Just Begun.
14 Capítulo 14
As imagens que constantemente perambulavam pela minha cabeça há alguns anos nos últimos dias estavam mais insistentes. Eu estava ciente de que esses pensamentos tortuosos não iam me deixar tão facilmente, porém não contava com uma volta tão repentina. E como se não fossem suficientes, essas falhas fragmentadas de lembranças estavam aliadas a minha recente “experiência” com Max. Definitivamente, essa não era uma situação muito agradável para se estar envolvida. As olheiras roxeadas nos meus olhos eram a prova física desse fato.
— Essa noite promete! — Ouvi a voz estridente de Laís preencher o cômodo enquanto ela saltitava animada e observava meus últimos retoques na maquiagem. Ela estava se referindo a noite do evento em que eu teria que servir de acompanhante — e falsa namorada de Thomas.
— Promete. Promete ser muito tediosa, principalmente porque Thomas não me dirige a palavra e o Max está incrivelmente grudento desde semana passada. — Afirmei indiferente aos seus gritinhos histéricos pelo quarto.
Laís apenas ignorou o meu mau humor como estava fazendo a semana toda e se retirou do quarto, me deixando sozinha com meus pensamentos sobre quão difícil seria passar a noite inteira com um Thomas indiferente e frio a qualquer tipo de conversa.
Mais tarde no evento, eu estava diante dos flashes disparados incessantemente em minha direção, e ao lado de Thomas que não me articulou uma palavra sequer desde que havíamos chegado ao local, nada de olhares fixos, conversa, nem qualquer outro tipo de interação. Ele apenas acompanhava meus gestos milimetricamente ensaiados, e ainda assim era seco. Eu estava a ponto de entrar em um estado de nervosismo, principalmente porque tinha que fingir uma simpatia que não me estava disponível naquele momento, sem contar os beijos fingidos em frente às câmeras. A sessão de fotos já durava 10 minutos contados precisamente por mim com a ajuda de Max, que disfarçadamente na pausa dos flashes me mandava uma piscadela e acenava com os dedos os minutos restantes. Com a contagem nos últimos segundos, ignorei tudo que pudesse ser extremamente exagerado a minha volta, e senti as luzes sobre nós se apagarem logo após a sessão de fotos. Então sem ser notada, caminhei para longe de Thomas e de todo aquele clima de funeral.
Thomas POV
A musica ensurdecedora adentrava meus ouvidos e juntamente com ela minha irritação aumentava. Carolina havia sumido desde que a sessão de fotos terminara sem dar mais explicações detalhadas a ninguém. Ela simplesmente desapareceu no meio de centenas de pessoas. Agora lá estava eu tentando raciocinar para imaginar para onde ela iria. O que não foi muito difícil de descobrir, levando-se em consideração o lugar em que estávamos. Era óbvio que Carolina procuraria seu refugio nas bebidas, e pelo pouco que eu a conhecia poderia dizer que ela não saberia como parar. Observei de canto de olho que Max também estava a procurando, porém eu sabia que ela não deixaria ser encontrada, principalmente pelo fato de que Max estava sendo insuportavelmente grudento na ultima semana. Ignorei as vozes em minha cabeça implorando por atenção, e segui até o bar mais próximo. Por alguma razão, algo me dizia que eu precisava impedi-la de cometer qualquer tipo de besteira que estivesse ao seu alcance.
(...)
Após alguns minutos de busca incessante tentando encontrar o bar correto daquele imenso lugar, consegui avisar uma silhueta distante. Longa, esbelta e desleixada. Carolina estava sentada na banqueta do balcão, observando atentamente as unhas de uma mão, e segurando um copo de Martini com a outra. De longe e disfarçadamente, comecei a analisar perfeitamente cada detalhe de seu corpo escultural, seu vestido era ligeiramente sensual, e seus pescoços estavam descobertos, em razão do seu coque alto. Suas pernas estavam cruzadas, dando perfeita visão para suas pernas delicadamente torneadas. Seus cotovelos estavam apoiados sobre o balcão, e seus seios estavam visíveis, juntamente com um detalhe lateral do seu vestido, que deixavam suas costelas a mostra. Também estava visivelmente bêbada, considerando seus movimentos corporais e a maneira como ela tentava flertar com o barman que por algum motivo apenas a ignorava. Talvez ele fosse gay.
Rindo de meus próprios pensamentos indevidos para aquele momento, me aproximei lentamente de Carolina e sentei ao seu lado, tentando não ser notado. Porém seus reflexos ainda estavam intactos, levando-se em consideração de que eu fui percebido rapidamente, e agora ela estava tentando recuar, falhando no experimento.
— Vamos lá, me conte sobre o que está te incomodando. — Falei alto de forma brevemente compreensível.
Segui seus movimentos com o olhar e percebi que ela não tinha a intenção de me responder. Carolina analisava cuidadosamente o copo de Martini em suas mãos, quase como se refletisse sobre aquele objeto se deveria ou não falar comigo. Acenei um gesto para o barman pedindo um drink para acompanha-la, e antes que eu pudesse voltar a encara-la, Carolina se pronunciou com uma resposta um pouco confusa demais para o meu compreendimento.
— Eu não aguento mais carregar um fardo como esse. Tudo o que eu ignoro durante o dia, está comigo a noite para me perturbar. — Ignorando as suas palavras, Carolina possuía um tom seco ao falar, quase como se não se importasse. Seus olhos ainda estavam fixos no copo da bebida a sua frente, e não piscavam nem ensaiavam qualquer tipo de movimento. Estavam imóveis, juntamente com seu corpo que continuava rígido.
— Talvez se você esquecesse. — Deixei as palavras escaparem por entre meus lábios enquanto entrava em uma briga com a minha mente sobre o fato de estar escutando palavras da mulher mais imoral que eu havia conhecido. Como em um golpe final, minha mente me deixou sem cartas na manga, sussurrando o que eu já estava cansado de saber. Você a quer. E logo após essa constatação repetida, eu ouvi o riso irônico e cético de Carolina ecoar.
— Não há como esquecer. — Agora ela estava calma, deixando de lado a gargalhada irônica. — Eu sei que vou levar comigo esse sentimento pra sempre, nunca vou poder sentir algo bom sem lembrar isso. — No momento ela analisava suas unhas minuciosamente, escolhendo as palavras para continuar o monólogo. — E agora é você. Me ignora, finge que eu não existo e eu idiota aqui estou me importando com isso. Eu que nunca liguei pra nada. — Logo após o questionamento, ela virou todo o conteúdo do copo que segurava em sua garganta e posteriormente direcionou seu olhar sobre o meu, me fazendo arrepiar como uma reação involuntária. — Por quê?
Tamborilando os dedos e sentindo a tensão tomar meu corpo a cada nova palavra que se formava, deixei que minha mente vagasse livre e expressasse tudo o que eu estava reprimindo. — A questão é que, querendo ou não, existe essa “atração” entre a gente.
— Como se eu já não soubesse. — Ela falou aparentemente frustrada e encurralada antes de bater com força sobre o balcão me fazendo assustar e pregar meus olhos sobre ela que estava fazendo uma tentativa falha de se levantar. Antes que ela pudesse cair e dar de cara com o chão, coloquei minha agilidade em cheque e a carreguei rapidamente sentindo suas reações imediatas virem na forma de socos, pontapés e gritos ensurdecedores. Apenas ignorei, paguei a conta e caminhei até a saída. Agradeci mentalmente pela ideia de ter vindo com meu carro. Senti que os gritos haviam se cessado, e ao colocar Carolina sobre o banco do passageiro percebi que ela havia pegado no sono.
(...)
Para a minha infelicidade total, Carolina despertou logo que chegamos, com um enjoo súbito. Felizmente, conseguiu controla-lo até chegarmos ao apartamento. Infelizmente, antes de chegarmos ao banheiro. Assim sendo, ela praticamente deixou um rastro de vomito por toda a casa, e obviamente a afortunada missão de limpar toda a sujeira sobrou para mim. A essa hora eu estava me perguntando onde eu estava com a cabeça quando resolvi ativar meu lado bonzinho e cuidar de uma bêbada. Isso foi até eu perceber que Carolina novamente havia perdido a consciência e estava totalmente suja, e que gritava por um banho. Antes de entrar em desespero como um completo imbecil, resolvi tentar convencer Laís a deixar a festa para cuidar de sua amiga. Não funcionou. Então analisei a cena a minha frente e percebi que só tinha duas opções naquele momento: Deixar Carolina totalmente suja e fingir que nada havia acontecido ou banha-la e fingir não reparar em seu corpo. Ambas pareceram extremamente difíceis, levando-se em consideração de que assim que o dia amanhecesse Carolina ia acordar furiosa. Contudo a segunda opção me pareceu mais razoável. Até o momento em que eu comecei a despi-la, e constatar que quem estava começando a ficar enjoado no cômodo era eu.
(...)
Os detalhes de renda da lingerie da mulher totalmente indefesa e frágil a minha frente conseguiram me atormentaram mais do que eu imaginei. Pensamentos repletos de luxuria invadiram minha mente de imediato, mas eu tinha total consciência de que as coisas não funcionariam daquele jeito. Eu sabia que Carolina em algum momento ia baixar a guarda, porém não daquela maneira. Tinha que conquista-la dia a dia, com lucidez o suficiente para não ser lembrado como o idiota que se aproveitou de um momento de fragilidade qualquer. Após repousar o corpo de Carolina na banheira, soltei seu cabelo do coque que ela mantia e assim o molhei com a água quente que delicadamente caia sobre seu corpo quase nu. Ela mantia a face serena e tranquila, e dormia como um anjo mesmo com a água descendo sobre seu corpo. Com cuidado, ensaboei o com sabonete e enxaguei logo em seguida. Quando percebi que sua pele estava começando a se enrugar, a retirei do banho e vesti Carolina com uma camisa minha e um casaco de moletom por cima, devido ao frio que fazia. Repousei seu corpo em um lado da cama e deitei sobre o outro, mantendo cuidadosamente a distancia necessária entre nossos corpos. Com o som da sua respiração lenta e aconchegante invadindo meu ouvido, adormeci.
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