As duas irmãs olharam ao redor antes de atravessar a rua correndo, tentando ao máximo não serem vistas por ninguém... Uma delas, a mais nova, carregava nos braços o livro que as fizeram sair ás pressas da biblioteca da escola, com seus sorrisos cúmplices, as mochilas balançando nas costas e sempre de mãos dadas, elas corriam de volta para casa enquanto cochichavam teorias do que os outros diriam quando percebessem que haviam fugido.

Não muito tempo se passou quando a mansão cor de mármore foi avistada por elas, que aceleraram seus passos, cada vez mais ansiosas.

—Isso foi uma loucura, Virgínia! – Exclamou a mais nova, segurando o livro com mais força e mordendo os lábios ao parar em frente ao portão de casa. —E se der errado? Não se lembra do que a irmã Lucia nos disse na aula? Não podemos ser egoístas!

—Ora, Laura! Não se deixe levar pelo que essas freiras dizem! – Virgínia respondeu sem pudor, olhando nos olhos cor de âmbar da irmã, olhos tão parecidos com o seu, exceto pela doce inocência que apenas a infância poderia lhe trazer, inocência que Virginia não mais conhecia desde que atingira a idade dos dezesseis anos, sua mãe já lhe garantira que as regalias de criança ficariam para trás. —O livro não erra! Vamos nos tornar lendas depois de terminar! – Completou, sorrindo alegremente ao abrir o portão e a puxar Laura consigo, tornando a correr, sem se preocupar com o que os empregados na varanda poderiam dizer ao ver as duas tão cedo em casa.

Virgínia parou quando já estava do lado esquerdo casa, em frente a uma portinha simples de madeira, era lá onde pretendiam se esconder de todos, para não serem impedidas. Elas entraram no quarto vazio, com um único espelho pregado em uma parede isolada, e se sentaram no meio, jogando as mochilas em um canto qualquer:

—É só uma lenda! – Laura insistiu, em vão.

A irmã abriu o livro na página em que havia marcado com uma régua e sorriu novamente:

—Eu já lhe disse, não é? A vovó me deu esse livro e me contou que ele é mágico, e aqui... – Ela apontou para a pagina que se encontrava aberta. —Está o que precisamos, olha, é só escrevermos essas palavras em algum objeto e ele nos mostrará como ser jovens para sempre!

—Isso é bobagem, Vi! É apenas coisas que a vovó coloca na sua cabeça, é inútil!

—Para você, que é criança, tudo está bem, não é? Quer ficar velha para sempre? Não diga que é bobagem e me ajude, vamos usar o espelho da sala.

—Mas o livro também diz que vai ficar presa pra sempre lá, e se isso não for tão bom assim?

Virginia já havia começado a desenhar os símbolos no espelho com um giz que pegou da escola e já não mais ouviu a irmã, seus olhos voltados para o encanto, com tanta vontade que mal poderia se conter de ansiedade, não queria crescer e se tornar uma adulta infeliz, esta era sua maior certeza, desde que vira a avó falecer, sem poder impedir ou sequer retardar... Todos um dia envelhecem...

"É tão difícil ficar velho sem motivo"

Virgínia tentou ao máximo esconder as lágrimas, porém sua avó tanto viveu, tanto aprendeu, e de que adiantou? Tantas pessoas preciosas apareciam em sua mente, até mesmo sua pequena irmã um dia envelheceria...

"Cedo ou tarde todos eles irão partir!"

Esse pensamento causava enorme dor na jovem, não queria, de forma alguma, perder mais ninguém!

—Vi! Olha!

A voz de Laura a despertou para a realidade, e Virgínia não conteve o espanto e nem as lágrimas ao ver novas palavras se escreverem sozinhas no espelho: "Você quer ser jovem eternamente?"

—Vi! Estou com medo, isso não pode ser bom, olhe bem... Não podemos deixar o papai e a mamãe, no começo parecia uma boa ideia, mas...

—O que está dizendo? – Virginia sorria de ponta a ponta, com a ponta do dedo indicador tocou a base do espelho, que reluziu e se tornou fluido como água, permitindo que a mão da garota ultrapassasse sem dificuldade. —Laura, isto é incrível!

—Não podemos! – Laura tentou se afastar, mas seu braço foi segurado pela mão da irmã.

—Não iremos mais morrer, nem envelhecer, viveremos assim para sempre!

Antes que a mais nova pudesse protestar, Virgínia tomou impulso e saltou para dentro do espelho, Laura apenas pode ver o vazio e a escuridão sendo deixada para trás e uma voz misteriosa e suave soou ao seu ouvido:

"Você realmente quer viver eternamente?"

Notas finais
Yeyy
começando uma nova historia por aqui, espero que gostem e por favor se gostarem ou não deixem sua opinão, ela será muito bem vinda