Justiça por assinatura
24 Capítulo 23
Sofia
Não podia ficar na rua.
Entrei na doceria quase por impulso.
Estava cheia — mas não cheia demais. Gente suficiente para eu ser só mais uma, pouca o bastante para ninguém prestar atenção em mim por tempo prolongado. O tipo de equilíbrio que a gente aprende a procurar depois de errar algumas vezes.
Abri o celular e mandei mensagem para o Roberto.
Acabei de ver uma doceria linda. Podemos nos encontrar nela?
Segue o endereço.
Não sei se ele compraria a ideia. Para ser honesta, eu não me importava com o encontro. Precisava saber se ele ainda era útil. Informantes também têm prazo de validade.
A resposta veio alguns segundos depois.
Podemos sim, mas irei me atrasar um pouco. Estacionei longe.
Tudo bem, respondi.
Por mensagem, ele não parecia estranho. Mas eu sou a prova viva de que, por mensagem,
até o diabo parece um anjo.
Preciso parar de usar essas frases da Diana.
O celular pré-pago vibrou.
Docinho me avisou. Se precisar de algo é só pedir pra viagem.
Tony.
Guardei o telefone e fui até o balcão. Pedi um café. Não estava com fome, mas precisava de algo nas mãos. As mãos denunciam a gente quando estão vazias demais.
— Três muffins — pedi.
Três fazia sentido. Para mim, para a Diana e para o Tony. Mentiras funcionam melhor quando vêm com lógica.
Peguei o pacote e saí da doceria com a mesma calma de sempre. Senti os olhares acompanharem o movimento. Não todos. Só o suficiente.
Caminhei dois quarteirões antes de diminuir o passo e parar perto de uma vitrine fechada. Abri a conversa com o Roberto.
Nada.
Esperei mais um pouco.
Tentei ligar.
Chamada não completada.
Tentei de novo. Caixa postal.
Guardei o telefone sem insistir. Pessoas somem de muitas formas. A maioria começa assim: atrasos pequenos demais para justificar alarme, grandes demais para ignorar.
O outro celular vibrou.
Respirei fundo antes de digitar.
O sol está se pondo.
Não era poesia. Era código. Nosso pai usava quando estava de saída e queria que a gente soubesse sem dizer demais.
A resposta veio rápido.
Estou chegando.
Minutos depois, um carro escuro parou alguns metros à frente. Não abriu o vidro. Não buzinou. Apenas destravou a porta.
Entrei sem olhar para os lados. O cheiro familiar de estofado quente e café velho me fez relaxar um pouco — não conforto, só reconhecimento.
— O Roberto não apareceu — falei, antes mesmo de fechar a porta.
Tony assentiu, como se já esperasse.
— Nem vai aparecer hoje.
Não perguntei como ele sabia. Algumas respostas não valem o risco.
— A Diana está em um estacionamento de shopping aqui perto — ele continuou, engatando a marcha. — Lugar cheio. Rotação alta. Difícil de observar sem ser visto.
Encostei a testa no vidro por um instante, sentindo o movimento do carro.
— Então vamos encontrar ela.
Tony não respondeu. Apenas entrou no fluxo da cidade como se fizesse parte dele desde sempre.
Segurei o pacote de muffins no colo, apertando um pouco a embalagem.
Não era um encontro.
Não era coincidência.
Mas, pelo menos por agora, eu não estava sozinha.
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