Jar of secrets
2 Quem é esse Yoongi?
Eu olhava fixamente para a parede branca e sem vida do meu quarto, aliás o cômodo inteiro era branco e sem vida o que me dava a sensação de abandono e de vazio. A sensação, de que faltava algo e que sem esse algo eu nunca estaria completa, consumia-me por dentro.
Eu deveria estar acostumada a sentir-me sozinha!
Por ter passado sete anos sem alguém em quem eu pudesse confiar ao meu lado, eu acostumei-me a ter que lidar sozinha com as minhas crises de adolescência e os meus problemas psicológicos que foram crescendo ao longo dos anos e intensificando-se pelo ambiente no qual eu crescia.
Por isso essa solidão não deveria afetar-me, mas como fingir que eu não penso neles?
Eu tornei-me dependente deles, especialmente dele que fez algo diferente e indescritível crescer dentro de mim a partir do momento em que os nossos olhares se cruzaram pela primeira vez. É como se depois de o ter conhecido, a minha vida tivesse ganhado um novo sentido! Como se com ele algo que tinha desaparecido à muito tempo, tivesse voltado!
—Vejo que já estás mais calma!- Uma voz grave interrompeu os meus pensamentos e eu desviei o meu olhar da parede.
Um enfermeiro entrou no meu quarto e de imediato eu senti um sentimento de ódio crescer dentro de mim só por saber que ele trabalha nesta prisão. Eu comecei a analisar o homem magro de estrutura média com um tom de pele levemente bronzeado à minha frente que tinha os seus fios de cabelo negros presos num rabo de cavalo e que quando soltos, devem ultrapassar o nível dos seus ombros largos. Eu parei de analisá-lo quando os nossos olhares se chocaram e lá os meus olhos ficaram. Os olhos igualmente negros me observavam com atenção e com muita curiosidade. Ele com certeza estava a analisar-me à procura de algum sinal que indicasse que eu iria me descontrolar outra vez e ferir mais alguém. O motivo pelo qual eu estou amarrada e sedada é por eu ter agredido uma enfermeira, mas eu não tenho a culpa por ter-me descontrolado ao notar que já não estava no meu quarto em Seul.
—Onde estou?- essa foi a primeiro perguntei que me fiz ao notar as paredes do meu quarto que não era o meu porque eu mesma pintei as paredes do meu quarto de azul marinho. Apesar deste não ser o meu quarto, ele era-me extremamente familiar, mas me deixava angustiada.
—Suga!- eu tentei chama-lo, mas o meu chamado saiu num sussurro quase inaudível por causa da fraqueza desconhecida para mim.
—Yoongi!- eu o chamei desta vez com mais firmeza, mas ele não vinha.
Eu sei que ele está chateado comigo, mas este não é o momento para me ignorar!
—Suga!- eu disse esperançosa ao ver a porta abrir-se, mas fiquei surpresa ao ver a pessoa que entrou. -Carrie!?-
—Vejo que já acordaste. Deves estar muito cansada afinal vocês chegaram muito tarde ontem do teatro.- a Carrie começou a falar pelos cotovelos o que era algo típico dela e abriu as longas cortinas brancas deixando os raios de sol, que conseguiam atravessar a densa camada de nuvens, entrar no quarto.
—Teatro? Que teatro? O que estás a fazer aqui, Carrie? Onde estou?- Pouco à pouco o medo e o pânico começaram a crescer dentro de mim.
—Do que estás a falar? Tu estás no teu quarto.- ela respondeu e sentou-se no canto da cama.
—Meu quarto?-
Não! Não! Eu não posso estar na clínica!
—Não, Carrie! Como eu vim parar aqui? Eu estava em Seul ontem!- eu esforcei-me para superar a fraqueza e sentei-me.
—Seul? Deves ter sonhado afinal para ti Seul sempre foi melhor do que Incheon.- ela comentou segurando na minha mão.
—O que fizeste aos outros? Suga! YOONGI!- eu gritei o seu nome, mas eu não obtive uma resposta.
—Acalma-te Mina. Quem é esse Yoongi?-
—NÃO! SUGA, ONDE ESTÁS? SUGA!- o pânico dominava completamente o meu ser por saber onde estou e não saber como eu vim parar aqui.
—Mina! Para de gritar. Aqui não tem nenhum Suga.- a Carrie segurou-me pelos ombros para tentar acalmar-me, mas a sua calma punha mais nervosa e o medo tomava cada vez mais conta de mim.
—LARGA-ME! EU NÃO DEVERIA ESTAR AQUI! YOONGI! YOONGI! O QUE VOCÊS FIZERAM COMIGO, CARRIE? COMO CONSEGUIRAM PASSAR POR ELES?- À essa altura, eu já estava andando pelo quarto inteiro desesperada e descontrolada enquanto a Carrie tentava acalmar-me dizendo que eu nunca saí daqui.
—ISSO É MENTIRA!- eu atirei um vaso de flores que tinha mesa contra ela. O vaso calhou na sua cabeça tanto que ela caiu inconsciente no chão com um corte na testa.
—SUGA! TIRA-ME DAQUI.- as lágrimas caiam descontroladamente tanto que a minha vista estava desfocada. De tanto gritar, eu perdi as forças nas pernas e eu desabei nos chão. Eu ouvi o estrondo da porta chocando com a parede e algumas vozes, mas eu não me importava.
—Não! Não! Não! Suga, onde estás?- eu sussurrava o seu nome e tapava os meus ouvidos com as mãos porque não queria ouvir mais nada. Eu senti mãos a segurar-me e pelo toque ser desconhecido, eu comecei a debater-me para que me largassem, mas como resposta eu só senti uma leve picada no braço esquerda. Lentamente as forças, que eu tinha, foram abandonando o meu corpo até que não restasse nem forças para que eu pudesse manter os meus olhos abertos e no fim eu acabei por perder os sentidos.
Nós nos olhávamos diretamente nos olhos ambos à procura de algo que desconhecemos, mas nenhum som era emitido das nossas bocas. Eu conhecia aquele olhar de superioridade que a metade das pessoas que trabalham aqui possuíam, mas eu não ia deixar que ele visse algum tipo de medo ou de inseguridade no meu olhar tanto que o olhei tão friamente que se fosse possível ele congelaria. Vendo que eu não iria responder, ele veio na minha direção enquanto eu o continuava a observar.
—Eu vou soltar-te e tu vais vir comigo para o refeitório para que possas te alimentar. Faz dois dias que tu estás sob o efeito do tranquilizante que o médico te deu. Ele até achou estranho o fato de teres demorado mais do tempo do que o previsto a acordar.- eu arregalei os meus olhos totalmente surpresa pela revelação e ele sorriu ao ver que finalmente conseguiu causar algo em mim.
A dois dias que eu estou a dormir!
Será que eles já deram pela minha falta? Será que eles já estão procurando por mim pelas ruas ou eles nem sequer estão procurando?
Com esse pensamento, um nó formou-se na minha garganta e os meus olhos começaram a encher-se de lágrimas que fiz questão de reprimir e afastei imediatamente esse pensamento da cabeça.
É claro que eles estão procurando por mim!
Basta esperar que eles apareçam e me tirem daqui. Quando eu voltei à realidade, eu percebi que os meus pulsos já estavam livres daquelas algemas e o enfermeiro, cujo o nome era-me desconhecido e também não me interessava, esperava que eu me levantasse. Antes de levantar-me, eu esfreguei os meus pulsos que tinham a marca das algemas e assim que eu pus-me de pé, eu senti as minhas pernas falharem e quase cai, mas o tal enfermeiro segurou-me para que não caísse.
—Não me toca!- eu rosnei ferozmente e furiosa por ele ter-me tocado. Eu o empurrei bruscamente para que ele se afastasse de mim e apoiei-me na parede fria.
—Eu só queria ajudar!- ele explicou e eu mandei um olhar gélido e cheio de raiva na sua direção. Tudo o que está relacionado à este inferno, é digno do meu ódio e nojo. Por causa de sua linguagem corporal eu pude perceber que ele ficou com um pouco de medo de mim e eu reprimi um pequeno sorriso. Eu não gosto e não quero que ninguém me toque sem ser ele. Só ele tem o direito de me tocar e mais ninguém. Eu não suporto que me toquem sem a minha permissão. Quando fazem isso, eu sinto como se estivessem invadindo o meu espaço pessoal que eu considero precioso. Depois do meu aviso, ele não voltou a tocar-me ou aproximar-se mais de mim então nós fomos andando pelos longos corredores e eu andava apoiada na parede para não perder o equilíbrio outra vez e cair. Eu prefiro cair de cara no chão do que ter esse infeliz a ajudar-me.
Alguns dos enfermeiros olhavam-me como se fossem superiores, outros olhavam-me com o olhar cheio de pena ou como se eu fosse um monstro e poucos olhavam-me com simpatia e sorriam para mim. Quando chegamos no refeitório, ele estava cheio de médicos o que achei estranho e constrangedor porque normalmente os médicos tem um sala só para eles. Quando perceberam a minha presença, eles se calaram e começaram a olhar para mim. Pelos vistos todos já ficaram a saber do acidente relacionado comigo e eu sei que eu vou sofrer as consequências. Ele pegou um prato de comida para mim e guiou-me até uma mesa perto dos médicos. Eu sentei-me e comecei a comer sabendo que estava à ser observada. Eu era analisada por um monte de olhos curiosos e atentos para que a qualquer erro meu eles pudessem fazer um batalhão de exames, mas eu não daria esse gosto a eles. Depois de alguns minutos, o enfermeiro que eu mais considerava como um intruso foi-se embora deixando-me sozinha e eu fiquei jogando um monte de pragas mentalmente nele. Quando eu acabei, eu esperei as minhas forças se restaurarem antes de levantar-me e voltar para o meu quarto.
Eu sentei-me no parapeito da janela que era largo o suficiente por que eu pudesse me sentar e comecei a assistir ao belo pôr do sol que podia ser visto do meu quarto que era no último andar. Apesar de eu odiar esta cidade com todas as minhas forças, eu adorava ver o pôr do sol que era um mistura de cinzento que pertencia às nuvens, do azul do céu e laranja que pertencia ao sol que à esta altura só era visto pela metade e os pores de sol fazem-me pensar em tudo que abala a minha estrutura emocional. O meu pai deve ter exigido que eu tivesse o melhor quarto do hospital e que não me faltasse nada para que eu pensasse que ele se preocupava comigo, mas eu era esperta o bastante para saber o que se passava à minha volta.
Eu realmente amava o meu pai quando eu era uma criança e nós só éramos à três. Ele, a Annick e eu. Nós eramos feliz naquela época, mas como sempre tem que ter alguma coisa para atrapalhar e a bruxa, que estragou a minha vida, tem nome e sobrenome.
Gisele Reene!
Uma mulher de uma beleza que eu achava inacreditável com os seus belos cabelos castanhos como madeira e os olhos verdes como jade, mas que escondia uma mulher sem coração que usou a sua beleza para seduzir o meu pai e o enganar. É por causa dela que eu estou aqui, ela conseguiu enfiar na cabeça do meu pai que eu precisava de ajuda médica e ele, cego de amor ou por burrice o que eu acho mais plausível, concordou com ela em me aprisionar aqui quando eu completei nove anos. Quando eles me internaram aqui, a Annick estava numa viagem escolar então ela não pode ajudar-me a convencer o nosso pai que não era necessário isso tudo. Naquela altura, a Annick tinha quinze anos e nós as duas éramos inseparáveis. Nos primeiros três anos ela sempre me visitava nos fins de semanas, mas depois ela viajou para Seul para cursar medicina e eu fiquei sozinha. Apesar de eu ter ficado sozinha e sido abandonada, eu alegrei-me ao saber que pelo menos uma de nós iria realizar o seu sonho de estudar em Seul. Quando ele soube que eu adorava Seul, ele fez questão que nos mudássemos no dia seguinte e eu acabei por descobrir que ele vinha de uma cidade que agora se chama Daegu.
Onde estás Suga? Por que ainda não vieste buscar-me?
Fale com o autor