Jogo para dois
22 Sufocante
Notas iniciais
As portas de vidro automáticas se abriram quando ele passou por elas com Itachi, que o infernizou a ir para casa dormir, ao seu lado já que não conseguiu dormir por mais de cinco horas. Tomou um banho e novamente chegava ao hospital.
Sentia seu estômago revirar ao andar pelos corredores movimentados e absurdamente brancos, era como se uma pedra de gelo descesse por sua garganta e se alojasse ali junto com a sensação de agonia e a tristeza que sentia, até respirar parecia difícil.
A enfermeira da recepção não fazia mais menção de perguntar o nome ou a paciente. Já era o segundo dia daquela rotina sufocante que já estava marcando o rosto do Uchiha que andava com os braços ao lado do corpo e o rosto abatido com olheiras pelas longas horas acordado no corredor que dava acesso a UTI.
Itachi não estava de maneira melhor, assim como todos os outros que ligavam ou vinham até o hospital por notícias, mas olhar seu irmão com os ombros caídos, a postura séria havia esmaecido, não era natural. O mais velho tentava manter-se calmo e com a mente no lugar pois sabia que Sasuke precisava dele ali por mais que o mais novo mal falasse alguma coisa.
Os olhos de Sasuke passavam criteriosos pelo lugar. A exaustão não diminuía em nada sua aura de comando. Itachi sorriu de canto, meio melancólico, quando viu os olhos caídos darem uma maior ferocidade para sua expressão já comumente fechada. Lembrou-se dele pequeno, possessivo ao extremo, inflando as bochechas e franzindo as sobrancelhas em demonstração de sua natureza mandona. O sorriso desfez quando um baque alto o fez voltar a realidade. Sasuke encarava furioso um enfermeiro que havia se encolhido em instinto, e a mão do irmão tremia fechada em cima do balcão de informação da ala intensiva.
— Como não posso ver a paciente?- Sasuke juntou as sobrancelhas irritado.
—Se… Senhor Uchiha, no momento a senhorita Haruno está sendo avaliada por especialistas assim como solicitado pelos senhores, pedimos compreensão pois não sabemos quanto tempo o procedimento pode tomar- O enfermeiro explicou -Mas a sala privada está em ordem para receber o senhor e familiares da paciente-
—Sasuke… — Itachi colocou a mão no ombro do irmão o desencostando do balcão e o levando para a sala privada.
Sasuke empurrou a porta frustrado, passou a mão pelo rosto deixando o ar escapar pela boca em um suspiro em busca de manter-se firme ali, abriu os olhos percebendo a terceira presença na sala que se levantava até si.
Gaara sorriu sem graça antes de se levantar e andou até Sasuke que estendeu a mão até ele que virou um abraço entre amigos.
—Cara.. Eu- Gaara gaguejou enquanto já cumprimentava Itachi que havia perguntado como o ruivo estava -Me desculpa, Sasuke… Eu não sei o que te dizer, não consegui proteger nenhuma delas, deixei as garotas na mão daqueles-
— Você está bem. É o que importa. — O Uchiha disse taciturno, cortando qualquer outro pedido de desculpas vindo de Gaara. O ruivo meneou a cabeça pesaroso, suspirou e bateu no ombro de Sasuke sentando-se junto dele no sofá branco da sala — Como Ino está?
Itachi observava o irmão com atenção, sabia como Sasuke se preocupava com os seus colegas, e isso se intensificava com os seus amigos. Mesmo sua cabeça estando longe e tendo pressa em saber de Sakura, ele engolia essa vontade e se preocupava verdadeiramente com o próximo.
— Pronta para ter alta devidos aos ferimentos, mas está conversando com o psicólogo do hospital… — Gaara colocou a cabeça entre as mãos, os cotovelos estavam apoiados nos joelhos e os olhos voltados para o chão refletiam seu sentimento de impotência. — Filhos da puta… — deixou escapar num murmúrio sofrido e puxou os cabelos para acalentar o pesar inútil.
Sasuke e Itachi trocaram olhares breves, não havia como ajudar nesta situação, só poderiam acreditar na foça de Ino e na base que Gaara a sustentava.
— Ino vai sair dessa. — Itachi disse um pouco deslocado pousando a mão no ombro de Gaara — Pode contar conosco…
Itachi foi interrompido pela porta que abriu com brusquidão. Manu entrou esbaforida, os olhos vermelhos e os cabelos bagunçados pelo vento que devia ter pego no caminho. Ela escorou-se no batente da porta e olhou os três homens com urgência.
— Sakura… O que aconteceu com a minha prima? — perguntou sem rodeios olhando os três sem fraquejar.
Sasuke desviou os olhos pra o chão, sentindo o perigoso sentimento de impotência invadir teu peito. Soltou o ar pela boca, sem saber o que poderia responder sem parecer tão fraco. Itachi andou até ela, puxou a nuca dela acomodando a cabeça em seu ombro num abraço pouco usual para os dois, escorou o queixo no topo da cabeça dela e olhou para a janela grande da sala.
— Ela vai ficar bem. — ele disse num tom profundo, como se dissesse para si mesmo e para todos ali presente. Ele a guiou até uma poltrona do lado da janela e serviu uma xícara de chá que uma enfermeira havia levado. Contou por cima o que havia acontecido no cassino e destacou que os culpados seriam pegos.
Sasuke mantinha os braços apoiados nos joelhos com as mãos cruzadas na frente do rosto encarando o quadro que se destacava na parede branca da sala, ouviu o suspiro de Gaara ao seu lado e fechou seus olhos. A tensão dos dois homens ali sentados se misturavam e a preocupação com suas garotas ecoavam em cada canto de sua mente e corpo.
Abriu seus olhos em alerta quando sentiu seu corpo ser puxado para frente e sua visão fora ocupado pelos cabelos castanhos que o abraçava com força.
—Oi queridinho- Manu disse delicada -Não esta achando que ela é fraca não é?-
Itachi sorriu com a cena, aquela mulher não cansava de o surpreender. Era a única família de sangue que Sakura tinha próxima e sabia do amor que sentiam uma pela outra por isso ligar para a mulher pedindo que ela viesse até Tokyo fora complicado, dividido entre dizer a verdade e mantê-la calma.
Mas lá estava ela, dando forças para Sasuke e se preocupando com eles, mostrando que o jogo não tinha acabado ainda.
— Não eduquei essa menina pra cair tão fácil — Ela disse descontraída tirando um sorriso fraco dos três homens. — Sasuke — o chamou mais séria — Melhora essa cara, parceiro. Não vai querer que que ela acredite que os Uchihas são meros humanos assim que acordar e ver essa olheira enorme na sua cara.
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Ela estava tão pálida. Havia uma faixa em torno da cabeça, tubos nos dois braços, aparelhos bipando os batimentos cardíacos. Manu passou a mão pelo pescoço de Sakura, vendo o hematoma na regão da têmpora, subiu o dedo com delicadeza pelo rosto dela, tomando cuidado para não tocar em algum machucado. Sorriu vendo os finos fios loiros aparecendo onde haviam raspado para a cirurgia, e deixou uma breve risada escapar ao imaginar o surto de Sakura quando visse seu precioso cabelo maculado.
— Me deixem bugada, mas não toquem no meu cabelo — Manu afinou a voz rindo mais uma vez e fazendo carinho na cabeça da prima — Sua maluquinha, não posso te deixar sozinha que você se mete em confusão. Somos só nós duas, não podemos deixar o genes Haruno morrer assim… — Manu engoliu em seco e suspirou pousando as duas mãos no colo.
Correu os olhos pelo quarto e suspirou, quando Itachi a disse que eles exigiram que não faltasse nada para Sakura ali não teve dúvidas que a prima teria a melhor assistência, mas não se sentia menos agradecida por isso. Não tinha duvidas que Sasuke faria tudo pela rosada.
Pelo canto do olho podia ver os dois do lado de fora do vidro que estava com a persiana aberta dando a visão do quarto para o corredor, viu Itachi falar algo para Sasuke antes de sair deixando apenas o Uchiha ali que não desviava o olhar de dentro do quarto.
—Você está deixando ele com cabelos brancos sabia? Acho que se ele pudesse iria caçar os caras sozinho… — Disse colocando uma mexa rosa atras da orelha dela -Ele está preocupado, então acorda logo ta? Todos nós te amamos e precisamos te xingar quando acordar… Vou visitar a Ino também não se preocupe ok?-
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Sasuke observava de fora Manu sentada na poltrona, Sakura durante a madrugada fora encaminhada para um quarto particular em tratamento semi intensivo. Tentava se convencer que era um avanço mesmo com Sakura desacordada, apenas esperava que a qualquer momento pudesse ver os olhos verdes que tanto ansiava.
Virou-se encostando a cabeça no vidro, o movimento no corredor era calmo, somente familiares de outros pacientes que ficavam naquela ala e os médicos encarregados dos mesmos.
Itachi havia ido até a lanchonete para buscar algo para ele comer, mas não sentia fome. Naruto ligava para seu celular de hora em hora e Hinata se prontificava em ficar com Sakura no hospital para ele ir em casa descansar. Shikamaru e Temari passaram para ver como ela estava antes de ir encontrar Gaara que ainda esperava pela liberação de Ino.
As horas passavam, pessoas iam e vinham, mas Sasuke continuava ali. Olhando aquele vidro sem entender o porquê daquilo estar acontecendo com eles. Criando inúmeras estratégias para sair daquele impasse maldito, mas nenhuma regra era válida para ganhar daquela vez. Itachi parou ao lado dele, e olhou para o vidro oferecendo um copo de café para seu irmão, Sasuke aceitou tomando de uma vez e devolvendo o copo de forma automática.
Itachi suspirou, acreditava que Sasuke não tinha noção da forma como parecia estar e sabia que por dentro a situação estava pior. Por fora ele estava quase intacto, sendo denunciado pelo rosto pálido e os olhos cansados, mas ele via os olhos em confusão.
— Você precisa fazer algo pra se distrair… — disse olhando para a janela de vidro e vendo Manu lendo um livro sentada ao lado da cama — Ela não vai acordar só por você estar aqui, sabe que ainda não tem poder pra isso, né? — sorriu de canto achando ter descontraído, mas ouviu um suspiro de Sasuke. — Hey, vá pra casa. Senão é você quem vai precisar de um quarto desses.
— Me deixa em paz, Itachi. — a voz saiu entrecortada por estar tanto tempo sem uso. Os olhos não saíram da janela.
Itachi olhou o irmão mais uma vez. A imagem do garotinho abraçado a seu dinossauro de pelúcia com as bochechas infladas em sinal de possessividade, seus brinquedos organizados de forma que ele soubesse se alguém mexeu, sua forma de apostar sempre tão certo que iria ganhar, seu ganhos adquiridos com a força de sua inteligência e dedicação… Itachi via uma vida toda sendo resumido na imagem do homem que olhava a mulher desacordada com tamanha devoção. Sakura havia se tornado aquele dinossaurinho de pelúcia, o prêmio master de uma grande aposta, o resultado bem sucedido depois de tanta dedicação. Era a hora de sentir orgulho do homem que seu irmãozinho se tornou.
Itachi colocou as mãos nos bolsos e olhou para o quarto uma última vez. Sem dizer mais nada saiu e deixou que o irmão desfrutasse da “paz” que ele queria.
—Uchiha, finalmente te encontrei-
Sasuke escutou a voz feminina e encarou o corredor que havia um grupo de quatro médicos de onde uma mulher loira saiu os deixando para trás indo até ele. A loira parou a sua frente e estendeu a mão para cumprimentá-lo.
— Dra. Senju. — Sasuke leu o nome bordado no jaleco branco da mulher e olhou sério para os olhos dela — Alguma novidade otimista?
— Prazer, senhor Uchiha. Sou orientadora de Sakura na faculdade — A loira se apresentou percebendo que o homem tentava lembrar-se de onde a conhecia -Meu pai, doutor Senju, foi quem prestou os primeiros socorros e é responsável por Sakura. Vim imediatamente quando soube o que ocorreu… Se não se importar, irei tomar a responsabilidade da internação de Sakura a partir de agora, minha especialização é neurologia- disse de forma profissional.
Sasuke avaliou a mulher e os homens atrás dela. Os olhos astutos corria de um para outro e depois voltava para a mulher que o encarava séria. Lembrava-se de Sakura falar sobre sua orientadora e o quanto estimava aquela mulher.
— Não me importo. — respondeu e recebeu acenos positivos dos médicos atrás da mulher — Sakura a tem como um exemplo, acredito que faça valer este posto, não é? Por ela? — desafiou sem perceber. Seus nervos estavam a flor da pele, não estava com a razão intacta para equilibrar seu tom de grosseria.
Tsunade acenou para o grupo que estava atrás de si que se retiraram e a mulher dedicou sua atenção para o moreno.
—Vou ser bem direta, Sasuke, por que entendo sua preocupação e também tenho um carinho imenso por Sakura e é por ela que estou voltando a atuar em um hospital- Tsunade abriu a pasta que estava em seus braços puxando uma folha -Realizei novas tomografias agora a tarde e também retirei algumas amostras de sangue apenas para verificar como está a condição de vitaminas e anticorpos… A boa noticia é que não temos coagulação no cérebro o que diminui chances de uma sequela incorrigível, o que acontece é reação que a coronhada causou no impacto, foi em um lugar frágil logo atrás da orelha esquerda e a queda ao chão no mesmo lugar do impacto pode ter sido mais um agravante para o inchaço que é o responsável pelo estado de… — Tsunade parou e soltou um suspiro -Um estado de coma até que o próprio corpo da Sakura reaja possibilitando que ela retome os sentidos e acorde. Estamos combatendo essa lesão com medicamentos por via intravenosa mas não podemos lutar contra o tempo que o corpo dela precisa para se recuperar… -
Tsunade dizia alternando o olhar entre os exames de Sakura em suas mãos e para as orbes negras de Sasuke que a encarava.
— Nenhuma estimativa…? — ele perguntou em tom mais baixo voltando seus olhos para o quarto e sua namorada inconsciente.
— Sinto muito. — Tsunade simplesmente respondeu o contornando e entrando no quarto parando quando abriu a porta e o encarou -Mas sabe, Uchiha… Você sabe mais do que ninguém que essa menina sempre nos surpreende. Espero que continue do lado dela- disse antes de entrar no quarto.
Sasuke ficou perdido, sentindo seu corpo cansado e fraco pedir por apoio. Viu Tsunade conversar com Manu e ela assentir com a cabeça escutando cada palavra, viu Sakura deitada respirando com auxílio de aparelhos e a incerteza do que iria acontecer dali pra frente era demais para sua capacidade de parecer indiferente. Virou-se, dando as costas para o vidro, no mesmo momento em que as duas mulheres olharam para ele e partilharam algo.
Minutos depois ele estava dentro do quarto, sentado ao lado da maca onde ela estava ligada aos aparelhos.
Passou a mão pelos cabelos antes delas irem ao encontro dela, levantou-se para poder ver melhor o rosto mais pálido que o normal dela e fez um carinho ali nas bochechas sentindo falta do rosa que elas tomavam quando ele fazia aquele gesto.
—Estou aqui…- Sasuke sentindo a necessidade de avisa-lá.
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Em primeiro momento, sabia que não poderia fazer nada. Ia para o escritório e se distraia um pouco, sempre atento ao celular e dando uma passada no hospital quando podia. Depois, seguia direto para o hospital e não conseguia acalmar seus nervos com distrações banais. Agora, não conseguia sair de lá, não conseguia pensar em outra coisa.
Segurou, finalmente, a mão dela entre as suas. Estavam frias, o quarto era frio.
Estava quase dormindo sentado, mas quando cochilava acabava acordando assustado e voltando a olhar para ela.
O sol despontava nas cortinas de correr do quarto, logo a enfermeira da manhã entraria e o mandaria comer algo e dormir um pouco, mas ele não queria sair dali. Já pensava nos argumentos que usaria para calar qualquer pedido incomodo e arregalava os olhos para parecerem menos cansados, quando a porta se abriu e Tsunade deu-lhe bom dia.
—Porque não vai descansar hn?- Tsunade perguntou enquanto verificava a medicação na intravenosa -Seus pais já estão pelo hospital- avisou.
— Já dormi. — respondeu seco se ajeitando na cadeira e cruzando os braços sem dizer mais nada.
—Oh claro… — Tsunade sorriu minimamente -Quando lhe concedi permissão para ficar no quarto além dos horários de visita não pensei que ia ficar aqui mais de doze horas seguidas, Sasuke. Tenho certeza que outras pessoas podem cuidar dela por algumas horas na sua ausência-
Tsunade já começava a conhecer os rostos que vinham seguidamente naqueles quatro dias em que Sakura estava internada. Além de Sasuke, sempre encontrava alguém da família Uchiha na sala privada ou ao lado do moreno no quarto com Sakura pelos poucos minutos liberados. Com a convivência diária com Sakura, sempre ouvia falar de Ino e não teve dificuldades para identificar a loira que nas poucas vezes que a viu não carregava mais toda a energia que a rosada falava, de todos os jovens que de tempos em tempos vinham ao hospital conversara mais com Hinata e o loiro gritão e irritante que a acompanhava sempre trazendo algum lanche para Sasuke.
—Estou bem- Sasuke reforçou -Quando fará novos exames?- perguntou.
Tsunade abriu a boca e a fechou sem dizer nada, seu olhar desceu ao rosto de Sakura que parecia estar em apenas um sono tranquilo.
—Já faz cinco dias, doutora Senju- Sasuke disse a fazendo prestar atenção em si -O que pretende fazer?-
Tsunade olhava para a sua prancheta, sem realmente ler. Ela sabia a expressão que o Uchiha tinha naquele momento, era umas das coisas que ela menos gostava na área que escolheu. Não saber responder algo era imensamente perturbador, não poder fazer nada e ter que expressar isso em palavras.
— Senhor Uchiha… Sasuke- Tsunade corrigiu-se firme -A medicação que ela está tomando desde ontem não mais atinge o sistema nervoso, tudo indica que será questão de horas, dias… Como já te disse várias vezes, isso depende da reação do corpo dela também. Acredite estou fazendo tudo o que está nas minhas mãos e quando não estou aqui, estou realizando pesquisas por algo novo, com licença- disse retirando-se do quarto.
Sasuke esfregou o rosto com exasperação. Era inconcebível que isso estivesse acontecendo, algo que não entrava na cabeça dele. Muitos sentimentos se erguiam e desintegravam dentro de si. Tantos sentimentos que ele era incapaz de distinguir. Esfregou os olhos irritados, o sono acabava com suas faculdades mentais e tudo ficava sem sentido. Deixou que um pouco de ar entrasse com calma, aspirou de foma ainda mais calma tentando desfazer os nós dentro de si.
— Sakura… — ele fechou os olhos e deixou que o nome escapasse de sua boca de forma lenta e quase dolorosa. Ficou instantes assim e abriu-os somente para vê-la do mesmo jeito. — Você não pode fazer isso comigo, garota. — ele disse desolado, olhando para ela como se estivesse com todas as suas forças esgotadas e implorasse por esperanças — O jogo ainda não acabou, você não pode desistir agora.
Os bipes eram as respostas que ele não queria ouvir. Era suas únicas respostas naquele quarto vazio.
— Você ainda tem uma aposta pra me pagar… — murmurou quase sem voz.
Ele olhou para o arroxeado perto da orelha e sentiu seu sangue ferver. Respirou mais uma vez e apoiou os cotovelos nos joelhos, fechando as mãos em frente ao rosto e olhando cada detalhe dela num silêncio íntimo.
O dedo indicador foi automático até a pele branca, os lábios secos. Voltou à posição original, observando sem pausa para a mulher ali deitada. Ela estava tão frágil, tão necessitada de proteção… Onde ele estava quando ela precisou dele? Como pôde deixar que aquilo acontecesse? Ela era valiosa, constatou. Muito valiosa para que deixasse que ago ruim acontecesse. Ela não podia quebrar, ele não era capaz de consertá-la. Suspirou, sentindo-se fraco, impotente mais uma vez.
Recostou-se na poltrona e olhou para o teto, sentindo as costas lamentarem a falta de um colchão macio. Via as nuances de branco e bege claro que desenhavam ondas naquela superfície. Parado assim, focando seus olhos lá, ele conseguia ver movimento. Pensou que poderia ficar horas assim, então se deu conta do que estava passando.
Olhou surpreso para o relógio em seu pulso, e depois para a mulher ali deitada. Cinco dias desde o fatídico dia. 4 dias sem conseguir pisar na empresa. 3 dias sem conseguir dormir mais que 4 horas.
O polegar alisou a aliança em seu dedo, um sorriso triste brotou em seu rosto e o cabelo foi desalinhado. Ele não se reconhecia, não era o mesmo de antes.
Sakura havia o tirado completamente de seu eixo e ele sequer havia percebido.
Virou-se ao escutar as leves batidas na porta revelando Mikoto segundos depois. A morena sorriu amorosa para filho antes de fechar a porta e caminhar até ele depositando um beijo na testa de Sakura antes de fazer o mesmo com ele.
—Oi, filho- Mikoto disse carinhosa fazendo um carinho nos cabelos de seu filho mais novo que inconsciente encostou sua cabeça no ventre da mãe recebendo o carinho -Vá descansar, querido. Irei ficar com ela enquanto você não estiver-
—Mãe- Sasuke se desencostou.
—Nada de mãe. Eu vim especialmente para isso, Itachi disse que você não sai nem para comer… Vá com ele e durma um pouco, filho. Prometo que te ligo na mesma hora se algo acontecer- Mikoto pegou a mão do moreno -Escute sua mãe, não vai querer levar um xingão da Sakura quando ela acordar por não ter se cuidado. Descanse e depois você volta para ela sim?-
Sasuke olhou para Sakura mais uma vez. Era ilógico seu corpo não querer sair dali, apesar de seu cérebro insistir que seria melhor. Levantou-se de uma vez e deu lugar para que sua mãe se sentasse. Ficou parado sem saber muito bem o que fazer. Esfregou o rosto mais uma vez e sorriu agradecido para a mãe que o observava atentamente com um semblante bondoso e sereno.
—Vá logo, menino, seu irmão está te esperando- Mikoto disse dando dois tapinhas no braço dele.
— Me ligue. — ele pediu dando as costas antes que voltasse para trás.
Foi recepcionado por um copo térmico com café fumegante e um sorriso tranquilo de Itachi. Aceitou fechando a porta atrás de si, e vendo Manu comer algo sentada na sala vip junto de Hinata ao passarem na frente.
— Como estão as coisas no cassino? — perguntou em se importar muito.
— Não se preocupe com isso. — Itachi convenceu saindo pelas portas automáticas — Você está parecendo um tipo de zumbi, daqueles que tem só metade do cérebro, sabe? Até andando igual você tá, só falta babar assim. — e imitou um zumbi no estacionamento do hospital fazendo Sasuke segurar a fraca risada que surgiu. Itachi sorriu com isso e abraçou o irmão pelos ombros. — Você tá acabado, mas eu vou cuidar de você como nos velhos tempos. Se continuar assim vai levar um pé na bunda da Sakura quando ela te ver.
— Qual é… — Sasuke resmungou se desvencilhando do irmão que ria.
Agradeceu pelo humor de Itachi, ele sabia como amenizar qualquer clima ruim em segundos. Sentou-se no carona e logo percebeu que estavam indo para o lado contrário de sua casa. Não demorou muito até que entrassem no estacionamento de um prédio, talvez duas quadras do hospital.
— Itachi? — perguntou assim que o mais velho saiu do carro e abriu a sua porta fingindo ser um cavalheiro.
Itachi riu e tirou uma chave do bolso enquanto subiam até o quarto andar, pararam em frente a uma porta que Itachi destrancou revelando o apartamento com pouca mobília.
— Espero que goste da decoração, foi mamãe quem deu a ideia. Bem, você está apenas dez minutos do hospital. — Deixou o objeto nas mãos de Sasuke, que o encarava sem entender o que estava acontecendo — Descanse e seja bem vindo ao lar.
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