João e Maria: Porque Eram Amigos
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Notas iniciais
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João e Maria, eram, acima de tudo, amigos. E isso bastava, pelo menos era o que dava a entender.
Maria era meiga, simpática, fofa, extrovertida e o cúmulo de pessoa boa em vários aspectos. João também era um doce de pessoa, mas, apenas aqueles que foram capazes de ficar próximos a ele sabiam disso, pois o mal do rapaz era a insegurança e timidez, visto que ele sempre tivera dificuldades em se relacionar entre as pessoas. E Maria, uma pequena e curiosa garota, fora se aproximando daquele garotinho estranho e que sempre sentava no canto da parede da sala de aula, sem amigos e sem abrir o bico uma vez sequer na aula. E hoje, aos dezesseis anos de idade, eles são melhores amigos.
Ou eram.
João sempre odiou ser rotulado de algo na presença das pessoas, desde os mais simples como “filho” a coisas mais desagradáveis como “geek”. E, ser um “melhor amigo” enquanto queria ser algo a mais ― bem a mais mesmo ― de Maria não era seu objetivo no momento. Ser o melhor amigo de Maria parecia uma ofensa ao seu coração e aos seus sentimentos reprimidos.
Houve um dia muito amargo para a vida do jovem João. Ele nunca fora capaz de esquecer-se daquela dia, pois ele se repetia sempre na sua cabeça quando via a jovem Maria.
― Mas ué, o João é gay, né Maria?
Foi quando fora chamado de gay na frente e por causa dela: Maria. Sabia que não fora dela que havia começado esse boato, mas sabia também que tinha sido por causa dela, já que eram tão próximos. Mas o que doera mais para ele não fora a pergunta que fizeram a Maria, mas sim sua resposta.
― Não sei... Você é, João?
João e Maria eram, acima de tudo, amigos. E isso bastava, pelo menos para Maria, não era? Era o que parecera ali.
E no momento em que João tentava processar o que ela queria dizer com aquilo, uma coisa que até aquele momento nunca tivera acontecido aconteceu. Seu sangue ferveu e parecia ter subido todo a sua cabeça.
“Como assim?” e “Por quê?” foram as duas perguntas que vieram em sua mente. Como assim ela perguntou isso? Ela não sabia que ele gostava de mulher? E porque ela o fizera sofrer aquele ridículo na frente de todos? Sentira-se idiota pelo resto daquele dia por todos ali rirem dele. A vergonha também o dominava.
O boato daquela cena se espalhou como uma virose pelos corredores; grande parte do colégio já tinha ouvido falar de que João, o melhor amigo da Maria, era gay.
João, por incrível que parecesse, estava neutro quanto a isso, tão neutro quanto água, e tão frio como um cubo de gelo também.
Doera. Sem sombras de duvidas, doera dentro de seu peito saber que sua única amiga, a única com quem ele compartilhara coisas que nunca tivera dividido com ninguém ― nem com a sua terapeuta ― tivera uma reação daquelas; de dúvida sobre sua sexualidade.
A culpa era dele. Se talvez tivesse esclarecido as coisas quando podia nada disso teria acontecido. Mas havia um porém, um pequeno e curto porém naquela história de esclarecer sentimentos. Se esclarecesse demais, se falasse que era completamente apaixonado por sua melhor e única amiga, talvez ele fosse nomeado de nojento por gostar da amiga de um jeito mais íntimo. E isso era inadmissível.
Com um tempo tudo esfriou; o boato, ele (por completo desta vez), a amizade... Tudo. Ele havia virado outra pessoa depois daquele episódio, essa qual que ele havia libertado dele quando Maria ofereceu-se para ser sua parceira na aula no laboratório de química.
Aquele garoto um tanto magricela e que usava um óculos-não-fundo-de-garrafa ― graças a Maria ― estava tentando evitar tanto o assunto Maria quanto a própria desde a cena na quadra de esportes da escola.
Cabulava todas as aulas, pois a possibilidade de ter trabalhos a se fazer sozinho ― já que se recusaria ter que fazer com ela ― era torturante enquanto pudesse ver Maria fazendo em conjunto. A biblioteca fora uma grande amiga, assim como Ed, o bibliotecário da escola.
Mas o que se tornara mais torturante ainda, era viver com aquele sentimento, com a culpa ― que mesmo assim vivia nele ― de nunca ter falado nada. Mas, era melhor assim, não era? A verdade é que ele não sabia mais.
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