugar de uma forma única, entende? E esse 'algo' parece nos querer bem a seu modo.

Juliana ergueu uma das sobrancelhas em descrença, já era muito para ela lidar normalmente com aquelas pessoas naquele lugar, já era muito ter que fingir estar tudo bem para descobrir como voltar para casa. Ela definitivamente não era obrigada a acreditar em papai Noel do campo, que em vez de presente de natal, passa o ano todo mimando um bando de jovens desocupados que passam as tardes em volta da fogueira para fingir que faziam algo útil.

—É ali! — Lucia anunciou sem se abalar com a descrença alheia, no corredor largo havia três grandes portas, uma nas paredes tanto da esquerda quando na direita, e a do fim do corredor, bem centralizada, de frente para a entrada, e era para aquela que a loira apontava. – O quarto do Edward! – A porta branca estava meio pintada também, como se a tinta jogada tivesse espirrado nela. — Ninguém além dele mesmo e do Richard entra aí.

Elas ouviram alguns passos atrás de si e se viraram imediatamente, encontrando o sorriso torto de Wendry:

—Demorei? — As duas reviraram os olhos ao mesmo tempo e ele riu, passando por elas com uma chave dourada nas mãos e se dirigindo até a porta do quarto de Edward.

Juliana não gostou muito da ideia de se aventurar pelo local, mas acima de tudo se considerava uma pessoa que não resistia a curiosidade.

. . .

A porta de madeira pintada rangeu baixo assim que foi aberta, aos poucos o grupo adentrou o grande cômodo, havia apenas uma cama muito bem arrumada, poucos moveis e as paredes eram brancas, porém por onde Juliana olhava havia pequenos enfeites coloridos feitos a mão, a maioria origamis de papel espalhados por cada cantinho do quarto e desenhos colados ou recortados por toda a parte, a julgar pelos traços dos desenhos e os cortes tortos nos papeis com certeza alguma criança havia feito...

—O que é isso? — Juliana e Wendry imediatamente se viraram para Lucia, que segurava um relógio digital nas mãos e o cutucava de um modo engraçado.

Juliana estranhou a duvida da loira, mas Wendry apenas suspirou e sorriu de lado.

—É um relógio, Lucia, não morde. — Lucia se emburrou um pouco e voltou a vasculhar em um guarda-roupas antigo. – É a dificuldade de se ter uma garota do século passado, não imagina nem metade do custo que foi para fazer ela começar a deixar de falar como se fosse uma pessoa de oitenta anos.

Juliana ouviu Lucia resmungar alguma coisa, mas estava focada demais para dar atenção.

—Pensei que Virgínia fosse a primeira.

—Ela chegou aqui onde estamos primeiro, você deve ter notado que fora daqui parece deserto e perdido, e tudo o que temos hoje só existe por que Virgínia e Edward chegaram aqui, neste acampamento, primeiro, enquanto alguns de nós estávamos vagando perdidos. Eles ajudaram a construir tudo isso e graças a eles todos acabamos chegando por aqui e podemos nos ajudar e nos apoiar, Lucia era uma das que já estava aqui quando cheguei.

—Então antes desse acampamento vocês apenas vagavam perdidos.

—Sim. – Lucia resmungou, ainda procurando. –Mas isso mudou...

Wendry se dirigiu até a porta e passou a espiar o corredor, atento a qualquer movimento e Juliana entendeu como um claro sinal de que ambos não se sentiam mais confortáveis com o assunto. Ela suspirou e se voltou a algumas gavetas, começando a procurar com cuidado qualquer coisa útil.

Juliana notou a pequena gaveta na cabeceira da cama, e a abriu com cuidado, começando a analisar calmamente, teria fechado e ignorado se uma pequena chave dourada não tivesse chamado a sua atenção.

Ela não avisou a ninguém, apenas ajeitou a chave em um dos bolsos da roupa rapidamente e o escondeu. Afinal Juliana nunca se considerou uma pessoa fácil de se convencer e, mesmo sendo legal com todos, se permitia o direito da duvida e acreditava que só saberia de fato o que estava acontecendo se descobrisse tudo por si só.

Apenas sorriu para os outros e tornou a procurar qualquer outra coisa que lhe dissesse algo sobre Edward, e permaneceram nisso até que anoitecesse e os outros jovens começassem a se encaminhar para o refeitório ou para as suas camas.

— Pelo visto Edward não deixa nada em seu quarto. – Wendry reclamou, se apoiando nos ombros de Lucia.

—Agora não podemos deixar que percebam. – A loira o empurrou para fora do quarto, sendo seguida por Juliana. –Vamos jantar, amanhã pensamos em outro plano.

. . .

O peso do sono fez os olhos de Juliana se fecharem assim que se deitou e só nesse momento ela conseguiu perceber o quão estressante, cansativo e doloroso havia sido aquele dia.

Entretanto antes que ela pudesse ter tempo de se lamentar por qualquer memória dolorosa, sentiu o corpo relaxar sobre o colchão confortável e sua mente vagou para o mundo dos sonhos.

. . .

Era lindo, talvez a coisa mais linda que Juliana tivesse tido a chance de ver na vida.

Ela se encontrava sentada sobre o tronco de uma arvore cortada, o chão parecia ressecado, para não dizer desértico, mas, ainda assim, rosas vermelhas começavam a nascer ao seu redor, lentamente, uma a uma, formavam um círculo envolta de si.

A morena se permitiu relaxar, naquele momento não pensava em nada, não sentia nada, estava estagnada no tempo e nas emoções, apenas observando cada rosa nascer.

—Vocês têm nomes? — Perguntou subitamente, sem sequer ter pensado na pergunta, apenas colocando aquelas palavras para fora. Ela tornou ao estado de estagnação, fitando as últimas rosas do círculo.

Ela respirou fundo enquanto a última rosa nascia, mas essa era diferente, Juliana notou, era azul, azul escura, trazia consigo um tom forte, vibrante, mesmo para uma cor considerada fria...

—É a sua cor.. — Sussurrou, novamente sem pensar. -Qual... — Sentiu-se estagnar novamente. -Qual... — Algo parecia ter tomado conta de sua voz, mas não com facilidade. -Qual seu nome?

Silencio por um breve momento.

—Alicya! — Alguém sussurrou atrás de si.

A voz que ouviu era claramente da moça que havia encontrado na cabana, era a mesma voz da pessoa que havia lhe contado todas aquelas coisas irreais.

Juliana olhou para trás, arregalando os olhos no tempo seguinte.

Quem estava atrás dela riu, uma risada infantil e curiosa, quem estava atrás de si, ela lembrou-se quando a menina se virou aos risos e saiu correndo, era Laura.

. . .

Naquela manhã o sol marcou sua presença pela fresta da janela, enquanto as cortinas balançavam em sincronia com a suave brisa e todas as jovens dormiam calmamente, ele tocou o rosto de cada uma, com delicadeza, as lembrando de se levantar e contemplar o novo dia que havia trazido.

Suavemente Juliana abriu os olhos, segundos foi o que levou para conseguir captar a realidade do sonho e se levantar sem ficar tonta. As outras garotas pareciam bem, algumas começavam a acordar, outras resmungavam ou cobriam os rostos com os travesseiros.

—Bom dia! — Juliana ouviu a doce voz de Virginia ao seu lado, quando a encarou o sol passou a tocar parte do seu rosto, realçando o tom moreno de sua pele e incomodando um pouco a sua visão. -Lindo dia, não? — Virgínia seguiu tentando puxar assunto, entretanto Juliana a encarava em duvidas, começando a se lembrar do sonho que tivera durante a noite.

—Virgínia... — Juliana tomou coragem, enquanto a outra alisava o cabelo com as mãos. -Posso perguntar algo?

—Claro...

—O que houve com a Laura?

Um momento de silencio se criou, o olhar de Virgínia pareceu vazio por um instante e seu rosto empalideceu um pouco.

—Ora... Eu... — Virgínia baixou os olhos, parecia constrangida. -Ela sumiu, desde então eu não a vejo mais, e também não falo mais sobre ela, para não relembrar a dor.

—Ela fugiu? Como?

—Pudera eu saber...

—Ah...

Juliana desviou o olhar para o próprio lençol esverdeado, ela não se sentia convencida, desde os eventos naquela cabana algo em sua mente mudou, e ela se sentia um tanto mais atenta do que confusa...

—Que tal hoje eu te mostrar melhor o acampamento?

Ainda assim não poderia simplesmente despejar suas desconfianças do nada, pelo menos teria que agir como se acreditava em desculpas inventadas.

—Claro... Já estou aqui mesmo!

Notas finais
Espero que estejam gostando < 3