João e Maria

23 Mar de emoções


Notas iniciais
Meninas! Me atrasei pra postar esse capítulo, Dandael fava em luto e por um tempinho eu também fiquei... Mas já voltei com a corda toda e posso dizer que vem muita coisa por aí! Espero que gostem e continuem acompanho! Saber que vocês tão curtindo, ler os comentários de vocês é o que me dá mais vontade de continuar escrevendo! Obrigada e aproveitem! :))))

Já passava da meia noite e João se revirava no sofá, sempre atento à porta. Segurando o telefone sem fio na mão, ele tentou discar novamente o celular de Dandara ao ouvir a chave na porta.

'Caraca, dona Dandara! Tá que tá, hein? Essa hora em noite de aula?'

Dandara forçou um sorriso e seguiu em direção à suite.

'Podemos fazer isso amanhã? Preciso de um banho.'

'De um banho?' O menino se levantou e foi atrás dela. 'Não quero nem imaginar porque você precisa de um banho.'

'Nada disso que você tá pensando meu filho...' Ela se virou pra ele antes de fechar a porta do banheiro. 'Como você mesmo lembrou, já está tarde e tem aula amanhã. Vai você dormir, por favor?' E beijou a testa dele mas João não saiu do lugar. Ele reparou os olhos inchados de Dandara e bateu na porta, alarmado.

'Mãe! Manhê, o que aconteceu? Tá tudo bem?'

Se olhando no espelho, Dandara respondeu para o filho que estava sim, tudo bem, mas percebia em seu reflexo que estava mentindo. Ela entrou no chuveiro e ligou a água quente, deixando a água carregar seus sentimentos mas enquanto ensaboava seu corpo, não pode evitar parar alguns segundos em sua barriga.

Uma criança... Um filho seu com o lutador... Seus pensamentos foram interrompidos por mais gritos de João vindos do lado de fora. Ele insistiu, batendo na porta e chamando Gael de uma série de nomes, dizendo que iria se vingar. Dandara não sabia se chorava ou ria do comportamento do menino.

'O Gael não tem culpa, João, vai dormir...' Ele parou de responder e Dandara apoiou a cabeça no ladrilho gelado, tentando afastar seus pensamentos. Seus olhos ainda ardiam de tanto que ela havia chorado, mas por dentro ela se sentia mais leve. Vazia, pensou.

Saindo do banheiro, a morena se surpreendeu ao encontrar seu filho sentado ao lado da porta. Ela sorriu para ele, que se levantou do chão, estendendo um robe à mãe. A peça estava amassada, de tanto que o menino ficara embolando-a nos braços.

'Obrigada, filhote...' Ela voltou ao banheiro para se vestir e ele não desistiu de tentar descobrir o que aconteceu. 'Meu amor, quantas vezes eu preciso te dizer que não aconteceu nada?!'

João soltou um riso abafado.

'Nada, sei... Pra minha infelicidade você sempre volta desses encontros com o Gael cheia de risinhos, com as bochechas rosadas... Aí hoje chega sem nem me olhar direito? Ah... Eu não sou burro, eu sei que aconteceu alguma coisa.' Dandara saiu do banheiro e sentou-se ao lado do menino, apoiando a cabeça no ombro dele.

'Acredita em mim, filhote... É coisa minha... Coisa de mulher.'

'TPM? Você nunca foi dessas, dona Dandara.'

'Pois é, vai ver agora eu sou... Não tô envelhecendo amanhã? To chegando mais perto da menopausa.'

'Antes fosse isso! Mas não, você é gata e jovem. Eu sei bem disso...' Ele adicionou com um ar cansado. Dandara depositou um beijo no ombro do menino e deitou-se ao colo dele.

'Só fica perto de mim hoje, tá? Eu preciso do meu filhotinho do meu lado.'

João acariciava os cabelos da mãe e Dandara se esforçava para esquecer os acontecimentos daquela noite, mas o olhar de desapontamento de Gael não deixava seus pensamentos. Ela se arrependera de ter contado para ele suas desconfianças... Deveria ter guardado pra si, feito o exame e só falado alguma coisa quando tivesse certeza. Entretanto ela estava certa... A conversa com Gael era justamente para entender a reação dele... Ela se lembrou de vê-lo entrando em casa, suado da academia, a expressão derrotada em seu rosto.

Gael, por sua vez, pensava na visão de Dandara, o rosto inchado de tanto chorar, sentada na mesa de centro esperando-o chegar. Ele mal havia entrado em casa e ela já lhe pedira desculpas... Como se precisasse! O coração de Gael se apertou por ela achar que precisava fazê-lo... Se alguém tinha culpa ali era ele, que havia se empolgado e feito planos antes de ter certeza de alguma coisa.

'A culpa foi minha, meu amor, não devia ter te deixado assim...'

Ele se aproximara, justificando, enquanto ela levantou-se e se dirigiu de frente a ele.

'Você precisava lutar, né? É o seu jeito, eu entendo... Eu também precisava extravasar.'

'Cantando?' Ele tentou animá-la mas ela fez que não com a cabeça.

'Acho que amanhã... Hoje não estou conseguindo me expressar direito.'

Ela apreciara a tentativa dele de manter o clima de romance, mas aquela noite já estava arruinada. Gael segurou-a nos braços em um abraço e ela deixou algumas lágrimas rolarem. Preocupado, mas com os olhos também marejados, ele secou as lágrimas dela e se declarou, protetor.

'Eu te amo, Dandara.'

'Também te amo, Gael.'

Gael acompanhou-a até o táxi e após se despedirem se permitiu sentir novamente o mar de emoções que inundava seu peito. Ele tinha raiva. Não sabia exatamente de quem ou do que, mas queria gritar e acabou encontrando o motivo perfeito.

'Iou!' Gritou da esquina para Bianca que abria o portão do prédio. 'Isso são horas?' Bianca franziu a testa, surpresa com a reação do lutador.

'Boa noite, paizinho.' Ela replicou, sarcástica.

'Boa noite?! Boa noite... Você está ficando fora de controle, Bianca! Não faz nada da vida, fica namorando até altas horas acha que não precisa dar satisfação? Enquanto morar debaixo do meu teto não vai ter mais essa pouca vergonha de chegar a hora que quer!'

'Sem escândalo na praça!' Ela respondeu entre dentes, corando e olhando em volta para os transeuntes que encaravam os dois. Gael olhou em volta e assentiu para que ela entrasse. 'Paizinho...' Ela tentou continuar, mas ele logo cortou.

'Não adianta vir de paizinho comigo que hoje você vai me ouvir!'

'Você estava lutando?' A menina perguntou, reparando o suor do pai.

'Quem faz as perguntas aqui sou eu! Onde você estava?'

'No cinema com o Duca.' Ela respondia sem encará-lo. Bianca já estava acostumada com os estouros de Gael e ao contrário de Karina, sabia que a melhor opção não era enfrenta-lo.

'E com que autorização?'

'Pai, eu sou maior de idade, desde quando eu preciso te pedir autorização pra ir ao cinema?'

'Desde que eu decidi que é assim.'

'Ai, seu Gael, não dá pra conversar com você quando você tá desse jeito! O que aconteceu? Você e a Dandara terminaram?'

'O que?'

'Não era ela que você tava colocando no táxi?'

'Eu não te devo satisfação nenhuma!' Mas a bronca de Gael não durou muito. 'Era ela sim, e a gente não terminou.'

'Então o que aconteceu então pra você ficar desse jeito?'

'Quer converser, Bianca? Vai pro psicanalista!'

Ela revirou os olhos seguindo para o quarto resmungando pra si, mas logo voltou à sala.

'Você não ia dormir?'

'Eu vou dormir, só que meu quarto está vazio e eu queria saber cadê a minha irmã.'

Foi então que Gael lembrou.

'A Karina? Na casa do capiroto... Vai dormir lá hoje.'

Bianca abriu a boca para questionar, mas o que viu nos olhos de seu pai a fez desistir. Ele não estava com raiva, tendo seus surtos de brutalidade. Ele estava doído.

Ela se aproximou, segurando os ombros dele.

'Tem certeza que não quer me falar o que houve?'

'Coisa de adulto,' E adicionou adivinhando o que ela ia retrucar 'e pra mim você vai sempre ser uma criança.' Ela sorriu e deu um beijo na bochecha dele.

'Boa noite, seu Gael.'

'Boa noite, Bi. Dorme com Deus.'

No dia seguinte na academia, Gael ainda não havia largado a vontade de descontar nos outros o que estava doendo em si. Mil abdominais de aquecimento, e outros números absurdos foram despejados pelo professor durante as aulas. A turma não estranhou, pois já era de praxe que volta e meia Gael intensificasse os treinos, mas Duca reparou no comportamento do mestre e estava justamente comentando com Karina quando a voz de Gael ecoou.

'Kariná! Você e Duda, vamos parar desse papo de comadre aí! Quer fofocar? Vai pro cabeleireiro, vambora! Cê vai chegar atrasada na escola.'

'Eu combinei com o Pê de encontrar aqui quando ele chegar da aula, vou tomar banho no vestiário.'

'Negativo! Você mora a cinco minutos da academia, vai tomar banho em casa. Vamos que eu estou esperando...' Ele seguiu contando regressivamente enquanto Karina bufava, recolhendo suas luvas.

'Gael?' A voz da morena chamou sua atenção e ele se virou para ver Dandara. A simples imagem da professora de canto transformou a raiva em outro tipo de sentimento. Ele queria acolhe-la, cuida-la, protege-la. 'Já está liberado, podemos ir?'

'Só estou esperando a Karina...’ Ele gritou o nome da menina e voltou sua atenção para a morena. ‘Obrigada por aceitar almoçar comigo.'

Ela respondia que ele não precisava agradecer quando João e Pedro entraram da fábrica vindo da escola. João traçou uma reta em direção à mãe e Pedro seguiu para os fundos, atrás de Karina. Embora Dandara tivesse tentado impedir, Gael partiu atrás dos dois.

'Mãe...'

'Bom dia, meu amor.' Ela puxou o menino e deu um beijo na testa dele. 'Como foi a aula?'

'Ô, foi ótima! Mal posso esperar para voltar amanhã.'

'Bobo...' Ela bagunçou o cabelo dele, abraçando-o.

'E como você tá?'

'Melhorando... Obrigada por perguntar, filhote. Vou almoçar com o Gael agora e mais tarde volto pra dar aula. Você tem aula da Lu agora, né?'

'É...' Ele hesitou. 'Eu poderia dizer que sim, mas você tá frágil e eu não quero ficar mentindo.' Dandara riu e ele ficou satisfeito de ter arrancado um sorriso da mãe. 'Vou acompanhar o ensaio da banda do Pedro com o Nando,' e adicionou, manhoso, diante do olhar de reprovação de Dandara. 'Não to a fim de usar malha hoje, não...'

'Tá bom, meu amor, hoje eu vou te dar essa canja! Mas aproveita que não vai durar, tá?'

'Vem cá, hoje você vai almoçar com o lutador mas amanhã é comigo, hein? Não vai esquecer. Não quero saber de você trocar seu filho maravilhoso por--' mas o menino foi interrompido pela chegada de Gael que arrastava Pedro e Karina.

'O que tem amanhã?'

'Não sei o que é, mas to dentro.' Pedro se empolgou.

'É aniversário da minha mãe, intrometido.'

'Seu aniversário?' Gael se surpreendeu e a morena assentiu.

'Parabéns, Dandara!' Cumprimentou Karina, saindo para a porta.

'Os anos não fazem diferença, continua, ó, no capricho.' Adicionou Pedro, antes de disparar atrás da menina. João se virou olhando o amigo com nojo e Gael se aproximou da morena.

'Então amanhã é o seu aniversário...'

'Acho que já estabelecemos isso.' João voltou a atenção para os dois e Dandara pediu que os deixasse a sós. Eles seguiram até a casa de Gael com Karina, falando sobre amenidades, mas quando a menina entrou no banho, Gael tocou no assunto novamente.

'Você não ia dizer nada?'

'Eu não tô no clima de aniversário nem de... De comemorar nada.'

'Achei que você tinha curtido a noticia.' Dandara sentiu a farpa e olhou para baixo. 'Desculpa, eu não quis dizer isso.'

'Tudo bem... Eu falei isso, né? Eu estava nervosa-' Mas ele não deixou-a continuar.

'Eu sei, não precisa se justificar...' Olhando-a com interesse, ele adicionou em voz brincalhona. 'Mas nada impede que a gente continue tentando fazer outro... Quantas vezes for necessário.'

Ela não queria cortar o clima, mas ainda não estava se sentindo a vontade.

'Depois a gente pensa nisso, pode ser?'

'Pode ser. Mas o seu aniversário não pode passar em branco.'

'Por que não? É bom que você esquece.. Vocês não preferem as novinhas?'

'Eu prefiro você, Dandara, assim como você é... E nossa...' Ele desceu o olhar pelo corpo da morena, comendo-a com os olhos. 'Você é, hein? Você é muito gostosa, Dandara.' Adicionou ao pé do ouvido dela, fazendo seu corpo se arrepiar e ela buscou por um beijo.

'Bi…' Sorrateira, Karina entrou no quarto enxugando os cabelos, escondendo uma caixa na mão. 'Tá tudo bem? Cê não foi pra academia mais cedo...'

'Ai, Ka...' Bianca se espreguiçou, sentando-se na cama. 'Briguei com o papai ontem. Não tava a fim de aturar ele hoje, já sabia que esse mau humor ia durar!'

'É, ele tava mais exagerado que o normal hoje mesmo... Até o Duca reparou. Vocês brigaram por…' Ela hesitava, sem saber direito como falar e resolveu mostrar a caixa. 'Por causa disso?'

Bianca franziu a testa e foi até a irmã segurando o objeto para ver de perto.

'Ka, isso é um… Um exame de gravidez!'

'Ué, por que a surpresa, não é seu?'

Bianca fez que não com a cabeça

'Não! E se não é meu... E nem seu – não é seu, né?' Karina nega.

'Cê tá louca, Bianca? Quer dizer... Será que é do papai?'

'Por isso que o seu Gael tava tão fora do prumo ontem!' Bianca abriu um sorriso. 'Com certeza esse exame é da Dandara!'

Karina encarou Bianca enquanto vestia seu uniforme da escola.

'A gente vai ter um irmão?'

'Só tem um jeito de saber… Ô pai!' A menina saiu do quarto em direção a sala, Karina em seu encalço.

'Bi... Eu não sei se a gente devia--'

'O que?!' Gael gritou para o corridor de onde vinham as meninas, Bianca escondendo a caixa atrás do corpo. Ela cumprimentou Dandara, que abriu um sorriso com a empolgação da menina.

'Bom dia, minha linda.'

'Bom dia, Dandara, bom dia, paizinho... Vocês dois não tem, assim, nenhuma notícia pra dar pra gente não?’

'Notícia?' Eles se entreolharam.

'A Ka achou, quer dizer, a gente achou isso no lixo do banheiro.'

Bianca estendeu a caixa de papel e Gael sentiu seu corpo esquentar. Ameaçou se levantar da cadeira, mas sentiu a mão de Dandara, fria como gelo, segurar seu pulso. Virando-se para encarar a morena, viu que ela estava pálida e a fúria subiu no peito de Gael com destino certo.

Percebendo o constrangimento dos dois, Bianca engoliu em seco e esperou o grito que sabia que viria.