Jastera
3 Sob as estrelas.
Kinane era a única garota que eu chamava de amiga naqueles dias. Por morar na casa que ficava atrás da minha, nos encontrávamos bastante.
—O que você está fazendo aí em cima? – Perguntou novamente.
—Só tô sentado.
—Posso subir também?
—Pode.
De alguma forma ela conseguiu subir, atrapalhadamente e quase caindo algumas vezes. Por fim ela desistiu de chegar ao mesmo galho que eu e ficou em um abaixo.
—O que você tá fazendo aqui?- Ela me perguntou.
—Nada. Só tava chato em casa.
—Uhum... Ei você ouviu? Parece que um Lipsum apareceu hoje bem perto da cidade!
—Ouvi, e eu tava lá, eu vi o Lipsum! –Falei de nariz empinado.
—Mentiroso! Se você tivesse lá mesmo teria morrido!- Ela respondeu.
—É verdade! Eu estava andando pela floresta e vi o brilho. Eu tava olhando o Lipsum e de repente chegaram os caçadores e acabaram com ele!- Enquanto falava eu imitava perfeitamente os movimentos que vira mais cedo. Às vezes eu atacava até melhor que os próprios caçadores. Tudo na minha cabeça, claro.
Enquanto eu realizava minha interpretação com uma espada imaginária feita de um galho da árvore, Kinane observava tudo atentamente com um sorriso de incredulidade misturado com um pouco de deboche altamente visível na face.
—Tá bom, eu acredito em você- Ela disse.
Estava com um sorriso no rosto que ia de orelha a orelha, me sentia muito animado naquela noite, em parte por causa do que tinha acontecido mais cedo, mas eu adorava ter uma plateia pra me apresentar, mesmo que por enquanto fosse só Kinane.
—Como ele era? O Lipsum?- Ela perguntou
—Ele parecia com um coelho, só que era branco e brilhava! Era grande também, quase da altura do meu joelho!
—Nossa!- Ela disse.
—É; eles atacaram o bicho o tempo todo, atacando e atacando. Quase que eu não conseguia ver direito, eles eram muito rápidos.
Kinane ficou um bom tempo só me ouvindo falar e prestando atenção. Eu estava me empolgando cada vez mais com a plateia de uma pessoa só, tanto que dei voz a um pensamento que até então permanecera somente na minha cabeça.
—Eu vou me tornar um caçador!- Falei um tanto alto, cheio de confiança.
Kinane tomou um susto.
—Você tá louco, Aron!? Ser um caçador é muito perigoso!- Ela respondeu. Realmente ela tinha razão, era algo extremamente perigoso ser um Caçador.
Claro que eu já havia pensado nos perigos, da mesma forma que eu pensaria na balança comercial do reino: com preocupação nenhuma. Tudo que me vinha à mente quando pensava em ser caçador era o quão legal seria enfrentar os Lipsi. O que sempre me impedia de pensar muito sobre esse assunto era lembrar que minha mãe jamais deixaria que eu fosse um caçador.
—Por que você quer ser um caçador?- ela perguntou.
—Por quê? Ora, porque é legal!- respondi.
Kinane não tentou nem entender, apenas ficou calada por um tempo enquanto eu imaginava como seria uma vida de aventuras. Tantas aventuras que eu mal conseguia me conter.
—Me promete uma coisa?- perguntou.
—O quê?
—Quando você virar um caçador, eu vou junto.
—POR QUÊ?- Aquilo me surpreendeu.
—Porque você é meu único amigo, eu não quero ficar sozinha aqui.
Realmente era verdade. Claro que ela tinha amigas, conhecidas e coisas do gênero, mas eu era o único garoto que era amigo dela. Pelas nossas conversas eu percebi que ela também não gostava muito de brincar com as garotas.
—Tá bom, você pode ir, mas não seja chata e estrague tudo.
—Certo!- Ela tinha os olhos brilhando de tão animada que estava, acho que ela queria ser uma caçadora mais do que eu.
Não era comum existirem caçadoras, mas não era algo inédito. As mulheres caçadoras não ficavam em nada atrás dos homens, algumas até eram mais respeitadas que muitos homens. Entretanto, não era um estilo de vida que atraísse muitas mulheres. Lembrando agora, a vida de caçadora caía como uma luva para Kinane. A ideia dela se tornar uma dona de casa era quase hilária.
Conversamos pouco depois disso, meu pai me chamou.Esse foi o fim daquele dia tão movimentado, na hora eu não fazia ideia do queaquela promessa significava; mais tarde eu entenderia.
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