Sofia

Não podia ficar na rua.

Entrei na doceria quase por impulso.

Estava cheia — mas não cheia demais. Gente suficiente para eu ser só mais uma, pouca o bastante para ninguém prestar atenção em mim por tempo prolongado. O tipo de equilíbrio que a gente aprende a procurar depois de errar algumas vezes.

Abri o celular e mandei mensagem para o Roberto.

Acabei de ver uma doceria linda. Podemos nos encontrar nela?

Segue o endereço.

Não sei se ele compraria a ideia. Para ser honesta, eu não me importava com o encontro. Precisava saber se ele ainda era útil. Informantes também têm prazo de validade.

A resposta veio alguns segundos depois.

Podemos sim, mas irei me atrasar um pouco. Estacionei longe.

Tudo bem, respondi.

Por mensagem, ele não parecia estranho. Mas eu sou a prova viva de que, por mensagem,

até o diabo parece um anjo.

Preciso parar de usar essas frases da Diana.

O celular pré-pago vibrou.

Docinho me avisou. Se precisar de algo é só pedir pra viagem.

Tony.

Guardei o telefone e fui até o balcão. Pedi um café. Não estava com fome, mas precisava de algo nas mãos. As mãos denunciam a gente quando estão vazias demais.

— Três muffins — pedi.

Três fazia sentido. Para mim, para a Diana e para o Tony. Mentiras funcionam melhor quando vêm com lógica.

Peguei o pacote e saí da doceria com a mesma calma de sempre. Senti os olhares acompanharem o movimento. Não todos. Só o suficiente.

Caminhei dois quarteirões antes de diminuir o passo e parar perto de uma vitrine fechada. Abri a conversa com o Roberto.

Nada.

Esperei mais um pouco.

Tentei ligar.

Chamada não completada.

Tentei de novo. Caixa postal.

Guardei o telefone sem insistir. Pessoas somem de muitas formas. A maioria começa assim: atrasos pequenos demais para justificar alarme, grandes demais para ignorar.

O outro celular vibrou.

Respirei fundo antes de digitar.

O sol está se pondo.

Não era poesia. Era código. Nosso pai usava quando estava de saída e queria que a gente soubesse sem dizer demais.

A resposta veio rápido.

Estou chegando.

Minutos depois, um carro escuro parou alguns metros à frente. Não abriu o vidro. Não buzinou. Apenas destravou a porta.

Entrei sem olhar para os lados. O cheiro familiar de estofado quente e café velho me fez relaxar um pouco — não conforto, só reconhecimento.

— O Roberto não apareceu — falei, antes mesmo de fechar a porta.

Tony assentiu, como se já esperasse.

— Nem vai aparecer hoje.

Não perguntei como ele sabia. Algumas respostas não valem o risco.

— A Diana está em um estacionamento de shopping aqui perto — ele continuou, engatando a marcha. — Lugar cheio. Rotação alta. Difícil de observar sem ser visto.

Encostei a testa no vidro por um instante, sentindo o movimento do carro.

— Então vamos encontrar ela.

Tony não respondeu. Apenas entrou no fluxo da cidade como se fizesse parte dele desde sempre.

Segurei o pacote de muffins no colo, apertando um pouco a embalagem.

Não era um encontro.

Não era coincidência.

Mas, pelo menos por agora, eu não estava sozinha.