Juventude terrena
3 O paraiso
O espelho emitiu um som agudo, incomodo, que fez que com ela sentisse todo o corpo estremecer e perder as forças, sua mente perdeu o foco e passou a vagar sem rumo por pensamentos distorcidos... Sua visão, desfocada, tentou guiar suas mãos tremulas pelo quarto escuro, em busca da porta que havia usado para entrar.
De um momento a outro tudo se tornou confuso, estranho, seus sentidos pareceram perder o foco e seu corpo passou a buscar desesperadamente por uma saída. A jovem tateou as paredes, ainda tonta, até conseguir encontrar a porta, seu único pensamento era sair e correr até o mais longe possível daquele som agudo, que aos poucos parecia mudar de forma: De um som distorcido para gritos de pavor, de suplica, de sufoco.
Juliana abriu a porta desesperada, esperando encontrar o jardim da casa, entretanto o que viu ao passar por ela foi o escuro do quarto, o vazio, e o espelho lhe refletindo novamente, entretanto seu reflexo estava a chorar, em desespero, gritando como se a própria morte estivesse por perto.
—Não! — Juliana estremeceu, sentindo uma onda de lágrimas a dominar novamente. —Não é real! — Gritou, em súplica, abrindo a porta novamente e se jogando por ela. —Não é real!
Ela permaneceu de olhos fechados, tentando se imaginar livre. Mas o som dos gritos ainda permaneciam.
Juliana se ajoelhou, em prantos. Estaria enlouquecendo? Sentia-se estupida em alimentar pensamentos como aqueles, entretanto não se surpreenderia se visse o paraíso ou o inferno naquele momento.
""O paraíso pode esperar, estamos apenas olhando os céus!"
Ouviu novamente uma voz como antes, mas não se parecia com a do avô e dessa vez lhe soou um tanto irônica.
"Decida-se! E vamos dançar com elegância á nossa juventude eterna. "
Tomada pela coragem, Juliana se voltou ao espelho, fugir aparentemente não era a opção, chorar só lhe enlouqueceria mais rápido e, á essas horas, a fúria já a dominava:
—Não pode me controlar, seu maldito! — Juliana correu em direção ao espelho o socando com toda a força, ela fechou os olhos e esperou os estilhaços, o som do vidro se partindo, mas soltou um grito alto ao sentir-se afundar para o outro lado, como se estivesse sendo sugada por um redemoinho em um oceano.
Ela tentou se soltar, fugir, mas sentia a consciência lhe deixar a cada segundo, até enfim tudo se apagar e desaparecer.
~ # ~
Não havia som de pássaros, mas havia um som de água, e tudo era calma.
O momento emanava paz, tamanha paz que mesmo sem querer Juliana acabou ficando parada no mesmo lugar, com os olhos fechados e os sentidos aguçados para qualquer informação não visível. O seu deslumbre pelo momento era irrefutável, mesmo sendo inexplicável.
Por um instante sua dor foi esquecida e a superfície pareceu se tornar fluida, seu corpo não realizava nenhum movimento enquanto era levada para o fundo daquele mar de emoções, a água preenchia tudo, seu corpo, seu ar, a leveza da maré a carregava para longe de tudo, de todos... Ela sentiu-se mergulhar, com calma, sentindo-se deitar eternamente.
Fluído, este foi seu momento.
Até novamente sentir o ar preencher seus pulmões, o impacto de seu corpo ao encontrar a terra e seus olhos se abrirem para a claridade de um céu amargamente azul e claro.
Juliana se lembrava de estar em frente ao espelho, se lembrava do quarto escuro... E momentos confusos em que gritos soaram e o quarto se tornou como um labirinto sem saída. Poderia ter sido tudo um sonho, mas o lugar em que se encontrava dificultava esta sua teoria: Como havia chegado ali?
Levantou-se com um pouco de dificuldade, podia sentir a grama molhada e a claridade do sol quase a cegava, onde poderia estar? Por todos os lados em que olhavam apenas via o gramado, algumas árvores ao longe e o azul infinito do céu.
Então um novo som lhe chamou a atenção, o som do canto de um pássaro, um som claro e melódico, não soava com nenhum que já tenha ouvido em toda a vida, nem sequer pássaros voavam por perto.
—Bonito, não é?
Uma voz a assustou e logo um jovem entrou em seu campo de visão, um menino moreninho que não parecia ter mais que uns doze anos com sua estatura mediana e rosto jovial, Juliana notou a cesta de maçãs que ele trazia nas mãos e que ele estava vestido inteiramente de branco.
—An? Que... Quem é você?
Ele sorriu docemente, erguendo uma maçã bastante avermelhada:
—Eu sou o Richard e você está segura aqui, não se preocupe mais com nada, quer uma maçã?
— Segura? Do que?
— Posso te explicar no caminho, logo vai escurecer e ficar frio. Vamos enquanto está claro... Podemos encontrar os outros e você estará em casa.
Juliana o encarava com perplexidade, nunca o vira na vida, nem sequer conhecia aquele lugar, então como ele agia como se fosse completamente natural a sua presença ali?
— Já passei por essas dúvidas! Mas não há nada por aqui além de nós. – Richard pareceu ler a mente da jovem enquanto encarava o horizonte com um leve sorriso. — De algum modo vai perceber.
— An...
—Eu vou te contar tudo. – Ele se virou tranquilamente e tornou a escolher uma maçã. —Se não acreditar no que eu disser pode tentar ir embora...
—Do que está falando?
Porém o menino já estava caminhando calmamente em frente, comendo sua maçã sem se preocupar com nada. Ela encarou tudo o que havia ao seu redor, aquele lugar era apenas um campo aberto, com algumas poucas árvores e parecia ser infinito... Seria mesmo possível que não houvesse mais nada?
Juliana mordeu os lábios, há poucos minutos estava assimilando a morte de seu avô e agora se encontrava em um lugar totalmente estranho com uma pessoa desconhecida. Ela sentia todas as hipóteses apontarem para o perigo, entretanto que escolha poderia ter?
—Espere! — Juliana gritou subitamente, fazendo o rapaz parar de caminhar, sem tentar esconder o leve sorriso.
— Eu não sei quem é e nem que lugar é esse, mas não faço ideia de para onde ir... Então... – Os dois tornaram a caminhar, dessa vez lado a lado e com um pouco mais de pressa, Juliana não pôde deixar de notar que o ambiente permanecia sempre o mesmo, nada parecia querer mudar e isto a intrigava. —Estranho...
—Você entenderá! Todos nós entendemos alguma hora...
— Por que diz essas coisas estranhas? O que eu deveria entender? Que provavelmente desmaiei e apareci aqui sem nenhuma razão fisicamente explicável?
—Chegamos! — O menino anunciou, correndo até uma enorme macieira.
Juliana o seguiu e, ainda insegura, olhou por trás da árvore.
O que viu foi um lugar que mais se parecia um acampamento, bem fora de época e incrivelmente isolado, mas de fato era como um. Havia um grande local, ela não soube definir o que era, se parecia com um salão, porém com formato um tanto arredondado, até bonito, ela teve que concordar.
Á sua direita se encontrava dois chalés, não eram tão grandes, mas conseguia ter o próprio encanto, um estava enfeitado com flores coloridas e o outro trazia na parede da frente traços de tinta de todas as cores jogadas sem objetivo, que compuseram uma enorme arte abstrata, Juliana não era fã de arte abstrata, gostava de artes claras que retratavam a beleza e a natureza, riscos e formas sem sentido nunca a atraíram.
—Estamos em casa, não sinta vergonha todos são muito legais por aqui! – O menino sorriu abertamente e acelerou os passos até o grande salão arredondado, Juliana decidiu tomar coragem, precisava de respostas e se sentia totalmente exausta e confusa, ela passou a seguir o menino e a se aproximar do lugar a passos lentos. —É o nosso pequeno pedaço do paraíso, onde nós realizamos nosso desejo, assim como você desejou, não é?
—Desejei? O que?
Richard sorriu um pouco sem jeito.
—Rit! Que demora! – Uma menina vinha correndo em sua direção, usava um longo vestido branco e seus cabelos loiros estavam presos por uma trança. —Pensamos que não voltaria mais.
—Não exagere, veja, temos visita.
E então a menina pareceu notar a presença de Juliana, seus olhos se arregalaram minimamente e sua tentativa de tentar esconder o choque falhara tragicamente.
—O que é? – Juliana não queria soar rude, mas estava cansada de não entender nada, sentia a consciência pesar ao pensar na família e na provável escolha errada que tomou ao seguir Richard.
—Oh! Eu... A... – A menina forçou um sorriso. —Bem vinda, querida.
Juliana semicerrou os olhos, tão falsa quanto a avó em reunião de família no natal.
Richard e a garota acenaram para Juliana os seguir, ambos iam a sua frente se encarando nervosamente enquanto caminhavam em direção ao lugar que Juliana já identificara como uma espécie de refeitório ou restaurante, com a fachada totalmente aberta. Ela não pôde deixar de notar os outros jovens que se encontravam sentados em algumas mesas ou correndo e rindo pelo refeitório.
—Voltei! – Richard anunciou ao pisar no refeitório e os jovens que se encontravam sentados a mesa o encararam quase que instantaneamente. —Eu sei, eu demorei! Não, eu não morri, não fui raptado para outra dimensão, não cai da arvore e nem nada tragicamente trágico que eu sei que passou pela cabeça de vocês, senhores corujas.
—Nos assustou! – Um rapaz de longos cachos ruivos parou ao lado de Richard, cruzando os braços seriamente e fazendo o menino se encolher um pouco. — Não faça essa cara de arrependido! Hm... – O rapaz pareceu notar Juliana e sua expressão de seriedade deu lugar a uma clara expressão de susto, se Juliana se preocupava com a falta de espanto de Richard, tinha agora o consolo de que ninguém parecia esperá-la por perto, entretanto curiosamente isso lhe parecia um problema tão grande quanto o oposto. —Visitante?
Juliana suspirou, cansada, entediada, seja lá como aquele sentimento era chamado.
—Afinal quem são vocês? Um me diz que vou entender, outra me encara como se eu não devesse estar aqui e outro me pergunta o obvio? Vou voltar para o meio do nada, me sinto menos perdida.
—Não há o que possa lhe consolar em meio ao nada. — A menina loira murmurou, segurando delicadamente a mão de Juliana. —Perdoe nossa reação, é que este lugar onde estamos não recebe muita visita, na verdade, este mundo inteiro é apenas nosso.
—Como?
—Você vai entender, querida! — Outra voz surgiu e mais uma jovem aparecia em meio aos outros. —Isso é tudo o que temos.
Juliana deu um passo atrás, reconhecendo a jovem que acabara de ver, jamais pensou ser possível, não após tantos anos, se não fosse pelo retrato no quarto de hóspedes jamais a reconheceria.
—Você é... Virgínia?
A jovem sorriu ternamente.
——Sim, e você está no lugar que eu tanto sonhei, nós a chamamos de cidade dos eternos, é o nosso paraíso. Aqui é outro mundo, diferente de tudo que já viu... Todos nós vivemos eternamente como jovens.
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