Jastera
2 O dia.
—Seus pirralhos insolentes!
A mão dele começou a vir em minha direção, até então eu estava paralisado de medo, mas aquele movimento do braço me reanimou e pude me mover.
O mais rápido que consegui, eu me afastei do Velho Mausa bem a tempo, a mão dele ainda encostou em mim mas ele não conseguiu me segurar.
Quando olhei para onde estavam meus amigos eles já começavam a correr, não perdi tempo e segui o exemplo deles. Felizmente para nós, o Velho Mausa já estava velho demais pra se lembrar de como correr sem sentir dor.
Corremos por pouco tempo, só o suficiente para ficarmos longe de nosso perseguidor, ele não conseguiria nos alcançar mesmo que quisesse.
—Caramba! Essa foi perto- falou Cerian- nunca vi o Velho Mausa com tanta raiva.
E era verdade, apesar do Velho estar sempre irritado, nunca tínhamos visto ele realmente com raiva.
O Velho Mausa era um senhor de idade, quando mais novo devia ter sido um homem grande, mas agora era um velho bastante encurvado. Usava uma bengala feita de madeira escura, tinha o rosto cruelmente enrugado pelo tempo, andava mal de uma perna e tinha alguns dedos faltando na mão esquerda. Seu cabelo era exageradamente mal cuidado, ele fedia absurdamente e somente suas roupas, sempre bem cuidadas, não o denunciavam como um mendigo.
—Será que conseguimos escapar?- Alguém perguntou.
—Acho que sim, nunca vi o velho correr e acho que ele não vai começar hoje. — Respondi.
—Acho melhor a gente correr mais, — Huirter disse- ouvi dizer que o Velho Mausa era um bruxo e que ainda sabe fazer poções usando crianças.
O Velho Mausa, como todo bom velho rabugento, era protagonista dos mais diversos contos do folclore local...
—Eu ouvi falar que ele era um soldado muito violento quando era mais novo –falou outro garoto- e que foi expulso da guarda porque destruiu um bar com as próprias mãos durante uma briga.
—Eu ouvi que ele era um rebelde que queria derrubar o rei – mais outro falou – e que sequestrava crianças para lutarem contra o rei também. Dizem que ele convencia as crianças arrancando os dedos delas toda vez que desobedeciam ou choravam, começando pelos pés. E ainda dizem que o pai dele fez isso com ele e por isso que ele não tem os dedos da mão.
...mas todas elas tinham um ponto em comum: todas concordavam que ele era impossivelmente velho.
— Eu ouvi que foi ele quem criou os lipsum. – O primeiro garoto falou novamente.
Sendo justo, essa história foi nova até pra mim.
— Todo mundo sabe essas histórias, – Falei- mas acho que é melhor a gente sair daqui logo.
— O Aron tem razão pessoal, — Cerian falou- é melhor irmos andando, pode ser que o velho ainda saiba fazer a gente sofrer mesmo sem nos mandar lutar contra o rei.
Então fomos andando, mas dessa vez bem mais relaxados. Andávamos como todo grupo grande de garotos anda: fazendo muito barulho, como ainda era cedo e não havia escurecido; as pessoas nos ignoravam e até achavam graça, então continuamos nossa rotina de brincadeiras.
Enquanto brincávamos, passamos por boa parte do subúrbio da cidade, da parte sul onde ficam os mercadores e a feira, seguindo pelo porto na parte leste até chegarmos à parte norte, onde boa parte de nossos números morava. Pelo caminho foram ficando outros garotos até sobrarem somente eu, Cerian e Huirter. Nós três mais Griar éramos inseparáveis, vivíamos nos metendo em encrenca pela cidade. Naquele dia, Griar não pode juntar-se a nós porque estava doente. Nossa amizade era mais por posição geográfica de nossas casas do que mero acaso: éramos todos vizinhos.
— Até mais, Aron, — Cerian falou- vê se não vai bater em mais ninguém até chegar em casa. Vamos, Huirter mamãe está nos esperando.
Cerian e Huirter eram irmãos, mas quem falava pelos dois era Cerian, principalmente por ser o mais velho.
Fui logo pra casa, mamãe costumava ficar muito preocupada comigo depois que escurecia.
Entrei em casa pela porta lateral, não queria ser pego de surpresa por papai ou mamãe. Minha ideia se mostrou ineficaz: ela já estava me esperando ao lado da porta.
—ONDE VOCÊ ESTEVE?- ela ficava sim preocupada, infelizmente a forma como ela demonstrava alívio não era nada carinhosa.
—Desculpa mãe, eu me atrasei um pouco...
—Se atrasou? SE ATRASOU? Você sabe o quanto eu fiquei preocupada? Ouvi as vizinhas falando que hoje apareceu um lipsum bem perto da cidade; perto de onde você disse que ia brincar. EU FIQUEI COM O CORAÇÃO NA MÃO E VOCÊ DIZ QUE SÓ SE ATRASOU?
Minha mãe era facilmente emotiva e mesmo nesse caso que me atrasei somente alguns minutos ela já ficou nesse estado.
—Calma querida, ele está bem, não está vendo?-esse era meu pai, geralmente mais calmo que a minha mãe- Ele só teve um dia normal de brincadeiras, aposto que nem sabia desse lipsum que apareceu.
Decidi deixar os dois sem saber o episódio do lipsum, caso contrário ela poderia passar mal.
—Como você pode, Dason? Como você pode falar assim? Nosso filho estava lá fora e tinha um lipsum, como você pode não ficar preocupado?
—Calma querida, eu não disse que não fiquei preocupado, é só que agora já está tudo bem, não tem mais motivo pra se preocupar. Nosso garoto voltou e está tudo bem com ele.
Essas palavras deixaram minha mãe mais calma. Ela soltou um suspiro e veio em minha direção.
—Aron, meu filho, nunca mais faça isso, está me entendendo? Nunca mais se atrase, eu nunca sei o que pode lhe acontecer; se algum dia você se machucar ou até mesmo não voltar pra casa eu não vou ficar só triste, eu vou perder uma das minhas razões de viver, está me entendendo?
—Sim, mamãe, desculpa. Prometo nunca mais me atrasar e sempre tentar chegar na hora.
—Tentar não, você VAI chegar na hora. Agora vá logo para o banheiro; vá lavar as mãos, você não vai jantar enquanto estiver sujo.
Como estava cheio de fome, fui correndo me preparar pra jantar sem nem reclamar e só pelo cheiro que eu estava sentindo, mamãe se esforçou na comida naquele dia.
Jantamos, falamos pouco, papai falou do trabalho nos campos, mamãe reclamou dos serviços de casa e eu falei que brinquei muito naquele dia.
Mais tarde, sozinho com meu pai; comecei a conversar com ele.
—Pai...
—Sim, filho, o que é?
—Hoje aconteceu uma coisa...
—O que?
—Enquanto eu tava brincando com os meninos, sem querer eu tropecei e caí no Velho Mausa... Ele ficou muito irritado... Nós corremos dele, mas eu não acho que ele vai esquecer o que aconteceu.
—Hmm...-Enquanto pensava ele começou a acender seu cachimbo- Não sei o que dizer,filho, o Senhor Mausa não é alguém que goste de brincadeiras. Ele já era rabugento quando eu era criança.
—O Velho Mausa já era velho quando o senhor era criança?!
—Era sim. Não tanto quanto é hoje, é claro, mas ele já tinha seus cabelos brancos. O que você deve fazer meu filho é pedir desculpas a ele.
—Mas pai, ele vai querer me dar uma bronca ou pior!
—Talvez, mas não acho que ele vá fazer isso. De todo modo você tem que pedir desculpas.
—Mas eu tenho medo... O senhor não pode ir comigo?
—Poder eu posso, mas você tem que ir sozinho.
—Tá bom...
Meu pai então bagunçou um pouco o meu cabelo e foi à cozinha conversar com mamãe. Fiquei sozinho então decidi ir pros fundos da casa. Como estava entediado decidi subir a árvore do quintal. Então ouvi uma voz.
—Ei, Aron o que você tá fazendo aí em cima?
Olhei pra baixo e vi que era Kinane. Meu dia melhorou consideravelmente.
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