Jogo Da Amizade

9 Sábado: O dia do casamento - Tiara


Elvis não conseguia evitar a frustração por ter deixado uma coisa dessas acontecer. Mesmo tendo em mente que aquilo não era culpa sua, perder a tiara da noiva no dia do casamento era inadmissível para qualquer convidado da face da Terra. Ainda limpando o suor da testa, meio atordoado, o garoto se encostou na parede de cabeça baixa, mas ainda vendo o ônibus azulado se afastar, com a joia que deveria estar em suas mãos agora.

O que aconteceria agora? Prestar queixa? Isso adiantaria? Será que teriam que pagar o valor do kit para a loja? E o que Kyara diria? Ficaria furiosa? Preocupada com a gente? Provavelmente os dois. Olhou em volta, o ônibus sumindo de vista e nem sinal de Fernando. Elvis pensou em pegar o celular, mas lembrou que depois da pancada na testa do amigo, a tela do aparelho não acendia mais.

Então, eis que algo o tira de seu estado desanimador: uma buzina berrando insistentemente da esquina de onde viera, em uma curva calorosa, surge Thor, o jipe verde escuro, em alta velocidade, sem respeitar qualquer placa de sinalização. Fernando suado com metade do corpo pra fora da janela batendo na lataria do veículo, enquanto exclamava para Elvis entrar: “Vamo, vamo, vamo, entra logo, vamo atrás do bandidinho...”

Elvis foi restaurado em energia e correu para o jipe, dizendo para ir atrás do ônibus, pois o ladrão entrara.

— Que busão?

— Acelera! Ainda dá pra alcançar! Deve ter ido reto.

Mesmo não vendo mais o ônibus, Fernando pisou fundo no acelerador, buzinando para os retardatários que ficavam na frente.

— SAI DA FRENTE, PÔ! VAI PRA DIREITA, ESCROTO DE BOI! – tudo isso acompanhado da buzina e do ronco do motor do carro acelerando. Em resposta, ouviam xingamentos e ameaças dos outros condutores.

— LÁ! – apontou Elvis para um ônibus uma quadra na frente – É aquele!

Não havia mais como acelerar, pois a avenida estava cheia. Em um dado momento, todos ficaram parados. A adrenalina fazia Fernando comer as unhas da mão direita e Elvis ficar de cabeça pra fora da janela, espiando o movimento.

— Será que ele já desceu? – questionou Fernando.

— Eu não vi nenhum ponto de parada pra trás.

— Eu nem tinha pensado em ver isso – admirou o garoto no volante.

O sinal se abriu e os carros da frente começaram a se mover. O ônibus virou à esquerda e alguns segundos depois os garotos viraram também. Havia uma parada no meio do quarteirão. O veículo azul parou, algumas pessoas entraram e outras saíram, mas nem sinal do homem com a caixa branca.

Fernando se aproximava vagarosamente do ônibus até ele começar e se mover de novo. Agora eles estavam colados no enorme veículo. Nenhum dos dois falava nada, o medo reinava dentro de cada um. Mas o silêncio estava deixando-os demasiadamente tenso, até que Elvis não aguentou:

— O que faremos?

— Como assim?

— Quando ele descer com a caixa... O que faremos?

— Bom – começou Fernando – Eu não tinha pensado nesta hipótese ainda.

— Você acha que ele vai nos devolver de bom grado assim?

— A gente atropela ele?! – falou com uma pontada de dúvida.

— O que? Sério?

— Não sei, Elvinho, você só faz pergunta difícil.

— Acontece que é uma parte importante do plano. E se ele estiver armado?

— Ele não está armado.

— Como você sabe?

— Não sei, Elvis. Pergunta difícil de novo!

— Nando, é perigoso.

— É a coroa da Kyara!

— Mas é perigoso!

— Tá certo. Então você vai lá e quebra a cara dele — disse Fernando.

— Melhor atropelar – finalizou Elvis.

Quatro paradas depois pela longa avenida e nem sinal do sujeito. Enfim chegaram ao terminal, um enorme pátio com dezenas de coletivos de diversas cores, tamanhos, modelos, uns parados, outros em movimento. Estacionaram o jipe onde dava pra ver uma boa parte do pátio. Elvis não tirava os olhos do ônibus azul que vieram seguindo a avenida toda.

— Não o perca de vista – disse Fernando.

— Não vou.

O silêncio novamente os atingiu. A tensão aumentava tanto que era quase palpável no ar. O coletivo azul parou há quase cinquenta metros deles, algumas pessoas desciam, mas havia muito movimento no terminal. Dois autocarros da mesma cor passaram pelo caminho, fazendo Elvis se esticar para não perder o que acontecia. Um minuto se passou, as portas do veículo ainda abertas, mas ninguém mais saía. Fernando já começou a pensar onde poderiam ter perdido o ladrão. Olhava em volta, mas só o que se via eram pessoas entrando e saindo de outros carros. Parecia um formigueiro.

Então, uma súbita pressão abafou os pulmões de Elvis, impedindo-o de falar, mas sua mão procurou por Fernando desajeitadamente, para não desviar o olhar do homem que acabara de sair tranquilamente do carro azul.

Fernando levou um susto e avistou o que o amigo estava vendo.

— Vamos – disse ele abrindo a porta apressadamente. Elvis o olhou surpreso saindo do carro e o seguiu a passos largos, batendo a porta com força. Atrás deles ouviu-se o som do alarme de trava do jipe.

O homem seguiu por uma calçada que beirava o pátio até chegar em uma rampa para cadeirantes que o levaria para fora do terminal. Fernando ficou intrigado com a tranquilidade do rapaz, que agora jã não parecia ser tão alto quando quando fugia dos rapazes. Nem parecia que acabara de cometer um crime no meio da rua. Como uma pessoa pode praticar um ato desses e ainda sair livremente pela rua como se tudo estivesse bem? O homem estava no meio da rampa de acesso quando os garotos o alcançaram.

Fernando não pensou duas vezes e, num lapso de coragem e loucura, puxou violentamente a caixa que estava embaixo do braço do ladrão. Imediatamente o homem se virou, mas não teve tempo de reagir, pois Elvis já havia lhe dado um empurrão com todas as suas forças, fazendo-o se esbarrar nas barras de apoio da rampa, urrando com a falta de ar em seus pulmões.

— SAI DAQUI, SEU MERDA! – gritou Elvis. Por menos de um segundo, os dois se encararam. Então Fernando puxou o amigo pela camisa e ambos saíram correndo rampa abaixo e, sem nem mesmo olhar pra trás, só pararam de correr quando chegaram ao jipe.

O alarme de destrava soou e os dois pularam pra dentro. Fernando entregou bruscamente a caixa para Elvis, ligou a chave no carro e partiram dali apavoradamente, sem acreditar no que acabaram de fazer. Elvis tremia tanto que o banco do passageiro fazia barulho com a tremedeira. Fernando só não afogou o carro porque pisou o pé no acelerador: Thor deu um brado de vitória e partiu cantando pneu, levantando uma fumaça negra logo atrás.

Sem fôlego para falar direito, Elvis abriu a caixa para ver se estava tudo lá. Um momento de suspense pairou no ar, Fernando esperou pacientemente sem tirar os olhos dos retrovisores, até que o amigo transforma sua expressão de pavor em um largo sorriso, fazendo um ‘joia’ com a mão.

Fernando finalmente consegue respirar aliviado. De repente um peso mental saiu das costas dos dois e ambos começaram uma risada histérica para esbanjar todo o nervosismo e tensão que passaram nos últimos minutos. Um caldeirão de sentimentos girava dentro dos garotos: o medo de estarem sendo seguidos, o cansaço da correria, a tremedeira da adrenalina, o alívio por estarem com a caixa em mãos e o sentimento de histeria que os fazia rir e falar alto, mesmo dentro do carro.

— Alô! – disse Elvis atendendo o celular do amigo. Era Kyara pedindo por notícias – É que nos perdemos no caminho de ida. Não se preocupe, logo chegaremos ai com sua coroa.

— É uma tiara – disse Fernando, imitando o tom grosseiro da senhora da loja, sob as risadas do colega.

Mesmo com a caixa branca não estando tão branca assim, os dois estavam felizes por cumprir com a missão recebida.

— Agora vamos para uma farmácia tratar do chifre que você colocou em minha testa — terminou Fernando.