Notas iniciais
Mil perdões pela demora! Se alguém ainda estiver acompanhando, por favor, deem um sinal de vida!

Talvez Bonnie estivesse um pouco arrumada demais para alguém que iria jogar boliche. Mas, se tratando do primeiro encontro, todo esforço valia a pena e todo esforço era pouco. Alguém deve ter dito isso em algum lugar, senão fica registrado agora.

Bonnie e Jake combinaram de se encontrar no boliche às 19h30. Ela havia chegado educadamente às 20h01, porém Jake ainda não havia chegado. Estava tudo bem, ela mesma havia se atrasado, por isso nem poderia ficar chateada.

Às 20h15 Bonnie pegou o celular e telefonou para Jake. A ligação caiu direito na caixa postal, ela então resolveu deixar uma mensagem.

– Oi, eu estou aqui, cadê você? Me liga quando chegar, tchau.

Às 20h45 ela estava tão sozinha quanto antes. Para passar o tempo, comprou um milk-shake de morango e uma porção de batas fritas.

Quando um garoto de cabelos escuros entrou no boliche, de cabeça baixa, Bonnie voltou a sorrir. Jake enfim havia chegado. Quando ele levantou a cabeça e ela viu que não era Jake, Bonnie fechou a cara de novo.

Às 21h10 Bonnie resolveu deixar outra mensagem.

– Jake, sou eu, Bonnie. Não sei se você se lembra, mas ficamos de nos encontramos no boliche há uma hora. Enfim, eu ainda estou aqui, não sei por que, mas estou. Certo, tchau.

Às 21h50, até para uma garota confiante como Bonnie, era ridículo continuar se enganando. Jake não viria, ele havia dado o bolo nela. A pior parte era que, no fundo, ela achava que ele era mesmo diferente dos outros garotos.

Aceitando a derrota, Bonnie se levantou da cadeira onde estava sentada há quase duas horas e foi embora. Ela não se importou em deixar algumas lágrimas rolarem pelo rosto, no caminho até o estacionamento.

Os poderes de uma bruxa estão sempre conectados às emoções que ela está sentindo. Por exemplo, assim que Bonnie chegou ao estacionamento, ela se lembrou do belo sorriso de Jake. Esse tipo de lembrança normalmente alegrava o dia dela, mas não naquela noite, a lembrança do sorriso de Jake desencadeou sentimentos negativos. Por causa disso, Bonnie acabou arrancando um hidrante do lugar. Não foi totalmente culpa dela, ela ainda estava aprendendo a controlar as emoções.

Bonnie deu no pé, como se fosse uma ladra de banco. Enquanto isso, a água que jorrava do buraco do hidrante para todos os lados, encharcava a rua.

E isso não foi tudo. Talvez ela também tenha partido uma ou duas árvores ao meio, no caminho para casa, mas ninguém estava contando.

~

À noite, Ally desceu até a cozinha. A Sra. Wilson havia acabado de chegar do trabalho, ela estava atuando como enfermeira no hospital da cidade.

– O jantar está atrasado. Eu sei, é minha culpa, mas no caminho pra cá eu passei no supermercado e comprei lasanha. Que tal?

Ally não estava com fome. Pelo menos, não de comida.

– Mãe, eu acho que está na hora de termos a conversa que você vive adiando. Eu não insistiria, mas aconteceram coisas recentemente que...

– Ai meu Deus, o que aconteceu? – A Sra. Wilson deixou a lasanha congelada de lado. – Você se machucou? Alguém se feriu?

Ally ignorou as perguntas e o desespero da mãe.

– Eu posso fazer coisas. Coisas que a maioria das pessoas não pode fazer, a menos que sejam personagens de histórias em quadrinhos. Se eu me concentrar bastante, posso mover objetos com o poder do meu pensamento. O meu soco causa mais estragos do que o soco de um lutador profissional. Eu vejo coisas ocorrerem antes de acontecerem! – Ally era só emoção. – Recentemente eu descobri que posso atirar uma espécie de raio, tudo o que eu preciso fazer é levantar a mão. E, pra piorar, ontem eu encontrei outras quatro garotas com habilidades tão peculiares quanto as minhas. Uma delas me disse que eu sou uma bruxa, o que, claro, não tem nenhuma lógica, mas depois fez todo o sentido do mundo. É o que eu sou, não é? Eu sou uma bruxa. Eu sou uma bruxa e você sabia disso o tempo todo, não é mesmo?

Aquele momento se classificava como inevitável. A Sra. Wilson sabia que, mais cedo ou mais tarde, teria que começar a contar a verdade. O momento havia chegado.

– Sim, você é um bruxa. – A Sra. Wilson era cautelosa –. Mas, querida, eu nunca tive certeza. A verdade é que eu sempre desconfiei.

– Por quê? Por que você sempre desconfiou?

– Por causa da minha mãe, a sua avó também era uma bruxa. – A Sra. Wilson parou e em seguida enxugou uma lágrima, que se atreveu a descer. – Droga! Ela era uma das boas, se você quer saber.

– Então é por isso que você sempre a manteve afastada? Durante todos esses anos você me fez acreditar que a minha avó não me amava, que ela não se importava comigo! Por que, mãe? Por que você fez isso?

– Ally, você não entende. – A Sra. Wilson também era só emoção.

– Então explique – com o poder da telecinese, Ally puxou uma cadeira, para que a mãe se sentasse. – Nós temos todo o tempo do mundo.

Depois que a Sra. Wilson se sentou, Ally fez o mesmo.

– A sua avó viveu para ajudar os outros, ela era boa, devotada e justa. Magia pra ela era algo sério, por isso ela era tão admirada no mundo mágico. – Ally estava pasma. – Pois é, eu não sou bruxa, mas graças a minha mãe eu sei uma porção de coisas. Eu sei como é perigoso carregar esse tipo de dom dentro de si. Eu sei das responsabilidades, dos obstáculos e das coisas que você ainda enfrentará, querida. Você não tem noção do que ainda está por vir.

A Sra. Wilson fez uma pausa, depois continuou.

– Os seus poderes estão se manifestando. Eu já havia percebido isso há algum tempo, mas é só o começo.

– Por que você virou as costas para a vovó?

– Porque, diferente da minha mãe, eu não era corajosa, acho que até hoje eu não sou. – A Sra. Wilson parou e umedeceu os lábios secos. – Eu convivi com outros bruxos, pessoas boas e honestas, que faziam o bem; outras, nem tanto. Ally, quando eu me deparei com o lado negro da magia, eu fiquei assustada. Na verdade, eu fiquei apavorada, principalmente porque eu estava grávida. Eu não queria que você conhecesse a magia negra, eu não queria que você tivesse contato com nada daquilo. Por isso, assim que você nasceu eu cortei laços com a minha mãe e com o mundo da magia. Segui o meu próprio caminho, torcendo para que você nunca descobrisse a verdade.

– Por quê?

– Por causa do seu pai.

Ally sentiu como se alguém tivesse puxado o tapete debaixo dela. Talvez, naquele momento, um tiro teria doído menos.

– Meu pai é bruxo?

– Seu pai era bruxo.

– Eu não entendo.

– Existem dois tipos de bruxo: os bons, que lutam em nome da justiça, da ordem e do equilíbrio; e existem os bruxos maus, que são gananciosos, desordeiros, mesquinhos e vivem para acabar com o equilíbrio. Quando eu conheci seu pai, ele era apenas um aprendiz de bruxaria. Ele, assim como eu, não nasceu com o dom dentro de si, mas ele lutou e estudou para se tornar um bruxo. Além da sua avó, seu pai era o bruxo mais habilidoso que eu já havia conhecido. Acho que me apaixonei por ele instantaneamente.

– O que aconteceu?

– Seu pai tinha a pior fraqueza que um bruxo pode ter: ele era ganancioso por poder. Ele queria saber mais do que todos e ser mais forte do que qualquer bruxo do universo. E isso nunca é bom, pois não há lugar para esse tipo de bruxo no lado do bem. Seu pai se tornou uma ameaça não só para ele mesmo, mas para o mundo dos bruxos. Ele era temido por todos e, no fundo, eu acho que ele gostava disso.

– Seu pai cometeu o maior erro da vida dele quando tentou roubar o poder da deusa mãe dos quatro elementos: fogo, ar, terra e água. Foi a minha mãe quem o deteve em combate e, para se torná-la tão poderosa quanto ele, a deusa se transformou no quinto elemento: ela era o Éter, que significa Espírito. O seu pai lutou como o herói que um dia havia sido, mas ele perdeu. Perdeu o direito de ser bruxo e foi banido da dimensão mágica, para vagar sozinho pela terra sombria. Quando eu o vi pela última vez, você ainda não havia nascido. Por isso, eu decidi ir embora.

A Sra. Wilson temia que esse dia chegasse. Mas, agora que ela havia sido totalmente sincera, pela primeira vez, Ally merecia escutar toda a história.

– Caso você esteja se perguntando, o seu pai não desistiu, ele não era do tipo que desistia. – Era amargo dizer aquilo, mas ela continuou. – Anos depois, quando tudo estava calmo, ele retornou em busca de vingança. Até hoje ninguém consegue explicar como, mas seu pai estava mais poderoso do que antes, ele era a maldade em pessoa. Na época, todos o chamavam de Mestre das Sombras. Quando ele voltou, trouxe consigo aliados, bruxos da pior espécie, demônios e criaturas das sombras. Foi uma verdadeira guerra, onde milhares de inocentes morreram, foi o maior derramamento de sangue na história do mundo da magia. Mas, graças a sua avó e outras quatro mulheres, seu pai e os aliados dele foram derrotados. Ele foi morto para que não continuasse matando. E, para se certificarem de que ele nunca pudesse voltar, a sua avó, que era o quinto, e os outros quatro elementos aprisionaram o corpo dele dentro de um vulcão.

– Como ele se chamava?

– Lochlan Seamus. – Ally estava vendo como era difícil para a mãe pronunciar o nome do pai dela em voz alta. Era a primeira vez em muitos anos que ela repetia o nome dele e, apesar do tempo, a lembrança do amor que foi embora ainda doía.

– Ele nunca voltou a procurar você?

– E nem poderia. Quando Lochlan retornou, fizeram-no acreditar que você e eu tínhamos sido mortas em um incêndio.

Ally não era uma garota incompreensível. Ouvindo a mãe naquele momento, conseguia imaginar tudo o que ela havia enfrentado. A Sra. Wilson sempre prezou pela segurança da filha, ela moveria céus e terras se isso deixasse Ally mais segura.

Carinhosamente, Ally segurou a mão da mãe.

– Obrigada por finalmente ter me contado a verdade.

– Eu sinto muito que você não tenha conhecido a sua avó, foi minha culpa. – A Sra. Wilson estava sendo sincera. – Eu sei que vocês duas teriam se dado muito bem e provavelmente já teriam me enlouquecido.

Ally sorriu, mas teve uma coisa que ela não revelou. Mesmo não tendo conhecido a avó, ela conseguia sentir a presença dela na casa. Ally sabia que, mesmo depois de morta, a avó ainda estava protegendo o lugar. Ali, ela e a mãe estariam finalmente a salvo.

Quanta coisa Ally tinha descoberto em apenas um dia! Ela era bruxa, a avó foi uma também, e o pai foi um poderoso bruxo do mal. Em outro universo, eles seriam a família perfeita pra estrelar um reality show.

De volta ao quarto, Ally agarrou o Grimório da avó. Foi fácil associar uma coisa à outra: se a avó de Ally era uma bruxa, aquele livro só poderia ser um Grimório. Mas o fato de ele ainda estar em branco permanecia em completo mistério.

– Muito bem, vovó. Agora, o que eu preciso fazer?

As páginas do Grimório continuavam em branco.

Ally não conhecia nenhum feitiço, o pouco que ela havia feito até ali havia sido por puro instinto. Ela sequer sabia alguma palavra mágica que não soasse ridícula, tipo sim salabim.

Por um momento ela até cogitou ligar para uma das meninas e pedir ajuda. Talvez Marissa ou Bonnie soubessem a palavra “mágica”, mas ela estava muito envergonhada para pedir ajuda.

– Livro, releve o seu conteúdo – foi a primeira tentativa, mas nada aconteceu. – Por favor? – As páginas continuavam em branco.

– Revele-se – nada aconteceu.

– Argh — valia a pena outra tentativa. – Hocus Pocus — Era ridículo, Ally não sabia como fazer o Grimório revelar seus segredos... Então, algo aconteceu: primeiro eram apenas rabiscos, depois cada letra foi ganhando forma e se tornando mais nítida para leitura. Uma por uma, as páginas do Grimório estavam novamente cheias de feitiços, poções e rituais medievais.

– Hocus Pocus? — Ally olhou pra cima. – É sério, vó?

Ally pegou o Grimório e foi até a cama, onde se acomodou. Então ela começou a ler o conteúdo do livro que outrora pertencera à avó, mas que agora pertencia a ela.

~

De um lado da cidade, Ally colocava a leitura em dia. Do outro lado, Skylar, Regan e Bonnie se encontraram no gazebo atrás da casa de Marissa. Até Bonnie apareceu, mesmo com cara de enterro.

Skylar queria saber tudo sobre o encontro de Bonnie e Jake.

– Me conta como...

– Cala a boca. – Bonnie foi direta e dura.

– Foi assim tão...

– Cala a boca.

– Não está mais aqui quem falou. – Skylar e Regan se entreolharam.

– Vocês sabem por que Marissa nos chamou aqui? – Regan perguntou. – Eu estava em casa, assistindo à segunda temporada de The L Word. É melhor ser algo bom.

Skylar franziu a testa e encarou a amiga.

– Você, às vezes, é um estereótipo ambulante. Daqui a pouco você vai me dizer que seu maior sonho é dirigir um caminhão.

Em resposta, Regan exibiu o dedo do meio.

Bonnie estava tão estranha! Skylar nunca vira a amiga daquele jeito. Tristonha e calada não eram as características típicas de Bonnie.

– Me desculpem pelo atraso. – Marissa apareceu, trazendo consigo uma pilha de jornais. Ela jogou todos em cima da mesinha.

– Pra que isso? – Skylar pegou um jornal.

– Ashlee Turco desapareceu – não era exatamente uma novidade –, mas ela não foi a única adolescente que sumiu recentemente. Peguem um jornal e vejam vocês mesmas.

Regan pegou um e leu a notícia.

Um garoto chamado Corey Brennan, de 16 anos, desapareceu misteriosamente em Portsmouth, que ficava há 200 km de distância de Mystic Village. Só podia ser coincidência, jovens desapareciam o tempo todo.

Bonnie leu outra notícia.

Melissa Salling, de 17 anos, morava em Charlottesville, que ficava há 85 km de Mystic Village. Ela desapareceu na tarde de uma quarta-feira e foi vista pela última vez em uma sorveteria.

Skylar pegou o jornal da cidade de Manassas, que ficava há pouco mais de 20 km de Mystic Village. Regan até conhecia alguns garotos que moravam em Manassas.

Jacob Mays, de 16 anos, desapareceu após o treino de basquete. Um amigo dele deu um depoimento para a polícia e disse que Jacob foi se encontrar com um olheiro da universidade no dia em que desapareceu. A polícia nunca conseguiu descobrir a identidade do tal olheiro.

Marissa estava lendo a notícia do desaparecimento de Amber Tobi, a garota de 16 anos que desapareceu de Colonial Heights, cidade que ficava há pouco mais de 17 km de onde ela e as amigas estavam naquele exato momento.

E eles não eram os únicos. No período de um mês, cerca de vinte e dois adolescentes com idades entre 15, 16 e 17 anos haviam desaparecido misteriosamente, sem deixar rastros.

Nada daquilo era coincidência. Até um tolo conseguia perceber e as meninas já haviam entendido onde Marissa queria chegar.

– Quem você acha que fez isso? – Bonnie perguntou. – Demônio? Alguma seita agindo escondida?

– Isso não me parece trabalho de uma seita. – Marissa analisou a expressão das amigas e depois continuou. – Alguns desses garotos desapareceram em plena luz do dia. Pra mim, isso é coisa de demônio. Qual o palpite de vocês?

– Eu não sei – mentalmente, Skylar ponderou suas opções –, mas sei de um jeito que podemos descobrir.

– Como? – De repente, Regan estava interessada.

– Feitiço de localização. Ashlee Turco desapareceu há dois dias. Se tivermos alguma coisa que pertence a ela, então podemos fazer o feitiço de localização e encontrá-la mais rápido do que alguém consiga dizer atchim.

– Saúde... Foi mal. – Regan só estava tentando ser engraçada.

– Eu não tenho nada que seja de Ashlee – disse Bonnie.

– Nenhuma de nós tem. – Marissa respondeu por todas. – E por causa da polícia, não podemos ir até a casa dela. Por isso, se quisermos mesmo descobrir quem está por trás desses desaparecimentos, precisamos entrar na escola ainda esta noite, pegar alguma coisa dentro do armário de Ashlee e depois, bem, vocês sabem.

– Arrombar a escola? – Regan levantou uma sobrancelha. – É isso que você está sugerindo? Quem é você e o que você fez com a Marissa?

– Acredite, eu estou tão pasma quanto você.

– Vamos nessa. – Skylar concordou.

– Estou dentro. – Bonnie disse.

~

Entrar na escola foi fácil. Tudo o que Regan precisou fazer foi destrancar uma das janelas do primeiro andar, pelo lado de fora. Para outras pessoas essa seria uma tarefa difícil, mas era moleza para uma bruxa do calibre de Regan.

– Eu nunca pensei que fosse dizer isso, mas a escola consegue ser mais assustadora à noite do que pela manhã. – Bonnie comentou.

– Sério? Pois eu estou achando o clima acolhedor. – Skylar sorriu.

As meninas saíram da sala e foram para o corredor.

Do lado de fora da escola, alguém escolheu a noite errada para passear de carro. Finn estava voltando da casa de um amigo, com o carro da mãe, quando passou próximo à escola e viu a irmã e as amigas entrarem sorrateiras por uma janela. Naquela noite, Finn resolveu se meter nos assuntos da irmã.

Regan não tinha a menor ideia de qual era o armário de Ashlee Turco e, levando em consideração que havia mais de trezentos alunos matriculados em Mytic High, elas poderiam ficar ali durante toda a noite.

– Esse, trezentos e dezesseis, é o armário de Ashlee. – Skylar disse.

– Você tem certeza? – Marissa perguntou.

– Pode apostar todos os seus suéteres com estampa de gatinho que eu estou certa.

– Certo. Afastem-se, isso pode acabar em bagunça. – Regan fechou a mão direita e, quando voltou a abri-la, havia uma pequena bola de energia na palma da mão. Ela enfiou a bola na fechadura do armário e se afastou. Dois segundos depois, a trava explodiu e a porta se abriu.

– Ah, Sky. – Marissa pegou uma coisa dentro do armário. – Eu tenho quase certeza de que essa revista de mulher pelada e esse talco para os pés não pertencem a Ashlee.

– Opa, armário errado.

Skylar não estava completamente errada, o armário de Ashlee Turco era o quatrocentos e dezesseis. Regan explodiu a fechadura e, assim que as meninas viram o conteúdo do armário, tiveram certeza de que era mesmo o de Ashlee.

Ally pegou um lindo cachecol cor-de-rosa.

– Já temos o que precisamos, agora vamos dar o fora daqui.

As meninas escutaram um grunhido na sala ao lado. Em seguida escutaram um barulho similar a um latido, depois escutaram o grunhido de novo e de novo.

Regan empurrou a porta e todas as garotas arquearam de medo: dentro da sala da professora de Literatura estavam as criaturas mais grotescas que as meninas já haviam visto até aquele momento. Cães demoníacos, criaturas de olhos brancos, corpos dilacerados, dentes afiadíssimos feito facas e carne em estado de decomposição.

– Uma perguntinha – Skylar quebrou o silêncio. – Nós vamos correr agora ou antes disso eu posso vomitar?

As meninas correram antes de os cães demoníacos atacarem. As criaturas corriam, latiam e babavam, tudo ao mesmo tempo.

Regan parou de correr e se virou. Ela jogou duas bolas de fogo contra as criaturas, mas infelizmente não acertou nenhuma.

– Merda! – Regan voltou a correr.

Na metade do caminho as meninas se separaram. Bonnie subiu a escada até o segundo andar; Skylar correu na direção da piscina; Regan dobrou à esquerda; e Marissa correu na direção do refeitório.

No segundo andar, Bonnie entrou na sala do professor de Matemática, fechou a porta e se abaixou. Ela caminhou agachada até o final da sala, onde ficou encolhida em um canto. Depois tapou a própria boca, a fim de não gritar involuntariamente.

O cão demoníaco atravessou a pequena vidraça da porta e entrou na sala. Bonnie notou que a criatura só tinha uma orelha, mas isso não deixava o cão menos assustador.

Ela ficou em pé e atacou antes: jogou uma cadeira em cima do bicho e acertou-o em cheio. Mas não foi suficiente, logo o cão estava rosnando pra ela de novo.

Quando o cachorro correu para atacá-la, Bonnie conseguiu se concentrar o bastante e derrubou um armário em cima do cão. Metade do corpo do bicho estava descoberto, a outra metade fora esmagada pelo armário.

Skylar empurrou as portas do ginásio e entrou correndo, sem olhar para trás. A piscina estava há alguns centímetros de distância.

O cão demoníaco entrou logo atrás. Em seguida Skylar atacou com tudo, puxando a água da piscina. Ela atingiu a criatura com um jato d’água, fazendo-a se afastar.

Antes que o cachorro pudesse atacar de novo, Skylar chicoteou o bicho com a água. Mas, apesar disso, o cão demoníaco achou melhor atacá-la mais uma vez. Era da natureza daquela criatura atacar sempre que possível. Por isso, se Skylar não desse um fim naquilo, o cão sairia vitorioso.

Skylar se concentrou e olhou nos olhos sem vida da criatura. O bicho então correu e pulou em cima dela. A água cortou o pescoço do cão demoníaco sem nenhuma dificuldade. A cabeça do bicho caiu dentro da piscina e o corpo em decomposição caiu ao lado dos pés de Skylar, sujando os sapatos dela com sangue.

– Merda! Eu ainda estou pagando por eles.

Regan entrou no banheiro dos meninos. Naquele momento, ela não sabia o que era pior: o cão demoníaco furioso atrás dela ou o fato de ela estar no banheiro dos meninos.

O bicho entrou no banheiro, latindo.

– Totó, você já está morto.

Regan incendiou os próprios braços até os cotovelos, depois atirou uma bola de fogo contra o cão, acertando-o em cheio.

O desgraçado não desistiu, pulando em cima dela bem a tempo. Regan conseguiu se abaixar, viu o cachorro passar em câmera lenta por cima e não hesitou: incendiou a barriga da criatura, que só era carne podre.

O cão demoníaco correu em círculos, como se estivesse tentando pegar o próprio rabo. O que não era o caso, pois aquela criatura sequer tinha um. A carne podre do animal estava assando e ele estava, aos poucos, morrendo.

No final, tudo o que restou foi uma pasta mal passada de carne podre no chão do banheiro. Regan precisou cobrir o nariz, por conta do fedor.

Marissa nunca havia corrido tanto, mas felizmente ela não estava fora de forma. Do contrário, o cão demoníaco já teria dado um fim nela, àquela altura.

Ela subiu em cima de uma cadeira e depois em cima de uma mesa. Não havia muito sentido em fazer isso, mas na cabeça de Marissa parecia mais seguro do que aparentava.

O bicho saiu da escuridão para atacá-la. Marissa o atingiu com uma lufada de ar quente e o pouco de pele que ainda estava grudada no corpo do cão derreteu.

O animal rosnou ferozmente.

– Volare! — Marissa gritou e o cão demoníaco foi lançado contra a parede. Mas aquilo não era suficiente. Felizmente, Marissa se lembrava de um feitiço que serviria como uma luva. – Explodere.

O cão explodiu em menos de um minuto. A carne podre ficou grudada na parede do refeitório e o sangue sujou o chão.

Finn também entrou na escola, passando pela mesma janela que as meninas entraram. Assim que colocou os pés no corredor, desejou estar em outro lugar. Estranhamente ele escutou gritos, sons de explosões e algo similar a latidos de cachorros. O que, claro, não podia ser verdade. Não havia cachorros em Mystic High.

Qualquer outro garoto teria saído dali, entrado em seu carro e ido embora sem olhar para trás. Mas Finn não era esse tipo de homem: ele era aventureiro, explorador e, acima de tudo, também era irmão de Regan. Naquele momento, Finn se pegou pensando no que a irmã faria em uma situação como aquela. A resposta, claro, era óbvia. Ele seguiu atrás dos latidos e gritos.

Skylar e Regan entraram, correndo, juntas no refeitório. Bonnie veio logo atrás e as garotas estavam exaustas.

Skylar foi a primeira que viu os restos do cão.

– Caramba, garota! Eu nunca mais vou subestimar você.

– Por que você está em cima da mesa? – Bonnie perguntou.

– Você não vai querer saber. – Marissa desceu.

– Se você diz.

– Como, eu repito, como cães demoníacos entraram aqui? – Regan perguntou. – Alguém, por favor, me diga que isso foi uma infeliz coincidência.

– Não foi uma infeliz coincidência sermos atacadas na escola por cães demoníacos, assim como também não foi uma infeliz coincidência sermos atacadas por Goblins na outra noite. – Marissa encarou as amigas. – Onika estava certa, alguém quer a nossa cabeça.

– Droga, Marissa, eu estava torcendo para que você não dissesse isso.

– É, mas quem poderia ser? – Bonnie perguntou. – E o mais importante: por quê?

– Ora, ora, ora, o que nós temos aqui?

Marissa ficou feito pedra. Skylar, Bonnie e Regan olharam para trás e ficaram tão petrificadas por dentro quanto ela.

As garotas estavam encarando Finn e ele as estava olhando como quem não queria nada. Tudo mudou quando ele olhou o cenário ao redor, em especial os restos do cão demoníaco.

– O que você está fazendo aqui? – Regan perguntou.

– Eu...

– Finn, cuidado! – Skylar gritou.

Finn girou nos calcanhares no instante em que o cão pulou em cima dele. Regan teve o vislumbre dos dentes afiados da criatura agarrando o pescoço do irmão.

Foi então que algo aconteceu. As luzes do refeitório começaram a piscar, uma delas até chegou a explodir. Houve uma chuva de pedaços de vidro e fagulhas.

Um feixe de luz saiu das mãos de Finn com a intensidade de um raio laser, cortando o cão demoníaco ao meio.

Bonnie teve que segurar o próprio queixo antes que ele despencasse no chão.

Lentamente, Finn encarou as meninas.

– Oops!

Marissa se afastou das amigas e pronunciou “Pedum solvere”. Tudo o que fora destruído naquela noite iria voltar ao normal. Na manhã seguinte, a escola estaria do jeito que sempre esteve.