Juventude terrena

8 Memórias Inacabadas


"Havia algo em querer viver eternamente, algo que ia além de simplesmente temer a morte.

A juventude era confusa, porém passageira, com ela se iam mais do que a beleza e a energia que um dia estiveram em seu auge, ela levava as memórias, o passado, as pessoas. O amor era um sentimento poderoso que foi dado a pessoas fracas, pessoas que não sabem usá-lo no tempo devido e depois se lamentam da perda. "

—Não acha um tanto depressivo para se colocar em um diário?

Juliana ergueu seu olhar, se encontrava sentada em baixo de uma grande macieira, Virgínia havia lhe entregado um caderno vazio de capa dourada, um diário segundo a outra, era uma forma de não se esquecer de quem eram mesmo quando perderem a total noção do tempo e agora estavam as duas ali, tentando colocar em seus diários qualquer coisa que fosse útil para o futuro.

O que viria no futuro para que eles precisassem se lembrar de quem são?

Eles não sabiam e era esse o motivo para que todos, em unanimidade, desejassem não se esquecer de suas experiências e pensamentos.

—Não é como se fosse novidade! — Deixou seus pensamentos pairarem no o ar, havia conhecido melhor um pouco do acampamento, era um lugar que lhe trazia uma grande sensação de familiaridade e a fazia refletir. —Se tem algo que não quero me esquecer de verdade, esse algo é a efemeridade da vida. — Fechou os olhos, o sonho que tivera com Laura havia deixado a jovem um tanto mais pensativa que o normal, um pouco mais inclinada a questionar tudo e todos, era como se fosse mais forte que sua própria vontade. —Estou disposta a finalmente tentar entender o desconhecido, mas não posso esquecer das certezas que possuo e a morte... — Suspirou deixando o cabelo cair sobre o rosto. — É a maior delas!

— Quem você perdeu? Para deixa-la assim, tão certa do fim.

Juliana baixou os olhos e suspirou, era algo que até mesmo para si precisava perguntar.

— Meus pais viviam ocupados, vivíamos com meus avós, meu avô era meu heroi, minha avó... Ela sempre vinha todas as manhãs! Tão bela, rodopiava e sorria "Veja só, um novo dia nasceu, seus pais ainda não acordaram, podemos aproveitar a manhã " então tudo era perfeito. Até que um dia não foi mais... Eu estava lá ao seu lado quando adoeceu... Eu estava lá ao seu lado quando chorou de dor... Quando parou de respirar... Quando morreu... Eu estava lá, mas nunca pude me despedir, pois eu apenas consegui pensar em como eu não queria terminar como ela, daquela forma... Eu pensei tanto, que enquanto os olhos dela se fechavam para sempre, eu estava tão... Decidida a não ser igual... Que virei as costas e implorei para não morrer nunca. E quando meu avô partiu... Eu olhei direitamente em seus olhos, eu tinha... Que me despedir... Mas... Eu não consegui, eu revivi o momento e não consegui...

—A morte... — Virgínia resmungou, guiando seus olhos tão castanhos ao céu. — Pode um dia ser menos assustadora do que parece...

—Prefiro não conhecer... Não ainda!

—Só tente não pensar muito no que quer entender e se esquecer de pensar em quem ama e no motivo para viver! — Virgínia disse por fim, sorrindo gentilmente para Juliana ao se levantar e respirar fundo o ar tão puro daquele suposto paraíso. —Certa vez ouvi que o problema do egoísmo não é pensarmos no nosso bem, é não pensarmos além dele. Um dia eu descobri o que isso significa e aparentemente apenas descobrir não bastou para me levar de volta.

—Do que está falando?

—Da vida, Juliana, estou falando de viver. Quando nos damos conta do que significa, acredite, parece ser tarde de mais. Você fala bem sobre esse sentimentos perdidos, mas eu me pergunto se algum momento você vai parar para notar o que escreve e comparar com a própria vida.

E dizendo isso a jovem acenou em despedida, caminhando com calma em direção aos dormitórios e deixando Juliana no mais completo silencio.

A jovem, pela primeira vez, se permitiu perguntar: "O que significa estar viva?"

Ela baixou os olhos respirando fundo, não havia tempo, havia duvidas, duvidas precisavam ser respondidas, e não era filosofia barata dos pensamentos de uma jovem confusa que o resolveriam.

—O que há com essas pessoas?

Juliana guiou seu olhar ao céu, tão azul e esplêndido que quase a fazia acreditar que o tempo de fato passava em um lugar como aquele, mas a realidade era que tudo ali era uma perfeita ilusão temporal, pois, pensou Juliana, era ideal e perfeito demais e a perfeição foi algo que ela desejou a vida toda, um desejo que ainda deixa rastros, mas com o tempo ela aceitou a verdade: Algo perfeito não existiria, assim como a vida eterna.

—Você é sempre tão pessimista? — Ouviu uma voz ao seu lado e se sentiu arrepiar, não era Virginia, ou Edward, não era Lucia ou Wendry. —Há muito na vida além de ideias concretas, tem que abrir os olhos ou deixará a ilusão te levar.

Ela ergueu lentamente os olhos para a menina pequena em pé ao seu lado, Laura usava um vestido vermelho que se balançava com o vento e seus olhos castanhos fitavam os céus com cuidado, talvez até mesmo certa admiração.

—Como pode estar aqui? — Juliana se levantou, sendo seguida pelo olhar divertido de Laura, que parecia querer conter o riso. -Laura, sua irmã me disse que fugiu, que sumiu...

—Que sutil... -A menina deu alguns passos em direção ao acampamento e sorriu novamente. —Receio ser melhor me perguntar por onde não tenho andando, Juliana, é?

— Você também viu? Aquelas imagens na cabana!

— Mais fácil perguntar o que eu ainda não vi, ou será que você gostaria de ver por seus próprios olhos? — E dizendo isso Laura simplesmente se pôs a rir e a correr, como se estivesse em uma grande brincadeira.

—Laura! — Juliana a seguiu, tinha perguntas a fazer, tinha que entender tantas coisas, mas a menina corria muito rápido, estava indo em direção ao refeitório, ela saltitava ou rodopiava algumas vezes antes de voltar a correr o mais rápido possível. —Laura, espera!

Laura pulou para dentro do refeitório, rindo mais, abrindo a porta da cozinha e sumindo da vista de Juliana.

— Laura!

Juliana suspirou e se pôs a caminhar até o lugar, ela olhou ao redor, a tarde estava calma, o sol brilhava suave, ao fundo alguém tocava suavemente uma flauta doce, Juliana sabia a diferença, ela sabia de muitas coisas por puro capricho pessoal....

Ou para encontrar a si mesma...

Entretanto ela não se atreveu a seguir a direção da música, prometeu não mais dar atenção as coisas que lhe desviavam de seu caminho, e neste momento ela apenas queria ver onde Laura a levaria.

— Veio para um lanche extra? — Ouviu uma doce voz ao entrar no refeitório, do outro lado do balcão um jovem albino e sorridente a encarava, seu olhar determinado brilhava e irradiava toda a sua paixão.

— Você é?

— Santana, o cara da comida.

— Você cozinha bem.. An... Por acaso viu a... Laura por aqui?

— Laura? Não a vejo há tanto tempo, se é que se passou algum tempo.

— Ah..

— Eu já tentei, sabe... Encontrar as respostas, como você parece estar tentando. Eu não vou dizer para desistir, foi necessário para mim, pode ser para você.

— O que é essa verdade?

— Como chegou aqui?

— An... pelo espelho, depois de... Perder alguém importante. E você?

—Pudera eu saber... — Ele Murmurou em um sussurro, pronunciando cada palavra com uma calma absurda, até mesmo melódica. —Nem todos temos a sorte de nos lembrar de tudo.

—Eu me lembro! Sei que me lembro!

—Tem certeza? — Santana sorriu minimamente para mim, se voltando ao balcão e se perdendo em um livro de receitas. Juliana o encarou por um momento, como não teria certeza das próprias memórias? Era suas memória, certamente as conhecia como ninguém...

Certamente...

— Ei! — Ouviu novamente a voz de Laura ao seu lado, o som vinha da porta próxima ao balcão, a mesma que usou quando chegou aqui, a que levava ao outro lado, Laura abriu a porta tornando a sumir por dentro dela, Juliana a seguiu, decidida, entrou no mesmo quarto vazio da ultima vez e seu olhar encontrou o da porta que a levou ao outro lado, a verdade. —Veja com seus próprios olhos! Não tenha medo, a verdade só pode ferir quem a teme.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.