Diana

— Vai aonde? — Sofia perguntou do sofá, fingindo concentração no livro aberto sobre o colo.

Eu já estava com a mão na maçaneta. O casaco pendia torto no ombro, denúncia clara de que eu pretendia sair rápido demais para parecer casual.

— Encontrar o Tony — respondi, seca. Não fazia sentido mentir para ela. Nunca fez.

— E eu não vou? — Ela perguntou sem levantar os olhos da página. A pergunta vinha com resposta embutida.

— Ele quer me encontrar sozinha.

Sofia fechou o livro devagar. Não com raiva. Com cálculo.

— Ele vai tentar te convencer a largar isso, não vai?

— Também — dei de ombros. — Mas acho que ele conseguiu alguma coisa. Informação de verdade.

Ela ficou em silêncio por alguns segundos, me observando como quem mede a distância até uma porta de emergência.

— Me passa o endereço — disse por fim. — Se você não chegar em duas horas, eu vou atrás de você.

Peguei o papel com o endereço do hotel e anotei de novo, só para garantir. Entreguei a ela.

— Cuidado para não sair com pulgas dessa espelunca — ela comentou, lendo.

— Acho que meu humor sarcástico está te contaminando — respondi, balançando a cabeça.

— Cuidado — ela disse, agora me encarando. — Não com o Tony. Com o que ele sabe.

— Eu sempre tenho.

Saí antes que ela pudesse dizer mais alguma coisa. Algumas conversas não pedem continuação. Pedem distância.


Dirigi por quase trinta minutos até chegar ao hotel. Ele surgia à margem da rodovia como um erro antigo que ninguém se deu ao trabalho de corrigir: concreto gasto, letreiro piscando com duas letras mortas e um estacionamento grande demais para o número de carros.

Estacionei longe da entrada. Apaguei os faróis antes de desligar o motor. Observei por alguns segundos. Um caminhoneiro fumando. Um casal discutindo baixo perto da recepção. Ninguém interessado em mim. Perfeito.

Entrei.

O cheiro era de desinfetante barato tentando esconder mofo velho. A recepcionista não levantou os olhos. Subi pela escada. Elevadores deixam registros. Degraus não.

O quarto ficava no fim do corredor. Luz acesa por baixo da porta. Bati uma vez.

Tony abriu só o suficiente para me enxergar. O olhar passou por mim rápido, profissional, antigo. Quando se convenceu de que eu estava sozinha, abriu mais.

— Entra.

O quarto era pequeno, funcional, triste. Cama de casal com colcha bege, uma mesa encostada na parede, uma cadeira desconfortável. Nenhum quadro. Nenhuma janela aberta. Ele tinha pedido um quarto interno. Menos ruído. Menos olhos.

— Você sempre escolhe lugares acolhedores — comentei, fechando a porta.

— Lugares acolhedores fazem perguntas — respondeu. — Senta.

Não sentei. Fiquei encostada na parede, braços cruzados.

— O que você descobriu?

Tony suspirou. Um suspiro pesado demais para alguém que fingia calma.

— O médico que vocês encontraram… — começou. — Ele não é só um carimbo obediente.

— Eu imaginei.

— Ele aparece em outros encaminhamentos. Outros nomes. Outras cidades. Sempre antes de alguém virar estatística.

Meu estômago apertou, mas não demonstrei.

— Ele trabalha para quem?

Tony me olhou por um segundo a mais do que o necessário.

— Para um intermediário — disse. — Empresa fantasma. Segurança privada no papel. Gestão de risco na propaganda. Limpeza de passivo na prática.

— Pessoas.

— Pessoas — confirmou. — Gente que custa mais viva do que morta.

Caminhou até a mesa, apoiou as mãos na superfície gasta.

— Diana… — a voz dele mudou. Não era a do investigador. Era a do homem cansado. — Eles sabem que você está chegando perto demais.

— Eu sei.

— Não. — Ele negou com a cabeça. — Eles sabem que a Sofia também está nisso.

Senti o impacto como um soco baixo. Invisível. Eficiente.

— Como?

— Um informante meu ouviu o nome dela hoje — disse. — Não completo. Não direto. Mas suficiente.

O quarto pareceu menor.

— Por isso você quis esse encontro — falei. — Não era só informação.

— Não — admitiu. — Era aviso.

— Você quer que eu pare.

— Eu quero que você sobreviva — respondeu. — E que ela também.

— Isso não é sobrevivência — retruquei. — É adiamento.

Tony fechou os olhos por um instante. Quando abriu, havia culpa ali. Antiga. Nunca resolvida.

— O pai de vocês tentou lutar sozinho — disse baixo. — Eu achei que ele estava exagerando. Achei que dava pra cansar o sistema até ele desistir. Ele não desistiu. Eu sim.

Não respondi.

— Eu não vou perder vocês duas também — completou.

— Então não fique no nosso caminho — falei. — Fica do nosso lado. Como sempre fez. Mesmo dizendo que não aprovava.

Ele sorriu de canto. Um sorriso curto. Triste.

— Vocês puxaram isso dele — disse. — Essa incapacidade de fingir que não estão vendo.

— E você puxou o quê? — perguntei.

— O cansaço — respondeu. — Mas não a covardia.

Silêncio.

— Duas horas — lembrei. — Se eu não voltar, a Sofia vem atrás de mim.

— Eu sei — ele disse. — E é por isso que você vai voltar.

Pegou um envelope da gaveta da mesa e me estendeu.

— Nomes. Datas. Um endereço que ainda não queimou.

Peguei.

— Obrigada, Tony.

— Não me agradece ainda — respondeu. — Isso aqui não resolve. Só acelera.

— Melhor.

Caminhei até a porta.

— Diana.

Virei.

— Se tiver que escolher… — ele começou.

— Eu não escolho — interrompi. — Você já devia saber disso.

Saí antes que ele dissesse qualquer outra coisa que soasse como despedida.

Saí do quarto sem olhar para trás. O corredor parecia mais longo agora, como se o prédio tivesse decidido esticar o espaço entre mim e qualquer coisa que pudesse ser chamada de escolha.

O ar da noite bateu no rosto quando atravessei o estacionamento. Frio. Úmido. Honesto. Entrei no carro e fiquei alguns segundos sem ligar o motor, mãos apoiadas no volante, sentindo o silêncio vibrar por dentro.

Sofia.

O nome veio sem esforço, sem defesa.

Ela sempre vinha assim, sem pedir licença.

Liguei o carro e peguei a rodovia. Os faróis riscavam o asfalto molhado em linhas contínuas, hipnóticas. Normalmente isso bastava para organizar meus pensamentos. Naquela noite, não.

Pela primeira vez desde que tudo começou, pensei em desistir.

Não do caso.

De mim nele.

Pensei em Sofia sentada no sofá, fingindo ler, fingindo calma. No jeito como ela anotou o endereço sem discutir. No aviso disfarçado de piada. No medo que ela escondia melhor do que eu jamais conseguiria admitir.

Ela não deveria estar nisso. Nunca deveria.

A ideia de largar tudo não veio como covardia. Veio como proteção. Como instinto antigo. Animal.

E então veio a lembrança.

O cemitério estava cinza naquele dia. Não chovia, mas o céu parecia pesado demais para permitir qualquer coisa além de silêncio. Eu era jovem demais para entender o que tinha acabado de perder e velha demais para fingir que não entendia nada.

Sofia segurava minha mão com força. Pequena demais para compreender a ausência. Grande o suficiente para sentir.

Meu pai estava ali. Ou o que restava dele para o mundo.

Lembrei do caixão descendo. Do som surdo da terra. Do cheiro. Do vazio imediato.

E do juramento.

Não foi em voz alta. Não teve testemunhas. Não teve palavras bonitas.

Foi simples.

Eu cuido dela.

Nada sobre justiça.

Nada sobre sistema.

Nada sobre certo ou errado.

Só ela.

O volante escorregou um pouco sob meus dedos. Apertei mais forte.

Desistir agora seria cumprir aquele juramento… ou quebrá-lo de vez.

Porque o mundo que matou nosso pai era o mesmo que agora esticava a mão para Sofia. O mesmo que sorria enquanto chamava isso de procedimento. De avaliação. De ajuste.

Se eu parasse, eles não parariam.

Encostei o carro em frente ao prédio. As luzes dos apartamentos estavam acesas. Vida comum. Jantares. Séries. Gente que ainda acreditava que o perigo vinha de fora.

Fiquei ali mais alguns segundos.

Respirei fundo.

Eu não tinha prometido ao meu pai que manteria Sofia longe do mundo.

Prometi que a protegeria dele.

Saí do carro.

E entrei em casa sabendo que, a partir dali, não era mais só um caso.

Era uma linha que eu não podia deixar ninguém cruzar.