Notas iniciais
Depois do episódio onde Elvis e Nando tiveram que recuperar a tiara do casamento de Kyara, agora todos os preparativos estavam prontos e os convidados já se dirigiam para o local da cerimônia, inclusive os dois rapazes, que aceitaram levar os sobrinhos irritantes de Kyky no carro. Sempre de bom humor, claro.

Pessoas nervosas e ansiosas correndo para todo lado da casa, parentes da noiva terminando de se arrumar, mulheres se ajudando com os últimos retoques em maquiagem e vestido, crianças correndo pelos corredores... Elvis e Nando sentados no sofá da sala de pernas cruzadas e olhares tediosos. Às vezes uma olhadinha no relógio, no celular, até voltarem à mesma posição tediosa. Tédio esse que os fazia lembrar veemente do sufoco que passaram há algumas horas perseguindo a tiara da noiva como se suas vidas dependessem daquilo. Até que os comentários sobre o ocorrido diminuíram, o ar de impaciência os atingia. “Será que vai demorar muito ainda?” perguntava Elvis, repetidamente, sem esperar resposta do amigo.

Nando havia concordado em dar carona para os dois sobrinhos de Kyara para a fazenda, onde seria ministrado o casamento, já que todos os outros carros estariam lotados na ida. Ritinha e Israel eram irmãos. A garota, de seis anos, frágil e pequena, parecia uma princesa em miniatura, cheia de gestos e poses para chamar a atenção dos adultos. Israel era arteiro e hiperativo, seu passatempo favorito era fazer a irmã chorar. Os dois entrariam com a noiva na cerimônia, por isso estavam exageradamente arrumados.

Uma hora antes do sol se pôr, os garotos iniciaram a ida para a fazenda São Camilo. Fernando dirigia o carro impaciente enquanto tentava fazer os sobrinhos de Kyara pararem de pular e gritar dentro do jipe. Elvis colocava as coordenadas do destino no GPS para garantir que chegassem na hora certa.

— Por que não tira a capota, tio? – repetia o garotinho com seu cabelo penteado com mais gel que o necessário.

— Porque não. Sente-se aí e coloque o cinto – disse Fernando, impaciente, procurando o cinto de segurança do banco de trás, enquanto o congestionamento os prendia na avenida.

— Não quero cinto, tio. Queria abria a janela.

— A janela de trás não abre. E eu não sou seu tio.

— Mas tá calor, tio – reclamava o garoto.

— Tire a roupa.

— Mamãe disse pra não tirar a roupinha – retrucou a garotinha com uma voz mais fina que o normal – E nem sujar. E seu carro tá fedido!

— Meu carro não está fedido. Você que está fedida – disse Fernando, fazendo careta pra ela. Isso o fazia ser mais imaturo que a caçula.

— Tio, eu quero fazer xixi.

— Segura pra não sair.

— Mas eu to com vontade – insistiu o garoto.

— Segura mais forte!

— Mas o médico disse que não pode segurar o xixi – retrucou ele.

— Dá uns tapinhas no ‘piupiu’ que passa- concluiu Fernando.

— Como? Assim? – perguntou o menino, enquanto repetia as ordens do rapaz.

— Isso – comentava ele, enquanto dirigia, sem dar muita atenção ao garotinho – Faz carinho no piupiu que a vontade passa... Experiência própria — dizia ele, monotonamente, para que o garoto parasse de tagarelar.

— Tá — disse o garoto, sorridente.

— Daqui a pouco você nem vai lembrar que queria fazer xixi – motivava Fernando. Um silêncio prazeroso se instalou, Fernando ficara feliz em conseguir com que o garotinho ficasse quieto, e só o que se ouvia eram os outros carros recomeçando a andar; até que Ritinha gritou: — O piupiu do Israel tá pra fora!!!

Elvis se virou e Fernando tentou olhar pelo espelho, pois o carro já estava em movimento.

— FERNANDO! O moleque tá se masturbando!!! – exclamou Elvis, soltando seu cinto de segurança para tentar fechar o zíper da calça do garoto.

— O piupiu do Israel tá pra fora! O piupiu do Israel tá pra fora!

— Feche isso, moleque – repetia Elvis, lutando contra o garoto, que teimava em abaixar ainda mais a calça social, berrando enquanto tentava se desvencilhar do rapaz.

— Eu quero fazer xixiiiiiii!

— O piupiu do Israel tá pra fora! O piupiu do Israel tá pra fora!

Fernando não sabia se dirigia ou apoiava o amigo. A menina gritava cada vez mais alto apontando o dedo para o pênis do irmão. Todos gritavam e se remexiam ao mesmo tempo. “Levanta essa calça, sua peste”, “Quero fazer xixiii”, “O piupiu do Israel tá pra fora, o piupiu do Israel tá pra fora”. De repende, Fernando vê Elvis recuando o mais depressa possível, tentando se desviar da urina que o atingia como um jato de mangueira. O garotinho gritava de alegria, Elvis berrava de terror, Fernando de pavor e Ritinha chorando de nojo, chutando o irmão, fazendo-o espalhar urina pelo jipe como um giroscópio.

O trânsito parara no mesmo instante que Elvis abrira a porta do jipe e descera afobado na rua. Ele mal tinha notado que Fernando havia feito o mesmo, e os dois estavam debruçados no capô do carro, com repugno de si mesmos, mas Nando estava indignado, xingando o garoto e berrando por seu precioso jipe estar todo melado por dentro. Algumas buzinas soaram em seguida, quando o trânsito recomeçou a andar e eles foram obrigados a entrar. Fernando amarrou o moleque no sinto de segurança de trás, sob os berros de Ritinha. Estacionaram no primeiro posto de gasolina que apareceu para limparem o veículo.

— Seu desgraçado, filho de quenga, chupador de ferro... – dizia Fernando, enquanto passava um pano no estofado – Você é uma peste, seu merdinha duma figa, cheradô de calcinha...

— Eu não cheiro calcinha! – retrucava o garoto, chorando, do lado de fora do jipe.

— Cheira sim! Seu cabaço!

Elvis havia ido ao banheiro tentar se lavar. A garotinha estava sentada num banquinho próximo ao jipe, observando Fernando limpar a sujeira. Ela repetia em todo momento que queria ir ao banheiro se lavar, pois dizia que estava com mau cheiro. “Não tem nenhuma mulher aqui pra te levar ao banheiro feminino, fica quieta”, dizia o rapaz, pela quarta vez.

— Mas eu estou fedida. Eu quero, eu quero, eu quero...

— Qual seu nome mesmo? – perguntou Fernando, para tentar desviar a atenção da garotinha.

— Rita. E eu quero me lavar no banheiro feminino.

— Rita... Por isso que você IRRITA né!

— Eu não irrito, não – teimava ela.

— Irrita sim!

— Não irrito – choramingava ela.

— Irrita sim, irrita sim, irrita sim...

— Pare de discutir com ela, Nando, ela só tem cinco anos de idade – observou Elvis, chegando com outra flanela para ajudar na limpeza.

— Eu não tenho cinco anos. Eu tenho seis anos – corrigiu ela, mostrando seis dedinhos. Elvis estava com algumas partes de sua camisa social xadrez molhada. O rosto e os braços ainda molhados, na tentativa de se lavar.

Fernando ordenou ao menino que tirasse a caixa térmica do jipe para a limpeza. O menino obedeceu de cara feia, mas pegou a grande caixa com dificuldades e levou até o banco, onde sua irmã estava sentada, dizendo que queria ir ao banheiro feminino, novamente.

— Elvis, vou levar essa guria ao banheiro de deficientes. Não quero a florista do casamento cheirando a mijo – disse ele se retirando com a criança.

A entrada da noiva seria ao pôr do sol; àquela altura, quase todos já estavam na fazenda. Os preparativos todos prontos... A maioria dos padrinhos em posição... A organizadora de cerimônia correndo pra todo lado para garantir que os mínimos detalhes estivessem corretos. Enquanto isso, Elvis terminava de passar produtos de limpeza no chão do jipe. Ele suspirou aliviado que o posto vendia uma grande variedade disso, pois não tinha muito mais tempo para gastar.

Naquela hora, sem pensar ou refletir, sem nem mesmo perceber, Elvis ficou agradecido por estar ali. Nunca tinha viajado apenas com amigos antes; não da forma independente como estavam agora. E, mesmo que correra perigo hoje à tarde perseguindo um bandido, mesmo sendo expulso aos berros de um prédio por uma senhora de meia idade, e até mesmo por ter levado um banho de urina à pouco, ele estava satisfeito por estar ali limpando os tapetes de Thor, o jipe do amigo que conhecia a mais de ano, mas que só conhecera pessoalmente a dois dias, assim como Kyara, que fez tudo isso se tornar realidade no momento em que enviou convite de seu casamento para os dois amigos virtuais. Esta não é uma história que se repete muitas vezes em uma vida. Na verdade, acontece com poucas pessoas deste mundo, e ele estava feliz por fazer parte de tudo isso.

Alguns minutos se passaram, Fernando retornou com Ritinha, agora andando como uma princesa, sorridente por estar limpa novamente. Elvis desceu do jipe e enxugou uma gota de suor na testa. Os dois abriram o porta malas para verificar que não estava sujo da urina do menino, mas enquanto inspecionavam, Ritinha e Israel começaram a brigar por algo que os rapazes não sabiam o que era, e nem fizeram questão de olhar. Apenas quando fecharam a porta de trás, Fernando se dirigiu para a porta do motorista e Elvis para o lado oposto. Então Elvis chamou pelo amigo:

— Nando! Nando! Olha aquilo – disse ele, apontando para as crianças. Na mesma hora, o rapaz correu na direção das crianças, pois acabara de ver Israel entornando uma garrafa de vodka que estava na caixa térmica.

— SOLTA ISSO, MOLEQUE – repreendeu-o, se divertindo. Deu um tabefe na garrafa, fazendo-a rolar pelo chão e o garoto chorar – Tá maluco? Quer ferrar a gente? – dizia chacoalhando o menino pelos ombros. Fernando o olhava de perto para ver se ele estava bem. Seus olhos vermelhos não se firmavam em um ponto fixo, nem mesmo olhavam para a mesma direção.

— Por que o chão está se mexendo, tio? – resmungou Israel, mal conseguindo ficar em pé com a ajuda de Nando, que dava risada sem acreditar que o padrinho de aliança da Kyara acabara de ficar bêbado.

— Fodeu – sentenciou Elvis, com a mão na testa — Fo...deu.