Justiça por assinatura
22 Capítulo 21
Diana
Sofia estava sentada no chão da sala quando cheguei. O notebook aberto, a tela acesa há tempo demais para alguém que estivesse realmente usando. Ela não levantou os olhos de imediato.
— Vai falar agora? — perguntou.
Coloquei a bolsa sobre a mesa. O som seco pareceu mais alto do que deveria.
— Vou.
Sentei no sofá, de frente pra ela. Não havia mais espaço para rodeios.
— O Paolo me ligou.
Ela ergueu o rosto na hora. O nome ainda atravessava qualquer conversa como um objeto mal posicionado no caminho.
— Quando?
— Ontem. Depois da casa da Consuelo.
Sofia fechou o notebook com cuidado demais.
— E?
— Ele sabe de tudo. Do caso. Da clínica. Da morte dela. — Respirei fundo. — Não foi aviso. Foi limite.
Ela ficou em silêncio. Um silêncio curto, mas pesado.
— Você pensou em parar — disse. Não como pergunta.
Assenti.
— Pensei. Por você.
Sofia desviou o olhar por um instante. Quando voltou, havia algo ali — não dúvida, mas desgaste.
— E decidiu o quê?
— Que parar agora seria concordar com o método. — Pausei. — E que a Consuelo morreu acreditando que alguém ia continuar.
Ela se levantou e sentou ao meu lado.
— Então não faz mais nada sozinha — disse. — Se isso vai até o fim, vai nós duas.
— Eu sei.
Abri a bolsa.
— Trouxe o que ela escondeu.
A caixa não era grande, mas tinha um peso estranho, concentrado. Dentro: pastas gastas, um notebook antigo e três pen drives pretos, sem marca.
Sofia pegou um deles, girando entre os dedos.
— Sempre assim — murmurou. — Nunca o crime. Sempre a engrenagem.
Ligamos o notebook. Ele demorou a responder, como se resistisse. Inserimos o primeiro pen drive.
Mapas. Zonas coloridas. Regiões que o Estado visita apenas com escolta — quando visita. Sofia passou o dedo pelo touchpad devagar demais.
— Isso aqui… — ela começou, mas parou.
Planilhas abertas. Pagamentos fragmentados. Associações que ninguém reconheceria na rua. Igrejas sem endereço fixo. Cooperativas sem gente.
Não precisei explicar.
— Não é só dinheiro — ela disse, por fim. — É território.
Assenti.
— A milícia faz o trabalho sujo. — Fechei um arquivo. — A empresa entra depois, limpa, uniformizada. Chama de serviço.
Sofia soltou uma risada curta, sem humor.
— “Proteção comunitária”.
— Medo com CNPJ.
Abrimos outro arquivo. Relatórios internos. Frases clínicas demais para descrever gente viva.
Área estabilizada.
Baixa resistência.
Comunidade cooperativa.
Sofia passou a mão pelo rosto.
— Cooperativa… — repetiu. — Eles realmente acreditam nisso.
O terceiro pen drive fechava o desenho. Fundos privados. Empresas de investimento. O dinheiro voltando limpo, respeitável, intocável.
Já era suficiente.
Fechei o notebook.
— O José não morreu porque devia algo — Sofia disse, a voz mais baixa agora. — Morreu porque estava no ponto errado de um sistema que não admite ruído.
— E a Consuelo — completei — porque começou a enxergar o desenho inteiro.
A caixa fez um som leve quando a empurrei para o centro da mesa. Os pen drives bateram entre si. Um barulho pequeno, mas impossível de ignorar depois que você aprende a escutar.
Sofia respirou fundo. Pela primeira vez desde que comecei a falar, ela pareceu cansada.
— Isso é grande demais — disse.
— Grande demais pra ser acidente. Pequeno demais pra quem manda se importar.
Ela ficou em silêncio por alguns segundos.
— Você ainda quer continuar?
Olhei para a caixa.
— Agora não é mais escolha — respondi. — É responsabilidade.
Sofia colocou a mão sobre a minha. Apertou de leve, como se estivesse se ancorando tanto quanto me ancorando.
— Então vamos fazer direito.
Empurrei a caixa para o fundo da mesa, como se distância ajudasse a conter o que ela representava.
— Não vai ser rápido.
— Nem limpo.
— Nem seguro.
Ela assentiu, mas demorou meio segundo a mais do que o normal.
— Nunca foi.
E ali ficou claro:
Não estávamos investigando um crime.
Estávamos mexendo na estrutura que permite que ele continue acontecendo.
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