Juventude terrena

2 Cedo ou tarde


Foi carregando um delicado buquê de tulipas que a jovem morena adentrou aquele quarto de hóspedes, nele uma linda cama de casal a esperava, ela sentiu o corpete sobre seus pés e notou timidamente todos os quadros que o enfeitavam. Estava como visitante naquela mansão. Viera de muito longe para visitar seu avô, adoecido e fraco de mais para resistir por tanto tempo, Juliana não queria admitir, mas podia sentia as mãos tremerem e uma constante vontade de soltar todas as lágrimas que havia prendido durante a viagem.

Seu avô lhe foi como um pai por muitos anos de sua vida, cuidou e amou, fez um sorriso doce brotar nos lábios da menina sempre que a mesma acreditava ser impossível a felicidade em sua vida...

E agora estava prestes a morrer!

Ela respirou fundo e levou o buquê e as malas até a cama de seu novo quarto naquela mansão que não visitava desde que foi para a faculdade, poderia ter ficado com o antigo quarto, mas a dor das lembranças só seria maior.

De tudo, o que mais lhe chamava atenção era o lindo quadro que enfeitava a parede central do quarto, a jovem sabia que ele era considerado especial, não por sua beleza, não por seu autor, mas sim pelas belas moças representadas com belos sorrisos e olhares brilhantes: As duas irmãs que desapareceram há sessenta anos e até hoje não se tem a mínima ideia do que de fato ocorreu. Era um mistério que envolvia a família e que aos poucos se tornava cada vez mais distante, e as duas eram vistas mais como personagens de um passado do que como jovens cheias de vida que já enfeitaram os corredores daquele lugar.

Os pensamentos dela foram afastados subitamente ao ouvir o som da porta se abrindo. Pela primeira vez naquela dolorosa semana um sorriso se abriu no rosto de Juliana.

—Pensei que não chegaria nunca... — Um rapaz de sorriso tímido sussurrou ao entrar, Juliana o encarou de relance, ele possuía pele morena e olhos castanhos incrivelmente doces, sua voz era suave, tudo nele lhe parecia terno e gentil, mesmo que as roupas formais lhe dessem um ar de falsa seriedade.

Ela sorriu ao cruzar os braços:

—Ora, mas até parece que não me via há um milênio, Lucas!

Ele deu de ombros, indo abraçar a amiga.

Lucas e Juliana, amigos de infância, estudaram juntos por muitos anos e só se afastaram quando o rapaz teve que voltar ao interior para ajudar os pais.

—Imaginei que fosse ser um dia difícil para você, então vim te oferecer meu apoio. – Ele sussurrou, fazendo com que a Jovem se sentisse apoiada pela primeira vez. —Encontrei sua tia, seu avô está te esperando no quarto, vamos?

Juliana respirou fundo, tentando recuperar a calma e a pose, não poderia se mostrar fraca a família, seus familiares eram todos muito tradicionais quando o assunto era sofrer em silencio:

—Tudo bem... Vamos antes que eu me arrependa!

~ # ~

O buquê de Tulipas se encontrava esparramado no chão, as memórias doces da infância alegre invadiam a mente de Juliana sem pudor... Eram dolorosas... Árduas...

Ela não conseguiria seguir em frente, estava travada na porta, chocada... Vendo seu avô a fitá-la, sorridente e então seu ultimo suspiro veio antes de seus olhos se fecharem para sempre...

Morto!

Ela repetia a si mesma... Seu herói da infância, aquele que lhe contava mil histórias fantásticas, divertidas, histórias sobre amor, sonhos e encantos...

Juliana sentiu-se ser segurada pelo melhor amigo, sua visão turva e seus pensamentos sem nexo.

Em sua mente a imagem do avô se fortalecia... Já havia sido assim, como ela, jovem, cheio de vida... Havia tantas histórias sobre sua vida... Tudo... Jogado ao vento por causa da velhice, da doença, da morte...

É tão difícil ficar velho sem motivo...

Tantas pessoas, tantas vidas, tantos sonhos... Para que lutar? Para que conquistar? Por que todos continuam tentando?

Por que eles não permanecem jovens?

Juliana se sentiu ser puxada para longe, logo a ultima imagem do avô se tornaria apenas mais uma lembrança.

—Juliana, calma! Ju! Ju! – A voz de Lucas permanecia insistente, mas Juliana nada queria com a calma, seus parentes mal lhe encaravam, seus pais estavam mortos, tudo o que tinha era o avô.

—Não! – Ela se desvencilhou dos braços do amigo e correu, sem rumo, apenas saiu pelos corredores, precisava de ar.

Juliana apenas parou de correr ao chegar a varanda, ofegante, tentando colocar os pensamentos em ordem...

A sua frente se encontrava o jardim da família, havia diversas flores ali, uma das prioridades da avó sempre foi manter tudo em perfeita ordem, sua fixação pela beleza a levou a passar o resto de seus dias cuidando de cada decoração, cada flor e até cada roupa, quadro ou qualquer outra coisa que reluzisse todo seu ideal de beleza... A vida de Juliana foi toda feita de padrões, objetivos e metas...

A morte definitivamente não estava entre seus planos, a morte era uma quebra, um Insight, um alarme de incêndio para lembrá-la que sua vida não era como a de uma princesa de um conto de fadas, ela vivia a realidade, e na realidade não há castelos mágicos que possam livrá-la da morte...

— Juliana! Espera! – Novamente a voz de Lucas a despertou. —Por favor... – Ele segurou-lhe a mão, mas ela não queria encará-lo, não queria lembrar se da realidade com tanta dureza. —Juliana eu entendo que é terrível, mas... Estou aqui... Por você... E pretendo ficar para sempre ao seu lado, em momentos como esse eu percebo o quanto quero cuidar de você...

—Vamos todos morrer um dia, de que adianta fazer planos? Eu não quero... Viver assim!

Ela puxou o braço com força, tornando a correr, tentava evitar as lágrimas, teria que ser forte, entretanto tudo naquele lugar lhe lembrava do passado, da distancia, das coisas que queria que fossem eternas.

Podia ouvir a voz de Lucas, então passou a procurar um suposto esconderijo, estava muito visível, queria paz, sossego... Um tempo para si.

Foi então que viu a porta de madeira semiaberta, não pensou duas vezes antes de se jogar para dentro do lugar e bater a porta, trancando-a em seguida. Tudo estava escuro e ela teve que tatear a parede áspera à procura de um interruptor, Juliana não se lembrava de já ter visto aquele quarto antes, e se o viu provavelmente foi impedida por alguém de entrar.

Sim... Ela se lembrou ao acender a luz e encarar aquele lugar vazio, já havia tentando entrar antes, todavia o jardineiro a impediu, puxando a menina para longe do lugar, "Faz parte do mistério..." disse-lhe ele certa vez, "As duas irmãs foram vistas entrar ai, nesse lugar, e jamais voltaram!".

"As duas irmãs eram incrivelmente jovens", era o que passava em sua mente enquanto andava calmamente pelo lugar, chutando algumas caixas vazias que encontrava no chão, "as irmãs tinham sorte, não teriam que envelhecer e ficar enrugadas... Se morreram, deram sorte, certamente não foi de doença..."

Eram cruéis seus pensamentos? Juliana não achava, durante toda a vida ouviu sobre como era um crime a velhice, a avó a lembrava do quão bela era a sua juventude a cada segundo, seus lindos olhos castanhos, ela notou ao encarar o espelho pregado a parede, sim, seus olhos, tão lindos e cheios de brilho, sua avó a induzira a crer que era tudo o que importava, talvez essa fosse a real maldição de sua família... A vaidade os consumia e os dividia... E no fim o que restava?

Cedo ou tarde todos eles irão partir!

Sim... Ela concluiu... E nada mais restaria.

—Você acha?

Juliana se arrepiou ao ouvir de súbito uma voz desconhecida, virou-se para a porta, para as paredes... Nada.

Sentiu um calor sobre suas costas e lentamente tornou a virar para o velho espelho, seu reflexo não mais se encontrava lá, havia dado lugar a letras escrito em dourado, uma frase se formava.

"Não tema!" – Ouviu novamente ao se afastar do espelho, dessa vez a voz foi mais próxima e reconhecível, com lágrimas nos olhos Juliana sorriu ao ouvir o avô, sim, aquela voz sem duvidas era a dele.

Estava alucinando? Louca? Isso não importava, era seu avô afinal.

—Vovô? É... É...

Então a frase no espelho se formou completamente:

"Você quer viver eternamente?"

Sem palavras, era assim que a morena se encontrava, a voz de seu avô havia vindo do espelho, de algum jeito... A mensagem praticamente traduzia um desejo de seu coração, um desejo que sempre possuiu...

Realmente... Ela realmente queria viver para sempre?