Jogo para dois
5 Desajustados
Notas iniciais
— Gata rosada, atende a porta pra mim — a voz de Ino era baixa por estar debaixo da ducha.
Sakura levantou-se do sofá onde estava vendo o filme escolhido por Ino e foi ate a porta do apartamento a abrindo revelando o homem ruivo.
— E aí do rosa — Gaara a cumprimentou simpático — Desculpe não queria atrapalhar a reunião de vocês
— Oh… Não, não — Sakura deu espaço para ele adentrar o local — Ela está no banho — viu o namorado da amiga acenar enquanto pegava algo na geladeira.
Voltou a se sentar onde estava retomando o filme quando ele sentou-se ao seu lado.
— Então, o que faz da vida? — Gaara perguntou enchendo a boca com os chocolates que pegou.
— Eu curso medicina — sorriu.
— Ow- Gaara fez uma careta de pavor -Isso é grande ein…-
— E sofrido — Sakura suspirou, não queria nem lembrar quando as provas começassem.
— Estudava na Konoha, né? Me lembro de você — Gaara apontou para ela — Sempre com a Yakamana
— Não é como se existissem muitas pessoas de cabelo rosa- Sakura acenou positivo.
— Parem de fofocar — Ino apareceu já pronta secando os cabelos e deu um selinho no namorado.
— Diga Sakura, ela sempre me comia com os olhos, não? — Gaara puxou Ino para seu colo.
— Não se ache, rapaz- Ino balançou os cabelos loiros — Eu tinha muita coisa interessante pra fazer...
— Não minta, Ino — Sakura disse recebendo o olhar mortal da Yakamana — Que foi?
Gaara já gargalhava alto enquanto Ino estava roxa de vergonha.
— Ai ai — O ruivo secou as lágrimas e deu um beijo no rosto de Ino — Onde as garotas querem ir almoçar? Temos tempo antes de ir trabalhar
— Ooh! — Ino se levantou em um pulo — Precisamos ir no restaurante novo restaurante do pai do Naruto! Aquela comida é divina!
— Certo- Gaara se pôs em pé — Precisa passar em casa coisa rosa?
— Eu agradeceria, preciso pegar meu livros já que Ino não quer me deixar dormir em casa hoje de novo — Sakura sorriu e Ino a abraçou. Há muito não se viam e agora parecia que toda a saudade batia com força dentro das duas amigas.
— Está presa a nós, testuda- Ino deu um tapinha na testa coberta pela franja.
Terminaram de se arrumar enquanto Gaara esperava pacientemente na sala.
— Vamos garotas- Abriu a porta do carro para as duas de modo cavaleiro.
— Está dando uma de educado por causa da testa?- Ino perguntou risonha enquanto o namorado sentava no banco do motorista.
— Sou sempre um amorzinho- Gaara piscou para ela.
— Não vão começar a se pegar aqui, né?- Sakura perguntou no banco de trás.
— E… Ela te conhece mesmo- Gaara balançou a cabeça dando partida no carro.
**
— Arght, Temari!- Shikamaru reclamou enquanto preparava as bebidas.
— O que foi? — Naruto ria da cara dele.
— O que foi? — Shikamaru imitou Naruto -Essa garota e problemática
Já fazia horas que ficava olhando os velhos desviarem a atenção de seus jogos quando a loira passava por eles levando os pedidos.
— Ainda bem que a Hina trabalha no escritório e nem no domingo vem — Naruto entregou mais um Black Velvet pronto — Domingo esses velhos vem aqui achando que elas são parte do cardápio, mas você sabe que a Temari sabe se defender e muito bem
— E aí, seus malditos — Kiba sentou-se no banquinho do balcão — Vão me assistir tocar hoje?-
— Pegando a conversa nesse exato momento você pareceu um grande puto Kiba — Neji bebericou um pouco do seu drink.
— Você não deveria estar comendo alguem, não?- Kiba o encarou irritado — Está de folga e vem pro trabalho? Vocês, Hyuuga, são estranhos
— O que posso dizer se trabalho no melhor lugar da cidade?- Neji deu de ombros — E esse mesmo lugar me permite ver belas moças para cortejar?
— Vocês me dão nojo — Ino forçou um dedo na garganta — 1 jhonny walker e dois bloody mary pra ontem, Shika- pediu vendo o moreno fazer um sinal positivo com a mão.
— Cadê a Sakura? — Naruto perguntou, se preocupou um pouco com a novata pois não era raro algum cliente tentar se passar com as meninas.
— Lá vem ela — Ino sorriu para a rosada que vinha com a bandeja contra o seu corpo e o rosto com uma careta.
— Ele falou que a minha saia ficaria muito mais linda fora de mim — Sakura sabia que a irritação a fazia parecer outra pessoa.
— Estão te incomodando Sakura? — Neji perguntou — Sabe que qualquer problema é só avisar...
— Tudo bem — Acenou sem graça. — Nada que uma cara de mal não resolva. — comentou mais bem humorada fazendo um careta.
— Só mais meia hora amiga — Temari juntou-se ao grupo.
— Ver vocês assim, no meio do expediente, é a prova necessária pra saber que os Uchiha não vieram — Neji encarou o grupo.
— Fica quieto aí, o do RH — Kiba se levantou — Bem, vou indo porque tenho que fechar a noite- o garoto se levantou e foi até a escada que dava acesso a boate no andar subterrêneo.
— Não é como não fizéssemos isso quando eles estão aqui — Naruto deu de ombros — O que esta achando do Sharingan, Sakura? — se virou para a menina com um sorriso gentil.
Sakura olhava pelo local, era lindo e era inegável a magia que o lugar trazia as pessoas.
Ouvindo Neji falar sobre a ausência dos irmãos, Sakura notou pela primeira vez na noite que não tinha visto nenhum dos dois ali e sentiu-se um pouco intrigada.
“Pelo amor de deus, é domingo Sakura”
— Eu estou adorando, sério- Sakura confirmou com um sorriso. — É bem agitado, cheio de gente bonita… O pessoal é bacana. — completou recebendo um sorriso de cada um.
Era apenas o seu segundo dia ali, mas em tão pouco tempo o cassino já tinha trazido Ino de volta, conheceu pessoas legais com ela que realmente estava fazendo as coisas serem mais fáceis.
— Bem vinda a equipe novata — o loiro sorriu para ela e piscou — Somos uma grande família de miseráveis e inúteis, mas fazemos as noites mais divertidas é o que vale não?
Ela não precisou responder pois os outros ali já haviam gritado em resposta concordando com o Uzumaki.
***
Sakura acordara na cama de casal ao lado de Ino. Muitos anos haviam se passado, mas ela ainda encontrava conforto ao conversar com a amiga. O relógio já marcava seis da manhã e Ino não mostrava sinais de que ia acordar tão cedo. Dormira por volta de 4 horas, pois haviam fechado mais cedo naquela madrugada.
O Sharingan era fechado às segundas, então ela relaxou sabendo que pelo menos sua semana não começaria tão alarmante.
Estudar e ir direto para o trabalho se tornaria um martírio, mas ela precisava e muito passar por aquela vida. Riu sozinha imaginando que pelo menos estaria treinando para seus plantões de mais de 24 horas.
Olhou para a amiga dando um leve sorriso. Estava se sentindo mais leve, mas não menos machucada. A saudade era um sentimento que ela aprendera a conviver, era um sentimento que ela levava consigo como forma de criar uma base forte para alcançar seus objetivos.
Sonhara com o sorriso do pai e isso a manteve feliz durante aquele dia.
Quando a coragem para levantar e o susto que o relógio deu nela mostrando que logo deveria estar estudando, ela se jogou da cama e deu um beijo na cabeça da amiga rumando para seu próprio apartamento.
Aquilo estava uma zona. Uma zona!
— Fala sério — ela choramingou jogando a bolsa pesada de livros no canto da sala e correndo até seu quarto.
Morava sozinha, como conseguia fazer tanta bagunça? A resposta era simples, aprendera a comer, beber, ir no banheiro… tudo lendo livros, mas faxina era um problema ainda…
Depois do banho, verificou se não tinham roubado nada em sua ausência, aquela vizinhança era terrível, saiu de casa pensando seriamente em comprar um cachorro.
Havia feito um trabalho em grupo, participado de duas palestras, pego livros na biblioteca, comido um sanduíche esquisito que sua amiga disseram ser vegano e agora xingava seu carro que não queria funcionar no estacionamento da faculdade.
— Inferno!!!! — ela disse entredentes vendo pessoas que ela conhecia saírem do estacionamento da faculdade sem olhar para ela.
Estava cansada, exaurida de tanto pensar. Sua bolsa estava pesada de tantos livros e a barriga roncava de fome. O ônibus acabara de passar e o próximo passaria em mais ou menos uma hora.
Um vento gelado fez ela se abraçar e a primeiras gotas de chuva caíram sobre sua cabeça. Os livros caros foram seu primeiro pensamento ao sair correndo de lá quando começou a engrossar e entrar na conveniência do posto ali do lado.
— Santa mãezinha… — reclamou sozinha tirando o casaco que havia enrolado em torno da bolsa para proteger os livros. O cabelo estava pingando e os ombros encharcados. — É muito azar para uma pessoa só… é muito azar… — pensava alto andando entre as prateleiras cheias de guloseimas até o balcão para pedir um telefone de táxi.
Antes, porém, que chegasse a seu destino, a visão de um homem sentado de cabeça baixa encarando uma xícara de café fumegante a fez retesar.
Ela engoliu em seco vendo a expressão sofrida dele, pensativa, angustiada… Diferente do ela conhecia. Tremeu uma vez quando abriram a porta do lugar deixando um vento frio entrar, seus pés mexiam-se para frente e para trás, pensando se deveria ou não ir até ali.
Ele pareceu sair de um transe e mexeu no café algumas vezes dando um pequeno gole no líquido quente. Sakura seguiu o movimento, as mãos brancas e grandes, os braços protegidos por um casaco preto e caro de gola alta, o pequeno pedaço de cachecol visível no pescoço, o cabelo médio e negro que tinha um movimento natural de tão liso e então os olhos fixos em si com certa surpresa. Ela estremeceu pela segunda vez.
— Sakura? — a voz saiu um pouco mais baixa do que o normal e sem o tom confiante.
Ela apertou os lábios sentindo-se constrangida, um problema sobre si é que não tinha boas qualidades sociais. Dentro do cassino teria o que conversar, conhecia os jogos, sabia sobre apostas, mas ali… ela respirou fundo sentindo o olhar meio atordoado e curioso dele em sua direção e deu passos tímidos até chegar mais perto.
— Boa noite, senhor…
— Sasuke. Já disse pra me chamar assim — concertou dando um sorriso fraco que não passava toda a audácia e elegância que ele esbanjava, parecia, aos olhos de Sakura, deprimido.
Sasuke se sentiu desconfortável com aqueles olhos verdes olhando intensos para si, ele sabia que ela estava lendo-o e sabia melhor ainda que não estava em seu melhor momento para parecer altivo. Ele estava desgastado.
— Er.. foi bom ver o sen… você. — ela disse ligeiramente tímida arrumando a alça molhada em seu ombro. Sasuke percebeu enfim o estado que ela estava e apontou para o banco a seu lado chamando a garçonete com o dedo levantado — Eu tenho que ir, preciso estudar ainda e… — um relâmpago cortou os céus e um forte trovão fez Sakura olhar assustada para as paredes de vidro vendo a chuva fazer um estrago junto do vento frio que não perdoava as copas das árvores e nem nada que estivesse com azar o suficiente para estar lá fora.
— Sente-se — ele disse chamando a atenção dela.
Ela reconhecia o chefe quando ele falava daquele jeito, e sem pestanejar ela se sentou no banco confortável vendo o vento tentar levar tudo do lado de fora. Suspirou vendo suas chances de ir embora rápido e se esquentar no cobertor enquanto lia a matéria do dia indo pelo ralo.
Sasuke a encarava de soslaio. Ela mostrava sinais claros de nervosismo, ou seria timidez? Os olhos grandes fixavam-se num ponto da parede de vidro e, ela parecia não ter noção de quão perigosa ela parecia ficar daquele jeito, ainda mais com os cabelos presos do jeito que estavam. As bochechas dela começaram a corar e ele percebeu que ela percebia que estava a encarando.
— Um cappucino, por favor — ele disse quando a atendente sorridente parou em frente aos dois com seu uniforme do posto de gasolina e o boné com o logo de uma empresa de petróleo.
— É pra já, senhor. Mais alguma coisa? — Ela parecia ser extremamente simpática, mas para dois observadores como Sasuke e Sakura, percebiam os olhos intensamente focados na boca do homem, o dedo anelar com uma marca branca onde deveria ter uma aliança e o papel com um número mal escondido entre os dedos dela.
Sakura bufou sem se dar conta do tão alto que foi e Sasuke sorriu de canto ao ver que ela havia percebido o mesmo que ele. Um papel pareceu ao lado de sua xícara de café e o número da moça estava bem desenhado em caneta vermelha. Ele jogou rapidamente na lixeira ao lado, realmente não estava com clima para aquilo naquela noite.
— O que faz a essa hora… — ele questiona e logo olha para ela vendo a bolsa novamente. — Faculdade… — ele conclui recebendo um sorriso contido dela que acena positivamente.
— Acabei de sair da aula, estava esperando um ônibus quando começou a chuva. disse sentindo idiota por ter falado tanto sem necessidade, era capaz dele pensar que ela estava pedindo uma carona.
— Posso te dar aquela carona pendente. — ele disse como se lesse os pensamentos dela.
“Oh, droga!” Sakura pensou vendo uma xícara maior com cappuccino sendo colocado a sua frente pela mesma moça, que não demorou muito para sair e Sakura descobriu o porquê, Sasuke estava com o corpo virado em sua direção.
— Não precisa, Sasuke — disse baixo sentindo o nome dele sair de forma estranha de sua boca. Estremeceu mais uma vez quando a porta foi aberta e uma rajada de vento frio entrou.
— Beba. — ordenou mais uma vez apontando para a xícara.
Sakura fez uma careta mínima olhando para a xícara a sua frente. Ele era seu chefe? Sim. Ele era mais rico e poderoso? Sim. Mas ela gostava que ficassem dando ordens a torto e a direito? Ah, ela não gostava. Mas o cappuccino parecia tão quentinho. Bebeu o primeiro gole vendo-o se voltar novamente para frente e se afundar em quaisquer pensamentos que estivessem o incomodando antes de sua chegada.
Na cabeça do homem havia algo que o deixava daquele jeito e seu nome era Fugaku Uchiha. Contraiu o nariz sem perceber e Sakura capturou o movimento feito a milésimos. Ele ficou quieto e ela permaneceu tensa, como se não tivesse que estar ali, bebericando um cappuccino ao lado de seu chefe calado e perigoso. Ele era perigoso e um frio na barriga a fez lembrar que ela devia algo a ele, e podia muito bem cobrar naquele momento.
— Estuda o quê? — ele perguntou de repente fazendo ela quase se sobressaltar.
Era estranho as reações dele. Não parecia realmente interessado em iniciar uma conversa, é mais como se fosse uma necessidade. Ela via que algo o perturbava, era nítido. A mão que não segurava a xícara estava apertando em um punho em cima da coxa, ele estava tenso, dava-se para notar pelos ombros. Ele queria se distrair, era o mínimo que ela poderia fazer por ele.
— Faço medicina — respondeu gentil bebericando mais um pouco de sua bebida e olhando-o por cima da xícara. Ele também a olhou se mostrando realmente curioso agora.
— Medicina? Como consegue conciliar trabalho e faculdade? Visto a hora que sai…
— Bom, eu deixo para estudar mais na segunda, mas provavelmente terei que sair e ir direto para o Sharingan. — ela respondeu medindo bem suas palavras e vendo uma osbrancelha dele arquear.
— Você chega em casa que horas? — perguntou virando-se um pouco par ela.
— Bom, ainda não sei dizer ao certo. Acho que depende do movimento… — disse com cautela.
Sasuke franziu as sobrancelhas. Se ajeitou no banquinho encarando bem a moça que agora parecia mais nova do que quando a conhecera no Sharinga, mais humana talvez.
— E depois disso?
Sakura achou realmente estranho aquele interrogatório, mas aparentemente ele só estava curioso. Qualquer um fica quando ela diz o seu curso. É como se ela não tivesse vida além dos estudos. O que não deixava de ser verdade.
— Bom — suspirou cansada e sentindo a cabeça começar a doer. Desviou seus olhos paa a xícara em sua mão e para o restinho de cappuccino que começava a esfriar — Durmo umas 3 horas e meia ou 4 horas, estudo, tento limpar a casa… depois faculdade… trabalho… — disse pensativa vendo como era triste sua vida sendo falada em voz alta. Fez uma careta ao constatar isso e escutou uma breve risada. Olhou sentindo a própria boca se moldar num sorriso automático em reação ao riso dele.
— Vai acabar surtando. — ele disse mais humorado deixando a xícara com o café frio em cima do balcão.
— Tenho certeza que depois de formada vai ser pior. — disse sem pensar em tom mais descontraído.
Sasuke gostou daquela atitude, se sentiu bem tendo os problemas sendo deixados de lado em prol de uma conversa sem muita pretensão que estava fazendo ele conhecer uma nova face da leoa do poker.
— Como aprendeu a jogar? — ele perguntou de repente. Sakura virou o cappuccino que sobrara da xícara e virou-se para ele sem realmente olhá-lo. Ela se recordava do momento como se fosse há poucos dias. Uma mesa improvisada com caixotes de feira, um baralho antigo e gasto e os olhos divertidos e encorajadores do pai lhe explicando as regras com toda a paciência do mundo. Ela tinha 7 anos, mas jamais se esqueceria daquele dia.
— Meu pai… ele trabalhou em cassino e me ensinou. — ela disse desviando os olhos para ele.
Sasuke viu um lampejo de dor naquela imensidão verde. Ficou mais curioso em relação àquela jogadora. As pálpebras ficaram murchas de repente e ele se perguntou se ela sofria os mesmos problemas que ele. Pensou que seria indelicado perguntar, então meneou a cabeça de forma discreta.
— Tenho que elogiar suas habilidades de blefe e jogadas — ele disse com a sensação que ela merecia escutar um elogio para distrair o que quer que estivesse em sua mente, assim como ela conseguiu distraí-lo. — Não quero me gabar, mas são poucos que conseguem me surpreender.
Sakura não conseguiu segurar a quentura que subiu por seu rosto. Juntou as mãos em frente ao corpo e sorriu agradecida sem quiser olhar diretamente para ele.
Sasuke percebera na hora que ela não ficava confortável com elogios, talvez por ser tímida demais ou por não ter costume em recebê-los. Gostou dessa constatação, ela finalmente se abria para ele, porém com as respostas vinham também mais perguntas. Ela tinha uma história, uma história que não deveria deixá-lo curioso, mas juntando todo o conjunto, era impossível não ficar.
— Obrigada, Sasuke. — ela respondeu baixo se abraçando quando a porta foi aberta novamente. Sasuke se levantou na mesma hora se sentindo até mais leve e, num único movimento, retirou seu casaco e estendeu sobre os ombros dela.
Sakura se surpreendeu com o gesto e já ia devolver quando recebeu um olhar que a repreendia por cima do ombro. Ele usava uma blusa cinza com mangas longas e um cachecol de tom mais escuro, já estava de costas pegado a chave do carro.
— Venha, vou e levar pra casa. Não quero ter funcionários afastados por resfriado. — emendou rapidamente quando viu a boca dela se abrir. — Venha.
A garota ficou paralisada enquanto o perfume caro e suave dele batia em sua cara mostrando o poder que ele exalava. Se sentia extremamente desconfortável pegando carona com ele, mas poxa… “Quando eu vou poder andar de carro importado de novo??” perguntou mentalmente tomando um impulso mais empolgação.
Ela viu o belo mustang estacionado abaixo da cobertura do posto e agradeceu por não ter que encarar aquela chuva.
(...)
— … e tipo, ele tinha uma mania na mão! — Sakura gesticulava animadamente depois de 15 minutos no carro. Sasuke estava realmente surpreso com aquela nova face dela, tão infantil e tão espontânea, que ele sorria sem perceber — Aí ele gritou TRUCO, eu, no meio da empolgação gritei um SEIS batendo na mesa como uma doida. Acredita que ele arregou? Eu não tinha nada na mão! NADA! — ela terminou rindo de sua lembrança enquanto enxugava o canto dos olhos.
— Nossa — Sasuke comentou soltando uma breve risada enquanto seu GPS sinalizava a próxima curva. — Quantos jogos de cartas você conhece? — perguntou abafando uma tosse chata. Sakura o olhou com preocupação, mas ele não deu chances dela falar algo. — Seu pai ensinou tudo?
Sakura respirou fundo sentindo aquele cheiro de couro novo do carro, ele parecia que não fazia barulho e nem vibrava, dava até um soninho. Mas, se recompôs no banco quando viu que estava se aconchegando demais no banco confortável.
— Além do poker e do truco, eu jogo buraco, 21, canastra, escopa, paciência… — ela ia contando nos dedos e olhando para o teto. Sasuke achou engraçada a cena, era impossível visualizá-la como aquela expressão feroz sendo tão espontânea, mas ele não sabia de qual ele estava gostando mais.
Chegaram ao bairro da garota e ele observou como o local era escuro, com pessoas caídas nas esquinas com garrafas de bebidas bem presas as mãos, outros sentados em cantos fumando e cheirando drogas sem medo algum. Normalmente se esquecia dessa realidade, mas ela era real, muito mais real do que tentava fingir ser. E Sakura morava ali.
O carro parou em frente à uma casa pequena, com a tinta descascada, um muro alto protegido por um portão de grades com a pintura gastas e um jardim mal cuidado. Sakura tirou o casaco sentindo o corpo esfriar e deu um sorriso para o homem.
— Muito obrigada pela carona, Sasuke. E desculpe por ter falado demais… — disse envergonhada.
Sasuke levantou a mão parando o movimento dela e acenando com a cabeça.
— Fique com ele, vai se molhar até chegar lá. Não precisa agradecer… — “Eu é que agradeço por me fazer esquecer” completou mentalmente.
Sakura ficou pensativa e mordeu o lábio não sabendo o que fazer, então decidiu se ajeitar melhor no casaco e suspirou derrotada.
— Obrigada. Amanhã eu devolvo no cassino. Até amanhã, senhor.
Não dera tempo de repreendê-la, ela saiu do carro e correu até o portão, se atrapalhou ao abrir o portão, e então sumiu para dentro do quintal escuro.
Sasuke, mais uma vez, deixou-se rir da garota. Saiu daquele lugar sentindo-se relaxado, curioso e animado para mais uma conversa com a dona dos olhos verdes mais fatais que conhecera.
***
Sasuke dirigiu pelo resto do caminho intrigado, ela se revelava cada vez mais interessante e ao mesmo tempo trazia mais curiosidade ao Uchiha, lançava olhares para o banco ao seu lado agora vazio.
A chuva não havia enfraquecido e castigava as pessoas que andavam a pé pelas ruas de Tokyo, estacionou o mustang na vaga do prédio e de lá via as luzes do apartamento do sétimo andar acessas.
Correu ate o acesso ao elevador e encostou a cabeça contra a parede gelada aguardando o seu andar, as portas abriram e assim que entrou dentro do apartamento foi recebido pelo irmão que deu um pulo do sofá,
— Sasuke! — Itachi levantou-se afoito indo em sua direção, observando-o como se procurasse algo em sua fisionomia — Onde esteve?
— Tomando um café Itachi — Sasuke tirou o cachecol e o pendurou atrás da porta.
— E o telefone? Enfiou no rabo foi? — Itachi bufou -A mãe ligou o dia todo pra cá! Tive que dizer que você tava dormindo pra ela não surtar-
Sasuke passou a mão pelo cabelo de forma impaciente. Itachi já estava subindo o tom de voz e todo o seu bom humor estava escoando rapidamente.
— O que aconteceu? Já tô aqui, fala. — disse forçando uma calma que ele já não tinha.
Ele realmente não gostava de se estressar com Itachi, mas sabia o que viria naquela conversa e já sentia a paciência que arduamente tinha recuperado ir embora.
Itachi suspirou antes de começar. Passou a mão pelo rabo de cavalo tentando reservar um tom mais ameno pra tratar daquilo com seu irmão.
— O pai veio aqui. — disse de uma vez sem olhar para o irmão.
Sasuke soltou uma risada irônica e olhou para o lado, ignorando o olhar de Itachi.
— Queria que eu viesse fazer um chá?- Sasuke cruzou os braços.
— Para de ser infantil — Itachi aumentou o tom de voz mais uma vez perdendo o resto de sua paciência — Ele queria conversar, porra! Quando vai parar com isso, Sasuke?
— Você ta se ouvindo?- Sasuke apontou para a orelha -Fugaku traiu a nossa mãe e foi embora achando que aparecer meia duzia de vezes com presente nas mãos ia resolver tudo! Por favor me poupe do coitadismo irmão-
Itachi bufou e começou a andar de uma lado para o outro com a mão na cabeça.
— Você é muito…. rancoroso, Sasuke — disse num fio de voz. — Deveria ouvir a versão dele, talvez não tenha sido como achamos, na época ele nem teve tempo pra se explicar...
—Tem razão- Sasuke passou a mão pelos cabelos -Deveríamos ter esperado ele se vestir e tirar a vadia da cama da nossa mãe e ouvi-lo, realmente você tem toda a porra da razão Itachi!-deu um soco na mesinha de madeira que ficava ao lado da porta.
Itachi respirou fundo. Era sempre doloroso se lembrar daquele dia, da humilhação que foi, do desrespeito que gerou e a frustração que foi ver seu pai naquela situação. Mas já fazia tantos anos, o casamento de seus pais não estava nos melhores tempos. Mikoto, depois de um tempo o perdoou, não voltou, mas não o julgou mais. Itachi havia reatado um pouco do contato com o pai, e via que do jeito turrão dele, Fugaku estava se esforçando para se redimir, sabia que não tinha total perdão, mas estava se esforçando.
O mais velho queria ver sua família bem, queria que os problemas fossem deixados de lados, que o rancor, a amargura fosse deixados naquele passado gélido. Ele só queria uma chance de ver todos felizes novamente.
Um copo foi arremessado no chão e ele olhou assustado para a direção que Sasuke saía deixando os cacos de vidro jogados com violência.
Sasuke parou no meio do caminho, as mãos fechadas em punhos coladas na lateral do corpo, a respiração controlada.
— Ele não merece um filho tão gentil como você — a voz de Sasuke saiu baixa e logo ele entrou no corredor que levava aos quartos.
Entrou no quarto, fechando a porta atrás de si e se jogou na cama passando as mãos pelo rosto enquanto bufava o ar na tentativa da irritação ir junto.
Nunca gostara de brigar com Itachi e saber que Fugaku era o motivo disso o deixava mais chateado.
Levou as mãos no bolso frontal da calca jeans mas não sentiu o celular ali, levantou-se em alerta tateando os bolsos não achando o aparelho.
— No carro- suspirou pegando as chaves ao lado da cama e saiu do quarto.
Ao passar na sala Itachi ja terminava de recolher os cacos de vidro do chão e o olhou com as sobrancelhas franzidas.
— Só esqueci o celular no carro- Sasuke o tranquilizou fazendo sinal que já voltava.
A chuva continuava forte o que fez Sasuke correr até o carro e se fechando dentro do mustang para procurar o aparelho.
Olhou para o porta acessórios ao lado do cambio de marcha e lá estava o telefone, mas algo que não fazia parte dos objetos costumeiros do carro lhe chamou a atenção.
No chão a frente do banco do carona um caderno de capa preta com folhas de cerejeira estava jogado, Sasuke nunca tinha visto aquele caderno em toda sua vida, esticou o braço e o pegou abrindo para primeira folha.
“Sakura Haruno”
Sasuke sorriu de canto, por um momento pensou em voltar e devolver o caderno mas não pode negar a curiosidade de dar uma inocente olhada pelas anotações dela.
Antes de sair do carro pegou o celular e registrou o numero dela que estava anotado na primeira pagina e assim seguiu de volta para o apartamento com o caderno em mãos.
Lá estava ela mais uma vez chamando a atenção dele sem sequer perceber.
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