Quando Onika abriu a porta de sua casa, Marissa notou que ela estava usando uma camisola azul, do tipo que as vovós usavam. Bonnie viu que ela estava com rolinhos no cabelo e Skylar percebeu que ela estava irada por ter sido acordada àquela hora da noite.

Onika encarou as meninas e depois olhou o garoto que ela ainda não conhecia, mas que, graças à interferência das garotas, estava prestes a conhecer.

– É melhor que alguém tenha sido possuído por um demônio. – Onika deixou os visitantes indesejáveis entrarem em sua casa. Todos se acomodaram na sala e ela serviu chá.

– O que aconteceu? – Onika perguntou.

– Hoje à noite nós fomos atacadas por cães demoníacos – disse Bonnie.

– Cães demoníacos? – Finn perguntou. – Era isso que aquelas coisas eram? Para mim, eles pareciam cães zumbis.

– E quem é você? – Onika se dirigiu ao garoto de bochechas rosadas.

– Finn. E quem...

Onika dispensou a pergunta do garoto com um balançar de mão. Ela não tinha tempo para jovens, e principalmente para jovens com as perguntas erradas.

– Alguém se machucou? – Perguntou Onika. – Ally está bem?

– Ally? – O nome da garota deixou Finn em estado de alerta. – O que ela tem a ver com isso? – Finn encarou a irmã. – Regan, você me proibiu de fazer perguntas ou, do contrário, cortaria minha língua. Mas eu estou disposto a correr este risco. O que diabos está acontecendo? Por que cães demoníacos atacaram você e suas amigas? E antes que eu me esqueça, o que vocês são?

Regan queria fazer a mesma pergunta: o que Finn era? Ela viu o que o irmão fez com a luz e como aquilo deu um fim no cão demoníaco. Mas, ainda assim, ela não se sentia nem um pouco aliviada. Era evidente, ela estava preocupada com Finn de um jeito que nunca estivera antes.

– Sua irmã e as amigas dela são bruxas. – Onika disse. Em seguida, levou a xícara até os lábios e saboreou o chá.

– Bruxas? – Finn parecia refletir. Regan, antes de todos, estava preocupada: o que o irmão diria em seguida? Ele a chamaria de aberração? Riria de toda a situação? Ela odiava incertezas. – Isso é demais! E eu achando que todas vocês eram entediantes.

– Ahn, valeu? – Skylar não sabia se aquilo tinha sido um elogio ou uma ofensa. O caso é que nenhuma das garotas esperava que Finn reagisse daquele jeito.

– Espera um minuto. – Regan reagiu. – Tudo bem pra você?

– Por que não estaria? Caramba! Vocês são bruxas! São quase super-heroínas! Isso é a coisa mais legal que eu já vi.

Marissa soltou o ar que estava prendendo, por conta da tensão, e depois sorriu. Bonnie fez o mesmo.

– E isso nos leva a seguinte questão: – Onika se levantou e deixou o pires e a xícara em cima do piano. – O que você, jovenzinho, é?

– É por isso que estamos aqui – disse Bonnie. – Finn também destruiu um cão demoníaco. Um tipo de raio laser saiu das mãos dele, eu nunca havia visto nada igual.

– Eu também não. – Marissa completou. – Eu nunca vi nada sobre isso nem nos livros. E não estou querendo me gabar, mas eu leio pra caramba.

Para Finn, aquilo soava como um elogio.

– Deixe-me ver o que você é capaz de fazer, garoto.

– É melhor não, confie em mim. – Finn se levantou e depois se afastou. – A minha luz pode cegar.

– É mesmo? – Onika parecia estranhamente interessada. – Bem, você vai precisar nos mostrar algo. Do contrário, eu não poderei ajudá-lo.

– Certo. – Com a cabeça, Finn indicou o abajur aceso, que estava atrás de Onika. Ela e as garotas entenderam o recado. – Deve servir.

A luz do abajur começou a piscar igual às luzes de um pisca-pisca. Para qualquer pessoa, aquilo poderia ser uma simples interferência na energia, mas Onika e as garotas sabiam que era Finn quem estava fazendo aquilo.

A lâmpada da sala começou a piscar igual ao abajur, depois Finn parou.

– O que mais você consegue fazer? – Onika agarrou as mãos de Finn e começou a analisá-las. O garoto se sentiu desconfortável.

– Em geral eu consigo controlar a luz: criar e até manipulá-la. – Finn encarou Onika e depois as garotas. – Hologramas, ilusões. Ah, uma vez eu até consegui mudar a cor de uma camiseta, mas eu não tenho certeza de como fiz aquilo. Enfim, é basicamente isso.

– O que você é? – Skylar perguntou.

– Incrível. – Onika sussurrou. – Um manipulador de energia. Garoto, há muito tempo que eu não via alguém como você. Eu até achei que vocês estivessem extintos.

– Onika, o que você disse?

– Este jovem é um manipulador de energia. Neste caso, estamos falando da luminocinese, que é, em geral, a habilidade de controlar a luz.

Regan juntou as mãos e encarou o irmão.

– Finn, por que você nunca me disse nada?

– Bem, por que você nunca me disse que era bruxa? – Finn estava tão magoado quanto Regan. Era até compreensível.

– Ele tem um ponto. – Skylar sussurrou.

– Certo. – Onika bateu palmas uma vez. – Agora, garotas, me digam exatamente o que aconteceu.

E então elas contaram toda a história, tim-tim por tim-tim. Onika escutou tudo com atenção, mas, antes da metade da história, ela já tinha uma boa ideia do que estava acontecendo.

Os dias negros retornarão.

– Sra. Woodard, quem está por trás desses ataques? – Marissa perguntou.

Onika analisou as meninas. Até Finn, que não tinha ideia nenhuma do que estava acontecendo, parecia preocupado.

– Eu não sei – disse.

As meninas não seriam facilmente enganadas. Onika podia ser muitas coisas: uma mulher rabugenta, uma bruxa sábia, mas ela também era uma péssima mentirosa e isso estava claro. Por que ela estava mentindo? Isso sim era um mistério.

– Eu não acredito em você. – Regan disse.

– Acredite no que você quiser, eu não me importo.

– Sra. Woodard, não nos leve a mal, mas nós sabemos que a senhora sabe mais do que está disposta a nos contar. – Bonnie tentou não soar presunçosa.

– É verdade, bruxinha da terra. – Onika encarou as outras garotas. – Não se preocupem, quando os cinco elementos enfim estiverem juntos, vocês, garotas, terão todas as respostas que precisam. – Ela sorriu. – Até lá, olhem para os dois lados antes de atravessar a rua, se alimentem bem e pratiquem exercícios.

– O quê? – A última parte do falatório deixou Skylar confusa.

– Olhem a hora. – Onika encarou o relógio que não estava em seu pulso. – Já é tarde, eu preciso dormir e vocês, crianças, têm que acordar cedo amanhã. Hora de ir pra casa.

– Mas, Sra. Woodard...

– Eu disse: hora de ir pra casa.

Uma a uma as meninas se levantaram e, junto com Finn, saíram da casa de Onika. A mulher nem fez questão de dizer boa noite, ela fechou a porta sem sequer piscar e em seguida apagou as luzes da sala.

– Ela é um amor de pessoa – caçoou Regan.

Finn recebeu um novo e-mail. Ele tirou o celular do bolso e leu a mensagem em silêncio: outra pessoa da cidade estava desaparecida.

– Que merda! Meninas, escutem isso. – Finn começou a ler o e-mail. – O adolescente de 16 anos, e estrela do time de futebol, Jake Stowe, desapareceu hoje à tarde. Jake foi visto pela última vez em uma academia no centro da cidade. O carro dele foi encontrado no início da noite, nos limites da cidade, mas até agora a polícia não tem nenhuma pista do paradeiro de Jake.

Um raio cortou o céu e atingiu uma árvore no outro lado do rua.

Bonnie tinha um jeitinho todo especial de receber péssimas notícias.

~

Ally folheou o Grimório até tarde da noite. Ela nem percebeu quando, depois de algum tempo, pegou no sono. Por isso ela nem estranhou quando acordou na manhã seguinte e se deu conta de que ainda estava segurando o livro. A mão dela estava formigando.

Deixando o Grimório em cima da mesa, Ally foi para o banheiro e repetiu o ritual matinal de sempre: tomou banho, escovou os dentes, penteou os cabelos e vestiu roupas limpas.

A Sra. Wilson estava na cozinha quando Ally desceu para tomar café, mas ela sequer notou a presença da filha. Ela estava concentrada no jornal daquela manhã e, pela testa franzida da mãe, Ally sentiu que ela não estava muito feliz.

– Algum problema? – Ally rompeu o silêncio.

A Sra. Wilson ergueu o olhar e encarou a filha pela primeira vez naquela manhã.

– Outro garoto da sua idade desapareceu ontem – disse e depois entregou o jornal para que Ally lesse a notícia.

Quando Ally encarou a foto em preto e branco de Jake Stowe, quase engasgou. De acordo com informações, ele havia desaparecido misteriosamente no final da tarde de ontem e até aquele momento ninguém havia fornecido qualquer pista que pudesse ajudar a polícia.

Jake era o segundo adolescente de Mystic Village que desapareceu misteriosamente. A primeira pessoa havia sido a jovem Ashlee Turco.

Ally não conhecia Ashlee, mas isso não tornava as coisas mais fáceis, pois ela sabia que situações daquele tipo também poderiam acontecer a ela.

– Ally, eu não quero que você vá para a escola hoje, é sério. – A Sra. Wilson estava quase chorando. – Eu acho que não consigo suportar se esse tipo de coisa acontecer com você.

– Mãe – deixando o jornal em cima da mesa, Ally foi até onde a Sra. Wilson estava e abraçou-a com força. – Eu entendo a sua preocupação, entendo mesmo, mas acredite, eu vou ficar bem. E, se algum idiota tentar se meter a besta comigo, ele vai acabar descobrindo que escolheu mexer com a garota errada.

A Sra. Wilson sabia ao que a filha estava se referindo. A garota tinha poder suficiente dentro de si para lidar sozinha com qualquer um que tentasse algo contra ela.

Ally tinha os mesmos olhos azuis do pai, mas, diferente de Lochlan, ela não era gananciosa. Era tão destemida quanto o pai havia sido quando era jovem, e apenas isso. Essa simples semelhança assustava a Sra. Wilson mais do que qualquer outra coisa.

– Você pode ir, mas eu exijo que me envie mensagens no celular de dez em dez minutos. Só assim eu vou saber que você está bem.

Ally sorriu.

– De acordo.

Alguém buzinou na frente da casa.

– Eu preciso ir, a minha carona chegou. – Ally beijou a bochecha da mãe, pegou uma maçã no cesto de frutas e depois foi embora.

Embora a filha fosse uma garota destemida, ela ainda era só uma garota. A Sra. Wilson sabia que Ally estava fascinada com a descoberta de ser uma bruxa. Mas, para o seu próprio bem, o ideal seria que ela entendesse o mais rápido possível que as coisas nem sempre seriam assim tão coloridas. A Sra. Wilson já havia visto o mal de perto e esse foi o tipo de experiência da qual ela nunca se esqueceu. Às vezes, à noite, ela ainda tinha pesadelos relacionados aos dias mais sombrios.

Por mais que a Sra. Wilson estivesse preocupada, ela também confiava na filha. Ela sabia que Ally faria o que fosse certo. Pelo menos, esperava que sim.

~

Até ontem, Ally nunca estivera dentro do carro de um garoto. Mas, graças a Finn e a insistência dele em levá-la para a escola, Ally podia riscar aquilo da lista de coisas a fazer antes de morrer.

Ela percebeu, pela expressão séria no rosto de Finn, que ele não estava prestes a contar uma piada. Ally nem podia imaginar o que ele estava prestes a dizer.

– Antes de irmos pra escola, eu preciso te contar uma coisa.

No fundo, Ally achou que ele iria revelar já ser comprometido com outra garota. Mas ela sabia que Mystic Village não era uma cidade como qualquer outra e que os moradores dali eram muitas coisas, exceto comuns.

Finn dirigiu até o parque Hollow e estacionou o carro embaixo de uma árvore.

– Por que você está tão sério?

Finn encarou Ally. Ele não sabia exatamente por onde começar, mas, em todo caso, começar pelo começo parece ser sempre a melhor opção.

– Ally, o negócio é o seguinte...

E então Finn contou tudo o que Ally precisava saber a respeito dele. Ele até contou o que não era importante, mas que, ainda assim, parecia ser necessário para melhor compreensão da parte dela.

Ally escutou tudo o que Finn tinha para dizer, sem interrompê-lo. Ele era um manipulador de energia, a habilidade dele era a luminocinese. Finn controlava a luz.

Qualquer outra garota, em qualquer outra cidade do mundo, poderia dizer que aquele papo era balela. Mas Ally não era qualquer outra garota e Mystic Village não era apenas mais uma cidade, entre tantas outras. Ela sabia que Finn estava sendo sincero.

Ela escutou com atenção tudo o que ele tinha a dizer. As experiências de Finn com a habilidade de controlar a luz eram poucas: algumas foram bem sucedidas; outras, nem tanto. Mas, felizmente, até aquele momento ele não havia machucado ninguém, nem que fosse involuntariamente.

No começo nada era muito claro, e por isso ele se sentiu confuso e assustado. Confuso por não ter ideia do que estava acontecendo e assustado por não ter noção de como aquilo poderia acontecer dentro dele.

Quando Finn parou de falar, Ally continuou em silêncio por um tempo.

– Então é isso, essa é toda a história. – Ally continuava em silêncio. – Você vai sair correndo agora?

Ela não respondeu.

– Você vai me dispensar agora?

– Por que você está me contando isso? – Ally estava surpresa, mas, para uma bruxa adolescente, ela não estava totalmente surpresa.

– Porque você merece saber a verdade.

– Sério? – Ally franziu as sobrancelhas. – Não tem nada a ver com o fato de você saber que eu sou uma bruxa? – Finn, naquele momento, estava mais surpreso do que Ally estaria. – Pela sua cara, dá pra perceber que você sabe.

– Bem, por isso também. – Finn sorriu.

– Quem te contou? Foi a sua irmã?

– Não exatamente. Por falar nisso, você precisa falar com ela e as outras garotas. Ontem à noite aconteceu uma coisa louca e nem que eu quisesse conseguiria explicar pra você.

Ally conseguiu relaxar no banco do carro, depois ela desviou o olhar e encarou a paisagem lá fora. Ela não estava o ignorando de propósito, estava apenas perdida em pensamentos.

– Por favor, diga alguma coisa. – Finn chamou a atenção dela.

Quando Ally voltou a encará-lo, Finn ficou feliz por constatar que ela não o chamaria de louco e nem sairia correndo do carro. Ally compreendia tudo.

Finn a trouxe mais para perto e, após confirmar consigo mesmo que tudo estava bem, ele a presenteou com um beijo.

Tudo o que Ally queria era conhecer um garoto gentil e educado. Não era obrigatório que ele fosse bonito, pois ela não era exigente, bastava que ele tivesse um ótimo senso de humor e paciência. Contudo, ao invés disso, ela conheceu Finn Weathers, que era bonito, muito acima das expectativas, engraçado e tinha um jeito único. Mas, antes de qualquer coisa, ele era um manipulador de energia.

Ally era, de fato, uma garota sortuda.

~

O feitiço de localização não havia funcionado. E isso, àquela altura, com Ashlee e Jake desaparecidos, era a pior coisa que podia acontecer.

– Marissa, por que não está funcionando? – Bonnie estava se segurando para não causar um desabamento de terra.

Marissa abriu a boca para explicar, mas Regan foi mais rápida.

– O problema é que o nosso Grimório não presta. Eu aposto que a maioria desses feitiços nem existem.

– O que você esperava? – Skylar se levantou, rompendo o círculo. – Eu comprei no Ebay!

– Sky, aonde você vai? Você não pode romper o círculo.

– Nós estamos sentadas neste chão frio há uma hora. Peço desculpas, mas a minha bunda já está dormente.

Todas as garotas estavam cansadas. Elas haviam dormido pouco na noite anterior e todas timham acordado cedo naquela manhã.

– Não adianta, Bonnie. – Regan detestava ser estraga-prazeres com uma amiga, mas ela precisava ser sincera. – Não estamos conseguindo. Desse jeito, não podemos ajudar Ashlee e Jake. E eu tenho medo que seja tarde demais.

– Por favor, não diga isso – ela cobriu o rosto com as mãos. Regan também se levantou, enquanto Marissa consolava Bonnie.

– O que nós vamos fazer agora? – Marissa também se levantou. Para ela fazer esta pergunta, Skylar sabia que a situação toda estava sem controle.

– Eu não faço a mínima ideia. – Regan cruzou os braços.

– Eu também não – disse Skylar.

Mesmo com o cachecol de Ashlee, as meninas não conseguiram encontrá-la. O pior era que Marissa sabia que, quanto mais tempo demorassem, mais jovens iriam desaparecer.

Bonnie também se levantou. Para ela era mais difícil fazer aquilo. No fundo, ela sentia como se estivesse abandonando Jake.

– Nós precisamos da Ally aqui. – As meninas encararam Bonnie. Ninguém queria admitir, mas ela estava certa. – Nós precisamos dela aqui, me desculpem, mas é assim que as coisas têm que ser.

– Você está certa. – Regan foi a primeira a admitir.

– Vamos pegá-la. – Skylar disse.

Era o caso clássico de “se não pode vencê-las, junte-se a elas”. Marissa normalmente reprovaria aquela ideia. Na verdade, ela não estava totalmente de acordo ainda, mas ela também acreditava que épocas desesperadas pediam por medidas desesperadas.

Marissa só esperava que Ally não as odiasse por aquilo.

~

Enquanto as meninas tentavam bolar um plano, Ally estava na escola, tendo aula de Literatura Inglesa.

– Alguém pode me dizer por que Jane Eyre é considerada uma personagem à frente de seu tempo? – Perguntou a professora Wildenberg.

Ela não esperava que algum aluno fosse responder, já que raramente interagiam com ela durante as aulas. Por isso, ela ficou surpresa quando Ally levantou o braço.

– Porque, diferente da maioria das mulheres do século dezenove, Jane Eyre queria ser independente e, acima de tudo, autossuficiente.

No fundo, a professora Wildenberg torcia para que Ally tivesse mesmo lido o livro e não apenas visto o filme, como faziam os outros alunos.

– E por que você acha isso? – A professora perguntou.

Ally estava prestes a responder, pois ela havia lido Jane Eyre no último verão. Mas, antes que ela pudesse interagir novamente com a professora, teve outra visão.

Ela viu uma sala pouco iluminada, o lugar era pequeno e úmido. Ela não tinha sensações, mas conseguia imaginar que o local era frio. A vista da sala se expandiu e Ally viu um homem ajoelhado ao lado de uma cama. Ele era loiro e estava falando em uma língua que ela não conhecia.

Concentrando-se um pouco mais, Ally viu que havia alguém deitado na cama, mas, quem quer que fosse, não estava se mexendo. Então o homem se levantou e se afastou. Deitado na cama, com os olhos arregalados, a expressão perdida e os lábios roxos, estava Jake Stowe.

Quando a visão terminou, Ally teve que se segurar para não gritar. Jake estava morto, ela tinha certeza.

– Ally, você estava dizendo? – A professora chamou a atenção dela. Felizmente os outros alunos pouco se importavam com aquela aula, portanto ninguém, além da professora, via a expressão desesperada de Ally.

– Ah, me desculpe, professora. – Ally se levantou. – Mas eu preciso ir até a enfermaria, não estou me sentindo muito bem.

– Certo, pode ir.

Ela pegou a bolsa e saiu da sala, sem olhar para trás.

As garotas não estavam na escola. Ally já havia olhado de sala em sala e não encontrou ninguém. Nem mesmo Marissa, mas mesmo assim ela continuou procurando.

Ally andava pelo corredor, mas não prestava atenção no caminho. Ela estava mais concentrada na imagem de Jake em sua cabeça. Pobre garoto, tão jovem... O devaneio dela foi interrompido quando deu um encontrão em outra pessoa e acabou caindo no chão. Ally estava prestes a soltar um palavrão quando olhou para cima e encarou o professor de Biologia, o Sr. Wiles.

– Srta. Wilson, o que você está fazendo fora da sala? – Ally pensou que ele iria ajudá-la a levantar, mas ele nem parecia se importar.

Ela pegou a bolsa, que caiu de lado, e depois se levantou.

– Eu estava na enfermaria.

– É mesmo?

– Pois é, eu não estava me sentindo muito bem. A minha cabeça estava doendo, por isso dei uma passada lá, mas agora estou me sentindo melhor – em seguida ela esboçou um falso sorriso de melhora. – Por isso, se me der licença, eu não quero me atrasar mais. – Ally passou pelo professor e seguiu em frente.

– O colar que você está usando é muito bonito, Sra. Wilson.

Ally parou no meio do corredor, se virou e encarou o professor. Foi então que ela percebeu que o colar da avó, que antes estava escondido dentro da blusa dela, estava agora, por conta da queda, à mostra, para todos verem.

– Ah, obrigada. – Ally guardou o colar dentro da blusa de novo. – É uma relíquia de família, era da minha avó.

O professor não disse nada, ficou apenas parado no corredor, encarando Ally.

Ela foi literalmente salva pelo sinal da escola. Quando os alunos começaram a sair das salas, ela conseguiu se misturar aos outros e se afastar sem chamar atenção.

Não era difícil pra Ally matar aula. Difícil era começar uma dieta sem carboidratos, isso não é brincadeira.

Ela tinha um plano: iria pra casa e de lá tentaria entrar em contato com as meninas. Se por acaso a Sra. Wilson também estivesse em casa, Ally só precisaria contar uma mentirinha.

Quando ela estava prestes a atravessar a rua, uma van preta estacionou no meio-fio. O motorista baixou o vidro do carro e Ally ficou feliz por ver Skylar.

– Graças a Deus! – Ally se aproximou e Skylar ficou assustada com sua alegria ao vê-la ali. – Eu procurei você e as meninas em todos os cantos da escola. Eu tive uma visão com Jake e eu acho que ele está...

Skylar olhou para trás de Ally.

– Regan, abortar plano!

Sem entender o que estava acontecendo, Ally olhou para trás. Regan estava parada atrás dela, com uma expressão de dúvida no rosto e um saco preto nas mãos.

– Por que você está segurando um saco? – Ally semicerrou os olhos e depois encarou Skylar. – O que está acontecendo?

– Então, Ally, o negócio é o seguinte: nós viemos aqui buscar você. – Skylar utilizou aspas quando disse buscar.

– Como assim “me buscar”? – Logo Ally entendeu. – Ai, meu Deus! Vocês vieram aqui para me sequestrar? – Ela alternava o olhar entre Skylar e Regan.

– Não pense nisso como um sequestro. – Regan se aproximou.

– E como eu devo pensar?

– Nós viemos aqui simplesmente levar você, contra a sua vontade. Mas não é por mal, é porque precisamos da sua ajuda.

– Vocês duas pensam antes de falar ou simplesmente abrem a boca e cospem o que tem vontade? – Ally revirou os olhos. – Enfim, livre-se desse saco, eu vou porque quero ajudar.

– Maravilha!

– Regan, você tem sorte. Se tentasse colocar aquele saco na minha cabeça, eu acabaria chutando a sua bunda magricela até você virar do avesso.

Regan nunca havia conhecido uma pessoa tão ousada quanto ela mesma. No fundo, era por isso que Ally e Regan não se davam bem: nenhuma das duas levaria desaforo para casa.

Ally entrou na van, com Skylar e Regan.

– Onde, garotas, vocês arrumaram uma van preta? – Ally perguntou.

– É da minha mãe. – Skylar respondeu

– Sério? E o que ela faz? Ela é sequestradora profissional? – Ally achou que uma piada faria bem.

– Quase, ela era traficante de drogas.