Diana

Sofia estava sentada no chão da sala quando cheguei. O notebook aberto, a tela acesa há tempo demais para alguém que estivesse realmente usando. Ela não levantou os olhos de imediato.

— Vai falar agora? — perguntou.

Coloquei a bolsa sobre a mesa. O som seco pareceu mais alto do que deveria.

— Vou.

Sentei no sofá, de frente pra ela. Não havia mais espaço para rodeios.

— O Paolo me ligou.

Ela ergueu o rosto na hora. O nome ainda atravessava qualquer conversa como um objeto mal posicionado no caminho.

— Quando?

— Ontem. Depois da casa da Consuelo.

Sofia fechou o notebook com cuidado demais.

— E?

— Ele sabe de tudo. Do caso. Da clínica. Da morte dela. — Respirei fundo. — Não foi aviso. Foi limite.

Ela ficou em silêncio. Um silêncio curto, mas pesado.

— Você pensou em parar — disse. Não como pergunta.

Assenti.

— Pensei. Por você.

Sofia desviou o olhar por um instante. Quando voltou, havia algo ali — não dúvida, mas desgaste.

— E decidiu o quê?

— Que parar agora seria concordar com o método. — Pausei. — E que a Consuelo morreu acreditando que alguém ia continuar.

Ela se levantou e sentou ao meu lado.

— Então não faz mais nada sozinha — disse. — Se isso vai até o fim, vai nós duas.

— Eu sei.

Abri a bolsa.

— Trouxe o que ela escondeu.

A caixa não era grande, mas tinha um peso estranho, concentrado. Dentro: pastas gastas, um notebook antigo e três pen drives pretos, sem marca.

Sofia pegou um deles, girando entre os dedos.

— Sempre assim — murmurou. — Nunca o crime. Sempre a engrenagem.

Ligamos o notebook. Ele demorou a responder, como se resistisse. Inserimos o primeiro pen drive.

Mapas. Zonas coloridas. Regiões que o Estado visita apenas com escolta — quando visita. Sofia passou o dedo pelo touchpad devagar demais.

— Isso aqui… — ela começou, mas parou.

Planilhas abertas. Pagamentos fragmentados. Associações que ninguém reconheceria na rua. Igrejas sem endereço fixo. Cooperativas sem gente.

Não precisei explicar.

— Não é só dinheiro — ela disse, por fim. — É território.

Assenti.

— A milícia faz o trabalho sujo. — Fechei um arquivo. — A empresa entra depois, limpa, uniformizada. Chama de serviço.

Sofia soltou uma risada curta, sem humor.

— “Proteção comunitária”.

— Medo com CNPJ.

Abrimos outro arquivo. Relatórios internos. Frases clínicas demais para descrever gente viva.

Área estabilizada.

Baixa resistência.

Comunidade cooperativa.

Sofia passou a mão pelo rosto.

— Cooperativa… — repetiu. — Eles realmente acreditam nisso.

O terceiro pen drive fechava o desenho. Fundos privados. Empresas de investimento. O dinheiro voltando limpo, respeitável, intocável.

Já era suficiente.

Fechei o notebook.

— O José não morreu porque devia algo — Sofia disse, a voz mais baixa agora. — Morreu porque estava no ponto errado de um sistema que não admite ruído.

— E a Consuelo — completei — porque começou a enxergar o desenho inteiro.

A caixa fez um som leve quando a empurrei para o centro da mesa. Os pen drives bateram entre si. Um barulho pequeno, mas impossível de ignorar depois que você aprende a escutar.

Sofia respirou fundo. Pela primeira vez desde que comecei a falar, ela pareceu cansada.

— Isso é grande demais — disse.

— Grande demais pra ser acidente. Pequeno demais pra quem manda se importar.

Ela ficou em silêncio por alguns segundos.

— Você ainda quer continuar?

Olhei para a caixa.

— Agora não é mais escolha — respondi. — É responsabilidade.

Sofia colocou a mão sobre a minha. Apertou de leve, como se estivesse se ancorando tanto quanto me ancorando.

— Então vamos fazer direito.

Empurrei a caixa para o fundo da mesa, como se distância ajudasse a conter o que ela representava.

— Não vai ser rápido.

— Nem limpo.

— Nem seguro.

Ela assentiu, mas demorou meio segundo a mais do que o normal.

— Nunca foi.

E ali ficou claro:

Não estávamos investigando um crime.

Estávamos mexendo na estrutura que permite que ele continue acontecendo.