Notas iniciais
João
Havia se passado algumas semanas daquele ocorrido ridículo na quadra de esportes da escola. Se eu ainda me escondia das pessoas por causa disso? Bom, eu preciso responder? Pois bem, prosseguirei.
Caminhava eu tranquilamente tentando não lembrar de Maria, porque tudo que eu fazia ou ouvia me fazia lembrar dela. Ainda não queria ser visto por ninguém, por isso eu usava um casaco na cor cinza e uma toca, escondendo o máximo que eu podia de mim mesmo. E, por mais que Maria não quisesse sair da minha mente, ela teria que sair; ou por bem ou por mal (mesmo que eu soubesse que isso fosse quase impossível, para não dizer totalmente impossível).
Após aquele maldito dia eu fiquei o primeiro final de semana deprimido em casa e tentava ao máximo não ter contato nenhum em lugar algum com pessoa nenhuma (agora eu realmente tenho pena das vezes que minha mãe bateu na porta do meu quarto). Na semana eu acabava matando muitas aulas do meu horário por vergonha do acontecido e com um certo nojo (talvez seja uma expressão errada nesse momento) da cara de Maria (minha ex-melhor amiga?).
Maria havia, literalmente, perdido o contato comigo depois daquilo. Mas eu não entendia o porquê que ela se afastou bruscamente de mim, já que ela sabia muito bem onde eu morava e me tinha adicionado em todas as redes sociais (embora eu não estivesse online em nenhuma desde aquele dia, pois eu havia desativado tudo), fora o número do telefone da minha casa, o meu, o da minha mãe e até o da minha terapeuta que ela tinha também (apesar que esta última estivesse de férias no momento).
Imaginei, e ainda imagino, que agora ela tivesse vergonha de mim ou de ter um amigo gay, como a maioria das pessoas comentavam pelos corredores. Mas já faz tanto tempo... Talvez fosse isso mesmo.
Tentei me cortar diversas vezes quando eu me encontrava sozinho em casa, mas não consegui resultado nesse tempo tempestuoso em minha mente. Na hora me dava ânsia de vômito ou me dava uma crise horrorosa de choro. Sabe, muitas coisas bizarras vêm em nossa mente quando estamos tristes, deprimidos e/ou sozinhos. Minha terapeuta diz pra eu nunca ficar sozinho para não fazer nada que eu não quisesse fazer por uma vontade momentânea. E eu tinha Maria. Mas agora sem ela por perto eu estava praticamente sozinho.
Uma vez, antes de Maria ser a minha amiga (no começo, quando dividimos nosso primeiro telescópio), eu queria me matar, mas sabia que não iria tão longe, pois, de certa forma, eu tinha medo de morrer e perder o contato com as pessoas que eu gosto (fora as perguntas sombrosas que ficavam em minha mente: pra onde eu vou depois disso?). Mas sei lá... Eu ainda gosto de alguém (fora Maria)? Mais alguém gosta de mim a ponto de se importar de verdade comigo? Sim, minha mãe. Só ela, pelo visto. Eu evitava Maria e parecia que ela também me evitava. Minha terapeuta tirou férias. Ahhh, Glória, porque fizeste isso comigo, mulher?
Joguei minha mochila dentro do meu armário e vi (como não via há séculos) o meu horário escolar. A primeira e segunda aula eram de química. E química me lembrava a Maria, já que tinha sido numa aula de química que tivemos nosso primeiro contato. E embora Maria ainda estivesse na minha mente eu iria assistir a essa aula, e não seria uma vergonha realmente vergonhosa para alguém como eu que me faria matar mais aulas nesse bimestre, sem contar que sou um desastre nessa matéria (e, ainda bem que a aula não seria no laboratório, pois, graças a alguém ela estava interditada). E, de certa forma, queria que o dinheiro que minha mãe gasta comigo e a terapeuta valesse apena pelo menos nesse curto momento de coragem que subiu em mim nessa manhã, por isso peguei meu caderno e algumas apostilas e me direcionei para a sala de química. Só espero que não tenha nada para fazer em grupo, pois, não aguentaria (não mesmo) fazer algo com Maria e nem vê-la fazendo com outra pessoa a não ser eu mesmo. Eu sou egoísta por isso? Lembrando que tenho tratamento psicológico, o que me leva a ser uma pessoa “especial” também!
Cheguei na sala, e, por incrível que parecesse, não tinha ninguém dentro da sala. Tinha apenas os diversos lugares na sala de aula que estavam aparentemente ocupados pelos materiais de seus donos. O pessoal que iria assistir àquela aula estavam do lado de fora da sala. Passar por eles foi fácil, pois estavam visivelmente ocupados observando a discussão de alguns caras para saber quem tinha o músculo do braço maior que o do outro. Se eu fosse do grupo deles, perderia feio para todos, e acho que até para as meninas também.
Não vi Maria por ali, e nem dentro da sala. Direcionei-me para o meu lugar depois de dar uma última olhada para fora da sala (é, por mais que fosse ensino médio e se tratasse do segundo ano do ensino médio, naquela escola existia lugar fixo para cada aluno em cada aula) e olhei para a cadeira ao meu lado, a de Maria. As coisas dela estavam ali, o que indicava que ela veio e estava na escola.
Suas apostilas de química e inglês e um dos livros de Harry Potter que estava em cima dessas apostilas perderam minha atenção. Eu havia emprestado todos os livros da saga para ela um dia antes do acontecido na quadra de esportes, e ela trouxe um deles (acredito ser o da Pedra Filosofal) para a escola. Teria ela criado coragem de ver a escrotice (como ela mesmo dizia) de varinhas, gostado, e, terminado aquele livro? Ou ela era daquelas que emprestam para um outro amigo um livro que nem era seu? Será que eu não conhecia a Maria depois desses dias sem contato com ela?
Desviei meu olhar que estava num ponto fixo no quadro da parede para minhas mãos grandes e brancas (na verdade estavam um tanto rosa, pelo fato de eu ser muito branco e pelo frio que fazia ali dentro com aquele ar ligado) e fiquei parado naquilo por muito tempo. E quando achei que havia chegado muito cedo para aquela aula, meu relógio de pulso + meu celular + relógio na parede da sala me diziam que eu estava na hora certa e que o professor havia se atrasado, e muito. Talvez Mário estivesse preso no trânsito, ou, ele simplesmente faltou por algum motivo forte.
Olhei pela janela de vidro que era bem ao meu lado (pela minha cadeira ser do lado da parede) e vi Maria do outro lado do vidro, sorrindo com algumas pessoas. Era um sorriso bonito de se ver. Todos os dentes alinhados e brancos. Os lábios em um tom rosinha sem batom algum indicavam que ela estava quentinha (estava usando uma jaqueta jeans, aliás).
Aquela era Maria, de cabelos ruivos e olhos cor de mel. Baixinha, mas nem tanto (só alguns centímetros menor que eu). Usava uma calça comum jeans (daquelas que ela sempre usava mesmo) e a blusa do colégio um pouco maior do que ela (podia-se ver que estava maior que a jaqueta que estava usando por cima), e uma jaqueta comum jeans, que as mangas estavam dobradas até o cotovelo. O cabelo era amarrado num rabo de cavalo estilo Ariana Grande e nenhum pingo de maquiagem no seu rosto. Simples, porém bonita. E foi reparando nela por aquela janela que notei que fazia muito tempo que não a via, e era estranho vê-la novamente depois de tudo que aconteceu e de tudo que ainda penso sobre ela.
Quando percebi que estava olhando demais pra ela já era tarde demais. Ela havia notado meu olhar e olhado para mim, parando de sorrir e de dar um pouco de atenção para as duas pessoas com quem falava; parecia espantada, em choque, ou como se tivesse visto um fantasma (não a culpo por isso, ser branco demais causa isso nas pessoas que me veem de vez em quando). Mas não virei o rosto nem nada, permaneci meu rosto naquela mesma direção, mas desfoquei seu rosto, e depois ela por completo, de minha visão, parecendo ver algo que existisse atrás dela. Ela olhou para trás, para saber o que eu olhava, mas não tinha exatamente nada. Quando notei que o pessoal que estava com ela tentava entender Maria, fiz-me que iria abrir o caderno e fingi que anotava algo (caso desse pra eles verem de onde estavam quem era que Maria tanto olhava), colocando um lápis logo atrás de minha orelha e olhar para o teto. Arrumei o óculos na minha face e vidrei meus olhos para a tela do meu celular em seguida, ligando e desligando o visor algumas vezes.
Às vezes eu me pegava pensando no motivo do porquê eu ainda não tinha aberto meu coração para ela, e esse era um dos momentos. Seria fácil ela me dar um fora e eu me machucar, mas, viveríamos felizes, pois éramos amigos além de tudo, não éramos? Gostaria de acreditar que ainda fossemos, mas as circunstancias não são nada favoráveis agora como não eram antes também (distintas, porém nada adequadas). E não é tão difícil assumir isso agora depois da desgraça feita semanas atrás, só é inútil mesmo eu tentar agora que estamos tão distantes.
A verdade é que eu sou um tremendo idiota egoísta, que acabou nutrindo um sentimento mais idiota que eu, por uma amiga. E o pior de tudo era: ela era a única amiga que eu tinha
Retirei da orelha o lápis e comecei a rabiscar a cadeira onde eu me sentava. Nem notei, mas eu desenhava seus olhos fechados com um sorriso pequeno (mas adorável e bonito mesmo assim) no rosto. Eu ainda gostava dela, admito. E o triste era saber que nem amigos nós éramos mais. Tudo por minha causa, e dela também; não iria assumir toda a culpa assim sozinho.
Adormeci sem perceber, quando abaixei meu rosto para tentar sentir com a minha bochecha o frio que derivava do seu rosto fictício feito por mim em minha cadeira.
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