Justiça por assinatura
17 Capítulo 16
Tony
Algumas informações não chegam com barulho. Elas se acomodam. Ficam ali, sentadas à sua frente, esperando você admitir que entendeu.
O nome que as meninas me passaram estava anotado num papel simples, dobrado duas vezes, sem cabeçalho, sem contexto. Do jeito que eu gosto. Do jeito que não chama atenção.
Li uma vez. Depois outra.
Conhecia aquele sobrenome antes mesmo de associá-lo ao rosto certo. Não porque fosse famoso, mas porque tinha o tipo de presença que sobrevive a trocas de governo, reformas administrativas e discursos de modernização. Gente assim não precisa aparecer — basta assinar.
Dobrei o papel e guardei no bolso interno do casaco. Não levei celular. Nunca levo quando vou fazer perguntas que não deveriam existir.
O bar onde encontrei meu informante ainda fingia ser um bar. As mesas eram as mesmas há décadas, o chão grudava um pouco mais do que o aceitável e o cheiro de fritura antiga impregnava até a memória. O tipo de lugar que o sistema esqueceu porque não valia a pena limpar.
Ele já estava lá quando cheguei. Mais curvado do que da última vez. Os olhos fundos, as mãos inquietas. Cansado demais para parecer perigoso. E era isso que me preocupava.
— Faz tempo, Tony — disse, sem sorrir.
— Tempo suficiente pra você começar a errar — respondi, sentando.
Ele riu sem humor.
— Ainda direto ao ponto. — Olhou em volta antes de continuar. — O que você quer saber?
Coloquei o copo entre nós, vazio. Não pedi nada. Bebida solta a língua, mas também deixa rastro.
— Esse nome — disse, empurrando o papel na direção dele por um segundo apenas.
Ele não tocou. Não precisou. O efeito foi imediato demais.
O olhar desviou. A respiração mudou. Um microgesto que eu conhecia desde antes da privatização, desde quando ainda se aprendia a mentir com medo real, não com treinamento.
— Isso não é mais da sua alçada, Tony.
— Não é da alçada de ninguém — corrigi. — Por isso mesmo estou perguntando.
Ele passou a mão no rosto, lento.
— Você anda com gente que não sabe parar.
Foi aí que pensei nelas.
Diana, com aquela mania suicida de ir até o fim só para provar que existe. Sofia, acreditando que ainda dá para entrar e sair dos lugares sem deixar pedaço pelo caminho.
— São só meninas — eu disse, mais para mim do que para ele.
— Não são — ele respondeu rápido demais. — E você sabe disso.
Silêncio.
— Esse médico — ele continuou, baixando a voz — não trabalha sozinho. Nunca trabalhou. Mas também não manda em nada. Ele assina porque alguém precisa assinar.
— E quem manda?
Ele balançou a cabeça.
— Não assim. Não com você perguntando.
— Então por que me encontrou? — perguntei.
Ele me encarou, sério agora.
— Porque ainda te devo uma. E porque essas duas… — hesitou — …não têm ideia de onde estão pisando.
Aquilo me acertou mais forte do que eu esperava.
Eu devia ter impedido isso.
Devia ter feito muito mais coisa diferente.
Antes da privatização, eu era investigador. Não consultor. Não fantasma. Trabalhava com o pai delas. Um homem teimoso, honesto até o limite da imprudência. Acreditava que o sistema podia ser consertado por dentro.
Eu não.
Eu cansei primeiro.
Quando começaram as mudanças, os contratos, as parcerias “estratégicas”, ele quis lutar. Reuniões, denúncias, relatórios que ninguém lia. Eu disse para ele parar. Disse que não valia a pena. Disse que tinha filhas pequenas.
Ele não ouviu.
Nunca ouvia.
A morte dele foi tratada como fatalidade. Acidente conveniente, laudo impecável. Eu assinei papéis que não devia. Me calei quando devia gritar. E, desde então, fiz a única coisa que me restou: fiquei.
Cuidei das meninas como deu. À distância. Pagando escola, desviando curiosos, apagando nomes antes que chegassem nelas. Nunca quis que a Diana virasse investigadora. Nunca quis que a Sofia entrasse nisso junto.
Mas justiça é uma herança maldita. Não se recusa. Só muda de forma.
— O que você está fazendo agora, Tony? — o informante perguntou.
Levantei.
— Tentando ganhar tempo.
— Para quem?
Pensei um segundo antes de responder.
— Para duas pessoas que não sabem escolher a hora de sair.
Saí do bar sem olhar para trás.
No carro, liguei o telefone antigo. O que ainda funcionava fora da rede oficial. Demorou dois toques.
— Diana — eu disse, quando ela atendeu. — Precisamos conversar.
— Agora? — a voz dela estava alerta. Sempre estava.
— Agora não. — Olhei para a estrada escura à frente. — Hoje à noite.
— Onde?
— Hotel à beira da rodovia. — Pausei. — Lugar ruim, barato e esquecido.
Ela entendeu o recado. Sempre entende.
— Vou avisar a Sofia.
— Não — interrompi. — Vem sozinha.
Silêncio do outro lado.
— Tony… — ela começou.
— Confia em mim dessa vez — pedi. — Só dessa vez.
Desliguei antes que ela respondesse.
A estrada seguia vazia, iluminada demais para ser segura. Pensei no pai delas. Pensei em tudo que eu não fiz. Pensei no erro antigo que eu estava tentando corrigir tarde demais.
Algumas histórias não acabam quando a gente desiste.
Elas só escolhem outra geração para continuar.
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