O ocaso já se aproximava e John entrava em seu quarto, que era o comodo de entrada de sua casa e servia de sala, e por isso não era tão pequeno, as paredes tinham cor amarelo claro, o quarto de John possuía um sofá onde John dormia, uma televisão de tubo com vinte polegadas e o computador de John que era a única coisa realmente dele já que havia sido comprado com o dinheiro ganho trabalhando no Market. John estava com quatro grandes sacolas, jogou todas na cama, abriu-as procurando as roupas, na ultima a olhar achou, ele abriu a porta do meio do guarda roupa e a empurrou para o lado fazendo-a deslizar pelos trilhos, colocou ambas as mãos no meio das roupas nos cabides que não eram só suas e abriu espaço empurrando elas em direções opostas, a fim de ver o espelho que havia no fundo. Ao se olhar no espelho viu que sua expressão estava entusiasmada, o que não era comum.

John Fang era branco e tinha pouco mais que um metro e setenta de altura, era magro; cabelos e olhos de cor castanho escuro, sua barba não era muito grossa ainda e crescia apenas nas regiões do bigode e do queixo. Seu cabelo levemente cacheado estava grande, ele nunca havia deixado crescer tanto, já cobria suas orelhas e ele estava gostando, havia deixado partido ao meio e ficava um pouco emaranhado.

Já estava com a camiseta nova enquanto tirava a bermuda para por a calça, e após a estar vestindo, deu meia volta em ambos os lados, estava descalço. Sua camiseta estava no tamanho ideal, feita de algodão, não ficava muito rente ao seu corpo, cor laranja, na parte da frente apenas a parte superior de uma grande pokebola estampada em preto, no botão da pokebola o centro laranja e o contorno em preto sendo perceptível apenas na ondulação que se formava no meio da margem inferior. As mangas completamente pretas chegavam quase a seu cotovelo, o preto das mangas estreitava-se no ombro formando uma linha até a gola que também era preta. A calça jeans era preta com todos pontos de costura em linha bege, quatro bolsos ao todo, dois dianteiros e dois traseiros.

Ele retira da mesma sacola uma jaqueta que não era tão volumosa, de cor azul fosco muito escuro, quase preto, por fora seu tecido era mais rígido mas por dentro era de algodão e muito confortável, com um zíper na frente e após o fechar completamente a gola cobria seu queixo mesmo o mantendo erguido, na cintura e nas mangas tinha tiras de elástico e dois bolsos na região da barriga. O tênis estava em outra sacola, não chegou a experimentar em casa, mas sabia que era confortável, cor preta, nas bordas inferiores tinha tiras brancas, cadarços feitos de algodão preto, era um Ollstar.

Nas outras duas sacolas retirou uma saca de dormir verde escuro que estava enrolada. Uma mochila completamente cinza com dois bolsos laterais, um espaço para uma garrafa de água em cima do bolso lateral esquerdo, um grande bolso frontal além do principal, em todos os bolsos o zíper estava nas extremidades superiores. E o certificado da base policial que estava dentro de um tubo cilíndrico com listras vermelhas e pretas na diagonal, as cores da policia, as instruções da policia foram mais uma aula de cidadania: como saber o número da policia e dicas de segurança para um viajante.

John já havia guardado suas compras quando seus pais chegaram junto com seu irmão, eles sempre iam buscar ele do curso de administração básica. Sua mãe era razoavelmente gorda e era mais baixa que John, em fotos dela mais nova era linda, mas a idade e falta de cuidado estavam acabando com ela, também tinha os cabelos cacheados assim como a cor de seus olhos eram iguais aos de John e aos do pai de John, que era muito gordo e já levemente calvo, tinha um e oitenta de altura. Eles entraram, e quando viram John em casa deitado e desocupado cruzaram olhares.

– John, não foi trabalhar hoje? – Sua mãe perguntou enquanto passava pela sala.

– Não – John não tinha avisado ainda que sairia de casa, mas não esperava pela aprovação dos pais, já era maior de idade – eu preciso falar uma coisa com voc...

– Seu irmão teve a segunda melhor nota final de toda cidade – disse seu pai enquanto colocava um sorriso no rosto, como se John não tivesse dito nada – você pretende trabalhar no caixa do Market o resto da vida? – Disse, mas não esperou uma resposta e já estava na porta da cozinha.

Seu irmão Jonas Fang passou por seu quarto sem se quer dar boa noite, ele tinha apenas quinze anos, mas já era da altura de John, além de ser mais encorpado, seu cabelo estava sempre bem cortado e curto ao estilo social, idêntico ao de seu pai, os dois se pareciam com seu pai, mas Jonas tinha o rosto completamente liso de pelos e sobrancelhas mais finas, para John isso o deixava mais afeminado, mas ele era bem popular entre as garotas Não Treinadoras. João Fang e Mayara Fang, seus pais eram primos distantes. Não tinham uma boa relação com John, ou seria o contrario? Aquilo normalmente o deixaria mal humorado.

Na manhã do dia seguinte John foi até o laboratório do Professor Eduardo, havia um muro laranja claro de três metros de altura em volta do laboratório e um portão de ferro com a mesma altura, barras de ferro diagonais que formavam raios de sol que vinham do centro do topo do portão que tinha um circulo onde as barras estavam encostadas e iam ficando mais distantes uma da outra até a borda, mas mesmo na borda do portão não tinha espaço suficiente para uma pessoa passar, ele seguiu pela rota de pedras brancas sobre um lindo jardim. O laboratório tinha três andares, suas paredes eram amareladas e suas janelas tinham forma redonda, viu um garoto com a moda de meia luva saindo da entrada do laboratório que o encarou de canto de olho enquanto passava do seu lado.

John se apresentou na portaria e foi conduzido até uma sala pequena, não demorou até chegar um dos assistentes com seu jaleco, ele parecia o professor Eduardo, porém mais jovem devia ter uns vinte anos, ele falava com muita cortesia e simpatia enquanto anotava em sua prancheta, o teste era no final das contas um tipo de entrevista e durou pouco menos de uma hora, no final o assistente tirou uma foto de rosto e disse que John poderia vir no dia seguinte pegar seu Pokémon inicial junto com a Pokedex e a sua carteira de treinador, afinal, a sua entrevista foi marcada para o ultimo dia da semana, e no dia seguinte todos aprovados iriam retirar seus Pokemon. Eu não sabia que era assim tão fácil pensou John.

Visitou o Market mais próximo a sua casa, que era todo de tons diferentes de azul, com janelas quadradas e espelhadas. Ele já havia pedido demissão de lá a três dias atrás, mas foi apenas receber a semana trabalhada.

No caminho para casa, visitou alguns amigos a fim de se despedir.

– Cara, eu ainda não sei porquê você inventou de ser um treinador – disse Maik, um colega de trabalho que folgava no dia.

– John, nós não nascemos para ser treinadores – dizia Néu em tom infeliz e cabisbaixo – você sabe que vai ser muito injusto começar sem dinheiro ou mentores.

John já tinha tentado argumentar com seus amigos antes, mas ninguém conseguia entender o seu ponto de vista. Esse não é o meu lugar, esse conformismo me sufoca, me mata, pensou enquanto caminhava devagar e de cabeça baixa.

Ao chegar na casa de seus pais às duas da tarde preparou o almoço: arroz, feijão e bife acebolado, estava acostumado a preparar a própria refeição. Após comer arrumou a mochila, tirou a senha de usuário do computador, excluiu senhas salvas em fóruns, jogos, redes sociais. Eu não queria deixar meu computador para meu irmão, mas não posso levar ele comigo e não vou ser tão ruim assim de deixar ainda com senha sendo que não vou mais usar. Mais tarde seus pais chegaram, viram que estava tudo arrumado, e após ver a mochila na cama seu pai estreitou o olhar.

– O que é isso? – disse enquanto fazia um leve movimento erguendo a cabeça e abaixando apenas uma vez na direção da mochila sobre a cama.

– É a mochila que vou usar a partir de amanhã – John respondeu, enquanto seguia para a cozinha, sabia que seu pai passaria direto sem continuar a conversa, seus pais e seu irmão o seguiram, não que realmente estivessem indo atrás dele. John apoiou as costas na parede e cruzou os braços enquanto eles começaram a pegar pratos e talheres para se servir, seus pais não tinham expressão, mas seu irmão tinha uma curiosidade nunca antes vista – eu preciso avisar vocês – fez um breve silêncio – eu já preparei tudo, amanhã vou buscar meu Pokémon inicial e vou sair de casa.

– Você? – Jonas soltou uma gargalhada – Não serve nem para trabalhar no caixa de um Market e acha que pode ser um treinador? – voltou a gargalhar

– Você não vai – Mayara disse em tom ríspido – só vai perder seu tempo por ai e voltar pra casa antes de completar o level dez como todo Não Treinador faz, e...

– Eu não estou pedindo autorização mãe, estou avisando – John disse em tom de igual rispidez – Amanhã de manhã vou deixar a casa. – o rosto pasmo de sua mãe estava completamente desinteressado antes dessas palavras.

– Que seja – disse João sem sequer erguer o olhar até ele enquanto se sentava para comer – Você já é maior de idade, mas vou avisá-lo desde já, se voltar, será apenas uma visita, sua casa não é mais aqui, fique apenas essa noite. – John continuou em pé e de cabeça baixa.

– Filho, por que você não pode simplesmente ficar aqui, onde não é perigoso – os olhos de sua mãe se encheram de lagrimas e sua voz perdeu força – nós não nascemos para ser treinadores.

– Mãe, eu não sou o filho que você e o pai esperavam, eu sou diferente de vocês e tenho outros sonhos e planos – mesmo que ainda tivesse que acha-los, John disse enquanto tentava se acalmar, nós não nascemos para ser treinadores, ela disse, isso deixou John furioso, mas tentou se controlar – o filho que vocês sempre quiseram é o Jonas – ele é o robozinho programado por vocês, não eu. John sabia que seus pais nunca o compreenderiam, nunca compreenderam.

Seu irmão havia parado de gargalhar e acolhia sua mãe, que começara a chorar, enquanto os lábios fortemente pressionados um contra o outro e suas sobrancelhas forçadamente baixas deixavam escancarado o repudio que o irmão sentia por ele naquele momento. John seguiu para a sala onde ia tentar dormir. A decisão foi tomada, e na manhã seguinte sua vida será outra. Estou correndo atrás da minha felicidade, então por que me sinto tão mal? Pensou enquanto pressionava a cabeça contra o travesseiro.