João e Maria

22 Um berço ao lado da cama


A caminho de seu apartamento, Gael olhava a pequena sacola de plástico em suas mãos e sentia os batimentos de seu coração. Ele não podia acreditar que estava carregando a resposta a uma possibilidade de futuro com a morena. Quando Dandara jogou a notícia, ele não reagiu de imediato. Não entendeu o que estava sentindo e em busca de tempo para desvendar sua reação, pediu que Dandara o esperasse em casa enquanto ele faria uma visita rápida à farmácia. Ela já tivera algum tempo para aceitar a notícia mas para ele, a idéia ainda ecoava e reverberava como um raio em sua cabeça.

Seu primeiro pensamento havia sido de pânico, como se ele tivesse sido surpreendido por sirenes soando e luzes vermelhas piscando. Contudo, uma vez que o choque inicial passara e ele percebeu no comportamento de Dandara o quão assustada, e até envergonha, ela estava, outros impulsos tomaram conta. Eles não falaram muita coisa antes de Gael descer para comprar o exame, mas trocaram um abraço longo e apertado. Durante a caminhada à farmácia, algo aconteceu com o lutador.

Quanto mais tempo ele tinha para se ajustar à ideia, mais ele começava a aceitar como algo natural, até normal. Era natural que ele e Dandara tivessem um filho. A ideia de que algo tangível os manteria juntos ao longo do tempo trazia um sorriso ao rosto de Gael... Mas ao entrar em casa, ficou bem claro para ele que Dandara não estava ainda na mesma página.

Ela estava abaixada com um pano, como se tivesse limpado o sofá e sentado para descansar. A expressão dela era distante e triste, e ela parecia olhar através das almofadas ao invés de para elas. Seus ombros estavam tensos e seus cabelos estavam caídos na frente do rosto. Eles haviam tido um tempo para pensar e embora Gael tivesse abraçado a ideia, os pensamentos de Dandara pareciam ter levado-a a uma direção completamente diferente.

Finalmente ela olhou por cima do ombro, registrando a presença dele. Ela ofereceu um sorriso que não o convenceu, mas ele se aproximou mostrando a sacola em sua mão. Ela pausou por um momento e depois deu um passo a frente para pegar. Ele a observou enquanto ela tirava a embalagem da sacola e examinava a caixa. Suspirando, ela cobrou.

'Precisava ser o mais barato, amor?'

Irritado por ela ter percebido, ele perguntou 'E tem alguma diferença?'

'É só que... Demora mais. Com esse a gente tem que esperar dez minutos, com o outro tipo é na hora... Mas não importa, quer dizer, são só dez minutos...' ela suspirou novamente e ele se conteve para não começar uma briga. Se encaminhando até a bancada da cozinha, ela pegou um timer que ele sequer sabia que tinha e se dirigiu ao corredor.

'Você vai fazer o teste agora?' ele questionou e ela se virou com uma expressão confusa.

'Por que esperar?'

Ele não sabia responder. Parte dele queria que aquela sensação da possibilidade permanecesse por mais tempo. Eles se olharam por alguns segundos e ela entrou. Respirando fundo, ele seguiu.

'Há quanto tempo você sabe?' Embora tentasse, Gael não conseguia se conter.

'Há quanto tempo eu sei? Eu não sei de nada.'

'Tudo bem, Dandara, há quanto tempo você suspeita, melhor assim?' Ele se corrigiu e ela suspirou, novamente, entrando no quarto ao invés de no banheiro.

'Não faz muito tempo... Eu tava na casa da Delma mais cedo, falando da dra. Olga.' Os olhares deles se cruzaram 'E a verdade é que esse meu comportamento, esse ciúme... A Delma sugeriu a possibilidade de eu estar grávida e na hora eu nem me liguei... Grávida.' Ela repetiu como se só tivesse percebido a palavra naquela hora e instintivamente levou uma mão à barriga. Gael sorriu com a imagem. 'Minha menstruação está atrasada, é verdade, mas eu sequer considerei porque--'

'Atrasada? E porque você não disse nada?'

Ela deu de ombros. 'Nem pensei que fosse possível, a gente tem usado proteção--'

'Nem me fala,' ele adicionou 'eu tenho gasto uma fortuna em camisinhas!'

'Aparentemente não funciona quando você tá fazendo tantas vezes quanto a gente.' E adicionou, ao ver o sorriso se formando no rosto dele. 'Ainda fica com esse sorriso orgulhoso no rosto.' Ele riu e puxou-a pela cintura, mas Dandara não estava disposta a ceder tão fácil. 'Você quer economizar?' Ela adicionou 'Eu posso começar a te dizer não.'

'E todas as vezes que você começa?'

Ela ergueu a sobrancelha mostrando que não estava para brincadeiras. Ele se esforçou para ficar sério. Quanto mais crescia o desespero de Dandara, mais Gael era tomado por uma tranquilidade, quase como se ele estivesse tentando equilibra-la.

'Eu achava que você estava tomando pílula.'

'Não estava, mas eu vou começar. Eu prefiro evitar colocar hormônios no meu corpo se possível… Na verdade já tinha até marcado consulta, para pedir a receita, só que só tinha para daqui a duas semanas…' Ela encarou o exame de gravidez em suas mãos, pensativa. 'Acho que não faz sentido ficar atrasando isso...' se levantou e na porta, virou-se novamente para ele. 'Já volto.'

Sentado ao pé da cama, Gael olhou em volta em seu quarto, examinando cada espaço. Havia espaço suficiente para colocar um berço ao lado da cama? E quanto será que custaria para deixar a casa toda segura para crianças? Afinal, uma criança poderia se machucar a tomada exposta ao lado da porta ou com a quina da cama de madeira que estava aparente…

Dandara voltou para o quarto e Gael seguiu em seu modo superprotetor.

'Colocou o timer?' Ela olhou pra ele com as sobrancelhas erguidas e ele entendeu que era uma pergunta idiota. Passou um braço pelos ombros dela, e em voz baixa, perguntou, sincero.

'O que você acha que é?'

Ela levantou o rosto para vê-lo e se permitiu dar uma risada de leve.

'O que, Gael?'

'Só curioso pra saber o que você acha... Eu sempre sonhei ser pai de menino.' Ela forçou um sorriso, sem conseguir conter o nervosismo.

'Quer saber o que eu acho?' Ela parecia temer suas palavras e quando finalmente falou, foi em voz baixa, quase inaudível. 'Eu acho que vai ser negativo... Tem que ser.'

Surpreso, ele se afastou para olhá-la melhor. Em seus olhos ele não via a leveza da morena que conhecia, ela parecia amedrontada. Gael se esforçou para não soar rude, sem sucesso.

'Tem que ser? Por que tem que ser? Seria a pior coisa do mundo ter um filho comigo?'

'Não foi isso que eu quis dizer, Gael'

'Então o que você quis dizer? Porque pra mim tá bem claro que você não está nem um pouco contente com a possibilidade.'

'É claro que não!' Dandara finalmente deixou suas dúvidas escaparem, se levantando e andando de um lado para o outro enquanto argumentava. 'Começar tudo de novo agora? Teria hora melhor?' Ela soava irônica. 'O João acabou de repetir de ano, vai ter faculdade pra pagar, você já tem duas meninas, uma academia pra manter e eu estou cheia de dívidas com a reforma do apartamento.'

'Você pode vir morar aqui.' Ele interrompeu-a.

'A gente já sabe que isso não funciona.' Sem conseguir se contar, Gael também se levantou.

'O que você quer que eu diga?! Porque todas essas questões existem! Vai ser difícil manter essa família? Lógico que vai, é difícil! Mas pensar numa criança andando nessa casa, saber que ela veio de você...' a voz dele se tornou mais suave, quase sonhadora. Ele se aproximou de Dandara e ela sorriu para ele, em seus olhos um reflexo da professora de canto que ele conhecia.

'Eu não sei...' ela respondeu, ainda na defensiva. 'Começar tudo de novo agora? Eu e você estamos começando a fazer isso funcionar…' A voz da morena vacilou, lembrando de sua primeira gravidez. 'Eu achei que já tivesse passado por isso e... Começar tudo de novo?'

'É diferente, meu amor… Você não está sozinha agora.'

Ela fez que sim com a cabeça. Dandara queria se sentir acolhida mas ela estava entrando em pânico crescente 'Quando eu tive o João eu era jovem e eu não tinha escolha… Eu consegui fazer funcionar, mas eu abri mão de muita coisa… E quem disse que eu sou capaz de fazer de novo?’

'Dandara, pelo amor de Deus, você não tá nem fazendo sentido! Você é uma mulher incrível, uma mãe melhor ainda, qualquer criança teria sorte de ter você por perto! E eu estou aqui pra te ajudar e não vou a lugar nenhum.' Ele olhou para ela, sincero, 'Só não te peço em casamento agora, porque do jeito que você está, você provavelmente vai negar e eu ainda vou apanhar.' Ela empurrou o ombro dele e após alguns segundos sua expressão aliviou e suas mãos repousaram em seu colo. Ela olhou pra ele, tentando se livrar da insegurança.

'Se for positivo, o que a gente faz?'

'A gente comemora, claro! Morena, eu sou louco por você e agora que você me deu essa ideia não há nada que eu queira mais do que começar uma família com você.'

'Uma família, Gael? Ai meu Deus, eu... Você... Marido e mulher com o que? Quatro filhos? Dividindo apartamento?' Ela riu, seu tom natural de volta. 'Acho que seria um manicômio antes de ser uma casa normal!'

'Eu acho que o normal é superestimado.' Dandara se deitou na cama e Gael apoiou-se ao lado dela. 'Morena, eu não vou te perder de novo. Nem você e nem quem estiver vindo por aí. Eu te amo.'

Ela passou uma mão pelo rosto dele, sentindo-se segura em contato com aquele homem.

'Seria bom poder aproveitar tudo de novo, né? Empurrar no balanço, ajudar a colocar enfeites na árvore de natal...'

'Só não pode ser menina, porque uma pequena com os seus genes... Aí é que eu estou perdido!'

Mais tranquila, ela sorriu abraçando-o em um beijo quando soou o timer. Ela olhou para a porta, sem se mover, como se esperasse que o resultado fosse ser trazido magicamente até eles. Após alguns segundos ela se levantou.

'Quer que eu olhe?' Ele ofereceu, secretamente esperando que ela negasse.

'Tudo bem, eu vou,' ela sorriu de leve 'você não ia conseguir enxergar mesmo.'

Sem olhar para trás ela deixou o quarto. Ele esperou, sem se mover, ouvindo o barulho de sua própria respiração. Por que ela demorava tanto? Ele finalmente levantou, mas justamente quando ele estava saindo ouvia-a voltando do banheiro.

Ela parou na porta, segurando o teste. Seu rosto estava pálido. Ela respirou fundo antes de falar.

'Negativo.' E fechando os olhos, engolindo em seco adicionou. 'Acho que é bom, né? Não era a hora.'

Os músculos de Gael tensionaram e ele sentiu vontade de bater em alguma coisa. Virando-se de volta para o quarto, ele treinou alguns socos no travesseiro enquanto ela permaneceu no corredor, imóvel.

Ela olhou para o teste novamente, checando pela vigésima vez. Ainda era um sinal de menos e encarar o resultado não tornava-o mais fácil de ser compreendido. Ela tivera tanta certeza.... O teste havia sido só uma formalidade. Como ela poderia ter estado tão errada? Era como se o corpo dela a tivesse traído. Ela sentiu Gael passando por ela em direção à sala.

'Eu não consigo ficar aqui.' Sem conseguir responder, ela assentiu com a cabeça, dando permissão para ele sair. Ela sabia que ele iria para a academia e agradeceu, pois também precisava de um momento sozinha. Com calma ela voltou para dentro do banheiro e se recostou na porta, deixando suas pernas cederem. Por alguns instantes ela permaneceu parada, quase imóvel. Logo, sem emitir nenhum som, ela se pôs a chorar.