Justiça por assinatura
23 Capítulo 22
Diana
Eu estava sozinha em casa, o que ultimamente já era uma condição suspeita.
O café esfriava na xícara enquanto eu fingia normalidade — esse gesto pequeno que a gente repete quando não quer admitir que está esperando alguma coisa dar errado.
Sofia tinha saído para encontrar o Roberto. Oficialmente, um jantar. Extraoficialmente, mais uma coleta de informação disfarçada de carência compartilhada. Eu não sabia dizer se ele realmente estava interessado nela ou apenas cansado demais para distinguir atenção de oportunidade. No fim, pouco importava. Precisávamos manter informantes vivos, disponíveis e, de preferência, confiantes.
Olhei o relógio. Nada dela ainda.
Era cedo demais para me preocupar. Mesmo assim, meu corpo já tinha decidido antes de mim.
O celular vibrou sobre a mesa.
Mensagem nova.
Abri sem pensar.
Era uma selfie da Sofia.
Ela sorria. Um sorriso aberto, quase leve demais para alguém que sabe exatamente onde pisa. Não era o tipo de foto que ela mandaria à toa. Sofia nunca mandava nada à toa.
A segunda mensagem veio logo em seguida:
“Amei a loja, fachada linda.”
Fiquei imóvel por um segundo. Só um.
O suficiente para entender.
Ok.
Ela estava me dizendo onde estava.
Levantei da cadeira e fui até o computador. Ampliei a imagem com cuidado, como quem não quer assustar nada que já está ali. O ventilador da máquina fez um ruído baixo. O silêncio da casa se ajustou ao som, atento.
Zoom.
A fachada refletida atrás dela não dizia nada à primeira vista.
Zoom de novo.
O letreiro apareceu nítido: Doceria Mil Amores.
Mais um ajuste.
E então vi.
Dois homens.
Encostados do outro lado da rua. Bonés baixos demais para o calor daquela noite. Postura relaxada para quem estava ali há tempo suficiente para não ter pressa.
Nenhum deles olhava diretamente para a câmera.
Os dois olhavam para ela.
Abri o celular e joguei o nome da doceria no mapa. A imagem da fachada confirmou o que eu já sabia antes da confirmação: eles não estavam ali por acaso.
Digitei a resposta com cuidado.
“Quero dois muffins.”
Enviei.
A resposta veio rápido.
“Ok.”
Engoli em seco.
“Quanto tempo pra você voltar?”
Esperei. Um segundo. Dois.
“Uns 40 minutos.”
Quarenta minutos.
Não era o tempo dela.
Era o tempo deles.
Respirei fundo e escrevi a última mensagem, mantendo o tom mais banal possível.
“Vamos no cine juntas?”
A pausa foi maior agora. Longa o bastante para eu considerar ligar. Longa o bastante para apagar uma frase inteira antes de escrever outra.
Então:
“Já estou voltando. Bjos.”
Fiquei olhando para a tela depois que a conversa terminou, como se ela pudesse me devolver alguma coisa que eu ainda não tinha perdido — mas já sentia falta.
Quarenta minutos.
Fechei o notebook, peguei as chaves e deixei a xícara de café sobre a mesa, intocada.
Algumas rotinas a gente abandona sem cerimônia quando entende que não vai ter tempo de terminá-las.
Eles não estavam testando a Sofia.
Estavam me chamando.
E, pela primeira vez desde o começo disso tudo, eu soube com clareza incômoda:
o sistema tinha parado de nos observar à distância.
Agora, estava andando logo atrás.
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