Justiça por assinatura
21 Capítulo 20
Diana
O telefone tocou.
Número privado.
Atendi sem pensar.
Foi um erro antigo. Repetido.
— Diana.
A voz atravessou a linha com uma familiaridade que doeu mais do que qualquer surpresa. Não era o som em si, mas a ausência de esforço. Paolo nunca precisou se anunciar. Sempre soube que seria reconhecido.
— Paolo.
Silêncio. Do tipo que só existe entre pessoas que já dividiram cama, rotina e um futuro mal planejado. Um silêncio cheio de versões não ditas e decisões adiadas até apodrecerem.
— Eu pensei que você não fosse atender — ele disse, por fim.
— Eu também — respondi. — O que você quer?
Ele suspirou. Um som baixo, contido, quase ensaiado. Paolo sempre ensaiava. Até quando dizia a verdade.
— Você sabe exatamente o que eu quero.
Fechei os olhos por um instante. A imagem veio inteira, sem pedir licença: cinco anos. Um quase noivado. Um apartamento que nunca chegamos a dividir. As brigas que começavam pequenas demais para justificar o fim e grandes demais para continuar fingindo. As concessões dele. As recusas minhas.
— Você não tem mais esse direito — falei.
— Tenho, sim — ele respondeu, firme. — Porque você ainda está viva.
Ri. Um riso curto, seco. Sem humor.
— Engraçado. Foi exatamente isso que você usou quando resolveu ir embora.
— Eu fui embora porque entendi o jogo — ele retrucou. — Você continua fingindo que não entende.
A palavra jogo não era metáfora. Nunca foi.
— A viúva morreu — eu disse, sem rodeio.
O silêncio do outro lado agora era diferente. Menos controle. Menos personagem. Não durou muito, mas existiu.
— Eu sei.
Meu estômago afundou.
— Claro que sabe.
— Diana — ele começou, com a voz mais baixa —, isso saiu do nível em que você ainda pode bancar.
— Saiu quando você decidiu ligar — respondi. — Não quando ela morreu.
— Ela morreu porque você insistiu — ele disse. Dessa vez, sem cuidado. — Porque você não soube parar.
Respirei fundo. Não para me acalmar. Para não rir de novo.
— Não — corrigi. — Ela morreu porque alguém decidiu que ela atrapalhava.
— E você é a próxima distração inconveniente — ele rebateu. — É isso que você não está entendendo.
Apertei o telefone com força demais. Como se pudesse esmagar a lógica dele junto.
— Você ligou pra me avisar ou pra me ameaçar?
— Liguei pra te salvar — ele respondeu rápido demais. — Do mesmo jeito que tentei cinco anos atrás.
— Salvando a si mesmo — murmurei.
Ele ignorou. Sempre ignorava quando chegávamos nesse ponto.
— Desiste, Diana. Agora. Some. Pede desculpa. Fecha o caso. Faz o luto em silêncio como todo mundo.
— Como você fez comigo?
A pausa foi mínima. Mas existiu. Pequena. Humana. Imperdoável.
— Nós dois sabemos que não foi a mesma coisa.
— Foi exatamente a mesma coisa — respondi. — Você escolheu sobreviver dentro do sistema. Eu escolhi continuar respirando fora dele.
— E olha onde isso te levou.
Olhei para o jardim mais uma vez. Para o caminho de pedras. Para o lugar onde a Consuelo caiu sem cair. Onde ninguém viu nada demais. Onde tudo foi rápido, limpo, eficiente.
— Você não está pedindo — eu disse, finalmente. — Está intimando.
— Estou — ele admitiu. — Porquê dessa vez eu não vou assistir de longe.
— Então anota isso — falei, surpresa com a calma da minha própria voz. — Eu não vou parar. Não agora. Não depois dela.
— Diana…
— Se você ainda lembra quem eu sou — interrompi —, sabe que esse tipo de pedido só funciona quando vem tarde demais.
Silêncio.
— Essa ligação foi o último favor — ele disse, por fim. — Depois disso, eu não vou conseguir segurar mais nada.
— Você nunca segurou — respondi. — Só desviou.
Desliguei antes que ele pudesse dizer meu nome de novo.
O telefone parecia pesado na minha mão. Não pelo que foi dito, mas pelo que ficou claro demais. O Paolo não ligou por amor. Nem por nostalgia. Ligou porque o sistema tinha batido à porta dele também.
E ele escolheu continuar sendo útil.
A Consuelo não morreu por acidente.
E eu não estava mais sendo investigadora.
Eu era o problema.
Encostei o celular na mesa e fiquei ali, parada, sentindo o atraso das emoções chegar em ondas desorganizadas. Medo. Raiva. Um cansaço antigo. E algo novo, mais perigoso: clareza.
Paolo tinha razão em uma coisa.
Eu entendia o jogo.
Sempre entendi.
Só tinha escolhido não jogar.
Até agora.
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