Juventude terrena
6 Nunca dizemos nunca
Juliana respirou fundo ao abrir os olhos, ainda se encontrava no escuro da cabana e dessa vez as mãos de Virgínia pareciam a apoiar.
—Está bem? — Virginia parecia nervosa. -Ficamos preocupados, você desmaiou aqui dentro e não tivemos opção a não ser entrar e tentar te ajudar.
O que havia acontecido? Ela se perguntava, mas, por mais irreal que possa ter sido, ver todas aquelas imagens a ajudou a aceitar um pouco mais a realidade daquele mundo, saber sua "origem" a ajudava a juntar algumas peças.
—Estou bem... — Juliana murmurou, sentindo o coração pesar. Ela olhou ao redor, em busca da mulher misteriosa, mas tudo estava quieto e escuro, havia acabado? Não, ela sentia que ainda não havia encontrado todas as respostas, elas chegariam cedo ou tarde e Juliana não poderia fazer nada além de agir com cautela e destreza.
Algo não estava certo, era o que seu coração gritava.
Ela se levantou um pouco tonta, a cabeça um pouco dolorida por causa da confusão de imagens e acontecimentos, muita coisa para assimilar em pouco tempo.
—Você está cansada. Imagino que você conseguiu ver algumas coisas não é? — Edward comentou, ajudando Juliana a caminhar até fora da cabana. -Foi meio radical te trazer aqui depois de tudo... — Juliana ergueu um olhar confuso ao ruivo, de tudo o que? Cada minuto que passava a morena se intrigava mais com ele, Edward desviou os olhos para o chão e prosseguiu sem se afetar tanto. -Quero dizer, depois de ter acabado de chegar, vamos te levar para os dormitórios, para você poder dormir um pouco e quem sabe entender as coisas mais facilmente.
Virginia ergueu uma das mãos até a porta da cabana e murmurou algumas palavras desconhecidas, a porta pareceu mudar de cor e se tornar negra como a noite, Juliana arregalou os olhos, será que não pararia de se surpreender com esse novo mundo?
Respirando fundo e tentando apagar as ideias da cabeça ela seguiu os outros, passando novamente pela porta da cabana e dessa vez saindo no quarto quase vazio do refeitório.
—É sério... Como posso me acostumar com isso? — Acabou murmurando para si mesma, porém ao ver a expressão dos dois companheiros sentiu-se enrubescer levemente, havia falado um tanto alto demais.
—É como dormir e sonhar... Só que real. — Edward murmurou em resposta, mesmo que não parecesse muito convicto.
—Isso não faz sentido! — Juliana conseguiu afirmar. -Tudo bem que muitas coisas não fazem sentido no momento, mas não força demais porque a barra não aguenta.
Edward sorriu de lado, logo passando a rir baixinho de si mesmo, normalmente espera-se encontrar uma minima gota de alegria em pessoas comuns quando elas acham algo engraçado, mas a unica coisa que Edward transborda no momento é tristeza, tristeza e mais tristeza, ele tenta disfarçar, mas era notável que não está dando muito certo.
—Estou com sono, ainda não entendi onde eu estou, mas tenho maturidade o suficiente para saber que sair correndo como uma louca enquanto estou com sono não é uma opção. — Juliana murmura enquanto caminha até a porta branca. -Posso até ficar por aqui até entender tudo, mas saibam que eu tenho contatos muito influentes e se vocês me sequestrarem ou tentarem me matar todo mundo vai saber!
—Não precisa de medo! E... Se fossemos te matar já teríamos feito isso na floresta mesmo, onde não há ninguém para ver e muitos esconderijos. — Virginia comentou com um tom inconfundível de ironia, guiando Juliana novamente até o refeitório; a morena se emburrou um pouco, revirando os olhos e sentindo o sono pesar com um pouco mais de força, desde que acabara de ver todas aquelas cenas ela ainda se sentia um pouco fora de si.
—Se meu espirito puxar o pé de vocês a noite não reclamem!
—Não acho que isso seja possível... Ou seria possível? — Edward parecia realmente considerar a opção enquanto também saía do quarto. -Acho que o sono afeta minha racionalidade.
—Sua o que? — Richard apareceu por trás do balcão do refeitório, seu sorriso torto tão inocente que Juliana chegou a se perguntar sobre como ele poderia ter chegado a um lugar como esse, afinal, pelo que ela havia entendido, somente o desejo mais desesperado de se salvar de algo como a morte poderia ter feito o feitiço ganhar vida.
—Racionalidade. — Edward repetiu calmamente, se sentando em um banco ao lado do balcão e cutucando de leve a bochecha do menino. -É a sua capacidade de entender as coisas ao redor.
—Pra quê tanta palavra difícil, Ed?
—Que seja! — Virginia segurou a mão de Juliana. — Vou te mostrar os dormitórios, você já deve ter visto os chalés perto da fogueira, é um lugar agradável, principalmente a noite.
—Vou também! — Richard tentou descer do balcão com um salto, mas em sua empolgação acabou se desequilibrando e a morena só viu quando o menino já estava caído no chão, com um bico do tamanho do mundo e as bochechas avermelhadas. -Não vou mais...
Juliana ficou por um segundo observando os outros correndo para ajudar o menino a se levantar, Virgínia se dividia entre puxões de orelha e abraços, todos ali pareciam unidos, amigos, uma família, tudo ali parecia incrivelmente equilibrado.
De alguma forma Juliana notou que os sentimentos daquela jovem mulher da cabana, tão desesperada por um refúgio, por um lugar em que pudesse ser aceita e até mesmo amada, pareceram preencher seu coração com um novo calor e, ao invés da estressante duvida de minutos antes, ela se sentia incrivelmente leve e... Segura?
. . . .
Deitada sobre cama macia e apreciando o escuro silencioso do dormitório, Juliana pôde finalmente tentar colocar a mente em ordem e deixar algumas das lágrimas de tristeza e frustração que guardou por tanto tempo escaparem com força. Tudo acontecia muito rápido para que pudesse acompanhar, e, por mais que tentasse negar, isso a assustava profundamente, seu coração de algum modo conhecia uma verdade que ela mesma tentava buscar.
Mas o que poderia ser?
— Acordou? — Ouviu a voz de Virginia, a jovem estava deitada em uma das camas ao lado. — Eu sempre soube que já havia passado muito tempo, mas somente quando você apareceu que eu pareci acordar para a realidade... Juliana, não é? Seu nome, lembro vagamente de ter mencionado enquanto vinhamos para cá.
— Sim... E você deveria ter idade para ser minha avó, ou bisavó...
Virginia sorriu de lado, olhando fixamente para o teto.
-Ainda me lembro de casa, mas é diferente... — Ela fechou os olhos. -É como uma realidade distante que nunca de fato aconteceu.
Juliana se virou para Virginia, com a duvida que a matava por dentro rondeando novamente a sua cabeça:
— Por que? Por que não voltou? Por que ficou aqui? O que há de tão belo em ser eterno e ver todos que ama morrerem?
—Vai saber... — Virginia murmurou em resposta, Juliana teve dificuldade em saber se sua voz trazia frieza ou uma forte amargura. -Tem coisas da vida que... Só precisamos mudar o ponto de vista, quando conhecer melhor os outros vai entender um poucos... Nós temos... Tantos sonhos arrumando-se de repente e vamos deixá-los tornar-se realidade.
—O que quer dizer com isso?
Mas a luz do quarto foi acesa por uma menina loira, e outras duas garotas já começavam a se agitar entre si, rodeando Juliana e Virginia e impedindo qualquer chance daquela conversa continuar.
A loira pálida como papel em branco era Lucia, uma garota de dezoito anos, gentil e muito expressiva, um pouco impaciente, fazia muitas perguntas e tentava falar mais que as outras meninas.
—Lucia você fala de mais! — A que parecia ser a mais velha das garotas jogou um travesseiro na loira, seu nome era Ana Alice, ela tinha belíssimos cachos volumosos de cabelo castanho e sua pele era de um tom marrom escuro, ela disse ter vinte anos e não era de falar muito, mas adorava rir dos comentários inusitados das outras e se comunicava muito com olhares significativos. -A menina já está perdida e você só falta pedir o numero da identidade dela!
—Não vou negar... — Juliana murmurou sorrindo de lado, Virginia apenas as observava deitada na cama com um sorriso doce nos lábios, seus olhos brilhavam ao ver a alegria de todas, de fato ela parecia estar constantemente vivendo um paraíso.
A outra menina riu baixinho, uma menina meio acima do peso para os padrões, a avó de Juliana enlouqueceria com isso, sempre tão presa em padrões... Ela tinha um sorriso encantador e o cabelo negro ondulado estava preso com uma fita cinza. Juliana se lembrava dela ter dito que o nome era Carla, uma menina gentil também, mas um pouco mais reservada e distraída. Todas essas garotas estavam ali a bastante tempo, Juliana não perguntou como chegaram, em pouco tempo por aqui já pôde notar que o assunto, "espelho magico que abduz pessoas", como Juliana gentilmente o nomeou, não o assunto preferido por aqui.
-To com fominha... — Virginia resmungou, enterrando a cabeça no travesseiro. — Alguém me arrasta para o café da manhã?
—Folgada! — As três meninas exclamaram ao mesmo tempo, logo passando a rir juntas, elas seguraram o braço de Juliana, a puxando para a saída do quarto e falando animadamente das guloseimas do café da manhã.
. . . .
O café da manhã era realmente maravilhoso, divino, havia tanta comida deliciosa que Juliana realmente acreditou estar no paraíso, no momento ela se encontrava saboreando o melhor bolo de chocolate que já provou na vida.
—Antes tudo era feito como mágica. — Lucia informou a Juliana, ela e Carla haviam guiado a morena até uma mesa não muito grande, onde se sentaram ao lado de Edward, Richard e um outro menino moreno meio pardo que elas informaram se chamar Wendry. -Era bom, mas não tinha muita emoção... Ah! Não me pergunte como as coisas apareciam aqui. — A loira se adiantou ao notar a expressão de Juliana. -Só que isso mudou quando o Santana chegou aqui, ele é um ótimo cozinheiro e desde que pisou na cozinha não quis mais largar as panelas.
—Santana?
—O João Santana. — Wendry esclareceu com um sorriso irônico. — Quando ele chegou aqui estava tão confuso que confundiu o sobrenome com o nome e desde então nós o chamamos de Santana.
—Vou demorar um milênio para gravar o nome de todos!
—Acredite, nós temos a eternidade!
Juliana revirou os olhos, o garoto a sua frente continuou falando sobre coisas aleatórias e por um minuto ela se lembrou dos colegas da faculdade fazendo escândalo no refeitório do campus e chamando a atenção de todos os outros, que com o tempo passaram a ignorar. Ela sorriu de lado, meio nostálgica, se perguntando onde estariam agora, então se lembrou de Lucas, que sempre estivera por perto em sua vida, Juliana começou a procurar em dos bolsos escondidos que tinha costurado no vestido uma fotografia que carregava consigo como se fosse um amuleto.
Seu sorriso aumentou ao encontrar, era uma foto pequena, em que ela e Lucas estavam vestidos com roupas natalinas, sorrindo juntos, Juliana sentia falta da época em que podia fazer o que quisesse, se é que esse época realmente existiu um dia.
— Seu namorado? — Richard perguntou ao notar a foto, atraindo a atenção de todos para Juliana.
— Não — Ela respondeu com um sorriso um pouco afetado. — Não mais... Nós já namoramos uma vez, mas não deu certo... Ele diz que me ama, mas eu sei que é algo passageiro entende?
Edward assentiu baixando os olhos:
— De certo modo! — Wendry murmurou, brincando com umas das ondinhas do cabelo que Carla.
— O nome dele é Lucas, eu e ele somos amigos desde a infância, quando tinha dezoito anos ele descobriu que a ex namorada dele estava esperando um filho.
— Uau! — Todos exclamaram ao mesmo tempo, quase que aos berros, e a encarando com expectativa, fazendo Juliana rir mesmo sem querer, eternos ou não, jovens são jovens.
— Pois é! — Ela exclamou em resposta, fazendo todos ficarem ainda mais chocados com o "plot Twist" na fofoca. -Nós estávamos juntos nessa época, mas eu percebi que se continuasse com ele poderia estragar nossas vidas, entendam: Eu não o amava dessa maneira tão... Grande, sabe? O máximo é como amigo, e quando ele está comigo ele não dá muita atenção para os amigos ou a família, não queria que ele fingisse não ter um filho por minha casa, ele não faz por mal, é uma boa pessoa, mas é a vida não é mesmo? Eu decidi terminar e, mesmo que ele ainda tente jogar indiretas as vezes, eu realmente não quero voltar.
Wendry assobiou.
—Pelo menos ele está cuidando do filho agora... — Edward murmurou, novamente com mais certeza do que deveria e novamente causando em Juliana a mesma sensação de estranhamento de antes. -Quero dizer... A Virginia disse para nos reunirmos na fogueira depois, para Juliana conhecer melhor todos. Richard, quer vir comigo conferir se o Santana precisa de ajuda para o almoço?
O menino assentiu e rapidamente se levantou, sorrindo torto e acompanhando Edward para longe da mesa.
Lucia acompanhou o olhar de Juliana, captando um pouco de sua duvida:
—Se quer saber.. — Ela murmurou. -Edward está mais tempo aqui do que qualquer outro, até mesmo a mais tempo que Virgínia, só sabemos sobre ele o que ele permite que nós saibamos...
Juliana ergueu as sobrancelhas, e dessa vez foi Carla quem continuou a falar:
—Nós pensamos em interrogá-lo, procurar diários secretos, inventar um feitiço para roubar memórias dele, mas não levamos nenhuma ideia muito a frente...
—Talvez consideramos investigar o quarto dele, que é separado do nosso... — Wendry comentou, saboreando uma linda maçã como quem não quer nada. -Talvez...
—E desistiram? — Juliana quis saber, sentindo um calor de nervosismo surgir.
Os três se encararam com sorrisos cúmplices e tornaram a fitar a morena:
—Talvez não. — Responderam ao mesmo tempo, fazendo Juliana se perguntar não se arrependeria de ter perguntado.
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