Just Begun.
4 Capítulo 4
Notas iniciais
Acordei com o som de vozes dialogando em inglês na cozinha. A princípio até tentei identificar de quem eram, mas não conseguia me concentrar com aquela dor de cabeça insuportável. Portanto mudei o foco da minha atenção da conversa no outro cômodo e resolvi analisar a situação em que eu me encontrava: Estava com um cobertor sobre mim, que provavelmente Laís havia colocado enquanto eu estava dormindo, cabelos desgrenhados, saia amarrotada e em um estado completamente deprimente. Eu realmente havia me deixado levar pelo ocorrido de mais cedo. Entretanto resolvi que aquele fato não me incomodaria mais, eu precisava reagir. Levantei-me em um pulo e me encaminhei até a cozinha em passos lentos. Tentei me aproximar sem fazer barulho para ver o que estava acontecendo, então vi Jay e Laís conversando animados, e logo presumi que ele apareceu para pedir macarrão novamente, e não me encontrou dessa vez, então acabou por conhecer minha amiga. Decidi não atrapalhar a conversa e subi para o meu quarto para dar um jeito na minha situação de mulher fracassada.
A noite passou lentamente à medida que eu me questionava sobre o meu futuro, já que agora eu possuía total convicção de que a minha chance de conquistar aquela vaga havia fracassado, juntamente com a minha paciência. Dúvidas perambulavam pela minha mente, ao mesmo tempo em que eu tentava decidir qual era a melhor maneira de recomeçar. A minha vida profissional sempre fora a mais importante para mim, e o mínimo de vestígio de fracasso, me perturbava. Definitivamente, eu estava perdida. O tempo passava tortuosamente devagar, e a cada batida do relógio da cozinha, eu me sentia mais angustiada. Até que por enfim recebi uma mensagem de Ricardo. Minha sentença de morte que indiretamente eu estava aguardando, pensei. Finalmente poderia confirmar a minha certeza que já estava muito clara para mim. E era óbvio que ele não poderia vir me fazer uma visita e me comunicar a terrível noticia pessoalmente. Ele tinha que me mandar uma mensagem, era menos doloroso, imaginei. Minutos se passaram enquanto eu percorria os olhos por toda a tela do celular, fitando com atenção, reunindo cada fração de coragem para finalmente abrir a mensagem. E mais uma vez, as minhas certezas estavam certas, mas o que eu não previa era o que viria a seguir.
“O que aconteceu hoje foi péssimo, mas receio que você possa contornar a situação. Recebi um telefonema do produtor de The Wanted que amou a sua entrevista e a sua troca de olhares com o Thomas e quer você para cuidar da publicidade da banda! Não me pergunte por que ele mencionou a sua “ligação” com Thomas. Porém, imagino que isso seria maravilhoso para o seu Currículo. Encontre-me daqui uma hora e meia na cafeteria do lado do hotel, vamos conversar sobre tudo isso com ele.”
Lendo isso, eu pude sentir uma explosão de energia renovada em meio ao cansaço que me dominava. Aquilo definitivamente poderia ser uma oportunidade. Porém, não deixava de ser uma proposta inquietante. Todavia, eu não podia negar que a proposta inquietante também era atraente. Mil perguntas sem respostas vagavam pela minha cabeça enquanto eu ainda tentava entender porque, realmente o produtor de The Wanted queria que eu cuidasse da publicidade da banda, porque eu? Eu não possuía certeza alguma sobre aquela proposta. Se aquele era o caminho que eu queria seguir, se eu realmente precisava tomar uma atitude tão drástica... No entanto, a partir do momento em que Thomas me colocara naquela situação mais cedo, eu havia ficado sem opções. E aquela era a única que poderia surgir para mim, e dessa vez, eu não podia deixar o orgulho falar mais alto, não podia. Logo, a opção que mais me parecia cabível naquele momento, era verificar com os meus próprios olhos o que me aguardava. Decidi que se tivesse que ser assim, assim seria. Fugir de desafios definitivamente não era o meu estilo, e essa não seria a primeira vez.
Tomei banho e vesti um look casual: Calça, regata, uma jaqueta azul royal e sapatilhas. Logo que saí do banho, notei Laís não estava em casa. Porém, resolvi não me preocupar, porque com certeza ela estaria se divertindo, lembrando de como ela estava à vontade com Jay mais cedo. Laís também não fazia o tipo de sair sem avisar, a menos que houvesse um motivo muito bom para isso. Resolvi não atazanar a vida da minha amiga, que ao contrario da minha, eu imagina que estaria se encaminhando.
Quando finalmente estava terminando de me arrumar, a campainha tocou insistentemente. Aquela campainha definitivamente era infernal. Espiei pelo olho mágico e por algum motivo, eu não me surpreendi com a minha visita repentina. Thomas fitava apreensivo a porta enquanto batia suas mãos impacientemente nas pernas. Parecia nervoso.
Pensei em ignorar, dar um tempo para ele desistir, porém, a curiosidade não me deixou seguir com o meu plano. Mesmo que contrariada pela minha parte racional, resolvi atende-lo.
Thomas parecia surpreso com a minha atitude. Aparentemente, ele não estava muito a vontade a minha frente. Parecia estar ali por algum tipo de obrigação indefinida. Resolvi ser prática e rápida para não perder mais tempo.
– O que você quer? – O questionei enquanto observava cada gesto de seu corpo. Os sinais que ele emanava, resumiam claramente que Thomas estava muito desconfortável por estar ali. Provavelmente ferindo o seu orgulho estúpido e inquebrável. Só não conseguia entender o porquê dele se importar tanto. Porém, nem me deixei aprofundar nesse pensamento. Eu realmente estava atrasada.
Thomas pareceu notar toda a minha observação e finalmente resolveu falar.
– Vim para me desculpar, sinceramente. – Ele suspirou monotonamente e pareceu tentar encontrar forças para continuar a falar. — Não queria interferir na sua vida profissional. Passei a tarde inteira pensando na possibilidade de ter te atrapalhado, e eu realmente não queria que isso acontecesse. Estou aqui, enfrentando o meu orgulho pra te pedir desculpas, espero que você entenda que isso é raro. — Thomas falou dessa vez, transparecendo angustia. Ele perambulava os olhos pelo cômodo impacientemente. Observei que nós estávamos há alguns três passos de distância. Apenas três passos de distância.
– É, como você disse... Prazer não se mistura a vida profissional. Se você não fosse tão estúpido, poderia se misturar a nossa vida pessoal. – Murmurei provocando, enquanto encarava os seus olhos, que em um instante mudaram sua expressão de angustia para escárnio. Não sabia o que estava fazendo, mas aquilo poderia ser divertido. Com a plena consciência que seria apenas provocação.
Sem piscar após pronunciar aquelas palavras, e sem me dar tempo para digerir as mesmas que acidentalmente saíram de minha boca, já conseguia sentir que aqueles três passos de distâncias ficaram para trás quando Thomas entrou rapidamente no apartamento. Se aproximando tanto que eu conseguia sentir claramente o cheiro que o perfume dele emanava pelo cômodo. E por mais inegável que aquilo parecia ser, era o melhor perfume que eu já tinha inalado.
– Ainda podemos. – Falou e logo em seguida, em uma questão de segundos, pegou-me pela cintura e me beijou. Tão rapidamente que eu não havia tido tempo para pensar no que estava acontecendo. Seu beijo era voraz e podia ser facilmente descrito como violento, levanto em conta o quão desesperado seu corpo estava, enquanto ele insistia em pressionar meu corpo ainda mais contra a parede, nos juntando ainda mais, o que aumentava a tensão daquele momento. Quanto mais próximos, mais envolvidos. E então, em um choque de realidade eu pude definir o que eu estava fazendo. Aquilo não poderia ser certo.
Aquele beijo havia me deixado sem fôlego, mas eu tinha que me manter no controle. Acima de tudo eu tinha que manter a calma e jurar para todas as partes do meu corpo que ele não me atraía, eu tinha que deixar meu lado racional falar, mesmo não tendo certeza daquela meia verdade que eu tentava gravar em minha mente.
– Sabe, você tem uma boca que parece muito receptiva para mim. Ela é a personificação do desejo que você claramente está sentindo nesse momento. – Thomas disse separando nossos lábios lentamente. E então sem quebrar o contato visual, me pressionou ainda mais contra a parede, puxando minhas pernas em torno de seu quadril, dando fim ao pouco de espaço que nos restava. Estávamos próximos demais, e encaixados demais.
Oh, oh. Aquilo, com toda certeza poderia ser divertido.
– E você... – Disse sussurrando, enquanto arranhava suas costas e mordia o lóbulo de sua orelha, lentamente escutando sua respiração ofegante pelo meu pescoço. – Não me interessa. – Dessa vez aumentei o tom de minha voz, confirmando o fato que nem eu mesma acreditava. Era óbvio que aquele momento possuía muita tensão sexual. Só que necessariamente, essa tensão não poderia ficar explicita. Não havia necessidade de inflamar ainda mais egos alheios aos meus. Os olhos de Thomas estavam fixados em mim, como se solicitassem silenciosamente um alvará para continuar. Uma autorização que eu poderia facilmente conceder, se não houvesse motivos mais razoáveis para serem analisados. E então, com presteza o empurrei espalmando minhas mãos contra seu abdômen, dando fim aquela aproximação torturante, ao mesmo tempo em que firmava meus pés no chão.
Senti seus olhares confusos se direcionarem a mim, indecifráveis. No momento seu corpo se encontrava ofegante e desnorteado, sua respiração estava descompassada e seu peito subia e descia em uma velocidade imensurável. E eu acidentalmente não pude deixar de reparar esse detalhe. Detalhe muito definido, acrescentei mentalmente. Droga. Repeti para eu mesma diversas vezes, aquele pensamento não poderia me invadir em momentos cruciais como aquele. Após toda a tensão do momento, podia jurar que havia visto ódio naquele olhar. Aborrecimento. Talvez ele estivesse pensando que era capaz de me dominar tão facilmente, talvez ele estivesse mais uma vez sustentando aquele ego. Uma pena ter que evidenciar mais uma vez, a ele, que eu não fazia o tipo de mulher com que ele estava acostumado a lidar. Muito pelo contrario, egos inflados só me ocasionavam repugna.
– Qual o seu problema? Olha o estado em que você me deixou. – Thomas disse, e logo em seguida apontou seus dedos a sua calça, mostrando seu membro enrijecido.
Gargalhei ao observar aquela situação. Não havíamos nem chegado ao ponto em que eu considerava excitante e ele já estava envolvido assim. Refleti acerca daquele fato como algo que poderia ser facilmente consagrado ao meu favor, futuramente... Conclui antes de despertar da minha reflexão.
– Problema seu. – Disse abrindo a porta. – Agora você poderia, por favor, sair do meu apartamento? Eu tenho um compromisso e não quero me atrasar. – Disse o guiando pelas mãos para fora do apartamento, enquanto escutava ele praguejar palavrões até a minha décima geração. Simplesmente ignorei-o e me encaminhei até o quarto para terminar de me aprontar.
Cheguei à cafeteria um pouco atrasada, porém ninguém se importou e notou o meu atraso, visto que Ricardo e o empresário conversavam entusiasmados. Sentei-me enquanto observava os olhares do desconhecido fixados em mim.
– Então... Carolina, certo? – Perguntou o produtor, logo após as devidas apresentações. Ele se chamava Martin.
– Isso. – Falei enquanto me ajeitava na cadeira confortavelmente, Ricardo apenas observava a situação enquanto parecia emanar vibrações positivas a mim.
– O meu pensamento de negocio para você é bem amplo. Você pode trabalhar nos ajudando na publicidade dos meninos, e... – Martin fez uma pausa para analisar meu rosto. – Não sei se você vai compreender a principio, mas eu creio que está faltando uma imagem feminina para a banda. Eu realmente gostaria que você, além de nós ajudarmos profissionalmente, atribuísse uma ligação mais intima com Thomas. Eu presumo que isso seria de suma importância para a publicidade da banda, um relacionamento.
Ok, aquilo definitivamente não estava nos meus planos. Conviver com ele dia-a-dia, possivelmente seria complicado. Ter uma relação ainda mais intima com Thomas, seria embaraçoso. Estudei cuidadosamente o rosto de Ricardo enquanto ele balançava sua cabeça positivamente para mim. E então direcionei meus olhares novamente a Martin.
– Isso realmente é necessário? Como você pode ter observado hoje mais cedo, nós não nos demos muito bem. – Disse com um tom de voz perceptivelmente cuidadoso. Eu sabia que qualquer palavra dita poderia ser crucial.
Martin suspirou seriamente enquanto parecia reunir as palavras necessárias para elaborar uma resposta. E então ele formulou:
– Realmente é necessário. Eu verdadeiramente quero que você faça um par com Thomas. Eu sei que isso pode ser um grande desafio para você, levando em conta a desordem que se estabeleceu entre vocês hoje à tarde, ele acabou te prejudicando, e eu entendo isso. Porém, é inegável o fato de que um emprego como esse no seu Curriculo, acrescentaria e muito a sua vida profissional. Leve em conta esse feito, e deixe seu orgulho de lado, tenho certeza que será satisfatório. E esse relacionamento irá existir apenas frente à mídia, eu prometo.
– Ok, eu posso pensar a respeito disso? Eu não quero tomar nenhuma decisão precipitada. – Suspirei confusa e desnorteada analisando cuidadosamente as palavras que eu proferia.
– É claro! Olha, ficaremos no Brasil por três semanas. Temos mais duas aqui, e mais uma semana de shows pelo país até voltarmos para o ultimo show aqui no Rio, creio que esse tempo será o suficiente para você tomar uma decisão. – Martin falou entusiasmado, finalizando a conversa e voltando se mais uma vez para Ricardo, retomando o burburinho do dialogo casual que ali se estabelecia.
Voltando ao meu apartamento percebi que Laís ainda não havia chegado. Ótimo. Estava feliz por ela estar morando comigo temporariamente, mas eu ainda não consegui ter um minuto de conversa calma com ela. Levando em conta que o único diálogo que estabelecemos ocorreu enquanto eu estava terrivelmente nervosa... O fato de a minha barriga estar roncando insistentemente também colaborou para eu desejar que Laís estivesse presente para me fazer uma refeição completa que não fosse miojo. Então, enquanto preparava alguma coisa para comer uma interrogação não dimanava da minha cabeça: Será que Thomas sabia daquela proposta? Considerando o fato de que isso seria consideravelmente bom para a publicidade da banda, imaginei que sim. Mas mesmo depois de responder a todos os questionamentos, eu não conseguia deixar de pensar no fato. Para a minha infelicidade, eu teria que perguntar pessoalmente, mesmo que isso ferisse o meu orgulho.
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